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O Mulato
Alusio Azevedo
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O Mulato
Aluzio Azevedo
CAPTULO 1
Era um dia abafadio e aborrecido. A pobre cidade de So Lus do
Maranho parecia entorpecida pelo calor. Quase que se no podia sair 
rua: as pedras escaldavam; as vidraas e os lampies faiscavam ao sol
como enormes diamantes, as paredes tinham reverberaes de prata polida
as folhas das rvores nem se mexiam as carroas de gua passavam
ruidosamente a todo o instante, abalando os prdios; e os aguadeiros, em
mangas de camisa e pernas arregaadas, invadiam sem cerimnia as casas
para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos no se encontrava
viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; s os pretos
faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho.
A Praa da Alegria apresentava um ar fnebre. De um casebre miservel,
de porta e janela, ouviam-se gemer os armadores enferrujados de uma rede
e uma voz tsica e aflautada de mulher, cantar em falsete a gentil
Carolina era bela, doutro lado da praa, uma preta velha, vergada por
imenso tabuleiro de madeira, sujo, seboso, cheio de sangue e coberto por
uma nuvem de moscas, apregoava em tom muito arrastado e melanclico:
Fgado, rins e corao! Era uma vendedeira de fatos de boi. As
crianas nuas, com as perninhas tortas pelo costume de cavalgar as
ilhargas maternas, as cabeas avermelhadas pelo sol, a pele crestada os
ventrezinhos amarelentos e crescidos, corriam e guinchavam, empinando
papagaios de papel. Um ou outro branco, levado pela necessidade de sair,
atravessava a rua, suado vermelho afogueado,  sombra de um enorme
chapu-de-sol. Os ces, estendidos pelas calcadas, tinham uivos que
pareciam gemidos humanos, movimentos irascveis, mordiam o ar querendo
morder os mosquitos. Ao longe, para as bandas de So Pantaleo, ouvia-se
apregoar: Arroz de Veneza! Mangas! Macajubas! s esquinas, nas
quitandas vazias, fermentava um cheiro acre de sabo da terra e
aguardente. O quitandeiro, assentado sobre o balco, cochilava a sua
preguia morrinhenta, acariciando o seu imenso e espalmado p descalo.
Da, Praia de Santo Antnio enchiam toda a cidade os sons invariveis e
montonos de uma buzina, anunciando que os pescadores chegavam do mar;
para l convergiam, apressadas e cheias de interesse, as peixeiras,
quase todas negras, muito gordas, o tabuleiro na cabea, rebolando os
grossos quadris trmulos e as tetas opulentas.
A Praia Grande e a Rua da Estrela contrastavam todavia com o resto da
cidade, porque era aquela hora justamente a de maior movimento
comercial. Em todas as direes cruzavam-se homens esbofados e rubros
cruzavam-se os negros no carreto e os caixeiros que estavam em servio
na rua; avultavam os palets-sacos, de brim pardo, mosqueados nas
espduas e nos sovacos por grandes manchas de suor. Os corretores de
escravos examinavam  plena luz do sol, os negros e moleques que ali
estavam para ser vendidos; revistavam-lhes os dentes, os ps e as
virilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas; batiam-lhes com a
biqueira do chapu nos ombros e nas coxas, experimentando-lhes o vigor
da musculatura como se estivessem a comprar cavalos. Na Casa da Praa,
debaixo das amendoeiras, nas portadas dos armazns, entre pilhas de
caixes de cebolas e batatas portuguesas discutiam-se o cmbio, o prego
do algodo, a taxa do acar, a tarifa dos gneros nacionais; volumosos
comendadores resolviam negcios, faziam transaes perdiam, ganhavam
tratavam de embarrilar uns aos outros, com muita manha de gente de
negcios falando numa gria s deles trocando chalaas pesadas, mas em
plena confiana de amizade Os leiloeiros cantavam em voz alta o preo
das mercadorias, com um abrimento afetado de vogais; diziam: Mal-rais 
em vez de mil-ris.  porta dos leiles aglomeravam-se os que queriam
comprar e os simples curiosos. Corria um quente e grosseiro zunzum de feira.
O leiloeiro tinha piscos de olhos significativos; de martelo em punho,
entusiasmado, o ar trgico, mostrava com o brao erguido um clice de
cachaa, ou, comicamente acocorado esbrocava com o furador os paneiros
de farinha e de milho. E, quando chegava a ocasio de ceder a fazenda,
repetia o preo muitas vezes, gritando, e afinal batia o martelo com
grande barulho, arrastando a voz em um tom cantado e estridente.
Viam-se deslizar pela praa os imponentes e monstruosos abdomens dos
capitalistas; viam-se cabeas escarlates e descabeladas, gotejando suor
por debaixo do chapu de pelo; risinhos de proteo, bocas sem bigode
dilatadas pelo calor, perninhas espertas e suadas na cala de brim de
Hamburgo. E toda esta atividade, posto que um tanto fingida, era geral e
comunicativa; at os ricos ociosos, que iam para ali encher o dia, e os
caixeiros, que faziam cera at os prprios vadios desempregados,
aparentavam diligncia e prontido.
A varanda do sobrado de Manuel Pescada, uma varanda larga e sem forro no
teto, deixando ver as ripas e os caibros que sustentavam as telhas.
tinha um aspecto mais ou menos pitoresco com a sua bela vista sobre o
rio Bacanga e as suas rtulas pintadas de verde-paris. Toda ela abria
para o quintal, estreito e longo, onde,  mingua de sol, se minavam duas
tristes pitangueiras e passeava solenemente um pavo da terra.
As paredes, barradas de azulejos portugueses e, para o alto, cobertas de
papel pintado, mostravam, nos seus desenhos repetidos de assuntos de
caa, alguns lugares sem tinta, cujas manchas brancacentas traziam 
idia joelheiras de calas surradas. Ao lado, dominando a mesa de
jantar, aprumava-se um velho armrio de jacarand polido, muito bem
tratado, com as vidraas bem limpas, expondo as pratas e as porcelanas
de gosto moderno; a um canto dormia, esquecida na sua caixa de pinho
envernizado, uma mquina de costura de Wilson, das primeiras que
chegaram ao Maranho; nos intervalos das portas simetrizavam-se quatro
estudos de Julien, representando em litografia as estaes do ano;
defronte do guarda-loua um relgio de corrente embalava
melancolicamente a sua pndula do tamanho de um prato e apontava para as
duas horas. Duas horas da tarde.
No obstante, ainda permanecia sobre a mesa a loua que servira ao
almoo. Uma garrafa branca, com uns restos de vinho de Lisboa cintilava
 claridade reverberante que vinha do quintal. De uma gaiola,
dependurada entre as janelas desse lado, chilreava um sabi.
Fazia preguia estar ali. A virao do Bacanga refrescava o ar da
varanda e dava ao ambiente um tom momo e aprazvel. Havia a quietao
dos dias inteis, uma vontade lassa de fechar os olhos e esticar as
pernas. L defronte, nas margens apostas do, a silenciosa vegetao do
Anjo da Guarda estava a provocar boas sestas sobre o capim, debaixo das
mangueiras; as rvores pareciam abrir de longe os braos, chamando a
gente para a calma tepidez das suas sombras.
- Ento, Ana Rosa, que me respondes?... disse Manuel esticando se mais
na cadeira em que se achava assentado,  cabeceira da mesa, em frente da
filha Bem sabes que te no contrario... desejo este casamento, desejo...
mas. em primeiro lugar, convm saber se ele e do teu gosto... Vamos.., fala!
Ana Rosa no respondeu e continuou muito embebida, como estava, rolar
sob a ponta cor-de-rosa dos seus dedos as migalhas de po que ia
encontrando sobre a toalha.
Manuel Pedro da Silva, mais conhecido por Manuel Pescada, era um
portugus de uns cinqenta anos, forte, vermelho e trabalhador.
Diziam-no afilado para o comrcio e amigo do Brasil. Gostava da sua
leitura nas horas de descanso, assinava respeitosamente os jornais
srios da provncia e recebia alguns de Lisboa. Em pequeno meteram-lhe
na cabea vrios trechos do Cames e no lhe esconderam de todo o nome
de outros poetas. Prezava com fanatismo o Marqus de Pombal, de quem
sabia muitas anedotas e tinha uma assinatura no Gabinete Portugus, a
qual lhe aproveitava menos a ele do que  filha, que era perdida pelo romance.
Manuel Pedro fora casado com uma senhora de Alcntara chamada Mariana
muito virtuosa e como a melhor parte das maranhenses extremada em pontos
de religio; quando morreu, deixou em legado seis escravos a Nossa Senhora do
Carmo.
Bem triste foi essa poca tanto para o vivo como para a filha orfanada,
coitadinha, justamente quando mais precisava do amparo maternal. Nesse
tempo moravam no Caminho Grande, numa casinha trrea para onde a
molstia de Mariana os levara em busca de ares mais benignos; Manuel,
porem, que era j ento negociante e tinha o seu armazm na Praia Grande
mudou-se logo com a pequena para o sobrado da Rua da Estrela, em cujas
lojas prosperava, havia dez anos, no comrcio de fazendas por atacado.
Para no ficar s com a filha que se fazia uma mulher convidou a sogra
Dona Maria Brbara a abandonar o sitio em que vivia e ir morar t com ele
e mais a neta A menina precisava de algum que a guiasse, que a
conduzisse! Um homem nunca podia servir para essas coisas! E, se fosse a
meter em casa uma preceptora - Meu bom Jesus! - que no diriam por
ai?... No Maranho falava-se de tudo! Dona Maria Brbara que se
decidisse a deixar o mato e fosse de moda para a Rua da Estrelas! No
teria que se arrepender... havia de estar como em sua prpria casa - bom
quarto, boa mesa, e plena liberdade!
A velha aceitou e l foi, arrastando os seus cinqenta e tantos anos,
alojar-se em casa do genro. com um batalho de moleques, suas crias, e
com os cacarus ainda do tempo do defunto marido. Em breve, porm, o bom
portugus estava arrependido do passo que dera: Dona Maria Brbara
apesar de muito piedosa; apesar de no sair do quarto sem vir bem
penteada, sem lhe faltar nenhum dos cachinhos de seda preta, com que ela
emoldurava disparatadamente o rosto enrugado e macilento; apesar do seu
grande fervor pela igreja e apesar das missas que papava por dia, D Mana
Brbara, apesar de tudo isso, sara-lhe m dona de casa.
Era uma fria! Uma vbora! Dava nos escravos por hbito e por gosto; s
falava a gritar e, quando se punha a ralhar, - Deus nos acuda! -
incomodava toda a vizinhana! Insuportvel!
Maria Brbara tinha o verdadeiro tipo das velhas maranhenses criadas na
fazenda Tratava muito dos avs, quase todos portugueses; muito
orgulhosa; muito cheia de escrpulos de sangue Quando falava nos pretos
dizia Os sujos e quando se referia a um mulato dizia O cabra. Sempre
fora assim e como devota, no havia outra: Em Alcntara tivera uma
capela de Santa Brbara e obrigava a sua escravatura a rezar ai todas as
noites. em coro de braos abertos s vezes algemados Lembrava-se com
grandes suspiros do marido do seu Joo Hiplito um portugus fino, de
olhos azuis e cabelos louros.
Este Joo Hiplito foi brasileiro adotivo e chegou a fazer alguma
posio na secretaria do governo da provncia Morreu com o posto de coronel.
Maria Brbara tinha grande admirao pelos portugueses, dedicava-lhes um
entusiasmo sem limites, preferia-os em tudo aos brasileiros. Quando a
filha foi pedida por Manuel Pedro, ento principiante no comrcio da
capital, ela dissera: Bem! Ao menos tenho a certeza de que  branco!
Mas o Pescada no compreendeu a esposa, nem foi amado por ela; a
virtude, ou talvez simplesmente a maternidade, apenas conseguiu fazer de
Mariana uma companheira fie!; viveu exclusivamente para a filha.  que a
desgraada, desde os quinze anos, ainda no irresponsvel arrebatamento
do primeiro amor, havia eleito j o homem a quem sua alma teria de
pertencer por toda a vida. Esse homem existe hoje na histria do
Maranho, era o agitador Jos Candido de Moraes e Silva conhecido
popularmente pelo Farol. Fez todo o possvel para casar com ele, mas
foram baldados os seus esforos, nem s em virtude das perseguies
polticas que, to cedo, atribularam a curta existncia daquela
fenomenal criatura, como tambm pela inflexvel oposio que tal idia
encontrou na prpria famlia da rapariga.
Entretanto, o destino dela se havia prendido  sorte do desventurado
maranhense. Quem diria que aquela pobre moa, nascida e criada nos
sertes do Norte, sentiria, como qualquer filha das grandes capitais, a
mgica influncia que os homens superiores exercem sobre o esprito
feminino? Amou-o, sem saber por que. Sentira-lhe a fora dominadora do
olhar, os mpetos revolucionrios do seu carter americano, o herosmo
patritico da sua individualidade to superior ao meio em que floresceu;
decorara-lhe as frases apaixonadas e vibrantes de indignao, com que
ele fulminava os exploradores da sua ptria estremecida e os inimigos da
integridade nacional; e tudo isso, sem que ela soubesse explicar,
arrebatou-a para o belo e destemido moo com todo o ardor do seu
primeiro desejo de mulher.
Quando, na Rua dos Remdios, que nesse tempo era ainda um arrabalde, o
desditoso heri, apenas com pouco mais de vinte e cinco anos de idade
sucumbiu ao jugo do seu prprio talento e da sua honra poltica, oculto,
foragido, cheio de misria, odiado por uns como um assassino e adorado
por outros como um deus, a pobre senhora deixou-se possuir de uma grande
tristeza e foi enfraquecendo e ficando doente. e ficando feia e cada vez
mais triste, at morrer silenciosamente poucos anos depois do seu amado.
Ana Rosa no chegou a conhecer o Farol; a me porem muito em segredo,
ensinara-lhe a compreender e respeitar a memria do talentoso
revolucionrio, cujo nome de guerra despertava ainda, entre os
portugueses, a raiva antiga do motim de 7 de agosto de 1831. Minha
filha, disse-lhe a infeliz j nas vsperas da morte, no consintas nunca
que te casem, sem que ames deveras o homem a ti destinado para marido.
No te cases no ar! Lembra-te que o casamento deve ser sempre a
conseqncia de duas inclinaes irresistveis. A gente deve casar
porque ama, e no ter de amar porque casou Se fizeres o que te digo,
sers feliz! Concluiu pedindo-lhe que prometesse, caso algum dia
viessem a constrang-la a aceitar mando contra seu gosto, arrostar tudo,
tudo, para evitar semelhante desgraa, principalmente se ento Ana Rosa
j gostasse doutro; e por este, sim. fosse quem fosse, cometesse os
maiores sacrifcios, arriscasse a prpria vida, porque era nisso que
consistia a verdadeira honestidade de uma moa.
E mais no foram os conselhos que Mariana deu  filha. Ana Rosa era
criana. no os compreendeu logo, nem to cedo procuro compreend-los;
mas, to estavam eles morte da me que a idia desta no lhe acudia 
memria sem as palavras da moribunda.
Manuel Pedro, apesar de bom, era um desses homens mais que alheados as
sutilezas do sentimento; para outra mulher daria talvez um excelente
esposo, no para aquela, cuja sensibilidade romntica, longe de o
comover havia muita vez de importun-lo. Quando se achou vivo no
sentiu, a despeito da sua natural bondade, mais do que certo desgosto
pela ausncia de uma companheira com que j se tinha habituado- contudo,
no pensou em tornar a casar, convencido de que o afeto da filha lhe
chegaria de sobra para amenizar as canseiras do trabalho, e que o
auxlio imediato da sagra bastaria para garantir a decncia da sua casa
e a boa regra das suas despesas domsticas.
Ana Rosa cresceu pois, como se v, entre os desvelos insuficientes do
pai e o mau gnio da av. Ainda assim aprendera de cor a gramtica do
Sotero dos Reis; lera alguma coisa; sabia rudimentos de francs e tocava
modinhas sentimentais ao violo e ao piano No era estpida; tinha a
intuio perfeita da virtude, um modo bonito, e por vezes lamentara no
ser mais instruda. Conhecia muitos trabalhos de agulha: bordava como
poucas, e dispunha de uma gargantazinha de contralto que fazia gosto ouvir.
Tanto assim que, em pequena, servira vrias vezes de anjo da vernica
nas procisses da quaresma E os cnegos da S gabavam-lhe o metal da voz
e davam-lhe grandes cartuchos de amndoas de mendubim, muito enfeitados
nas suas pinturas, toscas e caractersticas, feitas a goma-arbica e
tintas de botica. Nessas ocasies ela sentia-se radiante, com as faces
carminadas, a cabea coberta de cachos artificiais, grande roda no
vestido curto, a jeito de danarina E, muito concha, ufana dos seus
gales de prata e ouro e das suas trmulas asas de papelo e escumilha,
caminhava triunfante e feliz no meio do cordo das irmandades
religiosas, segurando a extremidade de um leno do qual o pai segurava a
outra. Isto eram promessas feitas pela me ou pela av em dias de grande
enfermidade na famlia.
E crescera sempre bonita de formas. Tinha os olhos pretos e os cabelos
castanhos de Mariana e puxara ao pai as rijezas de corpo e os dentes
fortes Com a aproximao da puberdade apareceram-lhe caprichos
romnticos e fantasias poticas: gostava dos passeios ao luar, das
serenatas; arranjou ao lado do seu quarto um gabinete de estudo, uma
bibliotecazinha de poetas e romancistas; tinha um Paulo e Virgnia de
biscuit sobre a estante e, escondido por detrs de um espelho, o retrato
do Farol, que herdara de Mariana.
Lera com entusiasmo a Graziela de Lamartine Chorou muito com essa
leitura e, desda, todas as noites, antes de adormecer, procurava
instintivamente imitar o sorriso de inocncia que a procitana oferecia
ao seu amante. Praticava bem com os pobres. adorava os passarinhos e no
podia ver matar perto de si uma borboleta Era um bocadinho
supersticiosa: no queda as chinelas emborcadas debaixo da rede e s
aparava os cabelos durante o quarto crescente da lua. No que
acreditasse nessas coisas, justificava-se ela, mas fazia porque os
outros faziam.  Sobre a cmoda, havia muito tempo, tinha uma estampa
litogrfica e colorida de Nossa Senhora dos Remdios e rezava-lhe todas
as noites, antes de dormir Nada conhecia melhor e mais agradvel do que
um passeio ao Cutim, e, quando soube que se projetava uma linha de
bondes at l, teve uma satisfao violenta e nervosa.
Feitos os quinze anos, ela comeou pouco e pouco a descobrir em si
estranhas mudanas; percebeu, sentiu que uma transformao importante se
operava no seu esprito e no seu corpo: sobressaltavam-na terrores
acometiam-na tristezas sem motificvel. Um dia, afinal, acordou mais
preocupada; assentou-se na rede, a cismar. E, com surpresa, reparou que
seus membros ultimamente se tinham arredondado; notou que em todo seu
corpo a linha curva suplantara a reta e que as suas formas eram j
completamente de mulher.
Veio-lhe ento um sobressalto de contentamento mas logo depois caiu a
entristecer: sentia-se muito s, no lhe bastava o amor do pai e da
velha Barbara; queria uma afeio mais exclusiva, mais dela.
Lembrou-se dos seus namoros. Riu-se coisas de criana!...
Aos doze anos namorara um estudante do Liceu. Haviam conversado trs ou
quatro vezes na sala do pai e supunham-se deveras apaixonados um pelo
outro; o estudante seguiu para a Escola Central da Corte, e ela nunca
mais pensou nele Depois foi um oficial de marinha; Como lhe ficava bem
a farda!... Que moo engraado! bonito! e como sabia vestir-se... Ana
Rosa chegou a principiar a bordar um par de chinelas para lho oferecer;
antes porm de terminado o primeiro p, j o bandoleiro havia
desaparecido com a corveta Baiana. Seguiu-se um empregado do comrcio.
Muito bom rapaz! muito cuidadoso da roupa e das unhas!... Parecia-lhe
que ainda estava a v-lo, todo metdico, escolhendo palavras para lhe
pedir a subida honra de danar com ela uma quadrilha
- Ah tempos! tempos!..
E no queria pensar ainda em semelhantes tolices. Coisas de criana!
Coisas de criana!... Agora, s o que lhe convinha era um marido! O
seu, o verdadeiro, o lega!! O homem da sua casa, o dono do seu corpo, a
quem ela pudesse amar abertamente como amante e obedecer em segredo como
escrava. Precisava de dar-se e dedicar-se a algum; sentia absoluta
necessidade de pr em ao a competncia, que ela em si reconhecia, para
tomar conta de uma casa e educar muitos filhos.
Com estes devaneios, acudia-lhe sempre um arrepiozinho de febre; ficava
excitada, idealizando um homem forte, corajoso, com um bonito talento, e
capaz de matar-se por ela. E, nos seus sonhos agitados, debuxava-se um
vulto confuso, mas encantador, que galgava precipcios, para chegar onde
ela estava e merecer-lhe a ventura de um sorriso, uma doce esperana de
casamento. E sonhava o noivado: um banquete esplndido! e junto dela, ao
alcance de seus lbios, um mancebo apaixonado e formoso, um conjunto de
fora, graa e ternura. que a seus ps ardia de impacincia e devorava-a
com o olhar em fogo.
Depois - via-se dona de casa; pensando muito nos filhos; sonhava-se
feliz, muito dependente na priso do ninho e no domnio carinhoso do
manco. E sonhava umas criancinhas louras, ternas, balbuciando tolices
engraadas e comovedoras, chamando-lhe mama!
- Oh! Como devia ser bom!.. E pensar que havia por ai mulheres que eram contra o
casamento!...
No ! Ela no podia admitir o celibato, principalmente para a mulher!...
Para o homem- ainda passava... vivera triste, s; mas em todo o caso
era um homem... teria outras distraes! Mas uma pobre mulher, que
melhor futuro poderia ambicionar que o casamento?. . que mais legtimo
prazer do que a maternidade; que companhia mais alegre do que a dos
filhos, esses diabinhos to feiticeiros?.. Alm de que, sempre gostara
muito de crianas: muita vez pedira a quem as tinha que lhas mandasse a
fazer-lhe companhia, e, enquanto as pilhava em casa, no consentia que
mais ningum se incomodasse com elas; queria ser a prpria a dar-lhes a
comida, a lav-las, a vesti-las, e acalent-las E estava constantemente
a talhar camisinhas e fraldas, a fazer toucas e sapatinhos muita l, com
muito amor, justamente como, em pequenina, ela fazia com as suas
bonecas. Quando alguma de suas amigas se casava, Ana Rosa exigia dela
sempre um cravo do ramalhete ou um boto das flores de laranjeira da
grinalda; este ou aquele, pregava-os religiosamente no seio com um dos
alfinetes dourados da noiva, e quedava-se a fit-los, cismado, at que
dos lbios lhe partia um suspiro longo, muito longo, como o do viajante
que em meio do caminho j se sente cansado e ainda no avista o lar.
Mas o noivo por onde andava que no vinha? Esse belo mancebo, to
ardente e to apaixonado, por que se no apresentava logo? Dos homens
que Ana Rosa conhecia na provncia nenhum decerto podia ser!... E, no
entanto, ela amava...
A quem?
No sabia diz-lo, mas amava. Sim! Fosse a quem fosse, ela amava; porque
sentia vibrar-lhe todo o corpo, fibra por fibra, pensando nesse - Algum
- ntimo e desconhecido para ela. Algum - que no vinha e no lhe saia
do pensamento, esse - Algum - cuja ausncia a fazia infeliz e lhe
enchia a existncia de lgrimas.
Passaram-se meses - nada! Correram trs anos. Ana Rosa principiou a
emagrecer visivelmente. Agora dormia menos; estava plida;  mesa mal
tocava nos pratos.
- O pequena, tu tens alguma coisa! disse-lhe um dia o pai, j incomodado
com aquele ar doentio da filha. No me pareces a mesma! Que  isso,
Anica?
No era nada!...
E Ana Rosa sobressaltava-se, como se tivera cometido uma falta.
Cansao! Nervos! No era coisa que valesse a pena!... 
Mas chorava.
- Olha! Ai temos! Agora o choro! Nada!  preciso chamar o mdico!
- Chamar o mdico?... Ora papai, no vale a pena!...
E tossia. Que a deixassem em paz! Que nem a estivessem apoquentando com
perguntas!...
E tossia mais, sufocada.
- Vs?! Estas achacada! Levas nesse Churra, chrum! chrum chrum! E  s
No vale a pena! No precisa chamar o mdico!... No senhora! com
molstias no se brinca!
O mdico receitou banhos de mar na Ponta dAreia.
Foi um tempo delicioso para ela os trs meses que ai passou. Os ares da
costa, os banhos de choque, os longos passeios a p, restituram-lhe o
apetite e enriqueceram-lhe o sangue Ficou mais forte; chegou a engordar.
Na Ponta dAreia travara uma nova amizade - Dona Eufrasinha. Viva de um
oficial do quinto de infantaria, batalho que morreu todo na Guerra do
Paraguai. Muito romntica: falava do marido requebrando-se, e
poetizava-lhe a curta histria: Dez dias depois de casados, seguira ele
para o campo de batalha e, no denodo da sua coragem, fora atravessado
por uma bala de artilharia, morrendo logo a balbuciar com o lbio
ensangentado o nome da esposa estremecida.
E com um suspiro, feito de desejos mel satisfeitos, a viva conclua
pesarosa que prazeres nesta vida, conhecera apenas dez dias e dez noites...
Ana Rosa compadecia-se da amiga e escutava-lhe de boa-f as frioleiras.
Na sua ingnua e comovida sinceridade facilmente se identificava com a
histria singular daquele casamento to infeliz e to simptico.. Por
mais de uma vez chegou a chorar pela morte do pobre moo oficial de infantaria.
Dona Eufrasinha instruiu a sua nova amiga em muitas coisas que esta mal
sonhava; ensinou-lhe certos mistrios da vida conjugal; pode dizer-se
que lhe de amor: falou muito nos homens, disse-lhe como a mulher
esperta devia lidar com eles; quais eram as manhas e os fracos dos
maridos ou dos namorados; quais eram os tipos preferveis; o que
significava ter olhos mortos, beios grossos, nariz comprido.
A outra ria-se. No tomava a srio aquelas bobagens da Eufrasinha!
Mas intimamente ia, sem dar por isso, reconstruindo o seu ideal pelas
instrues da viva F-lo menos espiritual, mais humano, mais
verossmil, mais suscetvel de ser descoberto; e, desde ento, o tipo,
apenas debuxado ao fundo dos seus sonhos, veio para a frente,
acentuou-se como uma figura que recebesse os ltimos toques do pintor;
e, depois de v-lo bem correto, bem emendado e pronto, amou o ainda
mais, muito mais, tanto quanto o amaria se ele fora com efeito uma realidade.
A partir da, era esse ideal, correto e emendado, a base das suas
deliberaes a respeito de casamento; era a bitola, por onde ela aferia
todo aquele que a requestasse. Se o pretendente nem tivesse o nariz, o
olhar, o gesto, o conjunto enfim de que constava o padro, podia, desde
logo, perder a esperana de cair nas graas da filha de Manuel Pedro.
Eufrasinha mudou-se para a cidade; Ana Rosa j l estava. Visitaram-se.
E estas visitas, que se tomaram muito ntimas e repetidas, serviram
mutuamente de consolo, ao afincado celibato de uma e a precoce viuvez da outra.
Havia, empregado no armazm do pai de Ana Rosa, um rapaz portugus, de
nome Lus Dias; muito ativo, econmico, discreto, trabalhador, com uma
bonita letra, e muito estimado na Praa. Contavam a seu favor invejveis
partidas de tino comercial, e ningum seria capaz de dizer mal de to
excelente moo.
Ao contrrio, quase sempre que falavam dele, diziam Coitado! e este -
coitado - era inteiramente sem razo de ser, porque ao Dias, graas a
Deus, nada faltava: tinha casa, comida, roupa lavada e engomada, e,
ainda por cima, os cobres do emprego. Mas a coisa era que o diabo do
homem, apesar das suas prsperas circunstncias, impunha certa lstima,
impressionava com o seu eterno ar de piedade, de splica, de resignao
e humildade. Fazia pena, incutia d em quem o visse, to submisso, to
passivo, to pobre rapaz - to besta de carga Ningum, em caso algum,
levantaria a mo sobre ele, sem experimentar a repugnncia da covardia.
Elogiavam-no entretanto: Que no fossem atrs daquele ar modesto,
porque ali estava um empregado de truz!
Vrios negociantes ofereceram-lhe boas vantagens para torn-lo ao seu
servio; mas o Dias, sempre humilde e de cabea baixa, resistia-lhes a
p firme. E, tal constncia ops as repetidas propostas, que todo o
comrcio, dando como certo o seu casamento com a filha do patro,
elogiou a escolha de Manuel Pedro e profetizou aos nubentes um futuro
muito bonito e muito rico.
- Foi acertado foi! diziam com o olhar fito.
Manuel Pedro via, com efeito, naquela criatura, trabalhadora e passiva
como um boi de carga e econmico como um usurio, o homem mais no caso
de fazer a felicidade da filha Queria-o para genro e para scio; dizia a
todos os colegas que o seu Dias apenas retirava por ano, para as suas
despesas, a quarta parte do ordenado.
- Tem j o seu peclio, tem! considerava ele. A mulher o quisesse,
levava um bom marido! Aquele vir a possuir alguma coisa...  moo de muito futuro!
E, pouco a pouco foi se habituando a julg-lo j da famlia e a
estim-lo e distingui-lo como tal; s faltava que a pequena se
decidisse... Mas qual! ela nem queria v-lo! Tinha-lhe birra; no podia
sofrer aquele cabelo  escovinha, aquele cavanhaque sem bigode, aqueles
dentes sujos, aquela economia torpe e aqueles movimentos de homem sem
vontade prpria.
- Um somtico! classificava Ana Rosa franzindo o nariz.
Uma ocasio, o pai tocou-lhe no casamento.
- Com o Dias?... perguntou espantada.
- Sim.
- Ora, papai!
E soltou uma risada.
Manuel no se animou a dizer mais palavra; a noite, porm, contou tudo
em particular ao compadre, um amigo velho, intimo da casa - o cnego Diogo.
- Optima soep despecta! sentenciou este. P preciso dar tempo ao tempo,
seu compadre! A coisa h
de ser... deixe correr o barco!
No entanto, o Dias no se alterara; esperava calado, pacificamente, sem
erguer os olhos, cheio sempre de humildade e resignao.
CAPTULO 2
Assim era, quando Manuel Pedro, na varanda de sua casa, pedia a filha
uma resposta definitiva a respeito do casamento. J l se iam trs meses
depois da estada na Ponta dAreia.
Ana Rosa continuou muda no seu lugar, a fitar a toalha da mesa, como se
procurasse ai uma resoluo. O sabi cantava na gaiola.
- Ento, minha filha, no das sequer uma esperana?...
- Pode ser...
E ela ergueu-se...
Bom. Assim  que te quero ver...
O negociante passou o brao em volta da cintura da rapariga, disposto a
conversar ainda, mas foi interrompido por umas passadas no corredor.
- D licena? disse o cnego, j na porta da varanda. V entrando,
compadre!
O cnego entrou, devagar, com o seu sorriso discreto e amvel.
Era um velho bonito; teria quando menos sessenta anos, porm estava
ainda forte e bem conservado; o olhar vivo, o corpo teso, mas ungido de
brandura santarrona. Calcava-se com esmero, de polimento; mandava buscar
da Europa, para seu uso, meias e colarinhos especiais, e, quando ria,
mostrava dentes limpos, todos chumbados a ouro. Tinha os movimentos
distintos; mos brancas e cabelos alvos que fazia gosto.
Diogo era o confidente e o conselheiro do bom e pesado Manuel; este no
dava um passo sem consultar o compadre. Formara-se em Coimbra, donde
contava maravilhas; um bocadinho rico, e no relaxava o seu passeio a
Lisboa, de vez em quando, para descarregar anos da costa... explicava
ele, a rir.
Logo que entrou, deu a beijar a Ana Rosa o seu grande e trabalhado anel
de ametista, obra do Porto, feita de encomenda. E batendo-lhe na face
com a mo fina e impregnada de sabonete ingls:
- Ento, minha afilhada, como vai essa bizarria?
Ia bem, agradecida. Sorriu.
- Dindinho est bom?
- Como sempre. Que noticias de Dona Babita?
Estava de passeio.
- Pois no v a casa sossegada? interrogou Manuel. Foi  missa e
naturalmente almoou por ai com alguma amiga. Deus a conserve por l!
Mas que milagre o trouxe a estas horas c por casa, seu compadre?
- Um negcio que lhe quero comunicar; particular, um bocado particular.
Ana Rosa fez logo meno de afastar-se.
- Deixa-te ficar, disse-lhe o pai. Ns vamos aqui para o escritrio.
E os dois compadres, conversando em voz baixa, encaminharam-se para uma
saleta que havia na frente da casa.
A saleta era pequenina com duas janelas para a Rua da Estrela. Cho
esteirado paredes forradas de papel e o teto de travessinhas de
paparaba pintadas de branco. Havia uma carteira de escrita, muito alta,
com o seu mocho inclinado, um cofre de feno, uma pilha de livros de
escriturao mercantil, uma prensa, o copiador ao lado e mais um copo
sujo de p, em cujas bordas descansava um pincel chato de cabo largo;
uma cadeira de palhinha, um caixo de papis inteis, um bico de gs e
duas escarradeira.
Ah! ainda havia na parede, sobre a secretria, um calendrio do ano e
outro da semana, ambos com as algibeiras pejadas de notas e recibos.
Era isto que Manuel Pedro chamava pamposamente o seu escritrio e onde
fazia a correspondncia comercia!. Ai, quando ele de corpo e alma se
entregava aos interesses da sua vida, s suas especulaes, ao seu
trabalho enfim, podiam ia fora at morrer, que o bom homem no dava por
isso. Amava deveras o trabalho e seria uma santa criatura se no fora
certa maniazinha de querer especular com tudo, o que as vezes lhe
desvirtuava as melhores intenes.
Quando os dois entraram, ele foi logo fechando a porta, discretamente,
enquanto o outro se esparralhava na cadeira com um suspiro de cansao,
levantando at ao meio da canela a sua batina lustrosa e de bom talho.
Manuel havia tomado um cigarro de papel amarelo de cima da carteira e
acendia-o sofregamente; o cnego esperava por ele, com uma notcia
suspensa dos lbios como espantado, a boca meio aberta o tronco
inclinado para a frente, as mos espalmadas nos joelhos, a cabea
erguida e um olhar de sobrancelhas arregaadas atravs do cristal dos
culos
- Sabe quem est a chegar por ai?... perguntou afinal, quando viu Manuel
j instalado no mocho da secretaria.
- Quem?
- O Raimundo!
E o cnego sorveu uma pitada.
- Que Raimundo?
- O Mundico! o filho do Jos, homem! teu sobrinho! aquela criana, que
teu mano teve da Domingas...
- Sim, sim, j sei, mas ento?...
- Est a chegar por dias... Ora espera...
O padre tirou papis da algibeira e rebuscou entre eles uma carta, que
passou ao negociante.
- E do Peixoto, o Peixoto de Lisboa.
- De Lisboa, como?
- Sim, homem! Do Peixoto de Lisboa, que est h trs anos no Rio.
- Ah!... isso sim, porque tinha idia de que o pequeno deveria estar
agora na Corte Ah! chegou o vapor do Sul...
- Pois . L!
Manuel armou os culos no nariz e leu para si a seguinte carta datada do
Rio de Janeiro: Reverendssimo amigo e Senhor Cnego Diogo de Melo
Folgamos que esta v encontrar V. Reverendssima no gozo da mais
perfeita sade. Temos por fim comunicar a V. Reverendssima que, no
paquete de 15 do corrente, segue para essa capital o Doutor Raimundo
Jos da Silva, de quem nos encarregou V. Reverendssima e o Senhor
Manuel Pedro da Silva quando ainda nos achvamos estabelecidos em
Lisboa. Temos tambm a declarar, se bem que j em tempo competente o
houvssemos feito, que envidamos ento os melhores esforos para
conseguir do nosso recomendado ficasse empregado em nossa casa comercia!
e que, visto no o conseguirmos, tomamos logo a resoluo de remet-lo
para Coimbra com o fim de formar-se ele em Teologia, o que igualmente
no se realizou, porque, feito o curso preparatrio, escolheu o nosso
recomendado a carreira de Direito, na qual se acha formado com
distines e bonitas notas.
Cumpre-nos ainda declarar com prazer a V. Reverendssima que o Doutor
Raimundo foi sempre apreciado pelos seus lentes e condiscpulos e que
tem feito boa figura, tanto em Portugal, como depois na Alemanha e na
Sua, e como ultimamente nesta Corte, onde, segundo diz ele, tenciona
fundar uma empresa muito importante. Mas, antes de estabelecer-se aqui,
deseja o Doutor Raimundo efetuar nessa provncia a venda de terras e
outras propriedades de que ai dispe, e com esse fim segue.
Por esta mesma via escrevemos ao Senhor Manuel Pedro da Silva, a quem
novamente prestamos contas das despesas que fizemos com o sobrinho. 
Seguiam-se os cumprimentos do estilo.
Manuel terminada a leitura, chamou o Benedito, um moleque da casa, e
ordenou-lhe que fosse ao armazm saber se havia j chegado a
correspondncia do Sul. O moleque voltou pouco depois, dizendo que
ainda no senhor, mas que seu Dias a fora buscar ao correio.
- Homem! ele  isso!... exclamou Pescada. O rapaz est bem encaminhado,
quer liquidar o que tem por c e estabelecer-se no Rio. No! Sempre 
outro futuro!.
- Ora! ora! ora! soprou o cnego em trs tempos. Nem falemos nisso! O
Rio de Janeiro  o Brasil! Ele faria uma grandssima asneira se ficasse
aqui.
- Se faria...
- At lhe digo mais.. nem precisava c vir, porque... continuou Diogo,
abaixando a voz, ningum aqui lhe ignora a biografia; todos sabem de
quem ele saiu!
- Que no viesse, no digo, porque enfim.. quem quer vai e quem no
quer manda, como l diz o outro; mas  chegar, aviar o que tem a fazer
e levantar de novo o ferro!
- Ai, ai!
- E demais, que diabo ficava ele fazendo aqui? Enchendo as ruas de
pernas e gastando o pouco que tem... Sim! que ele tem alguma coisinha
para roer . tem aquelas moradas de casa em So Pantaleo; tem o seu
punhado de aes; tem o jimbo c na casa, onde por bem dizer  scio
comanditrio, e tem as fazendas do Rosrio, isto  - a fazenda, porque
uma  tapera...
- Essa e que ningum a quer!... observou o cnego, e ferrou o olhar num
ponto, deixando perceber que alguma triste reminiscncia o dominava.
- Acreditam nas almas doutro mundo... prosseguiu Manuel. O caso  que
nunca mais consegui dar-lhe destino. Pois olhe, seu compadre, aquelas
terras so bem boas para a cana.
O cnego permanecia preocupado pela lembrana da tapera.
- Agora... acrescentou o outro, o melhor seria que ele se tivesse feito
padre.
O cnego despertou.
- Padre?!
- Era a vontade do Jos...
- Ora, deixe-se disso! retrucou Diogo, levantando-se com mpeto Ns j
temos por ai muito padre de cor!
- Mas, compadre, venha c no  isso...
- Ora o qu, homem de Deus!  s - ser padre! E no fim de contas esto
se vendo, as duas por trs superiores mais negros que as nossas
cozinheiras! Ento isto tem jeito?... O governo - E o cnego inchava as
palavras - o governo devia at tomar uma medida sria a este respeito!
devia proibir aos cabras certos misteres!
- Mas, compadre...
- Que conheam seu lugar!
E o cnego transformava-se ao calor daquela indignao
- E ento, parece j de pirraa, bradou,  nascer um moleque nas
condies deste...
E mostrava a carta, esmurrando-a - pode contar-se logo com um homem
inteligente! Deviam ser burros! burros! que s prestassem mesmo para nos
servir! Malditos!
- Mas, compadre, voc desta vez no tem razo...
- Ora o qu homem de Deus. No diga asneiras! Pois voc queria ver sua
filha confessada, casada. por um negro? voc queria seu Manuel que a
Dona Anica beijasse a mo de um filho da Domingas? Se voc viesse a ter
netos queria que eles apanhassem palmatoadas de um professor mais negro
que esta batina? Ora, seu compadre, voc S vezes at me parece tolo!
Manuel abaixou a cabea, derrotado.
- Ora, ora, ora! respingava o sacerdote, como as ltimas gotas de um
aguaceiro. E passeava vivamente em toda a extenso da saleta, atirando
de uma para a outra mo o seu leno fino de seda da ndia.- Ora! ora,
deixe-se disso, seu compadre! Stultorum honor inglorius!...
Nisto bateram  porta. Era o Dias com a correspondncia do Sul.
- De c
A carta de Manuel pouco adiantava da outra.
- Mas afina! que acha voc, compadre?... disse ele, passando a carta ao
cnego, depois de a ler
- Que diabo posso achar?.. A coisa esta feita por si.. Deixe correr o
barco! Voc no disse uma vez que queria entrar em negcio com a fazenda
do Cancela? No h melhor ocasio; trate-a com o prprio dono. mesmo as
casas de So Pantaleo convinham-lhe... olhe se ele as desse em conta,
eu talvez ficasse com alguma.
- Mas o que eu digo, compadre,  se devo receb-lo na qualidade de meu
sobrinho.
- Sobrinho bastardo, est claro! Que diabo tem voc com as cabeadas de
seu mano Jos?. Homessa!
- Mas, compadre, voc acha que no me fica mal? .
- Mal por qu, homem de Deus? Isso nada tem que ver com voc...
- L isso  verdade. Ah! outra coisa! devo hosped-lo aqui em casa?
- !... por um lado, devia ser assim... Todos sabem as obrigaes que
voc deve ao defunto Jos e poderiam boquejar por ai, no caso que no
hospedasse o filho... mas, por outro lado, meu amigo, amigo sei o que
lhe diga!...
E depois de uma pausa em que o outro no falou:
- Homem, seu compadre, isto de meter rapazes em casa...  o diabo!
- De sorte que...
- Omnem aditum malis prejudica!
Manuel no compreendeu, porem acrescentou:
- Mas eu hospedo constantemente os meus fregueses do interior...
- Isso  muito diferente!
- E meus caixeiros? no moram aqui comigo?...
- Sim! disse o cnego, impacientando-se, mas os pobres dos caixeiros so
todos uns moscas-mortas, ns no sabemos a que nos saiu o tal doutor de
Coimbra!... Homem, compadre, o melro vem de Paris, deve estar
mitrado!...
- Talvez no...
- Sim, mas  mais natural que esteja!
E o cnego intumescia a papada com certo ar experimentado.
- Em todo caso... arriscou Manuel,  por pouco tempo... Talvez coisa de
um ms...
E sopeando a voz discretamente com medo: Alm disso... no me convinha
desagradar o rapaz... Sim! tenho de entrar em negcio com ele, e... isto
c para ns... seria uma fineza, que me ficava a dever... porque
enfim... voc sabe que...
- Ah! interrompeu o cnego, tomando uma nova atitude. Isso  outro
cantar!... Por ai  que voc devia ter principiado!
- Sim tornou Manuel. com mais animo. Voc bem sabe que no tenho
obrigao de estar a moer-me com o nhonh Mundico... e, se bem que...
- Pchio!... fez o padre, cortando a conversa, e disse: - Hspede o
homem!
E saiu da saleta, revestindo logo o seu pachorrento e estudado ar de
santarro.
Ao chegarem  varanda Ana Rosa, j em trajes de passeio, os esperava
para sair toda debruada no parapeito da janela e derramando sobre o
Bacanga um olhar mole e cheio de incertezas.
- Ento, sempre te resolveste, minha caprichosa?... disse o pai.
E contemplava a filha, com um risinho de orgulho. Ela estava realmente
boa com o seu vestido muito alvo de fusto, alegre, todo cheirando aos
jasmins da gaveta: com o seu chapu de palhinha de Itlia emoldurando o
rosto oval, fresco e bem feito com o seu cabelo castanho, farto e
sedoso, que aparecia em bands no alto da cabea e reaparecia no pescoo
enrodilhado despretensiosamente.
- Tinhas dito que no ias...
- V se vestir, papai.
E assentou-se.
- L vou! L vou!
Manuel bateu no ombro do cnego:
- Meto-lhe inveja, hein, compadre?.. Olhe como o diacho da pequena esta
faceira, no ?
- Ne insultes miseris!
- Qu?... interjeicionou o negociante, olhando para o relgio da

caixeiros amigos de gazeta?.. Se voc quer ser letrado, v pra Coimbra,
seu burro!
Gustavo ouvia constantemente destas e doutras amabilidades, mas, que
fazer? precisava ganhar a vida!... O outro era caixeiro mais antigo na
casa... Conformava-se, sem respingar, e em certas ocasies at
satisfeito, graas ao seu bom humor.
Ao passar pela varanda foi menos brusco no seu cumprimento  filha do
patro; chegou mesmo a parar, sorrir, e dizer, inclinando a cabea:
Minha senhora!...
O cnego teve uma risota.
- Que mitra! . julgou com os seus botes.
Em seguida, atravessou a varanda, muito apressado, com as mos
escondidas nas enormes mangas de um jaqueto, cuja gola subia ate 
nuca, uma criana de uns dez anos de idade. Tinha o cabelo  escovinha;
os sapatos grandemente desproporcionados; calas de zuarte dobradas na
bainha; olhos espantados; gestos desconfiados, e um certo movimento
rpido de esconder a cabea nos ombros, que lhe traia o hbito de levar
pescoes.
Este era em tudo mais novo que os outros - em idade, na casa, e no
Brasil. Chegara havia coisa de seis meses da sua aldeia no Porto; dizia
chamar-se Manuelzinho e tinha sempre os olhos vermelhos de chorar 
noite com saudades da me e da terra.
Por ser o mais novo na casa varria o armazm limpava as balanas e bumia
os pesos de lato. Todos lhe batiam sem responsabilidade, no tinha a
quem se queixar. Divertiam-se  custa dele; riam-se com repugnncia das
suas orelhas cheias de cera escura.
Desfeava-lhe a testa uma grande cicatriz; foi um trambolho que levou na
primeira noite em que lhe deram uma rede para dormir O pobre
desterradozinho, que no sabia haver-se com semelhante engenhoca, caiu
na asneira de meter primeiro os ps, e zs! l foi por cima de uma caixa
de pinho de um dos companheiros. Desde esse dia ficou conhecido em casa
pela alcunha de Salta-cho. Punham-lhe nomes feios e chamavam-lhe O
coisa! -  maroto! - O bisca! tudo servia para o chamarem, menos o seu
verdadeiro nome.
Ia atravessando a varanda, como um bicho assustado, quase a correr. O
cnego gritou por ele:
- O pequeno? anda c!
Manuelzinho voltou, confuso, coando a nuca, muito contrariado sem
levantar os olhos.
Ana Rosa teve um olhar de piedade.
- Ento que e isso? disse o cnego. Pareces-me um bicho do mato! Fala
direito com a gente, rapaz! Levanta essa cachimnia!
E, com a sua mo branca e fina, suspendeu-lhe pelo queixo a cabea, que
Manuelzinho insistia em ter baixa.
- Este ainda est muito peludo!... acrescentou. E perguntou-lhe depois
uma poro de coisas: Se tinha vontade de enriquecer, se no sonhava j
com uma comenda: se tinha visto o pssaro guariba, se encontrara a
rvore das patacas. O pequeno mastigava respostas inarticuladas, com um
sorriso aflito...
- Como te chamas?
Ele no respondeu.
- Ento no respondes?... Com certeza s Manuel!
O portuguesinho meneou a cabea afirmativamente, e apertou a boca, para
conter o riso que procurava uma vlvula.
- Ento  com a cabea que se responde? Tu no sabes falar, mariola?
E, voltando-se para Ana Rosa:
- Isto  um sonso, minha afilhada! olhe em que estado ele traz as
orelhas! Se tens a alma como tens o corpo, podes d-la ao diabo! Tu j
te confessaste aqui, maroto?
Manuelzinho no podendo j suster os beios, abriu a boca e, com a forca
de uma caldeira, soprou o riso que a tanto custo refreada.
- Olha que estas a cuspir-me, o patife! gritou o cnego. Bom, bom!
vai-te! vai-te!
Repeliu-o e limpou a batina com o leno.
Ana Rosa ento correu os dedos pela cabea do menino e puxou-o para si.
Arregaou-lhe as mangas da jaqueta e revistou-lhe as unhas. Estavam
crescidas e sujas.
- Ah! censurou ela, voc tambm no to pequeno, que se desculpe
isto!...
E, tirando do seu indispensvel uma tesourinha, comeou, com grande
surpresa do caixeiro e at do cnego, a limpar as unhas da criana,
dizendo ao outro, baixinho:
- No sei como h mes que se separam de filhos desta idade... Tambm,
coitados! devem amargar muito!...
A sua voz tinha j completa solicitudes de amor materno.
O cnego levantou-se e foi encostar-se ao parapeito da varanda, enquanto
Ana Rosa, que continuava a cortar as unhas do menino, ia em segredo
perguntando a este se no tinha saudades da sua terra e se no chorava
ao lembrar-se da me.
Manuelzinho estava pasmado. Era a primeira vez que no Brasil lhe falavam
com aquela ternura. Levantou a cabea e encarou Ana Rosa; ele, que tinha
sempre o olhar baixo e terrestre, procurou, sem vacilar, os olhos da
rapariga e fitou-os, cheio de confiana, sentindo por ela um sbito
respeito, uma espcie de adorao inesperada. Afigurava-se
extraordinrio ao pobrezito desprezado de todos, que aquela senhora
brasileira, to limpa, to bem vestida, to perfumada e com as mos to
macias, estivesse ali a cortar-lhe e assear-lhe as unhas.
A principio foi isto para ele um sacrifcio horrvel, um suplcio
insuportvel. Desejava, de si para si, ver terminada aquela cena
incmoda; queria fugir daquela posio difcil; resfolegava, sem ousar
mexer com a cabea, olhando para os lados, de esguelha, como a procura
de uma sada, de algum lugar onde se escondesse ou de qualquer pretexto
que o arrancasse dali.
Senha-se mal com aquilo, que dvida! No se animava a respirar
livremente, receoso de fazer notar o seu hlito pela senhora; j lhe
doam as juntas do corpo, tal era a sua imobilidade contrafeita; no
mexia sequer com um dedo. Depois do primeiro minuto de sacrifcio, o
suor comeou logo a correr-lhe em bagas da cabea pela gola do jaqueto,
e o pequeno teve verdadeiros calafrios; mas quando Ana Rosa lhe falou da
ptria e da me, com aquela penetrante meiguice que s as prprias mes
sabem fazer, as lgrimas rebentaram-lhe dos olhos e desceram-lhe em
silncio pela cara.
Pois se era a primeira vez que no Brasil lhe falavam dessas coisas!...
O cnego assistia a tudo isto, calado, rufando sobre a sua tabaqueira de
ouro as unhas burnidas a cinza de charuto e a sorrir como um bom velho.
E, enquanto Ana Rosa, de cabea baixa, toda desvelos, tratava do
desgraadinho, provocando-lhe as lgrimas e contendo as prprias, sabe
Deus como! passava o Dias pelo fundo da varanda, sem ser sentido, o
andar de gato, levando no corao uma grande raiva, s pelo fato de ver
a filha do patro acarinhando o outro.
Ralava-o aquela caridade. Ele nunca tivera quem lhe cortasse as
unhas!... Amorfinava-o ver a Sra. Dona Ana Rosa as voltas com
semelhante bisca. Punha a perder de todo a peste do pequeno! Ora para
que lhe havia de dar!... embonecar o scio! Queria-o com certeza para
seu chichisbu! Contava j com ele para levar-lhe as cartas do desaforo
e trazer-lhe os presentinhos de flores e os recados dos pelintras!...
Ah! mas ele, o Dias, ali estava para lhes cortar as vazas!
O Dias, que completava o pessoal da casa de Manuel Pescada, era um tipo
fechado como um ovo, um ovo choco que mal denuncia na casca a podrido
interior. Todavia, nas cores biliosas do rosto, no desprezo do prprio
corpo, na taciturnidade paciente daquela exagerada economia,
adivinhava-se-lhe uma idia fixa um alvo, para o qual caminhava o
acrobata, sem olhar dos lados, preocupado, nem que se equilibrasse sobre
um corda tesa. No desdenhava qualquer meio para chegar mais depressa
aos fins; aceitava, sem examinar, qualquer caminho desde que lhe
parecesse mais curto; tudo servia, tudo era bom, contanto que o levasse
mais rapidamente ao ponto desejado. Lama ou brasa - havia de passar por
cima; havia de chegar ao alvo - enriquecer.
Quanto  figura, repugnante: magro e macilento, um tanto baixo um tanto
curvado, pouca barba, testa curta e olhos fundos. O uso constante dos
chinelos de trana fizera-lhe os ps monstruosos e chatos quando ele
andava, lanava-os desairosamente para os lados, como o movimento dos
palmpedes nadando. Aborrecia-o o charuto, o passeio, o teatro e as
reunies em que fosse necessrio despender alguma coisa; quando estava
perto da gente senta-se logo um cheiro azedo de roupas sugas.
Ana Rosa no podia conceber como uma mulher de certa ordem pudesse
suportar semelhante porco Enfim, resumia ela, quando, conversando com
amigas, queria dar-lhes uma idia justa do que era o Dias - sempre h um
homem que no tem coragem de comprar uma escova de dentes! As amigas
respondiam Iche! mas em geral tnhamos na conta de moo benfazejo e de
conduta exemplar.
 noite s deixava a porta do patro nos sbados, para ir ao peixe frito
em casa de uma mulata gorda que morava com duas filhas l para os
confins da Rua das Crioulas. Ia sempre sozinho. Nada de troas!
- No tenho amigos... dizia ele constantemente, tenho apenas alguns
conhecidos...
Nesses passeios levava s vezes uma garrafa de vinho do Porto ou uma
lata de marmelada, e chamava a isso fazer as suas extravagncias. A
mulata votava-lhe grande admirao e punha nele muita confiana:
dava-lhe a guardar os seus ouros e as suas economias. Alm desta,
ningum lhe conhecia outra relao particular; uma bela manh, porm, o
exemplar moo aparecera incomodado e pedira ao patro que lhe deixasse
ficar aquele dia no quarto. Manuel, todo solicito pelo seu bom
empregado, mandou-lhe l o mdico.
- Ento, que tinha o rapaz?
- Aquilo  mais porcaria que outra coisa, respondeu o facultativo,
franzindo o nariz; mas receitou, recomendando banhos momos. Banhos! de
banhos principalmente  que ele precisava!
E, quando viu o doente pela segunda vez, no se pde ter, que lhe no
dissesse:
- Olhe l, meu amigo, que o asseio tambm faz parte do tratamento!
E acabou provando que a limpeza no era menos necessria ao corpo do que
a alimentao, principalmente em um clima daqueles em que um homem esta
sempre a transpirar.
Manuel foi  noite ao quarto do caixeiro. Falou-lhe com brandura
paternal; lamentou-o com palavras amigveis, e desatou um protesto, em
forma de sermo contra o clima e os costumes do Brasil.
- Uma terrinha com que  preciso cuidado! Perigosa! Perigosa! dizia ele.
Aqui a gente tem a vida por um fio de cabelo!
Tratou depois, com entusiasmo, de Portugal; lembrou as boas comezainas
portuguesas: As caldeiradas deirozes, a orelheira de porco com feijo
branco, a acorda, o caldo gordo, o famoso bacalhau do Algarve!
- Ai! o pescado! suspirou o Dias, saudoso pela terra. Que rico pitu!
- E os nossos figos de comadre, e as nossas castanhas assadas, e o vinho
verde?
Dias escutava com gua
- Ai! a terra! .
O patro falou-lhe tambm das comodidades, dos ares, das frutas e por
fim dos divertimentos de Lisboa, terminando por contar fatos de
molstia; casos idnticos ao do Dias; transportou-se rindo ao seu tempo
de rapaz, e, j de p, pronto para sair, bateu-lhe no ombro,
carinhosamente:
- Voc, homem, o que devia era casar!...
E jurou-lhe que o casamento lhe estava mesmo calhando. O Dias, com
aquele gnio e com aquele mtodo, dava por fora um bom marido!... Que
se casasse, e havia de ver se nem teria outra importncia!...
- Olhe! concluiu, digo-lhe agora como o doutor Banhos! banhos, meu
amigo mas que sejam de igreja, compreende?
E, rindo com a prpria pilhria e todo cheio de sorrisos de boa
inteno, saiu do quarto na ponta dos ps, cautelosamente, para que os
outros caixeiros, a quem ele no dava a honra de uma visita daquelas,
no lhe ouvissem as pisadas.
Quando Ana Rosa acabou de cortar as unhas de Manuelzinho deu-lhe de
conselho que estudasse alguma coisa; prometeu que arranjaria com o pai
met-lo em uma aula noturna de primeiras letras, e recomendou-lhe que
todos os dias de manh tomasse o seu banho debaixo da bomba do poo.
- Faa isso, que serei por voc, rematou a moa, afastando-o com uma
ligeira palmada na cabea.
O menino retirou-se, muito comovido, para o andar de cima, mas o Dias,
de p, no tope da escada, esperava por ele, furioso.
- Que estava fazendo, seu traste?
- Nada, respondeu a criana, a tremer. Fora a senhora que o chamara!...
Dias, com um muno, explicou que o maroto no podia pr-se de palestra na
varanda, em vez de cuidar das obrigaes.
- E se me constar, acrescentou, cada vez mais zangado, que voc me toma
a ir com lamrias para o lado de Dona Anica, comigo se tem de haver, Seu
mariola! Vai tudo aos ouvidos do patro!
Manuelzinho arredou-se dali, convencido de que havia praticado uma
tremenda falta; no ntimo, porm, ia muito satisfeito com a idia de que
j nem estava to desamparado, e sentindo renascer-lhe, na obscura mgoa
do seu desterro, um desejo alegre de continuar a viver.
A reunio em casa do Freitas esteve animada. Houve violo, cantoria,
muita dana Chegaram a deitar chorado da Bahia.
Mas, pela volta da meia-noite, Ana Rosa, depois de uma valsa fora
acometida de um ataque de nervos. Era o terceiro que lhe dava assim, sem
mais nem menos.
Felizmente o mdico, chamado a toda a pressa afianou que aquilo no
valia nada. Distraes e bom passadio! receitou ele, e, ao despedir-se
de Manuel, segredou-lhe sorrindo:
- Se quiser dar sade  sua filha, trate de cas-la...
- Mas o que tem ela, doutor?...
- Ora o que tem! Tem vinte anos! Est na idade de fazer o ninho! mas,
enquanto no chega o casamento, ela que v dando os seus passeios a p.
Banhos frios exerccios, bom passadio e distraes! Percebe?
Manuel na sua ignorncia, imaginou que a filha alimentava ocultamente
algum amor mal correspondido. Sacudiu os ombros. No era ento coisa de
cuidado. E, em cumprimento as ordens do mdico, inaugurou com a enferma
longos passeios pela fresca da madrugada.
Da a dias, o cnego Diogo, contra a todos os seus hbitos, procurava o
compadre s sete horas da manh.
Atravessou o armazm, apressado como quem traz grande novidade, e, mal
chegou ao negociante, foi lhe dizendo em tom misterioso:
- Sabe? Faz sinal de aparecer, e  o Cruzeiro...
Manuel largou logo de mo o servio que fazia, subiu  varanda, deu as
suas providncias para receber um hspede, e em seguida ganhou a rua com
o amigo.
Eles a sarem de casa e a fortaleza de So Marcos a salvar, anunciando
com um tiro, a entrada de paquete brasileiro.
Os dois tomaram um escaler e foram a bordo.
CAPTULO 3
Da a pouco, entre as vistas interrogadoras dos curiosos, atravessou a
Praa do Comrcio um rapaz bem parecido, que ia acompanhado pelo cnego
Diogo e por Manuel.
A novidade foi logo comentada. Os portugueses vinham, com as suas
grandes barrigas. s portas dos armazns de secos e molhados os
barraqueiros espiavam por cima dos culos de tartaruga: os pretos
cangueiros paravam para mirar o cara-nova. O Perua-gorda, em mangas de
camisa, como quase todos os outros, acudiu logo  rua:
- Quem ser esse gajo,  coisa? perguntou ele ruidosamente a um scio
que passava na ocasio.
- Algum parente ou recomendado do Manuel Pescada. Veio do Sul.
-  aquele! sabes quem  o lanceiro que vai com o Pescada?
- No sei, homem, mas  um rapago!
Manuel apresentou o sobrinho a vrios grupos. Houve sorrisos de
delicadezas e grandes apertos de mo.
-  o filho de um mano do Pescada... diziam depois. Conhecemos-lhe muito
a vida! Chama-se Raimundo Estava nos estudos.
- Vem estabelecer-se aqui? indagou o Jos Buxo.
- No, creio que vem montar uma companhia...
Outros afianavam que Raimundo era scio capitalista da casa de Manuel.
Discutiam-lhe a roupa, o modo de andar, a cor e os cabelos. O Luisinho
Lngua de Prata afirmava que ele tinha casta.
Entretanto os trs subiam a Rua da Estrela.
Chegados a casa, onde j havia pronto um quarto para o Senhor Doutor
Raimundo Jos da Silva, o cnego e Manuel desfizeram-se em delicadezas
com o rapaz.
- Benedito! v cerveja! Ou prefere conhaque, doutor?... Olha moleque,
prepara guaran! Doutor, venha antes para este lado que esta mais
fresco... no faa cerimnias! V entrando! v entrando para a varanda!
O senhor est em sua casa!...
Raimundo queixava-se do calor.
- Est horrvel! dizia ele, a limpar o rosto com o leno. Nunca suei
tanto!
- O melhor ento  recolher-se um pouco e ficar  vontade. Pode mudar de
roupa, arejar-se A bagagem no tarda ai. Olhe, doutor, entre, entre e
veja se fica bem aqui!
Os trs penetraram no quarto destinado ao hspede.
- O senhor, disse Manuel, tem aqui janelas para a rua e para o quintal.
Ponha-se a gosto. Se precisar qualquer coisa,  s chamar pelo Benedito.
Nada de cerimnias!
Raimundo agradeceu muito penhorado.
- Mandei dar-lhe cama, acrescentou o negociante, porque o senhor
naturalmente no est afeito  rede, no entanto se quiser...
- No, no muito obrigado. Est tudo muito bom. O que desejo  repousar
um pouco justamente. Ainda tenho a cabea a andar  roda.
- Pois ento descanse, descanse, para depois almoar com mais apetite..
At logo.
E Manuel e mais o compadre afastaram-se, cheios de cortesia e sorrisos
de afabilidade.
Raimundo tinha vinte e seis anos e seria um tipo acabado de brasileiro
se no foram os grandes olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos muito
pretos lustrosos e crespos; tez morena e amulatada, mas fina; dentes
claros que reluziam sob a negrura do bigode; estatura alta e elegante;
pescoo largo, nariz direito e fronte espaosa. A parte mais
caracterstica da sua fisionomia era os olhos- grandes, ramalhudos,
cheios de sombras azuis; pestanas eriadas e negras, plpebras de um
roxo vaporoso e mido as sobrancelhas, muito desenhadas no rosto, como a
nanquim faziam sobressair a frescura da epiderme, que, no lugar da barba
raspada lembrava os tons suaves e transparentes de uma aquarela sobre
papel de arroz.
Tinha os gestos bem educados. sbrios, despidos de pretenso, falava em
voz baixa, distintamente sem armar ao efeito; vestia-se com seriedade e
bom gosto; amava as artes, as cincias, a literatura e, um pouco menos,
a poltica.
Em toda a sua vida, sempre longe da ptria, entre povos diversos, cheia
de impresses diferentes tomada de preocupaes de estudos, jamais
conseguira chegar a uma deduo lgica e satisfatria a respeito da sua
procedncia. No sabia ao certo quais eram as circunstncias em que
viera ao mundo no sabia a quem devia agradecer a vida e os bens de que
dispunha. Lembrava-se no entanto de haver sado em pequeno do Brasil e
podia jurar que nunca lhe faltara o necessrio e at o suprfluo. Em
Lisboa tinha ordem franca.
Mas quem vinha a ser essa pessoa encarregada de acompanh-la de to
longe?... Seu tutor, com certeza, ou coisa que o valha, ou talvez seu
prprio tio pois, quanto ao pai sabia Raimundo que j o no tinha quando
foi para Lisboa. No porque chegasse a conhec-lo, nem porque se
recordasse de ter ouvido de algum o doce nome de filho, mas sabia-o por
intermdio do seu correspondente e pelo que deduzia de algumas vagas
reminiscncias da meninice.
Sua me, porem, quem seria?... Talvez alguma senhora culpada e receosa
de patentear a sua vergonha!... Seria boa? Seria virtuosa?...
Raimundo perdia-se em conjeturas e, malgrado o seu desprendimento pelo
passado, sentia alguma coisa atra-lo irresistivelmente para a ptria.
Quem sabia se ai no descobriria a ponta do enigma?... Ele, que sempre
vivera rfo de afeies legtimas e duradouras, como ento seria
feliz!... Ah, se chegasse a saber quem era sua me, perdoar-lhe-ia tudo,
tudo!
O quinho de ternura, que a ela pertencia, estava intacto no corao do
filho. Era preciso entreg-lo a algum! Era preciso desvendar as
circunstncias que determinaram o seu nascimento!
Mas, no fim de contas, refletia Raimundo em um retrocesso natural de
impresses, que diabo tinha ele com tudo isso, se at ai, na ignorncia
desses fatos, vivera estimado e feliz!... No foi decerto para
semelhante coisa que viera  provncia! Por conseguinte, era liquidar os
seus negcios, vender os seus bens e - por aqui  o caminho! O Rio de
Janeiro l estava a sua espera!
Abriria, ao chegar l, o seu escritrio, e, ao lado da mulher com quem
casasse e dos filhos que viesse a ter, nem sequer havia de lembrar-se do
passado!
Sim, que mais poderia desejar melhor?... Conclura os estudos viajara
muito, tinha sade, possua alguns bens de fortuna. - Era caminhar pra
frente e deixar em paz o tal - passado! - O passado, passado! Ora
adeus!
E, chegando a esta concluso, sentia-se feliz, independente, seguro
contra as misrias da vida, cheio de confiana no futuro. E por que no
havia de fazer carreira? Ningum podia ter melhores intenes do que
ele?.. No era um vadio, nem homem de maus instintos; aspirava ao
casamento,  estabilidade; queria, no remanso de sua casa, entregar-se
ao trabalho srio, tirar partido do que estudara, do que aprendera na
Alemanha, na Frana, na Sua e nos Estados Unidos. Faltava-lhe apenas
vir ao Maranho e liquidar os seus negcios. - Pois bem! c estava - era
aviar e pr-se de novo a caminho!
Foi com estas idias que ele chegou  cidade de So Lus. E agora, na
restauradora liberdade do quarto, depois de um banho tpido, o corpo
ainda meio quebrado da viagem, o charuto entre os dedos, sentia se
perfeitamente feliz, satisfeito com a sua sorte e com a sua conscincia
- Ah! bocejou fechando os olhos.  liquidar os negcios e pr-me ao
fresco!...
E, com um novo bocejo, deixou cair ao cho o charuto, e adormeceu
tranqilamente.
No entanto, a histria de Raimundo, a histria que ele ignorava, era
sabida por quantos conheceram os seus parentes no Maranho.
Nasceu numa fazenda de escravos na Vila do Rosrio, muitos anos depois
que seu pai, Jos Pedro da Silva ai se refugiara, corrido do Par ao
grito de Mata bicudo! nas revoltas de 1831.
Jos da Silva havia enriquecido no contrabando dos negros da frica e
fora sempre mais ou menos perseguido e malquisto pelo povo do Par; at
que, um belo dia, se levantou contra ele a prpria escravatura, que o
teria exterminado, se uma das suas escravas mais moas por nome
Domingas, no o prevenisse a tempo. Logrou passar inclume ao Maranho,
no sem pena de abandonar seus haveres e risco de cair em novos dios,
que esta provncia, como vizinha e tributria do comrcio da outra,
sustentava instigada pelo Farol contra os brasileiros adotivos e contra
os portugueses. Todavia, conseguiu sempre salvar algum ouro; metal que
naquele bom tempo corria abundante por todo o Brasil e que mais tarde a
Guerra do Paraguai tinha de transformar em condecoraes e fumaa.
A fuga fizeram eles, senhor e escrava, a p, por maus caminhos,
atravessando os sertes. Ainda no existia a companhia de vapores e os
transportes martimos dependiam ento de vagarosas barcas, a vela e remo
e, s vezes, puxadas a corda, nos igaraps. Foram dar com os ossos no
Rosrio. O contrabandista arranjou-se o melhor que pde com a escrava
que :. e restava, e, mais tarde, no lugar denominado So Brs, veio a
comprar uma fazendola, onde cultivou caf, algodo, tabaco e arroz.
Depois de vrios abortos, Domingas deu  luz um filho de Jos da Silva.
Chamou-se o vigrio da freguesia e, no ato do batismo da criana, esta,
como a me, receberam solenemente a carta de alforria.
Essa criana era Raimundo.
Na capital, entretanto, acalmavam-se os nimos. Jos prosperou
rapidamente no Rosrio; cercou a amante e o filho de cuidados;
relacionou-se com a vizinhana, criou amizades, e, no fim de pouco
tempo, recebia em casamento a Sra. Dona Quitria Inocncia de Freitas
Santiago, viva, brasileira rica, de muita religio e escrpulos de
sangue, e para quem um escravo no era um homem, e o fato de no ser
branco, constitua s por si um crime.
Foi uma fera! a suas mos, ou por ordem dela, vrios escravos sucumbiram
ao relho, ao tronco,  fome,  sede, e ao ferro em brasa. Mas nunca
deixou de ser devota, cheia de supersties; tinha uma capela na
fazenda, onde a escravatura, todas as noites com as mos inchadas pelos
bolos, ou as costas lanhadas pelo chicote, entoava splicas  Virgem
Santssima. me dos infelizes.
Ao lado da capela o cemitrio das suas vtimas.
Casara com Jos da Silva por dois motivos simplesmente: porque precisava
de um homem, e ali no havia muito onde escolher, e porque lhe diziam
que os portugueses so brancos de primeira gua.
Nunca tivera filhos Um dia reparou que o marido, a titulo de padrinho,
distinguia com certa ternura, o crioulo da Domingas e declarou logo que
no admitia, nem mais um instante, aquele moleque na fazenda.
- Seu negreiro! gritava ela ao marido, fula de raiva. Voc pensa que lhe
deixarei criar, em minha companhia, os filhos que voc tem das
negras?... Era s tambm o que faltava No trate de despachar-me,
quanto antes, o moleque, que serei eu quem o despacha, mas h de ser
para ali, para junto da capela!
Jos, que sabia perfeitamente de quanto ela era capaz, correu logo 
vila para dar as providncias necessrias  segurana do filho. Mas, ao
voltar  fazenda, gritos horrorosos atrairam-no ao rancho dos pretos.
entrou descorooado e viu o seguinte:
Estendida por terra, com os ps no tronco, cabea raspada e mos
amarradas para trs, permanecia Domingos, completamente nua e com as
partes genitais queimadas a ferro em brasa. Ao lado, o filhinho de trs
anos, gritava como um possesso, tentando abra-la, e, de cada vez que
ele se aproximava da me, dois negros, a ordem de Quitria, desviavam o
relho das costas da escrava para dardej-lo contra a criana. A megera,
de p, horrvel, bbada de clera, ria-se, praguejava obscenidades,
uivando nos espasmos flagrantes da clera Domingas, quase morta, gemia,
estorcendo-se no cho O desarranjo de suas palavras e dos seus gestos
denunciava j sintomas de loucura.
O pai de Raimundo, no primeiro assomo de indignao, to furioso
acometeu sobre a esposa, que a fez cair. Em seguida, ordenou que
recolhessem Domingas  casa dos brancos e que lhe prodigalizassem todos
os cuidados.
Quitria, a conselho do vigrio do lugar, um padre ainda moo, chamado
Diogo, o mesmo que batizara Raimundo, fugiu essa noite para a fazenda de
sua me, Dona rsula Santiago, a meia lgua dali.
O vigrio era muito da casa das Santiago; dizia-se at aparentado com
elas. O caso  que foi na qualidade de confessor, parente e amigo, que
ele acompanhou Quitria.
Jos da Silva, por esse tempo, chegava  cidade de So Lus com o filho.
Procurou seu irmo mais moo, o Manuel Pedro, e entregou-lhe o pequeno,
que ficaria sob as vistas do tio at ter idade para matricular-se num
colgio de Lisboa.
Feito isso, tornou de novo para a sua roga. Agora contava viver mais
descansado. era natural que a mulher se deixasse ficar em casa da me.
Ao chegar l, sabendo que no o esperavam essa noite e como visse luz no
quarto da esposa, apeou-se em distncia e, para no se encontrar com
ela, guardou o cavalo e entrou silenciosamente na fazenda.
Os ces conheceram-no pelo faro e apenas rosnaram. Mas, na ocasio em
que ele passava de fronte do quarto de Quitria, ouviu a sussurros de
vozes que conversavam. Aproximou-se levado pela curiosidade e encostou o
ouvido  porta. Reconheceu logo a voz da mulher.
Mas, com quem diabo ela conversaria aquela hora?...
Conteve a impacincia e esperou de ouvido alerta.
No havia dvida! - a outra voz era de um homem!...
Sem esperar mais nada, meteu ombros  porta e, precipitou-se dentro do
quarto, atirando-se com fria sobre a esposa, que perdera logo os
sentidos.
O padre Diogo, pois era dele a outra voz, no tivera tempo de fugir e
cara, trmulo, aos ps de Jos. Quando este largou das mos a traidora,
para se apossar do outro, reparou que a tinha estrangulado. Ficou
perplexo e tolhido de assombro.
Houve ento um silncio ansioso. Ouvia-se o resfolegar dos dois homens.
A situao dificultava-se; mas o vigrio, recuperando o sangue-frio,
ergueu-se, concertou as roupas e, apontando para o corpo da amante,
disse com firmeza:
- Matou-a! Voc  um criminoso!
- Cachorro! E tu?! Tu sers porventura menos criminoso do que eu?
- Perante as leis, decerto! porque voc nunca poder provar a minha
suposta culpa e, se tentasse faz-lo, a vergonha do fato recairia toda
sobre a sua prpria cabea, ao passo que eu, alm do crime de injria
consumado na minha sagrada pessoa, sou testemunha do assassnio desta
minha infeliz e inocente confessada, assassnio que facilmente
documentarei com o corpo de delito que aqui est!
E mostrava a marca das mos de Jos na garganta do cadver.
O assassino ficou aterrado e abaixou a cabea.
- Vamos l!... disse o padre afinal, sorrindo e batendo no ombro do
portugus. Tudo neste mundo se pode arranjar, com a divina ajuda de
Deus... s para a morte no h remdio! Se quiser, a defunta ser
sepultada com todas as formalidades civis e religiosas...
E, dando  voz um cunho particular de autoridade: - Apenas pelo meu
silncio sobre o crime, exijo em troca o seu para a minha culpa...
Aceita?
Jos saiu do quarto, cego de clera, de vergonha e de remorso.
- Que vida a sua! exclamava. Que vida, santo Deus!
O padre cumpriu a promessa o cadver enterrou-se na capela de So Brs,
ao lado das suas vtimas; e todos os do lugar, at mesmo os de casa,
atriburam a morte de Quitria ao esprito maligno que se lhe havia
metido no corpo.
O vigrio confirmava esses boatos e continuava a pastorar tranqilamente
o seu rebanho, sempre tido por homem de muita saudade e de grandes
virtudes teolgicas. Os devotos continuaram a trazer-lhe, de muitas
lguas de distncia, os melhores bcoros, galinhas e perus dos seus
cercados.
Em breve, as coisas voltavam todas aos eixos: Jos entregou a fazenda a
Domingas e mais trs pretos velhos, que alforriou logo, e, acompanhado
pelo resto da escravatura, seguiu para a cidade de So Lus, no
propsito de liquidar seus bens e recolher-se  ptria com o filho.
A me de Raimundo conseguiu enfim descansar. So Brs criou a sua lenda
e foi aos poucos ganhando fama de amaldioada. Entretanto, o pequeno,
quando chegou  casa do tio na capital, estava, como facilmente se pode
julgar, com a pele sobre os ossos. A falta de cuidados espalhara-lhe na
carinha opada uma expresso triste de molstia; quase que no conseguia
abrir os olhos. Todo ele era mau trato e fraqueza; tinha o estmago
muito sujo, a lngua saburrenta, o corpo a finar-se de reumatismo e
tosse convulsa, o sangue predisposto  anemia escrofulosa. Apesar do
instinto materno, que a tudo resiste e vence, a pobre escrava no podia
olhar nunca pelo filho: l estava Quitria para desvi-la dele, para
cortar-lhe as carcias a chicote; tanto assim, que, quando Jos lhe
anunciou que Raimundo ia para a casa do fio na cidade, a infeliz
abenoou com lgrimas desesperadas aquela separao.
Todavia, o desgraadinho foi encontrar em Mariana, cunhada de seu pai, a
mais carinhosa e terna das projetoras. A boa senhora, como sabia que o
marido o pouco que tinha devia  generosidade do irmo, julgou-se logo
obrigada a servir de me ao filho deste. Ana Rosa, nico fruto do seu
casamento, ainda no era nascida nesse tempo, de sorte que as premissas
da sua maternidade pertenceram ao pupilo.
Dentro em pouco, no agasalho carinhoso daquelas asas de me, Raimundo,
de feio que era, tornou-se uma criana forte, s e bonita.
Foi ento que Ana Rosa veio ao mundo; a principio muito fraquinha e
quase sem dar acordo de si. Manuel andava aflito, com medo de perd-la.
Que luta, os trs primeiros meses de sua vida! Parecia morrer a todo
instante, coitadinha! Ningum dormia na casa; o negociante chorava como
um perdido, enquanto a mulher fazia promessas aos santos da sua devoo.
Era por isto que a menina, mais tarde, se recordava agradavelmente de
ter feito o anjo da vernica nas procisses da quaresma.
E ao lado de Mariana, que noite e dia velava o bero da filhinha
enferma, estava Mundico, o outro filho, que este tambm a chamava de me
e j se no lembrava da verdadeira, da preta que o trouxera nas
entranhas.
A menina salvou-se, graas aos bons servios de um mdico, que chegara
havia pouco da universidade de Montpellier, Doutor Jauffret, e, a partir
da Manuel no quis saber de outro facultativo em sua casa.
Por essa poca, mais ou menos, chegava do Rosrio a notcia de haver
Dona Quitria sucumbido a uma congesto cerebral.
- Deu-lhe de repente! explicava o correio, com o seu saco de couro s
costas. Foi obra do sujo, credo!
E, pouco depois, Jos Pedro da Silva, todo coberto de luto, muito
encanecido e desfeito, vinha liquidar os seus negcios e partir logo
para Portugal. Manuel estimava-o deveras e sentia-se de v-lo naquele
estado.
Aprontou-se tudo para a viagem e Jos recolheu-se a ltima noite em casa
do irmo. Mas no pde pregar olho, estava excitado, e a lembrana dos
terrveis sucessos, que ultimamente se haviam dado com ele, nunca o
apoquentara tanto. Levantou-se e comeou a passear no quarto, a falar
sozinho, nervoso, delirante, vendo surgir espectros de todos os lados.
Pelas quatro horas da madrugada, Manuel, impressionado, porque, de todas
as vezes que acordava, via luz no quarto do hspede e ouvia-lhe o som
dos passos trpegos e vacilantes, e sentia-lhe os gemidos abafados e o
vozear frouxo e doloroso, no se pde ter e levantou-se. Ter alguma
coisa o Jos?... pensou ele, embrulhando-se no lenol e tomando aquela
direo. A porta achava-se apenas no trinco, abriu-a devagar e entrou. O
vivo, ao sentir algum, voltou-se assombrado e dando com o fantasma que
lhe invadia a alcova, recuou de braos erguidos, entre gritos terror.
Manuel correu sobre ele; mas antes que se desse a conhecer, j o
assassino de Quitria havia caldo desamparadamente no cho.
Fez-se logo um grande motim por toda a casa, que era nesse tempo no
Caminho Grande, e na qual os caixeiros do negociante ainda nem moravam
com o patro. A boa Mariana acudiu pronta cheia de zelo. Um
escalda-ps! depressa! dizia, apalpando os contrados e volumosos ps
do cunhado. Tisanas, mezinhas de toda a espcie, foram lembradas; ps-se
em campo a medicina domstica, e, da a uma hora o desfalecido voltava a
si.
Mas no pde erguer-se: ficara muito prostrado.  sncope sobreveio-lhe
uma febre violenta, que durou at  noite, quando chegou afinal o
Jauffret.
Era uma febre gstrica, explicou este. E mais: que a molstia; requeria
certo cuidado; muito sossego de esprito! Nada de bulha, principalmente!
Jos, malgrado a recomendao do mdico, quis ver o filho. Abraou-o
soluando, disse-lhe que estava para morrer. E no outro dia ainda de
cama, perfilhou-o; pediu um tabelio, fez testamento e, chorando, chamou
Manuel para seu lado.
- Meu irmo, recomendou-lhe. Se eu for desta... o que  possvel,
remete-me logo o pequeno para a casa do Peixoto em Lisboa.
Terminou dizendo que o queria - com muito saber - que o metessem num
colgio de primeira sorte. Ficava ai bastante dinheiro... no tivessem
pena de gastar com o seu filho; que lhe dessem do melhor e do mais
fino. Estas coisas fizeram-no piorar; j todos os choravam como morto,
e, pelos dias de mais risco, quando Jos delirava na sua febre, apareceu
em casa do Manuel o proco do Rosrio; vinha muito solicito, saber do
estado do seu amigo Jos do seu irmo dizia ele com uma grande
piedade.
E da, no abandonava a casa. Prestava-se a um tudo, servial discreto,
s vezes choramingando porque lhe vedavam a entrada no quarto do enfermo
Manuel e Mariana no se furtavam de apreciar aquela solicitude do bom
padre, o interesse com que ele chegava todos os dias para pedir noticias
do amigo. Dispensavam-lhe um grande acolhimento; achavam-no meigo,
jeitoso e simptico.
-  um santo homem! dizia Manuel convencido.
Mariana confirmava acrescentando em voz baixa:
- Por adulao no , coitado! Todos sabem que o padre Diogo no precisa
de migalhas!...
-  remediado de fortuna, pois no! Mas, olhe, que sabe aplicar bem o
que possui...
Seguia-se uma longa resenha dos episdios louvveis da vida do santo
vigrio; citavam-se rasgos de abnegao, boas esmolas a criaturas
desamparadas, perdes de ofensas graves, provas de amizade e provas de
desinteresse. Um santo! Um verdadeiro santo!
E assim foi o padre Diogo tomando p em casa de Manuel e fazendo-se todo
de l. J contavam com ele para padrinho de Ana Rosa; esperavam-no todas
as tardes com caf, e  noite, nos seres da famlia, marido e mulher
no perdiam ocasio de contar as boas pilhrias do senhor vigrio,
glorificar-lhe as virtudes religiosas e recomend-lo s visitas como um
excelente amigo e magnfico protetor. Um dia em que ele, como sempre,
cheio de solicitude, perguntava pelo seu doente disseram-lhe que Jos
estava livre de maior perigo e que o restabelecimento seria completo com
a viagem  Europa. Diogo sorriu, aparentemente satisfeito; mas, se
algum lhe pudesse ouvir o que resmungava ao descer as escadas,
ter-se-ia admirado de ouvir estas e outras frases:
- Diabo!... Querem ver que ainda no se vai desta, o maldito?... E eu,
que j o tinha por despachado!...
No dia seguinte, dizia o velhaco ao futuro compadre: - Bom, agora que o
nosso homem est livre de perigo, posso ir mais sossegado para a minha
parquia... J no vou sem tempo!...
E despediu-se, todo boas palavras e sorrisos anglicos, acompanhado
pelas bnos da famlia.
- Senhor vigrio! gritou-lhe Mariana do patamar da escada. No faa
agora como os mdicos, que s aparecem com as molstias!... Seja c de
casa! Venha de vez em quando, padre! acrescentou Manuel. Aparea!
Diogo prometeu vagamente, e nesse mesmo dia atravessou o Boqueiro em
demanda da sua freguesia.
Essa noite, nas salas de Manuel, s se conversou sobre as boas
qualidades e os bons precedentes do estimado cura do Rosrio.
Jos, com geral contentamento dos de casa, convalescia prodigiosamente.
Manuel e Mariana cercavam-no de afagos, desejosos por faz-lo esquecer a
imprudncia da madrugada fatal, o que, supunham, fosse o nico motivo da
molstia; da a coisa de um ms, o convalescente resolveu tomar 
fazenda, a despeito das instncias contrrias da cunhada e dos conselhos
do irmo.
- Que vais l fazer, homem de Deus? perguntava este. Se era por causa da
Domingas, que diabo! fizesse-a vir! O melhor porm, segundo a sua fraca
opinio, seria deix-la l onde estava. Uma preta da roa, que nunca
saiu do mato!...
No! no era isso! respondia o outro. Mas nem iria para a terra, sem ter
dado uma vista dolhos ao Rosrio!
- Ao menos no vai s, Jos. Eu posso acompanhar-te.
Jos agradeceu. Que j estava perfeitamente bom. E, em caso de
necessidade, podia contar com os canoeiros, que eram todos seus homens.
E dizia as inmeras viagens que tinha feito at ali; contava episdios a
respeito do Boqueiro. E que se deixassem disso! No estivessem a fazer
daquela viagem um bicho de sete cabeas!... Haviam de ver que, antes do
fim do ms, estava ele de velas para Lisboa.
Partiu. A viagem correu-lhe estpida, como de costume naquele tempo, em
que o Maranho ainda no tinha vapores. Demais, a sua fazenda era longe,
muito dentro, a cinco lguas da vila. Urgia, por conseguinte, demorar-se
a algumas horas antes de internar-se no mato; comer, beber, tratar dos
animais; arranjar conduo e fazer a matalotagem.
Os poucos familiarizados com tais caminhos tomam sempre, por precauo,
um pajem,  este o nome que ali romanticamente se d ao guia; e o
pajem menos serve para guiar o viajante, que a estrada  boa, do que
para lhe afugentar o tenor dos mocambos, das onas e cobras de que falam
com assombro os moradores do lugar.
No  to infundado aquele tenor: o serto da provncia est cheio de
mocambeiros, onde vivem os escravos fugidos com suas mulheres e seus
filhos, formando uma grande famlia de malfeitores. Esses desgraados,
quando no podem ou no querem viver da caa, que  por l muito
abundante e de fcil venda na vila, lanam-se  rapinagem e atacam na
estrada os viajantes; travando-se, s vezes, entre uns e outros,
verdadeiras guerrilhas, em que ficam por terra muitas vtimas.
Jos da Silva comprou na vila o que lhe convinha e seguiu, sem pajem
para a fazenda.
Ah! Ele conhecia perfeitamente essas paragens!...
E quantas recordaes no lhe despertavam aquelas carnaubeiras
solitrias, aqueles pindovais ermos e silenciosos e aqueles trmulos
horizontes de verdura! Quantas vezes, perseguindo uma paca ou um veado,
no atravessou ele, a galope, aqueles barrancos perigosos que se perdiam
da estrada!
Pungia-lhe agora deixar tudo isso; abandonar o encanto selvagem das
florestas brasileiras O europeu sentia-se americano, familiar s vozes
misteriosas daqueles caits sempre verdejantes, habituado  companhia
austera daquelas rvores seculares, s sestas preguiosas da fazenda, ao
viver amplo da roga, descalo, o peito nu, a rede embalada pela virao
cheirosa das matas, o sono vigiado por escravos.
E tinha de deixar tudo isso!
Para que negar? Havia de custar-lhe muito! considerou ele, fazendo
estacar o seu animal. Havia andado quatro lguas e precisava comer
alguma coisa.
No interior do Maranho o viajante, de ordinrio, pousa e come nas
fazendas que vai encontrando pelo caminho, tanto que todas elas,
contando j com isso, tm sempre cmodos especiais, destinados
exclusivamente aos hspedes adventcios; mas com Jos da Silva, que,
alis muitas e muitas vezes pernoitara em diversas e conhecia de perto a
hospitalidade dos seus vizinhos, a coisa mudava agora de figura: no
queria de forma alguma suportar a companhia de ningum; receava que o
interrogassem sobre a morte da mulher. Preferiu pois jantar mesmo ao
relento, e seguir logo sua viagem.
No obstante, ia j escurecendo, as cigarras estridulavam em coro;
ouvia-se o lamentoso piar das rolas que se aninhavam para dormir; toda a
natureza se embuava em sombras, bocejando.
Anoitecia lentamente.
Ento, Jos da Silva sentiu mais negra por dentro a sua viuvez; sentiu
um grande desejo de chegar a casa, mas queria encontrar uma boa mesa,
onde comesse e bebesse  vontade, como dantes; queria a sua cama larga,
de casados, o seu cachimbo, o seu trajo de casa.
Ah! Nada disso encontraria!... O quarto, em que ele, durante tantos
anos, dormia feliz, devia ser quela hora um ermo pavoroso; a cozinha
devia estar gelada, os armrios vazios, a horta murcha, os potes secos,
o leito sem mulher!
Que desconsolo!
Apesar de tudo sentia fundas saudades da esposa.
- Como o homem precisa de famlia! .. lamentava ele no seu isolamento.
Ah padre! Aquele maldito padre! E da, quem sabe?... se eu perdoasse?...
ela talvez se arrependesse e viesse ainda a dar uma boa companheira,
virtuosa e dcil!... Mas... e ele?... Oh nunca! Ele existiria! A duvida
continuava na mesma! Ele, s ele  que eu devia ter matado!
E depois de refletir um instante:
- No! antes assim! Assim foi melhor!
Esta concluso, arrancada s pelo seu esprita religioso, foi seguida de
um movimento rpido de esporas. O cavalo disparou. Fez-se ento um
correr vertiginoso, em que Jos, todo vergado sobre a sela, parecia
dormir na cadeia do galope. Mas, de sbito, contraiu as rdeas e o
animal estacou.
O cavaleiro torceu a cabea, concheando a mo atrs da orelha. Vinha de
longe uma toada estranha de vozes sussurrantes, e um confuso tropel de
cavalgaduras.
A noite exalava da floresta. Sentiam-se ainda as derradeiras claridades
do dia e j tambm um crescente acumular de sombras. A lua erguia se,
brilhando com a altivez de um novo monarca que inspeciona os seus
domnios, e o cu ainda estava todo ensangentado da prpura do ltimo
sol, que fugia no horizonte, trmulo. como um rei expulso e
envergonhado.
Jos da Silva, entregue todo aos seus tormentos. assistia, sem apreciar,
ao espetculo maravilhoso de um crepsculo de vero no extremo norte do
Brasil.
O sol descambava no ocaso, retocando de tons quentes e vigorosos, com a
minuciosidade de um pintor flamengo, tudo aquilo que o cercava. Desse
lado, montes e vales tinham orlas de ouro; era tudo vermelho e
esfogueado: ao passo que, do ponto contrrio, lhe opunha o luar o doce
contraste da sua luz argentina e fresca, debuxando contra o horizonte o
trmulo e duvidoso perfil das carnaubeiras e dos pindovais.
Destas bandas, no conflito boreal daquelas duas luzes inimigas, um grupo
mal definido e rumoroso agitava-se e crescia progressivamente.
Era uma caravana de ciganos que se aproximava.
Vinha lentamente, com o passo frouxo de uma boiada. Na solido tristonha
e sombria da floresta iam-se pouco a pouco distinguindo vozes de tons
diversos e acentuavam-se grupo de homens. mulheres e crianas, de todas
as cores e de todas as idades, cavalgando magnficos animais. Uns
cantavam ao embalo montono da besta; outros tocavam viola; esta
acalentava o filho, aquela repetia as modas que lhe ensinara a gajoa.
Viam-se moos. de cala e quinzena, cabelos grandes, o ar indolente, o
cachimbo ao canto da boca, o olhar vago e cheio de volpia, ao lado de
raparigas fortes, queimadas do sol, com as melenas muito negras e lisas
escorrendo sobre a opulncia das espduas. Sentavam-se  moda de
odaliscas em volumosas trouxas, que serviam, a um tempo, de alforje e de
sela. Algumas delas traziam filhos ao colo ou na garupa do cavalo.
E, lenta e pesadamente, a caravana dos ciganos se aproximava. Jos
escondeu-se no mato, para a ver passar.
Com certeza vinha enxotada de alguma fazenda, porque o chefe, um velho
membrudo, de grandes barbas brancas, olhos cor de fumo, cavados e
sombrios, mas irrequietos e vivos, erguia, de vez em quando, o brao e
ameaava o poente:
- Jacars te piquem diabo! Atravessado tu sejas na boca de um bacamarte!
E a voz rouca e profunda do ancio perdia-se na floresta.
Meio deitada nas pernas dele, cingindo-lhe a cintura, uma mulher bela, o
colo nu e fresco, a garganta lisa e carnuda, procurava, com o olhar
muito mole de uma ternura mida e escrava, diminuir-lhe a clera.
E a caravana, iluminada pelos ltimos raios da claridade poente, foi
passando. E a pouco e pouco o sussurrar das vozes foi se perdendo no
tristonho murmrio das matas, como no horizonte se perdia a ltima
rstia de luz vermelha.
Em breve, tudo recaiu no silncio primitivo, e a lua, do alto, baldeava
com a sua luz misteriosa e triste a solido das clareiras.
Jos ficou imvel, pensativo, perdido num desgosto invencvel. O
espetculo daquele velho bomio, abraado a uma mulher bonita e sem
dvida fiel, mordia-o por dentro com o dente mais agudo da inveja.
Aquele. um vagabundo, um miservel. sem lar, sem dinheiro, sem mocidade
ao menos, tinha contudo nesta vida uma fmea que o acarinhava e seguia
como escrava: ao passo que ele, ali, no meio do campo, desacompanhado,
inteiramente esquecido, chorava, porque lhe arrancaram tudo, tudo - a
casa, a mulher e a felicidade! E depois pela associao natural das
idias, punha-se a lembrar do rosto plido de Diogo. A despeito do dio
que lhe votava, achava-o bonito, com o seu cabelo todo anelado, o
sorriso temo e piedoso, olhos e lbios de uma expresso sensual e ao
mesmo tempo religiosa. Este contraste devia por fora agradar s
mulheres, venc-las pelos mistrios, pelo incognoscvel. E chorava,
chorava cada vez mais.
Como eles no se amariam!... Quanto prazer no teriam desfrutado!... 
Instintivamente comparava-se ao padre e, cheio de raiva, de inveja,
reconhecia-se inferior. De repente, veio-lhe esta idia:
E se eu o matasse?...
Repeliu-a logo, sem querer nem ao menos escut-la; mas a idia no ia e
agarrava-se-lhe ao crebro, com uma obstinao de parasita.
Ento, vieram-lhe  lembrana, sob uma reminiscncia lcida e saudosa. O
seu casamento, os sobressaltos felizes do noivado, o namoro de Quitria.
Tudo isso nunca lhe pareceu to bom, to apetecvel como naquele
momento. Agora, descobria na mulher virtudes e belas qualidades, para as
quais nunca atentara dantes.
Seria eu o culpado de tudo?... No teria cumprido com os meus deveres
de bom esposo?.. Seriam insuficientes os meus carinhos?.. interrogava
ele  prpria conscincia; esta respondia opondo-lhe duvidas que valiam
acusaes. Ele defendia-se, explicava os fatos, citava provas em favor,
lembrava a sua dedicao e a sua amizade pela defunta; mas a maldita
rezingueira no se acomodava e no aceitava razes. E Jos abriu a
chorar como um perdido.
Surpreendeu-se neste estado; quis fugir de si mesmo, e cravou as esporas
no cavalo. Correu muito,  rdea solta como se fugira perseguido pela
prpria sombra.
E se eu o matasse?...
Era a maldita idia que vinha de novo  superfcie dos seus pensamentos.
No! No! E ele a repelia de novo empurrando-a para o fundo da sua
imaginao, como o assassino que repele no mar o cadver da sua vtima;
ela mergulhava com o impulso, mas logo reaparecia, boiando.
E se eu o matasse?...
- No! no! exclamou, desferindo um grito no silncio da floresta. J
basta a outra!
E assanhavam-se-lhe os remorsos.
Nesse momento uma nuvem escondera a lua. Espectros surgiam no caminho;
Jos suava e tremia sobre a sela; o mais leve mexer de galhos
eriava-lhe os cabelos.
No entanto - corria.
Pouco lhe faltava j para chegar  fazenda, muito pouco, uma miservel
distancia, e, contudo, mais lhe custava esse pouco do que todo o resto
da viagem. Fechou os olhos e deixou que o cavalo corresse  toa,
galopando ruidosamente na terra mida de orvalho. Ele ofegava, acossado
por fantasmas Via a sua vitima. com a boca muito aberta, os olhos
convulsos, a falar-lhe coisas estranhas numa voz de moribunda, a lngua
de fora, enorme e negra, entre gorgolhes de sangue. E via tambm surgir
aquele padre infame, bater-lhe no ombro, apresentar-lhe, sorrindo, um
alvitre, propor uma condio e passar logo  ameaa brutal: Tenho-te na
mo, assassino! Se quiseres punir-me, entrego-te  justia! 
E Jos gritou, como doido, soluando:
- E eu aceitei, diabo! Eu aceitei!
Nisto, o cavalo acuou. Um vulto negro agitou-se por detrs do tronco de
um ingazeiro, e uma bala, seguida pela detonao de um tiro, varou o
peito de Jos da Silva.
Os negros de So Brs viram aparecer l o animal as soltas, e todo
salpicado de sangue, tinham ouvido um tiro para as bandas da estrada,
correram todos nessa direo  procura da vtima.
Foi Domingas que a descobriu, e, num delito, precipitou-se contra o
cadver, a beijar-lhe as mos e as faces.
- Meu senhor! meu querido meus amores! exclamava ela, a soluar
convulsivamente.
Mas, tomada de uma idia sbita, ergueu-se, e gritou, apontando
vagamente para o lado da vila.
- Foi ele! No foi outro! Foi aquele malvado! Foi aquele padre do diabo!
E ps-se a rir e a danar, batendo palmas e cantando. Era a loucura que
voltava.
O crime foi atribudo aos mocambeiros e o corpo de Jos da Silva
enterrado junto  sepultura da mulher, ao lado da capela, que
principiava a desmoronar com a mingua dos antigos cuidados.
A fazenda aos poucos se converteu em tapera e lendas e supersties de
todo o gnero se inventaram para explicar-lhe o abandono. O vigrio do
lugar, pessoa insuspeita e criteriosa, nem s confirmava o que diziam,
como aconselhava a que no fossem l. Aquilo eram terras
amaldioadas!
Anos depois, contavam que nas runas de So Brs vivia uma preta
feiticeira, que, por alta noite, saia pelos campos a imitar o canto da
me-da-lua.
Ningum se animava a passar perto dali, e o caminheiro descuidado, que
se perdesse em tais paragens, via percorrer o cemitrio, a cantar e a
rodar, um vulto alto e magro de mulher, coberto de andrajos.
A morte inesperada de Jos causou grande abalo no irmo e ainda mais em
Mariana. Raimundo era muito criana, no a compreendeu; por esse tempo
teria ele cinco anos, se tanto. Vestiram-no de sarja preta e
disseram-lhe que estava de luto pelo pai. Manuel tratou do inventrio;
recebeu o que lhe coube e mais a mulher na herana; depositou no
recm-criado banco da provncia o que pertencia ao rfo e, apesar das
vantagens que props para vender ou arrendar a fazenda de So Brs,
ningum a quis. Isto feito, escreveu logo para Lisboa, pedindo
esclarecimentos  Casa Peixoto, Costa e Companhia., e uma vez bem
informado no que desejava, remeteu o sobrinho para um colgio daquela
cidade.
Muito custou  bondosa Mariana separar-se de Raimundo. Doa aquele
corao amoroso ver expatriar-se, assim, to sem me, uma pobre criana
de cinco anos. O pequeno, todavia, depois de preparado com todo o
desvelo, foi metido, a chorar, dentro de um navio, e partiu.
Ia recomendado ao comandante e lamentava-se muito em viagem. Quando
chegou a Lisboa teve horror de tudo que o cercava. Entretanto, foi
sempre bem tratado: seu correspondente hospedou-o como a um parente,
tratou o como filho; depois, meteu-o num colgio dos melhores.
Raimundo envergou o uniforme da casa, recebeu um nmero, e freqentou as
aulas. A princpio, logo que o deixavam sozinho, punha-se a chorar.
Tinha muito medo do escuro;  noite, cosia-se contra a parede, abraado
aos travesseiros. No gostava dos outros meninos, porque lhe chamavam
Macaquinho. Era teimoso, cheio de capuchos, ressentia-se muito da m
educao que os portugueses trouxeram para o Brasil.
No colgio era o nico estudante que se chamava Raimundo e os colegas
ridicularizavam-lhe o nome, Raimundo Mundico Nico! diziam lhe,
puxando-lhe a blusa e batendo-lhe na cabea tosquiada  escovinha; at
que ele se retirava enfiado, sem querer tomar ao recreio, a chorar e a
berrar que o mandassem para a sua terra. Mas, com o tempo, apareceram
lhe amigos e a vida ento se lhe afigurou melhor. J faziam as suas
palestras; os companheiros no se cansavam de pedir-lhe informao sobre
o Brasil. Como eram os selvagens?... E se a gente encontrava, pelas
ruas, mulheres despidas: e se Raimundo nunca fora varado por alguma
flecha dos caboclos.
Um dia recebeu uma carta de Mariana e, pela primeira vez, deu-se ao
cuidado de pensar em si. Mas as suas reminiscncias no iam alm da casa
do tio; no entanto, queria parecer-lhe que a sua verdadeira me no era
aquela senhora aquela vinha a ser sua tia, porque era a mulher de seu
tio Manuel: e at, se lhe no falhava a memria, por mais de uma vez
ouvira dela prpria falar na outra, na sua verdadeira me... Mas quem
seria a outra? Como se chamava?... Nunca lho disseram!...
Quanto a seu pai, devia ser aquele homem barbado que, numa noite, lhe
apareceu, muito plido e aflito, e por quem pouco depois o cobriram de
luto. Da cena dessa noite lembrava-se perfeitamente! J estava
recolhido, foram busc-lo  rede e trouxeram-no, estremunhado, para as
pernas do tal sujeito, por sinal que as suas barbas tinham na ocasio
certa umidade aborrecida, que Raimundo agora calculava ser produzida
pelas lgrimas; depois foi se deitar e no pensou mais nisso.
Recordava-se tambm. mas no com tamanha lucidez, do tempo em que aquele
mesmo homem esteve doente, lembrava-se de ter recebido dele muitos
beijos e abraos, e s agora notava que todos esses afagos eram sempre
ocultos e assustados, feitos como que ilegalmente, s escondidas, e
quase sempre acompanhados de choro.
Depois destas e outras divagaes pelo passado, Raimundo, se bem que
muito novo ainda, punha-se a pensar e os vus misteriosos da sua
infncia assombravam-lhe j o corao com uma tristeza vaga e obscura,
numa perplexidade cheia de desgosto. Todo o seu desejo era correr aos
braos de Mariana e pedir-lhe que lhe dissesse, por amor de Deus, quem
afinal vinha a ser seu pai e, principalmente, sua me.
Passaram-se anos, e ele permaneceu enleado nas mesmas dvidas. Concluiu
os seus preparatrios, habilitou-se a entrar para a Academia. E sempre
as mesmas incertezas a respeito da sua procedncia.
Matriculou-se em Coimbra. Desde ento a sua vida mudou radicalmente;
todo ele se transformou nos seus modos de ver e julgar. Principiou a ser alegre.
Mas um golpe terrvel veio de novo entristec-lo - a morte da sua me
adotiva. Chorou-a longa e amargamente; no s por ela, mas tambm muito
por si prprio: perdendo Mariana, perdia tudo que o ligava ao passado e
 ptria. Nunca se considerou to rfo. Todavia, com o correr dos
tempos, dispersaram-se-lhe as magoas e a mocidade triunfou; a criana
melanclica produziu um rapaz cheio de vida e bom humor; sentiu-se bem
dentro da sua romntica batina de estudante; meteu-se em pndega com os
colegas; contraiu novos amigos, e afinal reparou que tinha talento e
graa; escreveu stiras, ridicularizando os professores antipatizados;
ganhou dios e admiradores; teve quem o temesse e teve quem o imitasse.
No segundo ano deu para namorador: atirou-se aos versos lricos, cantou
o amor em todos os metros depois vieram-lhe idias revolucionrias,
meteu-se em clubes incendirios, falou muito, e foi aplaudido pelos seus
companheiros. No terceiro ano tornou-se janota, gastou mais do que nos
outros, teve amantes, em compensao veio-lhe a febre dos jornais,
escreveu com entusiasmo sobre todos os assuntos, desde o artigo de fundo
at  crnica teatral. No quarto, porm, distinguiu-se na Academia,
criou gosto pela cincia, e da em diante fez-se homem, firmou a sua
imputabilidade, tomou-se muito estudioso e srio. Seus discursos
acadmicos foram apreciados; elogiaram-lhe a tese. Formou-se.
Veio-lhe ento  idia fazer uma viagem. Em Coimbra todos o diziam rico;
tinha ordem franca. Preparou as malas. Sua principal ambio era
instruir-se, instruir-se muito, abranger a maior quantidade de
conhecimentos que pudesse; e senha-se cheio de coragem para a luta e
cheio de confiana no seu esforo.
s vezes, porm uma sombra de tristeza mesquinha toldava-lhe as
aspiraes - no sabia ao certo de quem descendia, e de que modo e por
quem, fora adquirido aquele dinheiro que lhe enchia as algibeiras.
Procurou o seu correspondente em Lisboa, pediu-lhe esclarecimentos a
esse respeito - Nada! O Peixoto dizia-lhe, em tom muito seco, que o pai
de Raimundo havia morrido antes da chegada deste a Portugal, e o fio, o
tutor, esse estava no Maranho, estabelecido na Rua da Estrela com um
armazm de fazendas por atacado. De sua me - nem uma palavra, nem uma
atribuio!...
Era para enlouquecer! Mas, afinal, quem seria ela?... Talvez irm
daquela santa senhora que foi para ele uma segunda me... Mas ento por
que tanto mistrio?... Seta alguma histria, a tal ponto vergonhosa, que
ningum se atrevesse a revelar-lhe?... Seria ele enjeitado?... No,
decerto, porque era herdeiro de seu pai... E Raimundo, quanto mais
tentava por a limpo a sua existncia, mais e mais se perdia no ddalo
das conjeturas.
Das cartas que recebia do Brasil, nem uma s lhe falava no passado, e
todavia, era tanto o seu empenho em penetr-lo, que s vezes, com muito
esforo de memria, conseguia reconstruir e articular fragmentos
dispersos de algumas reminiscncias, incompletas e vagas, da sua
infncia. Lograva recordar-se da Aniquinha, que tantas noites,
adormecera a seu lado, na mesma esteira, ouvindo cantar por Dona Mariana
o Boizinho do curral, vem papar nenm; recordava-se tambm da Sra.
Dona Maria Brbara, a sogra de Manuel, que ia, com muito aparato,
visitar a neta; passar dias. Em geral, ela chegava  boca da noite, no
seu palanquim carregado por dois escravos, vestida de enorme roda
cercada de crias e moleques, precedida por um preto encarregado de
alumiar a n a com um lampio de folha, oitavado, duas velas no centro. E
o demnio da mulher sempre a ralhar, sempre zangada, batendo nos negros
e a implicar com ele, Raimundo, a quem, todas as vezes que lhe dava a
mo a beijar, pespegava com as costas destas uma pancada na boca. E
recordava-se bem do rosto macilento de Mana Brbara, j ento meio
descado; recordava-se dos seus olhos castanho-claros, de seus dentes
triangulares, truncados a navalha, como barbaramente faziam dantes, por
luxo, as senhoras do Maranho, criadas em fazenda.
Raimundo, uma vez, ainda em Coimbra, aspirando o cheiro de alfazema
queimada, sentiu, como por encanto, sugerirem-lhe  memria muitos fatos
de que nunca se recordara at ento. Lembrou-se logo do nascimento de
Ana Rosa: A casa estava toda silenciosa e impregnada daquele odor;
Mariana gemia no seu quarto; Manuel andava, de um para outro lado da
varanda, inquieto e desorientado; mas, de repente, apareceu na porta do
quarto uma mulata gorda, a quem davam o tratamento de Inh comadre, e
esta, que vinha alvoroada, chamou de parte o dono da casa, disse-lhe
alguma coisa em segredo, e da a pouco estavam todos felizes e
satisfeitos. E ouvia-se vir l de dentro um grunhido fanhoso, que
parecia uma gaita. Na ocasio, Raimundo nada compreendeu de tudo isto;
disseram-lhe que Mariana recebera uma menina de Frana, e ele acreditou
piamente.
Assim lhe acudiam outras recordaes; por exemplo a do macassar
cheiroso, ento muito em uso na provncia, com que Dona Mariana lhe
perfumava os cabelos todas as manhs antes do caf; mas, dentre tudo, do
que melhor ele se recordava era dos lampies com que iluminavam a
cidade. Ainda l no havia gs, nem querosene; ao bater dAveMarias
vinha o acendedor, desatava a corrente do lampio, descia-o, abria-o,
despejava-lhe dentro aguarrs misturada com lcool, acendia-lhe o pavio,
guindava-o novamente para o seu lugar, e seguia adiante. E que mau
cheiro em todas as esquinas em que havia iluminao!... Oh! a no ser
que estivesse muito transformada a sua provncia devia ser simplesmente
horrvel!
No obstante, queria l ir. Sentia atraes por essa ptria, quase to
desconhecida para ele como o seu prprio nascimento misterioso. Com a
viagem descobriria tudo! Mas, primeiro, era preciso dar um passeio  Europa.
E, resolvido, foi ao escritrio de Peixoto, Costa & Cia., sacou a quanta
de que precisava, abraou os amigos, e fez-se de vela para a Frana.
Passou pela Espanha, visitou a Itlia, foi  Sua, esteve na Alemanha,
percorreu a Inglaterra, e, no fim de trs anos de viagem, chegou ao Rio
de Janeiro, onde encontrou os seus antigos correspondentes de Lisboa.
Demorou-se um ano na Corte, gostou da cidade, relacionou-se, fez
projetos de vida e resolveu estabelecer ai a sua residncia.
E o Maranho?... Oh, que maada! Mas no podia deixar de l ir! No
podia instalar-se na Corte, sem ter ido primeiro  sua provncia! Era
indispensvel conhecer a famlia; liquidar os seus bens e...
- Verdade, verdade, dizia ele, conversando com um amigo, a quem confiara
os seus projetos, a coisa no  to feia como quer parecer, porque, no
fim de contas, fico conhecendo todo o norte do Brasil, dou um pulo ao
Par e ao Amazonas, que desejo ver, e, afinal, volto descansado para c
com a vida em ordem, a conscincia descarregada e o pouco que possuo
reduzido a moeda. No posso queixar-me da sorte!
O passeio  Europa no s lhe beneficiara o esprito, como o corpo.
Estava muito mais forte bem exercitado e com uma sade invejvel
Gabava-se de ter adquirindo grande experincia do mundo; conversava 
vontade sobre qualquer assunto to bem sabia entrar numa sala de
primeira ordem como dar uma palestra entre rapazes numa redao de
jornal ou na caixa de um teatro. E em pontos de honra e lealdade, no
admitia, com todo o direito, que houvesse algum mais escrupuloso do que ele.
Foi nessa bela disposio de esprito, feliz e cheio de esperanas no
futuro que Raimundo tomou o Cruzeiro e partiu para a capital de So
Lus do Maranho.
CAPTULO 4
Entretanto, com a chegada de Raimundo, reuniram-se em casa de Manuel as
velhas amizades da famlia. Vieram as Sarmentos com os seus enormes
penteados: moas feias, mas de grandes cabelos, muito elogiados e
conhecidos na provncia. Tranas como as das Sarmentos!... Cabelo
bonito como o das Sarmentos! Cachos como os das Sarmentos!... Estas e
outras tantas frases se haviam convertido em preceitos invariveis. Fora
das Sarmentos! no conheciam termo de comparao para cabelos; e elas,
cnscias daquela popularidade, ostentavam sempre o objeto de tais
admiraes em penteados: assustadores, de tamanhos fantsticos.
- Tenho pena, afetava s vezes Dona Bibina Sarmento (esta era
Bernardina) de ter tanto cabelo!... Para desembrulh-lo  um martrio.
E, quando depois do banho, no me penteio logo, ou quando passo um dia
sem botar leo... Ah, dona, nem lhe digo nada!...
E arregalava os olhos e sacudia a juba, como se descrevesse uma caada de lees.
A famlia Sarmento compunha-se, alm desta Dona Bibina, de outra
rapariga e de uma senhora de cinqenta anos, muito nervosa, tia das duas
moas. A velha s falava em molstias e sabia remdios para tudo; tinha
um grosso livro de receitas, que ela em geral trazia no bolso; em casa
uma variadssima coleo de vidros, garrafas e pcaros; guardava sempre
as cascas de laranja, de rom e os caroos de tuturub, os quais, dizia
pateticamente Abaixo de Deus, eram santo remdio para as dores de
ouvido! Chamava-se Maria do Carmo, e as sobrinhas tratavam-na por
Mame outrinha. Era sumamente apreensiva e entendida de doces.
Viva. Passara a mocidade no Recolhimento de Nossa Senhora da Anunciao
e Remdios, onde concebera o seu primeiro filho do homem com quem depois
veio a casar - o tenente Espigo, tenente do exrcito, um espalhafateiro
dos quatro costados, que andava sempre de farda e desembainhava a
durindana por d c aquela palha. Contavam dele que, um dia, num jantar
de festa, perdendo a pacincia com o peru assado, que parecia disposto a
resistir ao trinchante, arranca do chanfalho e esquarteja a golpes de
espada o inocente animal.
Gostava de fazer medo as crianas, fingindo que as prendia ou afiando a
lamina reluzente no tijolo do cho; e ficava muito lisonjeado quando lhe
diziam que se parecia com o Pedro Segundo. Tinha-se na conta de muito
abalado e a todos contava que fora poeta em rapaz: referia-se a meia
dzia de acrsticos e recitativos, que lhe inspirava Dona Maria do
Carmo, no seu tempo de recolhida.
Coitado! Morreu de uma tremenda indigesto no dia seguinte a uma cela,
ainda mais tremenda, na qual praticara a imprudncia de comer uma salada
inteira de pepinos, seu pratinho predileto. A viva ficou inconsolvel,
e, em homenagem  memria do Espigo, nunca mais comeu daquele legume;
seu dio estendeu-se implacvel por toda a famlia do maldito; no quis
ouvir mais falar de maxixes. nem de abboras, nem de jerimuns.
- Ai o meu rico tenente! lamentava-se ela quando algum lhe lembrava o
esposo. Que maneiras de homem! que corao de pomba aquilo  que era um
marido como hoje em dia no se v!...
A outra sobrinha de Dona Mata do Carmo, chamava-se Etelvina. Criaturinha
sumamente magra, e to nervosa como a tia: nariz muito fino grande e
gelado, mos ossudas e frias, olhos sensuais e dentes podres Era
detestvel: os rapazes do comrcio chamavam-lhe Lagartixa.
Fazia-se muito romntica; prezava a sua cor horrivelmente plida;
suspirava de cinco em cinco minutos e sabia estropiar modinhas
sentimentais ao violo. diziam, em ar muito srio, que ela tivera aos
dezesseis anos uma formidvel paixo por um italiano professor de canto
o qual fugira aos credores para o Par e que, desde ento, Etelvina
nunca mais tomara corpo.
Apresentou-se tambm em casa de Manuel a Senhora Dona Amncia Sousellas,
velha de grande memria para citar fatos, datas e nomes; lembrava-se
sempre do aniversrio natalcio dos seus inmeros conhecidos e nesse dia
filava-lhes impreterivelmente o jantar. Estava sempre a falar mal da
vida alheia,  sombra da qual alis vivia; quinze dias em casa de uma
amiga, outros quinze em casa de um parente, o ms seguinte em casa de um
parente e amigo, e assim por diante; sempre, sempre de passeio. Ia a
qualquer parte, fosse ou no fosse desejada, e, s duas por trs, era da
casa. Conhecia todo o Maranho contava, sem reservas, os escndalos que
lhe calam no bico e andava sozinha na rua passarinhando por toda a
cidade de xale metendo o nariz em tudo. Se morria algum conhecido seu l
estava ela a vestir o cadver, a cortar-lhe as unhas, a dizer os
lugares-comuns da consolao, tida e citada por muito servial, ativa e
prestimosa.
Era cronicamente virgem, mas afirmava que em moa, rejeitara muito
casamento bom. Dava-se a coisas de igreja; sabia vestir anjos de
procisso e pintava os cabelos com cosmtico preto.
Detestava o progresso.
- No seu tempo, dizia ela com azedume, as meninas tinham a sua tarefa de
costura para tantas horas e haviam de pr prali o trabalho! se o
acabavam mais cedo iam descansar?... Boas! desmanchavam minha senhora!
desmanchavam para fazer de novo! E hoje?... perguntava dando um pulinho,
com as mos nas ilhargas - hoje  o maquiavelismo da mquina de costura!
D-se uma tarefa grande e  s zuc-zuc-zuc! e est pronto o servio! E
da, vai a sirigaita pr-se de leitura nos jornais, tomar conta do
romance ou ento vai para a indecncia do piano!
E jurava que filha sua no havia de aprender semelhante instrumento,
porque as desavergonhadas s queriam aquilo para melhor conversar com os
namorados sem que os outros dessem pela patifaria!
Tambm dizia mal da iluminao a gs:
- Dantes os escravos tinham que fazer! Mal serviam a janta iam aprontar
e acender os candeeiros deitar-lhes novo azeite e coloc-los no seu
lugar... E hoje?  s chegar o palitinho de fogo  bruxaria do bico de
gs e... caia-se na pndega! J no h tarefa! J no h cativeiro! 
por isso que eles andam to descarados! Chicote! chicote, at dizer
basta! que  do que eles precisam. Tivesse eu muitos, que lhes juro,
pela bno de minha madrinha, que lhes havia de tirar sangue do lombo!
Mas a especialidade de Dona Amncia Sousellas, o que a tornava adorvel
para certos rapazes e detestada por muitos pais de famlia que iam de
nariz torcido lhe recebendo visitas e obsquios de cortesia, era sem
dvida, o seu antigo hbito de contar anedotas baixas e grosseiras
Sempre fora muito desbocada; no entanto alguns basbaques da sua roda,
diziam dela, num frouxo de riso: Com a Dona Amncia no pode a gente
estar sria! - O diabo da velha tem uma graa!...
L estava tambm em casa de Manuel a Eufrasinha, viva do oficial de
infantaria. Toda enfeitada de lacinhos de fita roxa, moreninha apesar da
superabundncia do p de arroz; as feies muito desenhadas  superfcie
do rosto e com um sinal de nitrato de prata ao lado esquerdo da boca,
desastradamente imitado do de uma francesa ex-cantora com quem ela se
dava. O sinal era para ficar do tamanho de uma pulga e saiu do tamanho e
do feitio de um feijo-preto. Saracoteava-se, cheia de novidades,
levantando-se de vez em quando para ir dizer um segredinho ao ouvido de
Ana Rosa, enquanto disfaradamente lhe endireitava o penteado; nestes
passeios olhava de esguelha para os quartos e para a varanda - dando f
- e voltava  sua cadeira, mirando-se a furto nos espelhos da sala,
sempre muito curiosa, irrequieta, querendo achar em tudo que lhe diziam,
uma significao dupla, trejeitando sorrisos e momices expressivas
quando no entendia, para fingir que compreendera perfeitamente. Tinha a
voz sibilante e afetada, associava os SS, e dela silabadas.
O Freitas, em cuja casa Ana Rosa tivera o seu ltimo histrico, tambm
se achava presente, com a filha, a sua querida Lindoca.
O Freitas era um homem desquitado da mulher que se atirara aos ces,
explicava friamente, muito teso, magro, alto, com o pescocinho comprido
no seu grande colarinho em p. No relaxava as calas brancas, e
gabava-se do segredo de conserv-las limpas e engomadas durante uma
semana; trazia sempre, apesar do calor da provncia, o colarinho duro e
o peito da camisa irrepreensvel; gravata preta - invariavelmente.
Tratava uma enorme unha no dedo mnimo, com a qual costumava pentear o
bigode, feito de longos fios, tingidos e lisos, que lhe velavam a boca.
Jamais consentira que barbeiro algum lhe encostasse a mo no rosto;
fazia ele mesmo a sua barba, um dia sim, outro no. Escondia a calva com
as compridssimas farripas do cabelo, muito espichadas, como que
grudadas a goma-arbica sobre o crnio. Dispunha de uma memria
prodigiosa, gabada por toda a cidade; fazia-se grande conhecedor da
histria antiga; quando falava escolhia termos, procurava fazer estilo,
e, sempre que se referia ao Imperador dizia gravemente: O nosso
defensor perptuo! Afianavam que era habilidoso, em tempo fizera, com
muita pacincia, uma rvore genealgica de sua famlia e mandara-a
litografar no Rio de Janeiro. Este trabalho foi muito apreciado e
comentado na provncia.
Era empregado pblico havia vinte e cinco anos e s faltara  repartio
trs vezes - por uma queda, um antraz, e no dia do seu malfadado
casamento; contava isto a todos, com glria. Quando temia constipar-se,
aspirava cautelosamente o fartum do conhaque. Isto e o bastante para me
fazer ficar tonto!... afirmava com uma repugnncia virtuosa. Tinha
honor s cartas e sabia tocar clarinete, mas nunca tocava, porque o
mdico lhe dissera no achar prudente. Fumara em tempo, mas o mdico
dissera do charuto o mesmo que do clarinete. - Nunca mais fumou. No
danava, para no suar; falava com raiva das mulheres e, nem caindo de
fome, seria capaz de comer  noite. Alm do ch, nada! nada!
protestava com firmeza; estivesse onde estivesse, havia de retirar-se
impreterivelmente  meia-noite. Usava sapatos rasos, de polimento, e
nunca se esquecia do chapu-de-sol.
Jamais arredara o p da ilha de So Lus do Maranho, tal era o medo que
tinha do mar.
- Nem para ir a Alcntara! jurava ele, conversando essa noite em casa do
Manuel. Daqui - para o Gavio! Nada, meu caro senhor quero morrer na
minha caminha, sossegado, bem com Deus!
- Com toda a comodidade, observou Raimundo, a rir.
Era devoto: todos os anos carregava na procisso o andor do milagroso
Senhor Bom Jesus dos Passos. E muito arranjadinho: Em casa dele havia
de tudo, como na botica. Diziam os seus ntimos. S falta dinheiro...
completava o Freitas em ar discreto de pilhria. No mais: - sempre o
mesmo homem; nunca fora de estroinices; mesmo em rapaz, era j consigo;
no gostava de dever nada a ningum; colecionava selos velhos; dava
homeopatia de graa aos amigos, e tinha a fama do maior maante do Maranho.
A tal sua querida Lindoca era uma menina de dezesseis anos, pequenina,
extremamente gorda, quase redonda, bonitinha de feies, curta de
idias, bom corao e temperamento honesto. A Etelvina dissera uma vez
que ela estava engordando at nos miolos.
Lindoca Freitas no escondia o seu desejo de casar e amava
extremosamente o pai, a quem s tratava por Nhozinho.
- Tenho um desgosto desta gordura!... Lamentava-se ela s camaradas, que
lhe elogiavam a exuberncia adiposa. Se eu soubesse de um remdio para
emagrecer... tomava!
As amigas procuravam consol-la: D-me gordura que te darei formosura!
- Gordura  sade!
Mas a repolhuda moa no se conformava com aquela desgraa. Vivia
triste. As banhas cresciam-lhe cada vez mais; estava vermelho; cansava
por cinco passos. Era um desgosto srio! Recorria ao vinagre; dava-se a
longos exerccios pela varanda; mas qual! - as enxndias aumentavam
sempre. Lindoca estava cada vez mais redonda, mais boleada; a casa
estremecia cada vez mais com o seu peso; os olhos desapareciam-lhe na
abundncia das bochechas; o seu nariz parecia um lombinho; as suas
costas uma almofada. Bufava.
Dias, o piedoso, o doce Lus Dias, tambm comparecera aquela noite 
sala do patro. L estava, metido a um canto, roendo ferozmente as
unhas, o olhar imvel sobre Ana Rosa, que, ao piano, dispunha-se a tocar
alguma coisa e experimentava as teclas.
Em uma das janelas da frente, encostados contra a sacada, Manuel e o
cnego Diogo ouviam de Raimundo a descrio em voz baixa de um passeio
de Paris  Sua. No resto da sala coma o sussurro das senhoras, que
conversavam.
- Ento! Estamos passando o Boqueiro? exclamou o Freitas, erguendo-se
do sof, a sacudir as calas, para evitar as joelheiras. E, voltando-se
para uma das sobrinhas de Dona Maria do Carmo: - Diga alguma coisa, Dona
Etelvina!...
Etelvina ergueu os olhos para o teto e soltou um suspiro.
- Por quem suspiras? perguntou-lhe. em misterioso falsete, a velha
Amncia que lhe ficava ao lado.
- Por ningum... respondeu a Lagartixa, sorrindo melancolicamente com os
caquinhos dos dentes.
- Ele no  feio... a senhora no acha Dona Bibina?... segredava Lindoca
 outra sobrinha de Dona Maria do Carmo, olhando furtivamente para o
lado de Raimundo.
- Quem? O primo d Ana Rosa?
- Primo? Eu creio que ele no  primo dona!
- ! sustentou Bibina quase com arrelia E primo, sim, por parte de pai!.
E olhe ali est quem lhe sabe bem a histria!...
E indicava a fia com o beio inferior.
- An... resmungou a gorducha, passando a considerar da cabea aos ps o
objeto da discusso.
Por outro lado, Maria do Carmo segredava a Amncia Sousellas:
- Pois  o que lhe digo Dona Amncia muito boa preta!... negra como este
vestido! C est quem a conheceu!...
E batia no seu peito sem seios. - Muita vez a vi no relho. Iche!
- Ora quem houvera de dizer!... resmungou a outra fingindo ignorar da
existncia de Domingas, para ouvir mais. Uma coisa assim s no Maranho!
Credo!
-  como lhe minha rica! O sujeitinho foi farto  pia, e hoje olhe s
praquilo! est todo cheio de fumaas e de filucias!... Pergunte ao
cnego, que est ao lado dele.
- Cruz! Tarrenego, p de paro!
E Amncia bateu por hbito nas faces engelhadas.
Nisto, ouviu-se um grande moam, que vinha da varanda.
-  Benedito! Moleque!  peste! Ests dormindo, sem vergonha?!
E logo o estalo de uma bofetada. - Arre! que ate me fazes zangar com
visitas na sala!...
Era Maria Brbara, que andava s voltas com o Benedito.
- Vai deitar a mesa do ch moleque!
Manuel correu logo  varanda, contrariado.
-  senhora!... disse  sogra. Que inferneira! Olhe que est ai gente de fora!...
Freitas passou-se  janela de Raimundo, e aproveitou a oportunidade para
despejar contra este uma estopada a respeito do mau servio domstico
feito pelos escravos.
- Reconheo que nos so necessrios, reconheo!... mas no podem ser
mais imorais do que so!... As negras, principalmente as negras!... So
umas muruxabas, que um pai de famlia tem em casa, e que domem debaixo
da rede das filhas e que lhes contam histrias indecentes! f uma
imoralidade! Ainda outro dia, em certa casa, uma menina, coitada
apareceu coberta de piolhos indecorosos, que pegara da negra! Sei de
outro caso de uma escrava que contagiou a uma famlia inteira de
impigens e dartros de carter feio! E note doutor que isto e o menos, o
pior  que elas contam s suas sinhazinhas tudo o que praticam ai por
essas ruas! Ficam as pobres moas sujas de corpo e alma na companhia de
semelhante corja! Afiano-lhe meu caro senhor doutor, que, se conservo
pretos ao meu servio,  porque no tenho outro remdio! Contudo...
Foi interrompido por Benedito que nu da cintura para cima e acossado
pela velha Brbara, atravessou a sala com agilidade de macaco. As
senhoras espantaram-se, mas abriram logo em gargalhadas. O moleque
alcanara a porta da escada e fugira. Ento, o Dias, que at ai se
conservara quieto no seu canto, ergueu-se de um pulo e deitou a correr
atrs dele. Desapareceram ambos.
Benedito era cria de Maria Brbara; um pretinho seco, retinto, muito
levado dos diabos; pernas compridas, beios enormes dentes
branqussimos. Quebrava muita loua e fugia de casa constantemente.
A velha estacara no meio da sala furiosa.
- Ai, gentes! no reparem!.. bradou. Aquele no sei que diga! aquele
maldito moleque!... Pois o desavergonhado no queria vir trazer gua na
sala, sem pr uma camisa?... Patife! Ah, se o pego!... Mas deixa estar,
que no as perdes, malvado!
E correndo  janela: - Se seu Dias no te alcanar, tens amanh um
campeche te seguindo a pista, sem-vergonha!
E saiu de novo para a varanda, muito atarefada, gritando pela Brgida:
-  Brgida! Tambm ests dormindo, seu diabo?!
Na sala as visitas discutiam rindo a cena do moleque e o mau gnio de
Maria Brbara, mas tiveram de abafar a voz, porque Ana Rosa ps-se a
tocar uma polca ao piano.
Pouco depois, ouviu-se um farfalhar de saias engomadas, e em seguida
apresentou-se a Brgida, uma mulata corpulenta a carapinha muito
tranada e cheia de flores, um vestido de chita com trs palmos de
cauda, recendendo a cumaru. Preparava-se daquele modo, para ir  sala,
oferecer gua. com ambas as mos uma enorme salva de prata, cheia de
copos, dirigia-se a todos, um por um, a bambalear as ancas volumosas.
A criadagem de Manuel e Maria Brbara constava, alm de Brgida, e
Benedito, de uma cafuza j idosa, chamada Mnica, que amamentara Ana
Rosa e lavava a roupa da casa, e mais de uma preta s para engomar, e
outra s para cozinhar, e outra s para sacudir o p dos trastes e levar
recados  rua. Pois, apesar deste pessoal, o servio era sempre tardio e malfeito.
- Estas escravas de hoje tem luxos!... observou Amncia em voz baixa a
Maria do Carmo, apontando com o olhar para o vulto empantufado de
Brgida.
E entraram a conversar sobre o escndalo das mulatas se prepararem to
bem como as senhoras. J se no contentavam com a sua saia curta e
cabeo de renda; queriam vestido de cauda; em vez das chinelas, queriam
botinas! Uma patifaria! Depois falaram nos caixeiros, que roubavam do
patro para enfeitar as suas pininchas; e, por uma transio natural,
estenderam a crtica at aos passeios a cano, s festas de largo e aos
bailes dos pretos.
- Os chinfrins, como lhes chamava o meu defunto Espigo, acudiu Maria do
Carmo, Conheo! ora se conheo!... Bastante quizlia tivemos ns por
amor deles!...
-  uma sem-vergonheira! Ver as escravas todas de cambraia, laos de
fita, gua de cheiro no leno, a requebrarem as chandangas na dana!...
- Ah, um bom chicote!... disseram as duas velhas ao mesmo tempo
- E elas danam direito?... perguntou a do Carmo,
- Se danam!... O servio  que no sabem fazer a tempo e a horas! L
para danar esto sempre prontas! Nem o Joo Enxova!
A indgnao secava-lhe a voz.
- At parecem senhoras, Deus me perdoe! Todas a se fazerem de gente! os
negros a darem-lhe excelncia E porque minha senhora pra c! Vossa
Senhoria pra l! E uma pouca vergonha, a senhora nem imagina!... Uma
vez, em que fui espiar um chinfrim, porque me disseram que o meu defunto
estava l metido, fiquei pasma! E o melhor  que os descarados no se
tratam pelo nome deles tratam-se pelo nome dos seus senhores!... No
sabe Filomeno?... aquele mulato do presidente?... Pois a esse s davam
Senhor Presidente! Outros so Srs. Desembargadores, Doutores, Majores
e Coronis! Um desaforo que deveria acabar na palmatria da polida!
Ana Rosa terminou a sua polca.
- Bravo! Bravo!
- Muito bem, Dona Anica!
E estalaram palmas.
- Tocou s mil maravilhas!...
- No senhor foi uma polca do Marinho.
Correram a cumprimentar a pianista. O Freitas profetizou logo que ali
estava um segundo Lira!
Raimundo foi o nico que no se abalou. Estava fumando  janela, e
fumando deixou-se ficar. Ana Rosa, sem dar a perceber, sentiu por isso
uma ligeira decepo. Esforara-se por tocar bem e ele, nem assim! At
parecia no ter notado nada!... E um malcriado! concluiu ela, de si
para si. E, com uma pontinha de mau humor, assentou-se ao lado de
Lindoca. Eufrsia correu logo para junto da amiga.
- Que tal o achas?... perguntou em segredo, assentando-se, com muito
interesse.
- Quem? disse Ana Rosa, fingindo distrao e franzindo o nariz.
A outra indicou misteriosamente a janela com um dos polegares.
- Assim, assim...
E a filha do negociante fez um bico de indiferena. - Nem por isso!...
- Um peixo! opinou Eufrsia com entusiasmo.
- Gentes!... Que  isto, Eufrasinha?...
-  uma tetia!
E a viva mordia os beios.
- Sim, ele nem  feio... tornou Ana Rosa, impacientando-se, Mas tambm
no  l essas coisas!...
- Que olhos! que cabelos! e que gestos!... olha, olha, menina! como ele
brinca com o charuto!... olha como ele se encosta  grade da janela!...
Parece um fidalgo, o diabo do homem!...
Ana Rosa, sem desfranzir o nariz enviesada os olhos contra o primo e
Sentia melhor do que a amiga a evidencia do que esta lhe dizia.
Raimundo era com efeito elegante e bem bonito mas, que diabo, desde que
chegara ainda lhe no tinha dispensado uma nica palavra de distino,
um s gesto que a especializassem, quando ali, no entanto, era ela,
incontestavelmente a mais chique, a mais simptica, e, alm disso - sua
prima! (Ana Rosa pouco ou nada sabia ao certo do grau do seu parentesco
com ele) No! No fora correto! Falara-lhe como s outras, igualmente
frio e reservado; no fizera como os rapazes do Maranho, que, mal se
aproximavam dela estavam desfeitos em elogios e protestos de amor!
Aquela indiferena de Raimundo doa-lhe como uma injustia: sentia-se
lesada roubada, nos seus direitos de moa irresistvel. Um pedante  o
que ele ! Um enfatuado! Pensa que vale muito, porque se formou em
Coimbra e correu a Europa! Um tolo!...
Nessa ocasio, entraram na sala, com rudos, dois novos tipos - o Jos
Roberto e o Sebastio Campos.
Foram logo apresentados a Raimundo e seguiram a cumprimentar as
senhoras, dando a cada qual uma frase ou uma palavra ou um gesto de
galanteio familiar: Dona Eufrasinha sempre bela como os amores, que
pena ser eu j papel queimado! - Ento Dona Lindoca, onde vai com essa
gordura? divida a metade comigo! - Quando se come doce desse casamento,
Dona Bibina?... E tinham sempre na ponta da lngua uma pilhria, um
dito, para bulir com as moas; coisas desengraadas e cedias, mas que
as faziam rebentar de riso.
- Deus os fez e o diabo os ajuntou! explodiu, com um estalo de boca, a
velha Amncia quando os dois passaram por ela.
Jos Roberto, a quem s tratavam por Seu Casusa era moo de vinte e
tantos anos; magro, moreno crivado de espinhas, olhos muito negros, boca
em runas, uma enorme cabeleira, rica toda encaracolada e reluzente de
leo cheiroso, preta bem preta dividida pacientemente ao meio da cabea.
Usava lunetas azuis e cantava ao violo modinhas da sua prpria lavra e
de outros, apimentadas  baiana com o travo sensual e rabe dos lundus
africanos. Quando tocava, tinha o amaneirado voluptuoso do trovador de
esquina; vergava-se todo sobre o instrumento, picando as notas com as
unhas cujos dedos pareciam as pernas de um caranguejo doido, ou abafando
com a palma da mo o som das cordas, que gemiam e choravam como gente.
Tipo do Norte, perfeito, cheio de franquezas, com honor ao dinheiro,
muito orgulhoso e prevenido contra os portugueses, a quem perseguia com
as suas constantes chalaas, imitando-lhes o sotaque, o andar e os
gestos. Tinha alguma coisinha de seu e passava por estrina. Gostava das
serenatas, das pndega com moas; pilhando dana - no perdia quadrilha
nem pulada, mas no dia seguinte ficava de cama, estrompado.
Havia muito que Jos Roberto procurava agradar a Ana Rosa, esta sempre o
repelia a rir. Tambm poucos o tomavam a srio: Um pancada diziam mas
queriam-lhe bem.
O Sebastio Campos, esse era vivo da primeira filha de Maria Brbara e,
como aquele, um tipo legtimo do Maranho; nada, porm, tinha do outro
seno o orgulho e a birra aos portugueses, a quem na ausncia s chamava
marinheiros - pus - galegos.
Senhor de engenho, de um engenho de cana, l para as bandas do Munim,
onde passava trs meses no tempo da colheita; o resto do ano passava-o
na cidade. Devia ter quase o duplo da idade de Jos Roberto, baixote,
muito asseado, mas com a roupa sempre malfeita. Usava calas curtas, em
geral brancas, deixando aparecer, desde o tornozelo, os seus pezinhos
ridiculamente pequenos e mimosos; barba cerrada, ainda preta,
desproporcionada do corpo, beios grossos e vermelhos, mostrando a
dentadura miudinha e gasta, porm muito bem tratada, tratada a mel de
fumo de corda, que era com que ele asseada a boca.
Bairrista, isso ao ltimo ponto: a tudo preferia o que fosse nacional.
No trocava a sua boa cana-capim - e o seu vinho de caju por quantos
conhaques e vinhos do Porto havia por ai! nem o seu gostoso e cheiroso
fumo de molho, fabricado no Maranho, pelo melhor tabaco estrangeiro, ou
mesmo importado das outras provncias! Ou bem que se era maranhense ou
bem que se no era!
No cochilava com os seus escravos. Na roga era temido at pelo feitor,
um pouco devoto e cheio de escrpulos de raa. Preto  preto; branco 
branco! Moleque  moleque menino  menino! E estava sempre a repetir
que o Brasil teria ganho muito, se perdesse a Guerra dos Guararaps.
- A nossa desgraa, rezava ele,  termos caldo nas mos destas bestas!
Uns lesmas! Uma gente sem progresso, que s cuida de encher o papo e
aferrolhar dinheiro!
Favores, de quem quer que fosse, no os aceitava que no queria dever
obrigaes a nenhum filho da me!... Mas tambm, quando dava para meter
as botas em qualquer pessoa - era aquela desgraa! No tinha papas na
lngua! Era nervoso e ativo; gostava todavia de ler ou conversar,
escarranchado na rede durante horas esquecidas, em ceroulas fumando o
seu cachimbo de cabea preta, fabricado na provncia. Na rua
encontravam-no de sobrecasaca aberta, coletinho de chamalote, camisa
bordada, guarnecida por trs brilhantes grandes; ao pescoo, prendendo o
cebolo, um trancelim muito comprido, de ouro macio, obra antiga, com
passador. Adorava os perfumes ativos, as jias e as cores vivas, para
ele, nada havia, porm, como um passeio ao sitio embarcado,  fresca da
madrugada, bebericando o seu trago de cachaa e pitando o seu fumo do
Cod. Em casa muito obsequiador. Passava  farta.
Com a vinda destes dois, a reunio tornou-se mais animada. Reclamou-se
logo o violo, e seu Casusa, depois de muito rogado, afinou o
instrumento e principiou a cantar Gonalves Dias:
Se queres saber o meio Por que s vezes me arrebata Nas asas do
pensamento A poesia to grata;
Nisto, rebentou uma corda do violo.
- Ora pistolas!... resmungou o trovador. E gritou: -  Dona Anica! a
senhora no ter uma prima?
Ana Rosa foi ver se tinha, andou remexendo l por dentro da casa, e
voltou com uma segunda. Era o que havia. O Casusa arranjou-se com a
segunda e prosseguiu, depois de repetir os versos j cantados; ao passo
que o Freitas, na janela, importunava Raimundo, a propsito do autor
daquela poesia e de outros vultos notveis do Maranho da sua Atenas
brasileira como a denominava ele. O cnego fugiu logo para a varanda,
covardemente, com medo  seca.
- No sou bairrista. no senhor... dizia o maante, mas o nosso
Maranhozinho  um torro privilegiado!...
E citava, com orgulho, os Cunha, os Odorico Mendes, os Pindar e os
Sotero etcetera! etcetera! O seu modo de dizer etcetera era
esplndido!
- Temos os nossos faustos, temos!
Passou ento a falar nas belezas da sua Atenas: no dique das Mercs,
estava em construo, mas havia de ficar obra muito de se ver e
gostar... afianava ele cheio de gestos respeitosos. Falou do Cais da
Sagrao, tambm no estava concludo dos Quartis, iam entrar em
conserto, na igreja de Santo Antnio, nunca chegaram a termin-la, mas
se o conseguissem, seria um belo templo! Elogiou muito o teatro So
Lus. Dizia o cnego que era o So Carlos de Lisboa, em ponto pequeno!
Lembrou respeitosamente a companhia lrica do Ramonda, o Remorini o
tenor morrera de febre amarela, depois de ser muito aplaudido na Gemma
de Vergi. Ah, como aquela, jurava no voltaria outra companhia ao
Maranho! Mas que, mesmo na provncia havia moos de grande
habilidade... Referia-se a uma sociedade particular, de curiosos.
Tinham seu jeito, sim senhor! E, engrossando a voz, com muita
autoridade: Representavam Os Sete Infantes de Lara! - Os Renegados! - O
Homem da Mscara Negra, e outras peas de igual merecimento! Tinham a
sua queda para a coisa, tinham!... No se pode negar!... E assoava-se,
meneando a cabea, convencido Principalmente a dama... sim! o moo que
fazia de dama!... No havia que desejar - o pegar do leque, o revirar
dos olhos, certos requebros, certas faceirices!... Enfim, senhores! era
perfeito, perfeito, perfeito!
Raimundo bocejava.
E o Freitas nem cuspia. Acudiam-lhe fatos engraados sobre o teatrinho.
soltava as anedotas em rebanho, sem intervalos. Raimundo j no achava
posio na janela; virava-se da esquerda. da direita, firmava-se ora
numa perna, ora na outra deixando afinal pender a cabea e olhando para
os ps entristecido pelo tdio. Que maante!... pensava.
Entretanto, o Freitas a sacudir-lhe a manga do fraque, que Raimundo
sujara na calia da janela, ia confessando que estavam em vazante de
divertimentos; que a sua distrao nica era cavaquear um bocado com os
amigos...
- Ah! exclamou, minto! minto! H uma festa nova! - a de Santa Filomena!
Mas no ser como a dos Remdios, isso, tenham pacincia!...
- Sim, decerto, balbuciou Raimundo, fingindo prestar ateno.
E espreguiou-se.
- A festa dos Remdios!... repetiu o outro, estalando os dedos e
assoviando prolongadamente, como quem diz: Vai longe!
Raimundo estremeceu, ficou gelado ate a raiz dos cabelos, percebeu
aquela tremenda ameaa e mediu instivamente a altura da janela, como se
premeditasse uma fuga.
- O nosso Joo Lisboa... disse o Freitas. E meteu profundamente as mos
nas algibeiras das calas. O nosso Joo Lisboa j, em um folhetim
publicado no numero... Ora qual  o nmero do Publicador Maranhense?...
Espere!...
E fitou o teto.
- 1173 - Sim! 1173, de 15 de outubro de 1851. Pois nesse folhetim
descreve ele, circunstanciadamente e com muito donaire e gentilezas de
estilo, a nossa popular e pitoresca festa dos Remdios.
Raimundo, aterrado, prometeu, sob palavra de honra, ler o tal folhetim
na primeira ocasio.
- Ah!... volveu terrvel o Freitas  que ela hoje  outra coisa!... Hoje
no se compara! - h muito mais luxo, mas muito!
E segurando com ambas as mos a gola do fraque de Raimundo e
ferrando-lhe em cima dos olhos arregalados, acrescentou energicamente: -
Creia, meu doutor, mete pena o dinheiro que se gasta naquela festa! faz
d ver as sedas, os veludos, as anguas de renda, arrastarem-se pela
terra vermelha dos Remdios!...
Raimundo empenhou a cabea como faria idia aproximada.
- Qual! Qual! Tenha pacincia meu amigo, no  possvel! E Freitas
repeliu com tora a vitima. Aquilo s vendo e sentindo, Senhor Doutor
Raimundo Jos da Silva!
E descreveu minuciosamente a cor, a sutileza da terra; como a maldita
manchava o lugar em que caia; como se insinuava pelas costuras dos
vestidos, das botas, nas abas dos chapus, nas mquinas dos relgios;
como se introduzia pelo nariz, pela boca, pelas unhas, por todos os
poros!
- Aquilo, meu caro amigo...
Raimundo queixou-se inopinadamente de que tinha muito calor.
Freitas levou-o pelo brao at a varanda; deu-lhe uma preguiosa,
passou-lhe uma ventarola de Bristol preparou-lhe uma garapada, e, depois
de hav-lo regalado bem, como antigamente se fazia com os sentenciados
antes do suplcio, de p, implacvel, verdadeiro carrasco em face do
paciente, despejou inteira uma descrio do dia da festa dos Remdios,
recorrendo a todos os mistrios da tortura, escolhendo palavras e
gestos, repetindo as frases, frisando os termos, repisando o que lhe
parecia de mais interesse, cheio de atitudes como se discursasse para um
grande auditrio.
Principiou expondo minuciosamente o Largo dos Remdios, com a sua ermida
toda branca, seus bancos em derredor; muitos ariris, muita bandeira,
muito foguete, muito toque de sino. Descreveu com assombro o luxo
exagerado em que se apresentavam todos, todos! para a missa das seis e
para a missa das dez nas quais, dizia ele circunspectamente,
rene-se a nata da nossa judiciosa sociedade!... Era tudo em folha, e
do mais caro, e do mais fino. Nesse dia todos luxavam, desde o
capitalista at o ral caixeiro de balco: velho ou moo, branco ou
preto, ningum l ia, sem se haver preparado da cabea aos ps; no se
encontrava roupa velha, nem corao triste!
- As quatro horas da tarde, acrescentou o narrador, torna-se o largo a
encher. Pensar talvez o meu amigo que tragam a mesma fatiota da
manh...
- Naturalmente...
- Pois engana-se! e tudo outra vez novo! so novos vestidos, novas
calas, novas...
- Etc., etc.! Vamos adiante.
- Afirmam alguns estrangeiros... e dizendo isto tenho dito tudo!... que
no h, em parte alguma do mundo festa de mais luso!...
E a voz do maante tomava a solenidade de um juramento.
- O que lhe posso afianar, doutor,  que no h criana que, nessa
tarde, no tenha a sua pratinha amarrada na ponta do leno. Aparecem
cdulas gordas moedas amarelas; troca-se dinheiro; queimam-se charutos
caros, no bazar (h um bazar) as prendas sobem a um preo escandaloso!
Digo-lhe mais: nesse dia no h homem, por mais pichelingue, que no
gaste seu bocado nos leiles, nas barracas, nos tabuleiros de doce ou
nas casas de sorte; nem h mulher senhora ou moa-dama, que no arrote
grandeza, pelo menos seu vestidinho novo de popelina. Vem-se enormes
trouxas de doce seco, coraes unidos de cocada, navios de massa com
mastreao de alfenim jurars dourados, cutias enfeitadas dentro da
gaiola pombos cheios de fitas frascos de compota de murici, bacuri,
buriti, o diabo, meu caro senhor! As pretas-minas cativas, ou forras
surgem com os seus ouros as suas ricas telhas de tartaruga as suas ricas
toalhas de rendas, suas belas saias de veludo. suas chinelas de
polimento seus anis em todos os dedos aos dois e aos trs em cada um...
E este povo mesclado. coberto de luso, radiante, com a barriga
confortada e o corao contente, passeia, exibe-se, ancho de si pensando
erradamente chamar a ateno de todos, quando alis cada qual s pensa e
repara em si prprio e na sua prpria roupa!
Raimundo ria-se por delicadeza, e espreguiava-se na cadeira, bocejando.
-  noite, continuou o Freitas, ilumina-se todo o largo. Armam-se
grandes e deslumbrantes arcos transparentes, com a imagem da santa e os
emblemas do Comercio e da Navegao. que Nossa Senhora dos Remdios 
padroeira do Comrcio, e  este que lhe d a festa. Mas bem, faz-se a
iluminao - armas brasileiras estrelas vasos caprichosos, o nome da
santa, tudo a bico de gs. no contando uma infinidade de balezinhos
chineses que brilham por entre as bandeiras, os flores os ariris, as
casas de msica; em uma palavra fica tudo, tudo, claro como o dia!
Raimundo soltou um suspiro profundo e mudou de posio.
- H tambm para os moleques, um pau-de-sebo balanos e cavalinhos. E
verdade! o doutor sabe o que e um pau-de-sebo?...
- Perfeitamente Tenha a bondade de no explicar.
- Com franqueza! Se no sabe, diga, que eu posso...
- Ora por amor de Deus! faz-me o favor em no se incomodar juro-lhe!
Estou impaciente pelo resultado da festa. Continue!
- Pois sim, senhor Do oito horas.. Ah. meu caro amigo! ento surge de
todos os cantos da cidade uma aluvio interminvel de famlias, de
velhos, moos, meninos, mulatinhas e negrinhas que enchem o largo que
nem um ovo! Pretos de ambos os sexos e de todas as idades desde o
moleque at o tio velho, acodem, trazendo equilibradas nas cabeas
imensas pilhas de cadeiras, e, com estas cadeiras, formam-se grandes
rodas mesmo na praa, ao ar livre, e as famlias, ou ficam ai
assentadas, ou, a titulo de passeio, acotovelam-se entre o povo.
Fazem-se grupos, a gente ri, discute, critica, namora, zanga-se, ralha..
- Ralha?
- Ora! J houve uma senhora que castigou um moleque a chicote, l mesmo
no largo!
- A chicote?
- Sim, a chicote! Aquilo, meu caro doutor,  uma espcie de romaria! As
famlias levam consigo potes de gua, cuscuz, castanhas assadas,
biscoitos e o mais . E tudo isto ao som desordenado da pancadaria de
trs bandas de msica, dos gritos do leiloeiro e da inqualificvel
algazarra do povo!
Raimundo quis levantar-se; o outro obrigou-o a ficar sentado, pondo-lhe
as mos nos ombros.
- Estamos no apogeu da festa! exclamou o maante.
- Ah! gemeu Raimundo.
- Soltam-se bales de pape! fino; cruzam-se moas aos pares; giram aos
pares os janotas; vendem-se roletos de cana, sorvetes, garapa, cerveja,
doces, pasteis, chupas de laranja; sentem-se arder charutos de canela;
gastam-se os ltimos cartuchos; esvaziam-se de todo as algibeiras e,
finalmente, com grande jubilo geral arde o invarivel fogo de artifcio.
Ento rebentam todas as bandas de msica a um s tempo, levanta-se uma
fumarada capaz de sufocar um fole, e, no meio do estralejar das bombas e
do infrene entusiasmo da multido, aparece no castelo, deslumbrante de
luzes, a imagem de Nossa Senhora dos Remdios. Foguetes de lgrimas voam
aos milhares pelo espao; o cu some-se. Todos se descobrem em ateno 
santa, e abrem o chapu-de-sol com medo das tabocas. H uma chuva de
luzes multicores; tudo se ilumina fantasticamente; todos os grupos,
todas as fisionomias, todas as casas, tomam. sucessivamente as
irradiaes do prisma. Durante esta apoteose o povo se concentra numa
contemplao mstica, terminada a qual, est terminada a festa!
E Freitas tomou flego. Raimundo ia falar, ele atalhou:
- De repente, o povo acorda e quer sair! Cone, precipita-se em massa 
Rua dos Remdios, aglomera-se, disputa os carros, pragueja, assanha-se!
Cada um entende que deve chegar primeiro a casa; h trambolhes,
descomposturas, gritos, gargalhadas, gemidos, rinchos de cavalos,
tabuleiros de doce derramados, vestidos rotos, ps esmagados, crianas
perdidas, homens bbados; mas, de sbito, como por encanto, esvazia-se o
largo e desaparece a multido!
- Como? por qu?
- Da a pouco esto todos recolhidos, sonhando j com a festa do ano
seguinte, calculando economias, pensando em ganhar dinheiro, para na
outra fazer ainda melhor figura!
E o Freitas resfolegou prostrado, com a lngua seca.
- Mas por que diabo se retiram to depressa?... perguntou Raimundo.
Freitas engoliu sofregamente trs goles de gua e voltou-se logo.
- E porque este povinho, por fogo de vista,  pior que macaco por
banana! Tirem-lhe de l o fogo que ningum se abalar de casa!
- Com efeito! E  muito antiga esta festa, sabe?
- Bastante. Ela j tem seu tempo. Ora espere!
E o memorio atirou logo o olhar para o teto.
- No tempo dos governadores portugueses, disse, depois de uma pausa, era
ali o convento de So Francisco; isso foi... poderia ser... em.. em mil,
setecentos... e dezenove! Chamava-se ento a ponta, que forma hoje o
Largo dos Remdios, Ponta do Romeu. Ora, os frades cederam esse
terreno a um tal Monteiro de Carvalho, que fez a ermida, como se pode
calcular, no mato. Uma ocasio, porm, um preto fugido matou nesse lugar
o seu senhor, e os romeiros, que l iam constantemente, abandonaram
receosos a devoo. S depois de cinqenta e seis anos,  que o
governador Joaquim de Melo e Pvoas mandou abrir uma boa estrada, a qual
vem a ser hoje a nossa pitoresca Rua dos Remdios. A ermida caiu em
runas, mas o ermito, Francisco Xavier mandou, em 1818, construir a que
l est presentemente; e da data a festa, que tive a honra e o gosto de
descrever-lhe.
- De tudo isso, aventurou Raimundo, o que mais me admira  a sua
memria: o senhor com efeito tem uma memria de anjo.
- Ora! O senhor ainda no viu nada! Vou contar-lhe...
O outro ia disparatar sem mais consideraes, quando, felizmente,
acudiram todos  varanda. Criou alma nova.
- Apre! disse Raimundo consigo, respirando.  de primeira fora!...
Serviu-se o chocolate.
O cnego vinha a discretear para Manuel em voz sotuna:
- Pois  o que lhe digo, compadre, fique voc com as casas e divida-as
em meias-moradas que rendem?...
- Acha ento que vou bem, dando quatro contos de ris por cada uma...
- Decerto, so de graa!... Homem aquilo  pedra e cal - construo
antiga! - deita sculos! Alm disso, as casinhas tm bom quintal, bom
poo e no so devassadas pela vizinhana... verdade  que no deixam de
ser um bocadinho quentes mas...
- Abrem-se-lhe janelas para o nascente, concluiu o negociante.
E, assim, conversando, chegaram  varanda, onde j estavam  mesa.
Jos Roberto e Sebastio Campos serviam s senhoras acompanhando com uma
pilhria cada prato que lhes ofereciam. Raimundo pediu dispensa do ch,
com medo do Freitas que lhe abrira um lugar ao lado do seu.
Ouvia-se mastigar as torradas e sorver, aos golinhos, o chocolate quente.
- Doutor, exclamou o cnego, procurando espetar com o garfo uma fatia de
um bolo de tapioca. Prove ao menos do nosso Bolo do Maranho. Tambm o
chamam por ai Bolo podre. Prove, que isto no h fora de c...  uma
especialidade da terra!
- No  mau... disse Raimundo, fazendo-lhe a vontade. Muito saboroso,
mas parece-me um tanto pesado...
- E de substncia - acrescentou Maria Brbara. Faz-se de tapioca de
forno e ovos.
- Dona Bibina! chamou Ana Rosa, apontando para os beijus. So
fresquinhos...
Amncia, com a boca cheia, dizia baixo a Maria do Carmo:
- Pois minha amiga, quando precisar de missa com cerimnia, no tem mais
do que se entender com o padre que lhe digo.. P muito pontual e
contenta-se com o que a gente lhe da! Estirio dia, apanhou-me dezoito
mil-ris por uma missinha cantada, mas tambm podia se ver a obra que o
homem apresentou!.. Pois ento! H de dar uma criatura seus cobrinhos,
que tanto custam a juntar, a muito padre, como h por a, desses que,
mal chegam ao altar, esto pensando no almoo e na comadre?... Deus te
livre, credo! At pesa na conscincia de um cristo!
- Como o padre Murta! .. lembrou a outra.
- Oh! Esse, nem se fala! s vezes, Deus me perdoe! nos enterros, at se
apresenta bbado!
E Maria do Carmo bateu na boca - C est, acrescentou, quem j o viu a
todo o pano encomendar o corpo de Jos Caroxo!...
- No! que hojem dia a gente perde a f. . isso est se metendo pelos
olhos!... Mas  o que j no tem o outro... porta-se muito bem! muito
bem procedido! muito cumpridor das suas obrigaes! Zeloso da religio!
Acredite, minha amiga, que faz gosto... Dizem at...
E Amncia, segredou alguma coisa  vizinha Maria do Carmo baixou os
olhos. e resmungou beaticamente:
- Deus lhe leve em conta. coitado!
Houve um rumor de cadeiras que se arrastam. Os comensais afastaram-se
dos seus lugares
- Mesa feita. companhia desfeita!...gritou logo Jos Roberto chupando os
restos dos dentes E tratou de seguir as senhoras, que se encaminhavam
silenciosas para a sala.
Nisto, entrou o Dias, trazendo o Benedito pelo cs. Vinha a deitar os
botes pela boca e, quase sem poder falar, contou que seguira o ladro
at o fim da Rua Grande, e que c, ladro quebrara para o Largo dos
Quartis e quase que alcana o mato da Camboa. Dito isto, conduziu ele
mesmo o moleque l para dentro. Anda, peste! Vai preparando o pelo, que
ainda hoje te metes em relho!
Apreciaram muito o servio da Dias, e conversaram sobre aquele ato de
dedicao, elogiando o zelo do bom amigo e caixeiro de Manuel. Da a uma
hora despediam-se as moas. entre grande barafunda de beijos e abraos.
- Lindoca! gritava Ana Rosa, agora no arribe de novo, ouviu?...
- Sim, minha vida. hei de aparecer... olha!
E subiu dois degraus para lhe dizer m um segredinho.
- Sim, sim! E Eufrasinha adeus! Dona Mana do Carmo, no deixe de levar
essas meninas  quinta no dia de So Joo. Temos torta de caranguejos,
olhe l!
- Adeus, coraco!
- Etelvina, no se esquea daquilo!...
- Bibina, despea-se da gente!... guarde seus quatro vintns!...
- Olhe, observou o Sebastio Campos, que as tais moas, para se
despedirem... so terrveis!
- Pudesse uma s nau cont-las todas... recitou o Freitas. coando o
bigode com a sua unha de estimao, e o piloto fosse eu... triunfo
eterno!... E.. aps uma gargalhada seca, voltou-se para Raimundo e
ofereceu-lhe com ar pretensioso um talher na sua parca mesa.
- V doutor, v por aquela choupana, disse. V aborrecer-se um pouco...
Raimundo prometeu distraidamente. Bocejava. Por mera delicadeza,
perguntou se alguma das senhoras queria um criado para acompanh-las a
casa.
As Sarmentos aceitaram logo, com muitos trejeitos de cortesia. Ele
interiormente contrariado, levou-as at s Mercs, onde moravam, ali
mesmo, perto. Voltou pouco depois.
- Recolha-se. doutor, trate de recolher-se... aconselhou-lhe Manuel, que
o esperava de p. O senhor deve estar com o corpo a pedir descanso...
Raimundo confessou que sim, apertou-lhe a mo. Boas noites, e
obrigado.
- At amanh! Olhe! se precisar de qualquer coisa, chame pelo Benedito,
ele dorme na varanda. Mas deve estar tudo l; a Brgida  cuidadosa
Passe bem!
Raimundo fechou-se no quarto: despiu se, acendeu um cigarro e deitou-se.
Abriu por hbito um livro; mas, no fim da primeira pgina, as plpebras
se lhe fechavam Soprou a vela. Ento sentiu um bem-estar infinito,
profundamente agradvel: abraou-se aos travesseiros e, antes que algum
dos acontecimentos desse dia lhe assaltasse o esprito, adormeceu.
Todavia, a pouca distncia dali, algum velava, pensando nele.
CAPTULO 5
Era Ana Rosa. Logo que ela se recolhera ao quarto, gritara pela Mnica.
- Me- pretinha!
Assim tratava a cafuza que a criara e que dormia todas as noites debaixo
da sua rede...
- Me-pretinha!  senhores!
- O que , lai? No se agaste!
- Voc tem um sono de pedra! oh!
Deu um estalo com a lngua.
- Dispa-me!
E estendeu-se negligentemente em uma cadeira, entregando  criada os ps
pequeninos e bem calados.
Mnica tomou-os, com amor, entre as suas mos negras e calejadas;
descalou-lhe cuidadosamente as botinas, sacou-lhe fora as meias;
depois, com um desvelo religioso, como um devoto a despir a imagem de
Nossa Senhora, comeou a tirar as roupas de Ana Rosa; desatou-lhe o
cadaro das anguas; desapertou-lhe o colete e, quando a deixou s em
camisa, disse, apalpando-lhe as costas:
- lai? vos vossemec est to suada!...
E correu logo ao ba.
A senhora pusera-se a cismar, distrada, coando de leve a cintura, o
lugar das ligas e as outras partes do seu corpo que estiveram
comprimidas por muito tempo. Mnica voltou com uma camisola toda
cheirosa, impregnada de junco, a qual, abrindo-a com os braos, enfiou
pela cabea de Ana Rosa, esta ergueu-se e deixou cair a seus ps a
camisa servida e conchegou a outra  pele, afagando os seus peitos
virgens num estremecimento de rola. Depois suspirou baixinho e deu uma
carreira para a rede, na pontinha dos ps, como se nem quisesse tocar no
cho.
A cafuza ajuntou zelosamente a roupa dispersa pelo quarto e guardou as jias.
- lai quer mais alguma coisa?
- gua, disse a moa, aninhando-se j nos lenis defumados de alfazema.
S se lhe via a graciosa cabea, saindo despenteada dentre nuvens de
pano branco.
A cafuza trouxe-lhe uma bilha de gua, e a senhora, depois de servida,
beijou-lhe a mo.
- Boas noites me-pretinha. Abaixe a luz e feche a porta.
- Deus te faa uma santa! respondeu Mnica, traando no ar uma cruz com
a mo aberta.
E retirou-se humildemente, toda bons modos e gestos carinhosos.
Mnica orava pelos cinqenta anos; era gorda, sadia e muito asseada;
tetas grandes e descadas dentro do cabeo Tinha ao pescoo um
barbante, com um crucifixo de metal, uma pratinha de 200 ris, uma fava
de cumaru, um dente de co e um pedao de lacre encastoado em ouro.
Desde que amamentara Ana Rosa, dedicara-lhe um amor maternalmente
extremoso, uma dedicao desinteressada e passiva. Iai fora sempre o
seu dolo, o seu nico querer bem, porque os prprios filhos esses
lhos arrancaram e venderam para o Sul. Dantes, nunca vinha da fonte,
onde passava os dias a lavar, sem lhe trazer frutas e borboletas, o que,
para a pequenina, constitua o melhor prazer desta vida. Chamava-lhe
sua filha, seu cativeiro e todas as noites, e todas as manhs, quando
chegava ou quando saia para o trabalho, lanava lhe a bno, sempre com
estas mesmas palavras: Deus te faa uma santa! - Deus te ajude! Deus te
abenoe! Se Ana Rosa fazia em casa qualquer diabrura, que desagradasse
a me-preta, esta a repreendia imediatamente, com autoridade; desde,
porm, que a acusao ou a reprimenda partissem de outro, fosse embora
do pai ou da av, punia logo pela menina e voltava-se contra os mais.
Havia seis anos que era forra. Manuel dera-lhe a carta a pedido da
filha, o que muita gente desaprovou, ters o pago!... diziam-lhe. Mas
a boa preta deixou-se ficar em casa dos seus senhores e continuou a
desvelar-se pela laia melhor que at ento, mais cativa do que nunca.
Ana Rosa, mal ficou sozinha, no aconchego confidencial da sua rede,
intima tranqilidade do seu quarto frouxamente iluminado  luz mortia
do candeeiro de azeite, principiou a passar em revista todos os
acontecimentos desse dia. Raimundo avultava dentre a multido dos fatos
como uma letra maiscula no meio de um perodo de Lucena; aquele rosto
quente, de olhos sombrios, olhos feitos do azul do mar em dias de
tempestade, aqueles lbios vermelhos e fortes, aqueles dentes mais
brancos que as presas de Uma fera, impressionavam-na profundamente. Que
espcie de homem estaria ali!...
Procurava com insistncia recordar-se dele em algum dos episdios da sua
infncia! diziam-lhe. entretanto, que brincara com ela em pequenino, e
que foram amigos, companheiros de bero criados juntos, que nem irmos.
E todas estas coisas lhe produziam no esprito um efeito muito estranho
e singular. As meias sombras, as reservas e as reticncias, com que a
medo lhe falavam dele, ainda mais interessante o tomavam aos olhos dela.
Mas, afinal, quem seria ao certo aquele belo moo?... Nunca o
explicaram; paravam em certos pontos, saltavam sobre outros como por
cima de brasas; e tudo isto, todos estes claros que deixavam abertos a
respeito do passado de Raimundo, todos esses vus em que o envolviam
como a Uma esttua que se no pode ver emprestavam-lhe atraes
magnticas, Um encanto irresistvel e perigoso de mistrio, uma
fascinao romntica de abismo.
Entontecia de pensar nele. O hibridismo daquela figura, em que a
distino e a fidalguia do porte se harmonizavam caprichosamente com a
rude e orgulhosa franqueza de um selvagem produzia-lhe na razo o efeito
de Um vinho forte, mas de Uma doura irresistvel e traidora ficava
estonteada; perturbava-se toda com a lembrana do contraste daquela
fisionomia, com a expresso contraditria daqueles olhos, suplicantes e
dominadores a Um tempo; sentia-se vencida, humilhada defronte daquele
mito; reconhecia-lhe certo imprio, certa preponderncia que jamais
descobrira em ningum; quanto mais o comparava aos outros, mais o achava
superior, nico, excepcional.
E Ana Rosa deixava-se invadir lentamente por aquela embriaguez
esquecendo-se, alheando-se de tudo, sem querer pensar em outro objeto
que no fosse Raimundo. De repente surpreendeu-se a dizer: Como deve
ser bom o seu amor!... E ficou a cismar, a fazer conjeturas, a julg-lo
minuciosamente, da cabea aos ps. Parou nos olhos: Quantos tesouros de
ternura no estariam neles escondidos? neles, do feitio de amndoas,
banhados de bondade e cercados de pestadas crespas e negras, como os
plos de um bicho venenoso; aquelas pestanas lembravam-lhe as sedas de
uma aranha caranguejera. Estremeceu, porm, vieram-lhe desejos de os
apalpar com os lbios. Como devia ser bom ouvir dizer - Eu te amo! -
por aquela boca e por aquela voz!... E ficava assustada, como se de
fato, no silncio da alcova, Uma voz de homem estivesse a segredar-lhe,
junto ao rosto, palavras de amor.
Mas logo tomava a si com a idia do porte austero e frio de Raimundo.
Esta indiferena, ao mesmo tempo que lhe pungia e atormentava o
orgulhoso, levanta-lhe. na sua vaidade de mulher, Um apetite nervoso de
ver rendida a seus ps aquela misteriosa criatura, aquele espectro
inaltervel e sombrio, que a vira e contemplara sem o menor sobressalto.
E entre mil devaneios deste gnero, com o sangue a percorrer-lhe mais
apressado as artrias, conseguir afina! adormecer. vencida de cansao.
E, quem pudesse observ-la pela noite adiante. V-la-ia de vez em quando
abraar-se aos travesseiros e, trmula, estender os lbios, entre
abertos e sfregos. como quem procura um beijo no espao.
Na manh seguinte acordara plido e nervosa, a semelhana de uma noiva
no dia imediato s npcias. Faltava-lhe animo at para se preparar e
sair do quarto: deixava-se ficar deitada na rede, a cismar, sem abrir de
todo os olhos cheia de fadiga.
Parecia-lhe sentir ainda na face o calor do rosto de Raimundo.
Decorreram duas horas e ela continuava na mesma irresoluo: as
plpebra]s lnguidas, as narinas dilatadas pelo hlito quente e doendo:
os beios secos e speros; o corpo modo sob um fastio geral, que lhe
dava espreguiamentos de febre e m vontade. E., assim prostrada,
deixava-se ficar entre os lenis, tolhida de vexame e enleio, pelas
loucuras da noite.
A voz clara de Raimundo que conversava na varanda enquanto tomava caf,
despertou-a; Ana Rosa estremeceu, mas, num abrir e fechar de olhos,
ergueu-se. lavou se e vestiu-se. Ao fitar o espelho, achou-se feia e mal
enforcada, posto no estivesse pior que nos outros dias, endireitou-se
toda, cobriu o rosto de p de arroz, arranjou melhor os cabelos e
escovou um sorriso.
Apareceu l fora com grande acanhamento; deu a Raimundo um Bons dias
frio de olhos baixos. No podia encar-lo. Maria Brbara j l estava na
labutao, a cuidar da casa, a dar voltas. a gritar com os escravos.
- Olha esse bilhete da Eufrsia. disse ela, ao ver a neta. E passou-lhe
uma tira de papel. engenhosamente dobrada em lao com um galhinho de
alecrim enfiado no centro.
Ana Rosa teve um gesto involuntrio de contrariedade. Aborrecia-lhe
agora sem saber por qu, a amizade da viva, dela, que era ate ai a sua
ntima, a sua confidente, a sua melhor amiga; dos outros havia muito que
se tinha enfastiado o seu desejo, naquele instante, era ficar s, bem
s, num lugar em que ningum pudesse importun-la.
Serviu-se de uma xcara de caf, deu-se por incomodada.
- V. Ex sente alguma coisa? perguntou Raimundo com delicadeza.
Ana Rosa sobressaltou-se ligeiramente, ergueu os olhos, viu os do rapaz,
abaixou logo os seus e entressorrindo, gaguejou:
- No  nada... Nervoso...
-  isto! acudiu Maria Brbara, que parara para ouvir a resposta da
neta. Nervoso! Olhem que estas moas de agora so to cheias de tanta
novidade e de tantas invenes!... E o nervoso!  a tal da enxaqueca! 
o flato!  o faniquito! Ah, meu tempo, meu tempo!...
Raimundo riu-se e Ana Rosa deu de ombros, simulando indiferena pelo que
dizia a velha.
- No faa caso, moo! Esta menina est assim j de tempos, e ningum me
tira que foi quebranto que lira botaram!...
Raimundo tomou a rir. e Ana Rosa endireitou-se na cadeira em que acabava
de assentar-se. Esta vov!... pensou ela envergonhada. Que idia no
ficar ele fazendo da gente!...
- No se ria, nh Mundico! no se ria, prosseguiu a sogra de Manuel, que
aqui esta - e bateu no peito - quem j andou de quebranto a dar-no-d
com os ossinhos no Gavio!
E, tirando do seio um trancelim, com uma enorme figa de chifre
encastoada em ouro. Ai, minha rica figa, a ti o devo! a ti o devo, que
me livraste do mau-olhado!
- Mas, Sr Dona Maria Brbara, conte-me como foi essa histria do
quebranto, pediu Raimundo.
- Ora o qu! Pois ento o senhor no sabe que o mau-olhado pegando Uma
criatura de Deus e que est despachadinha?... Ento, credo! que andou o
senhor aprendendo l por essas paragens que correu?!
- V. Ex., minha prima, tambm acredita no quebranto? interrogou o moo,
voltando-se para Ana Rosa.
- Bobagens... murmurou esta, afetando superioridade.
- Ah, ento no  supersticiosa?...
- No, felizmente. Alm disso - e abaixou a voz, rindo-se mais - ainda
que acreditasse, no corria risco... dizem que o quebranto s ataca em
geral as pessoas bonitas...
E sorriu para Raimundo.
- Nesse caso,  prudente acautelar-se... volveu ele galanteando.
E, como se Ana Rosa lhe chamara a ateno para a prpria beleza passou a
consider-la melhor; enquanto a velha taramelava:
- Meu caro senhor Mundico, hoje em dia j no se acredita em coisa
alguma!... por isso  que os tempos esto como esto - cheios de febres,
de bexigas, de tsicas e de paralisias, que nem mesmo os doutores de
carta sabem o que aquilo ! Diz que  beribri ou no sei qu; o caso
 que nunca vi em dias de minha vida semelhante diabo de molstia, e que
o tal como-chama est matando de repente que nem obra do sujo, credo!
At parece castigo! Deus me perdoe! Isto vai, mas  tudo caminhando para
uma repblica h de dar-lhes uma. que os faa ficar ai de dente
arreganhado! Pois o que, senhor! se j no h tementes de Deus! j
poucos so os que rezam!.. Hoje, com perdo da Virgem Santssima - e
bateu uma palmada na boca - at podres! at h padres que no prestam!
Raimundo continuava a rir.
- Quanto mais, observou ele de bom humor para a fazer falar quanto mais
se V. Ex.a conhecesse certos povos da Europa meridional.
Ento e que ficaria pasma deveras!
- Credo, minha Nossa Senhora! que inferno no ir ,: ir esse mundo de
esconjurados! Por isso e que agora est se vendo li sue se v, benza-me
Deus!
E, benzendo-se ela prpria com ambas as mos, pediu que a deixassem ir
dar uma vista de olhos pela cozinha.
-  eu no estar l e o servio fica logo pra trs!. Caem no remancho,
diabo das pestes!
Afastou-se gritando, desde a varanda pela Brgida: A estavam a pingar
as nove, e nem sinal de almoo!...
Raimundo e Ana Rosa ficaram a ss defronte um , outro, ela de olhos
baixos, confusa, na aparncia quase aborrecida; e ele. de cara alegre, a
observ-la com interesse, gozando em contemplar, assim de perto, aquela
provinciana simples e bem disposta, que se lhe afigurava agora uma irm,
de quem ele estivera ausente desde a infncia Deve ser, com certeza,
uma excelente moca... calculou de si para si Pelo seu todo esta a dizer
que  boa de corao e honesta por natureza Alm do que, bonita...
Sim, que at ai Raimundo ainda no tinha reparado que sua prima era
bonita. Notou-lhe ento a frescura da pele, a pureza da boca, a
abundncia cabelos. Achou-a bem tratada; as mos claras, os dentes
asseados, a tez muito limpa, fina e lustrosa, na sua palidez simptica
de flor do Norte.
Principiaram a conversar, depois de algum silncio, com muita cerimnia.
Ele continuava a dar-lhe excelncia, o que a constrangia um tanto,
perguntou lhe pelo pai
Que tinha ido para o armazm, como de costume, e s subiria para almoar
e para jantar. Da, queixou-se da solido em que vivia no aborrecimento
daquela casa Um cemitrio de triste!... Lamentou no ter um irmo e,
em resposta a uma pergunta que lhe fez o rapaz, disse que lia para se
distrair, mas que a leitura muitas vezes a fatigava tambm. O primo, se
tinha um romance bom, que lho emprestasse.
Raimundo prometeu ver entre os seus livros, logo que abrisse um caixo
que ainda estava pregado.
A propsito do romance, entrou a conversa pelas viagens. Ana Rosa
lamentou no ter sado nunca do Maranho. Tinha vontade de conhecer
outros climas, outros costumes; entusiasmava-se com a descrio de
certos lugares; falou, suspirando, da Itlia. Ah, Npoles!...
- No, no! objetou o rapaz. No  o que Vossa Excelncia supe! Os
poetas exageram muito!  bom no acreditar em tudo o que eles dizem, os
mentirosos!
E, depois de uma ligeira smula das impresses recebidas na Itlia,
perguntou  prima se queria ver os seus desenhos. A menina disse que sim
e Raimundo, muito solicito, correu a buscar o seu lbum.
Logo que ele se levantou, Ana Rosa sentiu um grande alvio: respirou
como se lhe houvessem tirado um peso das costas. Mas j no estava to
nervosa e at parecia disposta a rir e gracejar;  que Raimundo, no meio
da conversa, dissera despretensiosamente que simpatizava muito com ela;
que a achava interessante e bonita, e isto sem precisar de mais nada,
tornou-a logo bem disposta e restituiu-lhe ao semblante a sua natural
expresso de bom humor.
Ele voltou com o lbum e abriu-o de par em par defronte da rapariga.
Comearam a ver. Ana Rosa era toda ateno para os desenhos; enquanto
Raimundo, ao seu lado ia virando as folhas com os seus dedos morenos e
rolios. e explicando as paisagens montanhosas da Sua os edifcios e
os jardins de Frana, os arrabaldes de Itlia. E contava os passeios que
realizara, os almoos que tivera em viagem, as serenatas em gndola; ia
dizendo tudo o que aqueles desenhos lhe chamavam  memria: como chegara
a certo lago; como passara tal ponte; como fora servido em tais e tais
hotis e o que sabia daquele chalezinho verde, que a aquarela
representava escondido entre rvores sonolentas e misteriosas.
Ana Rosa escutava com um silncio de inveja.
- Que  isto? perguntou ela, ao ver um esboo, que expunha dois bispos,
j amortalhados dentro dos competentes caixes de defunto, como  espera
do momento de baixarem a tenra. Um estava imvel, de mos postas e olhos
cerrados; o outro, porm, erguia-se a meio e parecia voltar  vida. Ao
lado deles havia um frade.
- Ah! fez ele rindo, e explicou: Isso  copiado de um quadro, que vi na
sacristia do velho convento de So Francisco, da Paraba do Norte. No
vale nada, como todos os quadros que l esto, e no poucos, pintados
sobre madeira; um colorido impossvel; as figuras mal desenhadas, muito
duras. Esse  um dos mais antigos; copiei-o por isso. Pura curiosidade
cronolgica. V esse escudo nas mos do frade? Tenha a bondade de virar
a pgina; que Vossa Excelncia encontrar um soneto que a estava
escrito a pincel.
Ana Rosa virou a folha e leu:
Este quadro, Leitor, onde a figura Vivo um Bispo te pe. que morto
estar a, Mostra quanto Francisco o estimava Pois no quer v com culpa 
sepultura.
Olha o outro defronte. em que a pintura Jugulado o expe: este formava
Contra a Ordem mil queixas. que esperava Fossem dos Frades trgico
jatura.
Tu agora, Leitor, que a diferente Sorte u es nestes dois acontecida Toma
a ti a que for mais conducente:
O primeiro ama a Ordem e toma  vida: O segundo a aborrece e o golpe
sente. Ambos prmios tm por igual medida.
- Quem h de gostar disto.  vov... ela tem muita devoo com So
Francisco!
- Olhe! ai tem Vossa Excelncia um dos pontos mais bonitos de Paris.- 
desenho de um pintor meu amigo; muito forte! - Essas runas, que
aparecem ao fundo, so das Tulherias.
E passaram a conversar sobre a Guerra Franco-Prussiana, extinta pouco
antes. Ana Rosa, sem desprender os olhos do lbum, via e ouvia tudo, com
muito empenho; queria explicaes; no lhe escapava nada. Raimundo,
debruado nas costas da cadeira em que ela estava. tinha s vezes de
abaixar a cabea para afirmar o desenho e rogava involuntariamente o
rosto nos cabelos da rapariga.
Ao virar de uma folha deram de sbito com um carto fotogrfico, que
estava solto dentro do livro; um retrato de mulher sorrindo
maliciosamente numa posio de teatro: com as suas saias de cambraia,
curtssimas, formando-lhe uma nuvem vaporosa em torno dos quadris; colo
nu, pernas e braos de meia.
- Oh! articulou a moa, espantando-se como se o retrato fosse uma pessoa
estranha que viesse entreter-se no seu colquio.
E maquinalmente, desviou os olhos daquele rosto expressivo que lhe
sorria do carto com um descaramento muito real e uma ironia atrevida.
Declarou-a logo detestvel.
- Ah, certamente!... E uma danarina parisiense, explicou Raimundo,
fingindo pouco caso. Tem algum merecimento artstico...
E, tomando a fotografia com cuidado, para que Ana Rosa no percebesse a
dedicatria nas costas do retrato, colocou-a entre as folhas j vistas
do lbum.
Ao terminarem, ele falou muito da Europa e, como a msica viesse 
conversa, pediu a Ana Rosa que tocasse alguma coisa antes do almoo.
Passaram-se para a sala de visitas, e ela, com um grande acanhamento e
um pouco de desafinao, executou vrios trecho italianos.
Benedito apareceu  porta de corpo nu.
- lai! Sinh est chamando pra mesa.
O almoo correu pilheriado e alegre. O cnego Diogo viera a convite de
Manuel, no propsito de sarem os dois mais o Raimundo. para dar uma
vista dolhos pelas casinhas de So Pantaleo.
Servida a segunda mesa, os caixeiros subiram com grande rudo de ps.
Por esse tempo aqueles trs surgiam na rua, formando cada qual mais vivo
contraste com os outros: Manuel no seu tipo pesado e chato de
negociante, calas de brim e palet de alpaca; o cnego imponente na sua
batina lustrosa, aristocrata, mostrando as meias de seda escarlate e o
p mimoso, apertadinho no sapato de polimento; Raimundo, todo europeu,
elegante, com uma roupa de casimira leve adequada ao clima do Maranho,
escandalizando o bairro comercial com o seu chapu-de-sol coberto de
linho claro e forrado de verde pela parte de dentro. Formavam dizia
este ltimo, chasqueando, sem tirar o charuto da boca uma respeitvel
trindade filosfica, na qual, ali, o Senhor Cnego representava a
teologia, o Senhor Manuel a metafsica, e ele, Raimundo, a filosofia
poltica; o que, aplicado  poltica, traduzia-se na prodigiosa aliana
dos trs governos - o do papado, o monrquico e o republicano!
Ana Rosa espreitava-os e seguia-os com a vista, curiosa, por entre as
folhas semicerradas de uma janela.
Por onde seguiam, Raimundo ia levantando a ateno a todos. As negrinhas
comam ao interior das casas, chamando em gritos a sinh-moa para ver
passar Um moo bonito! Na rua, os linguarudos paravam com ar estpido,
para examin-lo bem; os olhares mediam-no grosseiramente da cabea aos
ps, como em desafio; interrompiam-se as conversas dos grupos que ele
encontrava na calada.
- Quem e aquele sujeito, que ali vai de roupa clara e um chapu de
palha?
- Oressa! Pois ainda no sabes? respondia um Bento.  o hspede de
Manuel Pescada!
- Ah! este  que  o tal doutor de Coimbra?
- O cujo! afirmava o Bento.
- Mas Brito, vem c! disse o outro, com grande mistrio, como quem faz
uma revelao importante. - Ouvi dizer que  mulato!...
E a voz do Brito tinha o assombro de uma denncia de crime.
- Que queres, meu Bento? So assim estes pomadas c da terra dos
papagaios! E ainda se zangam quando queremos limpar lhes a raa, sem
cobrar nada por isso!
- Branquinho nacional!  gentinha com quem eu embirro.  Bento, como com
o vento, disse Brito com uma troca e baldroca de VV e BB, que denunciava
a sua genealogia galega.
Em outra parte, dizia-se:
- Ol Um cara nova? Que achado!
-  o Doutor Raimundo da Silva...
- Mdico?
- No. Formado em Direito
- Ah!  advogado? Que faz ele? do que vive? o que possui?
- Vem advogar a prpria causa por c! Est tratando do que lhe pertence
e do que lhe no pertence!
- O que me conta voc, homem?...
- Coisas da vida, meu amigo! Estes doutores pensam que aqui os
casamentos ricos andam a ufa!...
Em uma casa de famlia:
- Sabem? passou por a o Raimundo!
- Que Raimundo? perguntam logo em coro.
- Aquele mulato, que diz que  doutor e est s sopas do Manuel Pescada!
- Dizem que ele tem alguma coisa...
- Pulha, minha rica, todos estes aventureiros, que arribam por c,
trazem o rei na barriga!
- E o Pescada para que o quer em casa?
Qual quer o qu! O Manuel despachou-o bonito, porem o mitra deixou-se
ficar!
- Sempre h muita gente sem vergonha!...
Em outras partes, juraram que Raimundo era filho do cnego Diogo e que
vinha dos estudos; ainda noutras, viam em Raimundo uma carta do Partido
Conservador; o redator do Maritacaca dizia a um correligionrio:
Espere um pouco! deixe chegarem as eleies e ento voc ver este
sujeito de cama e mesa com o presidente. Olhe! eles ho de dar-se
perfeitamente, porque, tanto cara de safado tem um, como o outro!
E assim ia Raimundo, sendo inconscientemente, objeto de mil comentrios
diversos e estpidas conjeturas.
 noite estava fechado o negcio das casas, e decidido que, mel fizesse
bom tempo, iria ele ao Rosrio com o Manuel, resolver o da fazenda.
No dia imediato, Raimundo deu um passeio ao Alto da Carneira; no outro
dia foi at So Tiago; no outro percorreu a praa do Mercado; foi trs
ou quatro vezes ao Remdios; repetiu a visita aos pontos citados e - no
tinha mais onde ir. Meteu-se em casa, disposto a cultivar as relaes
familiares do tio e visit-las de vez em quando, para se distrair; mas,
posto lhe repetissem com insistncia que o Maranho em uma provncia
muito hospitaleira, como  de fato, reparava despeitado, que, sempre e
por toda a parte, o recebiam constrangidos. No lhe chegava as mos um
s convite para baile ou para simples sarau; cortavam muita vez a
conversao, quando ele se aproximava; tinham escrpulo em falar na sua
presena de assuntos, alis, inocentes e comuns; enfim - isolavam-no, e
o infeliz, convencido de que era gratuitamente antipatizado por toda a
provncia, sepultou-se no seu quarto e s saa para fazer exerccio, ir
a uma reunio pblica, ou ento quando algum dos seus negcios o chamava
 rua. Todavia, uma circunstncia o intrigava, e era que, se os chefes
de famlia lhe fechavam a casa, as moas no lhe fechavam o corao; em
sociedade o repeliam todas, isso e exato, mas em particular o chamavam
para a alcova. Raimundo via-se provocado por vrias damas, solteiras,
casadas e vivas, cuja leviandade chegava ao ponto de mandarem-lhe
flores e recados, que ele fingia no receber, porque, no seu carter
educado, achava a coisa ridcula e tola. Muitos e muitos dias neo se
despregava do quarto, seno para comer ou, o que sucedia com freqncia,
para ir  varanda dar dois dedos de palestra  prima.
Estes cavacos faziam-se pelo alto dia, a horas de mais calor, e, muita
vez, tambm a noite, das sete s nove, durante o sero. O rapaz, sempre
respeitoso, assentava-se, defronte da maquina em que Ana Rosa costa, e
com um livro entre os dedos ou a rabiscar algum desenho, conversavam
tranqilamente, com grandes intervalos. As vezes dava lhe para pedir
explicaes sobre a costura; queria saber, com um interesse pueril e
carinhoso, o modo de arrematar as bainhas, de tirar os alinhavos; outras
vezes, distrados, falavam de religio, poltica, literatura, e
Raimundo, de bom humor, concordava em geral com tudo o que ela entendia,
mas, quando lhe dava na cabea, discordava, de manhoso, para que a
menina se exaltasse, discorresse sobre o ponto, e ralhasse com ele,
procurando, muito seria, cham-lo a verdade religiosa, dizendo-lhe que
no fosse maom e respeitasse a Deus!
Raimundo, que nunca, depois de homem, vivera na intimidade da famlia,
dedicava-se com aquilo. Dona Maria Brbara, porem, vinha quase sempre
quebrar com o seu mau gnio aquele remanso de felicidade. Em cada vez
mais insuportvel o diabo da velha! berrava horas inteiras tinha ataques
de clera; no podia passar muito tempo sem dar pancadas nos escravos. O
rapaz, por diversas vezes, enterrara o chapu na cabea e sara
protestando mudar-se.
- Que carrasco! dizia a descer a quatro e quatro os degraus. Da bordoada
por gosto! Diverte-se em fazer cantar o relho e a palmatria!
E aquele castigo brbaro e covarde revoltava-o profundamente, punha-o
triste, dava-lhe mpetos de fazer um despropsito na casa alheia.
Estpidos! exclamava a ss, indignado. Mas, como a mudana no fosse
to fcil, contentava-se ele com o passar uma parte do dia no bilhar do
nico restaurante da provncia, no sem pena de abandonar as inocentes
palestras da varanda.
Em breve criou fama de jogador e bbado.
O fato era que, por tudo isto, lhe minava o esprito uma surda
repugnncia pela provncia e contra aquela maldita velha. Quando o
estalo do chicote ou dos bolos rebentava no quintal ou na cozinha,
Raimundo repelia a pena com que trabalhava no quarto.
- L est o diabo! Nem me deixa fazer nada! arre!
E saa furioso para o bilhar.
Ora, Ana Rosa, era tambm contra o castigo, e o procedimento da av foi
um pretexto para a sua primeira solidariedade de pontos de vista com o
primo; os dois conversavam em voz baixa contra Maria Brbara, e esta
conspirao aproximava-os mais um do outro, unia-os. Mas um belo dia, em
que o Benedito levou uma mela mais estrada, Raimundo chegou-se a Manuel
e falou-lhe resolutamente em mudana. Que sabia estava incomodando e
no queria abusar. O Senhor Manuel que tivesse pacincia e lhe
arranjasse uma casinha mobiliada e um criado...
- O que, homem!... protestou logo Manuel, a quem no convinha a mudana
do seu hspede antes de realizada a compra da fazenda. O doutor pensa
que est na Europa ou no Rio?... Pois ento casinhas mobiliadas e com
criado, isto  l coisa que se encontre por c?... Ora deixe-se disso!
E, como o sobrinho insistisse, continuou declarando que semelhante
exigncia, sobre ser quase inexeqvel acarretava para ele, Manuel,
certa odiosidade. Que no diriam por ai?... Diriam que Raimundo fora
to maltratado pelos parentes de seu pai que preferira sepultar-se entre
quatro paredes a ter de atur-los!
- No senhor! concluiu ele, afagando-lhe o ombro com uma palmada,
deixe-se ficar c em casa, pelo menos ate o vero - em agosto, iremos
juntos ver a fazenda - e, como por esse tempo j todos os seus negcios
estaro liquidados. ou o senhor volta para a Corte, ou se instala aqui
mesmo na provncia, porm com decncia! No lhe parece isto acertado?
Para que fazer as coisas mal feitas?...
Raimundo consentiu afinal, e, desde ento, esperava o ms de agosto com
uma impacincia de faminto. No era tanto a vontade de fugir a Maria
Brbara o que lhe fazia desejar com tamanha febre aquela viagem ao
Rosrio, mas o empenho a sede velha de tornar a ver o lugar, em que lhe
diziam, to secamente, ter ele nascido e vivido os seus primeiros anos.
E da, quem sabe l se no iria encontrar a decifrao do mistrio da
sua vida?...
Esperou, e na espera entretinha-se todos os dias com Ana Rosa, tanto e
com tal satisfao, que ainda nos princpios de junho, confessava j no
lamentar a dificuldade da mudana. Ao contrario, pressentia at que j
no podia realiz-la, sem sofrer pela falta daquele conchegozinho de
famlia sem curtir grandes saudades por aquela irm, sua amiga, franca e
delicada, que lhe dera a provar pela primeira vez o suavssimo prazer da
convivncia em famlia.
Efetivamente, a filha de Manuel j era muito chegada a Raimundo...
O tratamento de excelncia desaparecera como intil entre parentes que
se estimam; os sustos, os sobressaltas, as desconfianas, que dantes a
acometiam na presena daquele moo austero e na aparncia to pouco
comunicativo, foram substitudos, graas s providncias do negociante
sobre Maria Brbara, por momentos agradveis, cheios de doura, em que o
primo, ora contava com graa as peripcias de uma jornada; ora desenhava
a lpis a caricatura dos conhecidos da casa; ora solfejava alguma
melodia alem ou algum romance italiano; ou, quando menos, lia versas e
contos escolhidos.
Ana Rosa sentia em tudo isso um grande encanto, mas incompleto:
Raimundo, pelos modos, parecia que lhe no tributava mais do que
respeitosa amizade de irmo; e isto, para ela, no bastava. Raro era o
dia em que a maca sob qualquer pretexto, no lhe fazia uma carcia
disfarada; dizia por exemplo: Esta varanda e muito fresca... No acha
primo? Olhe, veja como tenho as mos frias... E entregava-lhe as mos,
que ele tenteava frouxamente, com medo de ser indiscreto. Outras vezes
fingia reparar que o rapaz tinha os dedos muito longos e vinha-lhe 
fantasia medi-los com os seus. ou queixava-se de ameaas de febre e
pedia-lhe que lhe tomasse o pulso. Mas, a todas estas dissimulaes da
ternura. a todas estas tmidas hipocrisias do amor, sujeitava-se ele
frio, indiferente e por vezes distrado.
Este pouco caso desesperava-a; doa-lhe aquela falta de entusiasmo,
aquele nenhum carinho. por ela, que tanto se desvelava em merec-lo.
Cercos dias a pobre moca aparecia sem querer dar lhe palavra e com os
olhos vermelhos s e pisados; Raimundo atribua tudo a qualquer
indisposio nervosa e procurava distra-la por meio da conversa, da
msica. sem nunca lhe falar do aspecto triste e abatido que lhe notava;
tinha receio de impression-la e s conseguia afligi-la mais, porque Ana
Rosa, quando, ao levantar-se da rede, se percebia plida e triste,
esforava-se por conservar intacta na fisionomia a expresso da sua
mgoa, na esperana de comov-lo; de ser interrogada por ele, de ter
enfim uma ocasio de confessar-lhe o seu amor. O ar friamente atencioso
de Raimundo, as suas perguntas calmas, cristalizadas pela delicadeza,
com que ele se informava da sade da prima, a imperturbabilidade mdica
com que falava daquelas tristezas, daquela insnia e daquela falta de
apetite, a formal condescendncia que afetava, como por obsquio a uma
pobre convalescente que se no deve contrariar, enchiam-na de raiva e
despedaavam-lhe a esperana de ser correspondida.
Uma ocasio, em que ela se lhe apresentou muito mais desfeita e plida,
Raimundo chamou a ateno de Manuel para a sade da filha:
- Tenha cuidado! disse-lhe Aquela idade  muito perigosa nas mulheres
solteiras... Talvez fosse acertado uma viagem... Em todo o caso, no h
efeito sem causa.. E bom consultar o mdico.
Manuel coou a cabea, em silncio; a verdadeira causa j o Jauffret lhe
havia declarado; mas. como Raimundo voltasse  questo e pintasse o caso
muito feio, insistindo em que era preciso fazer alguma coisa, teve o bom
portugus, nessa mesma tarde, uma conferncia com o compadre e com o seu
caixeiro Dias a quem prometeu sociedade comercial, na hiptese de que se
efetuasse para o seguinte ms, como ficava resolvido, o casamento dele
com Ana Rosa.
- Mas a Dona Anica levar em gosto?... perguntou o Dias, abaixando os
olhos, com o melhor sorriso hipcrita do seu repertrio.
- Naturalmente... respondeu Manuel. porque da ltima vez que lhe toquei
nisso, ela deu-me esperana... agora  provvel que d certeza!
- De no casar talvez! observou o cnego.
- Como no casar?...
- Como? Eu lho digo...
E o cnego apresentou as suas razes, fez bons argumentos, estabeleceu
premissas, tirou concluses, citou mximas latinas, e declarou que
aquela hospedagem do cabrocha, no seio da famlia, nunca fora do seu
gosto; e que, para se tratar do casamento de Ana Rosa, a primeira coisa
a fazer era afast-lo da casa.
Mas o negociante, que colocava os seus interesses pecunirios acima de
tudo, abanou as orelhas s palavras do compadre, e descreveu a atitude
respeitosa e desinteressada de Raimundo ao lado de Ana Rosa; falou no
empenho com que o sobrinho quis mudar-se; no seu honor pela provncia;
no seu entusiasmo pela Corte; e lembrou que fora ele prprio at,
coitado! quem provocara aquela conferncia dos trs. Terminou dizendo
que, por esse lado, nada temia. Alm de que, depositava bastante
confiana no bom senso de sua filha. No! por ai podiam estar
descansados! No havia perigo a recear!
- Veremos... veremos... Enquanto no assistir ao casamento deste aqui
com a minha afilhada, estou no que disse!... Cui fidas vide!
E o cnego assoou-se com estrondo.
Nessa mesma noite, Manuel, aproveitando a ausncia do hspede, levou a
filha ao quarto de Maria Brbara.. A velha embalava-se na rede,
bebendo o seu fumo de corda no cachimbo e fitando um velho oratrio de
pau-santo. Ana Rosa, intrigada com a situao, encostou-se a uma cmoda,
e o pai, depois de discorrer sobre vrias coisas indiferentes, disse
que, no dia seguinte, viriam as amostras da casa do Vilarinho, para a
noiva escolher as fazendas do seu enxoval!
- Quem vai casar?... perguntou a menina, num alvoroo.
- Faze-te desentendida, minha sonsa!... Ora qual de ns aqui tem mais
cara de noivo - eu ou tua av?...
E Manuel fez uma festinha no queixo da filha.
- Casar! eu? mas com quem, papai?
E Ana Rosa sorriu, porque calculou que Raimundo a pedira em casamento.
- Ora com quem havia de ser, minha disfarada?
E desta vez foi Manuel que riu, iludido pelo bom acolhimento que a filha
dera  noticia.
- No sei, nem senhor... respondeu ela, com ar de quem sabe
perfeitamente. Com quem ?...
- Anda l, sonsinha? No sabes outra coisa!...
E, enquanto Ana Rosa parecia muito ocupada em raspar com a unha uns
pingos de cera velha, espalhados pela madeira da cmoda, continuou o
negociante:
- Mas por que no me falaste com franqueza h mais tempo, sua
caprichosa, fazendo o pobre rapaz supor que o nem querias?...
Ana Rosa ficou seria.
O pai acrescentou:
- A faz-lo, coitado! andar por ai to derreado, que at metia d!...
- Como?!
- Pois ento no sabes como andava o nosso Dias?...
- O Dias?! interrogou Ana Rosa empalidecendo.
E fez-se muda, a cismar; s despertou, com estas palavras:
- Ora senhores!... Tem graa! Tem graa, no senhora! vossemec disse
que o aceitava para marido! Que diabo quer dizer agora esta mudana?...
Ah, que temos mouros na costa! .. Bem me dizia o compadre!...
- No sei o que lhe disse o padrinho, mas o que eu lhe digo, papai, 
que definitivamente no me casarei com o Dias. Nunca, percebe?
- Mas, tu, se j no o queres, e porque tens outro de olho!...
- No sei no senhor...
E abaixou os olhos.
- Bem! v l! Isto j me vai cheirando mal!... Ora dizes uma coisa; ora
dizes outra!.. O ms passado respondeste-me na varanda: Pode ser e
agora, s duas por trs, dizes que no! Sabes que s quero a tua
felicidade... no te contrario.. mas tu tambm no deves abusar!...
- Mas, gentes, o que foi que eu fiz?...
- No estou dizendo que fizesses alguma coisa!... S te aviso que
prestes toda a ateno na tua escolha de noivo!.. Nem quero imaginar que
seda capaz de escolher uma pessoa indigna de ti!...
- Mas, como, papai?... Fale claro!
- Isto vai a quem toca! No sei se me entendes!...
- Ora, seu Manuel! exclamou Maria Brbara, levantando-se e pousando no
cho o enorme cachimbo de taquari do Par Voc s vezes tem lembranas
que parecem esquecimento! Pois ento, uma menina, que eu eduquei, ia
olhar... - E gritou com mais forca - para quem, seu Manuel!?
- Bem, bem...
- Vejam se no  mesmo vontade de provocar uma criatura!...
- Bem, bem! Eu no digo isto para ofender!... desculpou-se o negociante.
Mas  que temos c um rapaz bem-aparecido, que...
- Um cabra! berrou a sogra. E era muito bem feito que acontecesse
qualquer coisa, para voc ter mais cuidado no futuro com as suas
hospedagens! Tambm s nessa cabea entrava a maluqueira de andar
metendo em casa crioulos cheios de fumaas! Hoje todos eles so assim!
Scia de apistolados! D-se-lhes o p e tomam a mo! Corja! Julgue-se
mas  muito feliz em no lhe ter recebido o coice! porm fique voc
sabendo que s a mim o deve! Sei a educao que dei a minha neta!... por
esta respondo eu!.. E, quanto ao cabra...  tratar de despach-lo j, e
j, se no quiser ao depois ter de pegar-se com trapos quentes!...
- Pois bem, pois bem, senhora! Amanh mesmo tratarei disso! Oh!
E Manuel pensou logo em aconselhar-se com o cnego.
Ana Rosa continha o choro.
- Vou para meu quarto! disse ela, com mau modo.
- Oua!... ops-lhe o pai, detendo-a. A senhora...
- No diga asneiras!... atalhou a velha, empurrando a neta para fora.
Vai-te! e reza  Virgem Santssima para que te proteja e te d juzo!
Ana Rosa fechou-se, no seu quarto, rezou muito, no quis tomar ch, e
soluou at s quatro horas da manh.
No dia seguinte, Manuel, depois de entender-se com o compadre, preveniu
a Raimundo que se preparasse para ir ao Rosrio.
- Estou s suas ordens, mas o senhor tinha dito que iramos no ms de
agosto.
-  certo! porem o tempo est seco e para a semana temos lua cheia.
Podemos ir no sbado Convm-lhe?
- Como quiser. estou pronto.
E, da a pouco, Raimundo foi ao quarto verificar se os seus pertences de
viagens, a borracha de aguardente, as botas de montar, as esporas e o
chicote, achavam-se em bom estado de servir. Estranhou encontrar tudo
isso mexido e remexido de muito fresco, como se algum houvera se
servido daqueles objetos J no era o primeiro reparo que fazia desse
gnero. por outras vezes quis parecer que algum curioso de mau gosto se
divertia a remexer-lhe os papis e a roupa Talvez bisbilhotice do
moleque!
Mas, no dia seguinte, por ocasio de deitar-se achou sobre o travesseiro
um atracador de tartaruga preso a um lao de veludo preto. Reconheceu
logo estes objetos; pertenciam a Ana Rosa. Mas, como diabo vieram eles
imoralmente parar ali, na sua cama?... Havia nisso, com certeza, um
mistrio ridculo, que convinha por a limpo!... Lembrou-se ento de ter
ficado uma vez muito intrigado por descobrir, na escova e no pente de
seu uso, fios compridos de cabelo, cabelo de mulher, sem dvida, e
mulher branca.
J maado, resolveu passar busca minuciosa em todo o quarto e encontrou
os seguintes corpos de delito: dois ganchos de pentear, um jasmim seco,
um boto de vestido e trs ptalas de rosa. Ora. estes objetos lhe
pertenciam tanto quanto o pentinho de tartaruga e o lao de veludo..
Quem fazia a limpeza e arrumava o quarto era o Benedito; este tambm no
usava laos nem ganchos na cabea... Logo, como havia pensado, algum se
divertia em vir, na sua ausncia, revistar o que era dele, e esse algum
s poderia ser Ana Rosa!... Mas, que diabo vinha ela fazer ali?... Como
adivinhar o fim daquelas visitas extravagantes?... Seria simples
curiosidade ou andaria naquilo a base de alguma intriga maranhense,
tramada contra o morador do quarto, ou talvez, quem sabe? contra a pobre
menina?... Fosse o que fosse, em todo o caso, era urgente pr cobro a
semelhante patacoada!
Desde esse dia, Raimundo prestou ateno a todos os objetos que deixava
no quarto; marcou o ponto em que ficava o lbum, o despertador um livro,
o estojo de barba ou qualquer coisa, que o moleque no precisasse tirar
do lugar para fazer a limpeza. E com estas experincias, cada vez mais
se convencia das visitas misteriosas; os corpos de delito reproduziam-se
escandalosamente; uma vez encontrou toda riscada a unha a cara da
danarina, cuja fotografia ele, com tanto cuidado, escondera de sua
prima, porque nas costas do carto, havia a seguinte dedicatria: A mon
brsillen bien-aim, Raymond.
Que dvida! Todas as suspeitas recaiam sobre a bela filha do dono da
casa! A graa, porem.  que Raimundo, apesar de no agradar  sua ndole
de homem srio e franco tudo que cheirasse a subterfgio e ilegalidade,
sentia no entanto certo gosto vaidoso em preocupar tanto a imaginao de
uma mulher bonita; lisonjeava-lhe aquele interesse, aquela espcie de
revelao tmida e discreta; gostou de perceber que seu retrato era de
todos os objetos, o mais violado, e, como bom policia chegou a
descobrir-lhe manchas de saliva que significavam becos. Mas ou fosse
levado pela curiosidade ou fosse na desconfiana de ser tudo aquilo obra
de algum patife, ou fosse, enfim, porque o fato repugnasse ao seu
carter honesto verdade  que deliberou aproveitar a primeira
oportunidade para acabar com aquela mistificao.
Poucos dias depois, saindo de casa e demorando-se defronte da porta a
conversar com algum, viu da rua fecharem cuidadosamente as rtulas do
seu quarto. No hesitou - subiu p ante p, atravessou a varanda
deserta, e foi direito ao seu aposento.
CAPTULO 6
Ana Rosa, com efeito, de algum tempo a essa parte, fazia visitas ao
quarto de Raimundo, durante a ausncia morador.
Entrava disfaradarnente, fechava as rtulas da janela, e como sabia que
o morador no aparecia quela hora, comeava a bulir nos livros, a
remexer nas gavetas abertas, a experimentar as fechadas a ler os cartes
de visita e todos os pedacinhos de papel escrito. que lhe caiam nas
mos. Sempre que encontrava um leno j servido no cho ou atirado sobre
a cmoda apoderava-se dele e cheirava-o sofregamente, como fazia tambm
com os chapus de cabea e com a travesseirinha da cama.
Estas bisbilhotices deixavam-na cada numa enervao voluptuosa e
doentia, que lhe punha no corpo arrepios de febre. Uma vez encontrou uma
banda de luva cor de cinza, esquecida atrs de uma das mulas calou-a
logo, com avidez e facilidade, e ps-se a fix-la muito a interrog-la
com os olhos, abrir e fechar a mo distrada, acompanhando as rugas da
pelica. E esta luva arrancava-lhe conjeturas sobre o passado de
Raimundo; fazia-lhe imaginar os bailes ruidosos de Paris as festas, os
passeios, as estaes dos caminhos de ferro as manhs frescas em viagem
de mar, as ceias nos hotis, as corridas a cavalo e toda uma vida de
movimento, de gargalhadas de almoos com mulheres uma existncia que se
desenrolava defronte da sua imaginao, como um panorama feito com os
desenhos do lbum de Raimundo e em cujo primeiro plano atravessava este,
rindo fumando brao dado  danarina da fotografia, que lhe dizia, cheia
de um amor teatral: Raymond! mon bien-aim!
Foi num desses sonhos que Ana Rosa, irrefletidamente, arranhou o rosto
do retrato, com a mesma raiva como que no colgio fazia outro tanto aos
judeus mal desenhados do seu compndio de doutrina crist.
Aquelas visitas eram agora toda a sua preocupao; os seus melhores
instantes eram os que passava ali, entregue de corpo e alma quele
segredo; o resto do tempo servia apenas para esperar a hora do prazer
querido; e quando, por qualquer motivo, no podia realiz-lo ficava
insuportavelmente frentica e nervosa. At j nem queria saber das
amigas; tomara-se de birra pela Eufrasinha e no pagava uma s das
visitas que lhe faziam. E nem por sombras lhe falassem de festas e
divertimentos - seu nico divertimento, a sua nica festa era estar l
naquele quarto proibido, sozinha,  vontade, conversando intimamente com
os objetos de Raimundo, lendo os seus papis, mexendo em tudo a palpitar
num gosto novo e desconhecido secreto, cheio de sobressaltos, quase
criminoso; saboreando aos poucos, em goles compassados, como um vinho
bom, gozos extremamente fortes, violentos, sentindo-se embriagar,
consumir, absorver por aquela loucura de perseguir um nada, uma
esperana que lhe fugia, que a atormentava porm melhor e mais
deliciosa, para ela, que os melhores e mais brilhantes prazeres da
sociedade.
No dia em que Raimundo subira, p ante p, ao seu quarto, Ana Rosa tinha
entrado havia pouco e, como de costume, fechara-se por dentro. O
ambiente fizera-se de um tom morno e duvidoso, em que havia mescla de
claridade e sombra. Ela, depois de varrer o olhar em torno de si,
assentara-se na cama e tomara, distraidamente de uma cadeira ao lado, no
lugar do velador, um tratado de fisiologia que o rapaz estivera a ler na
vspera, antes de dormir, e que havia deixado junto ao castial, marcado
pela caixa de fsforos.
Ao abrir o livro, Ana Rosa soltou logo uma envergonhada exclamao: dera
com um desenho, em que o autor da obra, com a fria sem cerimnia da
cincia, expunha aos seus leitores uma mulher no momento de dar  luz o
filho. A fidelidade, indecorosa e sria, da estampa, produziu no nimo
da moa uma impresso estranha de respeito e de vexame. Sem compreender
cabalmente o que tinha diante dos olhos, fixava a pgina, voltando-a de
um para outro lado,  procura de entender melhor. Virou algumas folhas
e, com o pouco que sabia do francs, tentou apanhar o sentindo do que
vinha escrito sobre os vrios fenmenos da gestao e do parto; ao
chegar, porem. a uma das gravuras, fechou o livro com mpeto e olhou em
torno, como para certificar-se de que estava completamente s. Tinha
visto de surpresa um espetculo, que os seus sentindo ainda mal
formulavam por instinto. O ato da fecundao. Fizera-se cor de rom e
repelira o indiscreto volume com um ligeiro e espontneo movimento do
seu pudor, mas, pouco depois, pensando bem no caso, convencendo-se de
que tudo aquilo no era feito por malcia, mas, ao contrrio, para
estudo, muniu-se de coragem e afrontou a pgina.
Aquele desenho abriu-se, defronte dela, como um postigo. para um mundo
vasto e nebuloso, um mundo desconhecido, povoado de dores, mas ao mesmo
tempo irresistvel; estranho paraso de lgrimas, que simultaneamente a
intimidava e atraia. Observou-o com profunda ateno, enquanto dentro
dela se travava a batalha dos desejos. Todo o ser se lhe revolucionou; o
sangue gritava-lhe, reclamando o po do amor; seu organismo inteiro
protestava irritado contra a ociosidade. E ela ento sentiu bem ntida a
responsabilidade dos seus deveres de mulher perante a natureza,
compreendeu o seu destino de ternura e de sacrifcios, percebeu que
viera ao mundo para ser me; concluiu que a prpria vida lhe impunha,
como lei indefectvel, a misso sagrada de procriar muitos filhos, sos,
bonitos, alimentados com seu leite, que seria bom e abundante, e que
faria deles um punhado de homens inteligentes e fortes.
E tinha j defronte dos seus olhos os seus queridos filhinhos, nus,
muito tenros e rolios, com a moleira descascando, os pezinhos
vermelhos, narizinhos quase imperceptveis, pequeninas bocas
desdentadas, a lhe chuparem os peitos, com a engraada sofreguido
irracional das criancinhas. E, a pensar neles, enlanguescia toda, - numa
postura indolente e comovida - os braos estendidos sobre as coxas, a
cabea mole, pendida para o seio, o olhar quebrado, fito, com preguia
de mover-se, o livro descansado nos joelhos, entre os dedos
insensibilizados. E cismava: Sim, precisava casar, fazer famlia, ter
um marido, um homem s dela, que a amasse vigorosamente! E via-se dona
de casa, com o molho das chaves na cintura - a ralhar, a zelar pelos
interesses do casal, cheia de obrigaes, a evitar o que contrariasse o
esposo, a dar as suas ordens para que ele encontrasse o jantar pronto. E
queria fazer-lhe todas as vontades todos os caprichos - tornar-se
passiva servi-lo como uma escrava amorosa dcil fraca que confessa sua
fraqueza, seus medos, sua covardia, satisfeita de achar-se inferior ao
seu homem, feliz por no poder dispens-lo. E cismava, muito, muito, no
marido, e esse mando aparecia-lhe na imaginao sob a esbelta figura de Raimundo.
Nisto, abriu-se por detrs dela o cortinado da cama, com um leve rumor
de rendas engomadas.
Ana Rosa voltou-se em sobressalto e deu, cara a cara com Raimundo, que a
fitava repreensivo, soltou um grito e tentou fugir. O livro caiu ao cho
escancarando uma pgina onde se via desenhado o interior de um ventre,
cheio com o seu grande novelo de tripas amarelas e cor-de-rosa.
O rapaz no lhe tempo para sair, colocando-se entre a cama e a parede.
- Tenha a bondade de esperar... disse, muito srio.
- Deixe-me por amor de Deus! suplicou ela, torcendo a cabea para evitar
os olhos de Raimundo.
- No senhora, h de ouvir-me primeiro, respondeu este com delicada
autoridade. E acrescentou, depois de uma pausa, pondo nas palavras certo
cunho de superioridade paternal: Custa-me, mas  necessrio
repreend-la... tanto mais, por me achar na casa de seu pai, que 
tambm sua!... A senhora, porm, cometeu uma falta, e eu cometeria outra
maior se me calasse.
- Deixe-me!
- A senhora sair deste quarto prometendo que no tomara a fazer o que
tem feito!... Se descobrissem as suas visitas clandestinas que no
julgariam de mim?... de mim, e da sua pessoa, o que e muito mais
grave!... Que no diriam?... E, vamos l! - com direito!... Pois a
reputao de uma senhora  coisa que se exponha deste modo?... Isto tem
lugar?... Mas, quando assim fosse, quando, por uma aberrao
imperdovel, minha prima assim entendesse, poderia barate-la, sem
enxovalhar sua famlia? Fique sabendo minha senhora, que a obrigao que
cada qual tem de zelar pelo seu nome, no se baseia s no amor prprio,
mas no respeito que devemos aos solidrios do nosso credito! Uma senhora
nada tem que fazer no quarto de um rapaz!... E muito feio! Minha prima
comete com isso uma ingratido a quem deve tudo - a seu pai!
O pranto nervoso da menina, sustido ate ali com dificuldade rebentou-lhe
da garganta e dos olhos, como um regato que quebrasse as represas; as
lgrimas corriam-lhe quentes pela face e pingavam-lhe grossas bagas nas
carnes brancas e palpitantes do seio.
Raimundo comoveu-se, mas procurou esconder a sua comoo. E desviando o
corpo, para lhe dar passagem, acrescentou com a voz pouco alterada.
- Peo-lhe que se retire e no volte em circunstncias idnticas...
Queria acus-la ainda, repreend-la... mais, porem as sobrancelhas
desfranziam-se-lhe defronte daquele vestidinho honesto de chita,
daquelas singelas tranas castanhas, daquelas lgrimas inocentes.
Ana Rosa ouviu-o de cabea baixa, sem uma palavra, com o rosto escondido
no leno. Quando Raimundo acabou de falar, ela deva grandes soluos,
muito suspirados, como de uma criana inconsolvel.
- Ento que tolice  esta?... Agora est soluando deste modo!... Vamos,
no seja criana!..
Ana Rosa chorava mais.
- Olhe que, desse modo, podem ouvi-la da varanda!...
E Raimundo atrapalhava-se de comoo e de medo; j no acertava com o
que queria dizer; faltavam-lhe os termos; sentia-se estpido. Comeou a
temer a situao.
- Vamos, minha amiga... tartamudeou inquieto, se a ofendi, desculpe,
perdoe-me, era para seu interesse...
E chegou-se para ela, ameigou-a; estava arrependido de ter sido to
rspido. Fora grosseiro! No fim de contas, bem sabia que a pobre moa
neo era responsvel por aquilo!... Sentia remorsos. E tentou destruir o
mau efeito das suas primeiras palavras:
- Ento, vamos... Eu sou seu amigo, diga-me por que chora...
Ana Rosa no respondia, soluava sempre. Raimundo no pode conter um
movimento de impacincia, e coou a cabea.
- Ai, que vai mal a histria!
Estava j sinceramente arrependido de ter vindo surpreend-la. Que lhe
valesse a pacincia! Todo o seu receio era que a ouvissem da varanda.
Descobriam tudo!... Com certeza que descobriam!
E, sem saber o que fazer, atarantado, foi  porta, voltou, tornou a ir,
aflito, sobre brasas.
- Ento minha prima tenciona ficar?... No chore mais!... Que
imprudncia a sua!... Lembre-se que est no meu quarto... Tenha a
bondade - retire-se. No fique ressentida, mas v, que podemos
comprometer-nos muito seriamente!...
Redobrou o pranto.
- A senhora no tem motivo para chorar!...
- Tenho sim! respondeu ela por detrs do leno.
- Ora essa! Ento por que ?...
-  porque o amo muito. muito, entende? declarou entre soluos, com os
olhos fechados e gotejantes, e assoando-se devagarinho, sem afastar do
nariz o leno ensopado de lgrimas e entrouxado na mo. - Desde que o
vi! Desde o primeiro instante! percebe? E no entanto meu primo nem...
E desatou a chorar mais forte ainda, desorientada, apaixonadamente.
Raimundo perdeu de todo a esperana de acabar com aquilo de um modo
conveniente. No obstante, sentia que gostava bastante de Ana Rosa mais
do que ela podia julgar talvez, mais do que ele mesmo podia esperar de
si. Mas, se assim era, que diabo! que se casassem como toda a gente!
Era lev-la  igreja, em pblico, com decncia, ao lado da famlia! e
no t-la ali, a lacrimejar no seu quarto as escondidas, romanticamente!
No! no admitia! Era simplesmente ridculo! E disparatou:
- De acordo minha senhora, mas eu no tenho o direito de det-la no meu
quarto. Queira retirar-se!... o lugar e a ocasio so os menos prprios
para revelaes to delicadas!... Falaremos depois!
Ana Rosa continuou a chorar, imvel.
Raimundo chegou a conceber a idia de ir  varanda, chamar por algum,
fazer bulha, contar tudo! mas teve pena dela; Iria prejudic-la,
ofend-la, seria brutal; alm disso escandaloso... oh! um formidvel
escndalo! . Que diabo ento devia fazer?... Sim, no fim de contas,
seria estpido revoltar-se contra a rapariga... ela o amava, tinha
vinte anos, e queria casar nada mais justo! E resolveu mudar de ttica,
empregar meios brandos e carinhosos para acabar com aquela situao.
Era o caminho mais curto e mais seguro! Aproximou-se pois de Ana Rosa,
muito temo. e disse-lhe afetuosamente, depois de enxugar-lhe o suor da
testa e consertar-lhe o desalinho dos cabelos:
- Mas, querida prima, o fato de amar-me no e motivo de choro!... ao
contrrio. Devemos alegrar-nos! Veja como estou satisfeito, estou rindo!
Siga o meu exemplo! E sabe o que nos compete fazer de melhor? - No 
chorar certamente! -  casar-nos! No acha? No lhe parece mais
acertado? No me aceita para seu esposo?...
Ao ouvir isto, Ana Rosa tirou logo o leno do rosto e, o que ainda no
tinha feito, encarou Raimundo, desassombrada, feliz, rindo-se, com os
olhos ainda vermelhos e molhados, a respirao soluosa, sem poder
articular palavra. E, em seguida, com um desembarao, que abismou o
primo e de que ela prpria no se julgaria capaz, abraou-o amplamente,
com expanso, pousando-lhe a cabea no ombro e estendendo-lhe os lbios
numa ansiedade suplicante.
O rapaz no teve remdio - deu-lhe na boca um beijo tmido. Ela
respondeu logo com dois - ardentes. Ento, o moo, a despeito de toda a
sua energia moral, perturbou-se - esteve a desabar - um fogo subiu-lhe 
cabea; latejaram-lhe as fontes; e, no seu rosto congestionado e clido
sofregamente o nariz muito frio de Ana Rosa. Porm teve mo em si:
desprendeu-se dos braos dela com muita brandura, beijou-lhe
respeitosamente as mos e pediu-lhe que sasse.
- V, sim? Podem v-la!... Isto no  digno de qualquer de ns... Voc
est maado comigo Raimundo?
- No que lembrana! mas vai-te, sim?
- Tens razo! mas olha, quando me pedes a papai?
- Na primeira ocasio, dou-te a minha palavra! mas no voltes aqui, hein?
- Sim.
E saiu.
Raimundo fechou a porta e comeou a passear pelo quarto, bastante
agitado. Estava satisfeito consigo mesmo: apesar dos seus belos vinte e
seis anos, tinha sido leal e generoso com uma pobre rapariga que o
amava.
E, de contente, cantarolou, com a voz ainda um pouco trmula:
Sento uma fora indmita!
Mas bateram duas pancadas na porta.
Era o Benedito.
- Sinh mandou dizer para vosmec fazer o favor de chegar no quarto
dele. Vou j
A viagem ao Rosrio ficou transferida para o outro ms, em razo de
Manuel haver cado com uma tremenda papeira, justamente no dia em que
Raimundo surpreendera Ana Rosa no seu quarto.
Nessa noite encheu-se a casa de amigos; o Freitas apareceu logo,
trazendo uma dose homeoptica; discutiu-se a molstia; contaram-se fatos
adequados Cada qual tivera um caso muito pior que o de Manuel!
Choviam receitas de todos os lados.
- Laranja-da-terra! laranja-da-terra! gritava Dona Maria do Carmo. E
afianava que abaixo de Deus, no havia remdio melhor para aquele mal! 
- No! olhe que as papas de linhaa tm provado muito bem... considerou
Amncia.
- Pois eu me achei foi com a folha de taj, observou a sobrinha mais
velha de Dona Mana do Carmo
- E eu, disse Etelvina com um suspiro, se quis dar cabo de uma que tive,
recorri ao leo de amndoa doce!
Ana Rosa acendera uma vela a So Manuel do Buraco e Maria Brbara
prometera uma bochecha de cera a Santa Rita dos Milagres.
A Eufrasinha apareceu, e receitou logo - leite de janaba.
- Corta-se o cip e escorre um leite branco, to grosso que  um azeite!
explicava ela com grande mmica. A gente apara numa xcara e depois
ensopa algodo bem ensopado, e planta na cara do doente.  uma vez s, menina!
Na varanda conversavam sobre o desanimo do doente.
-  muito esmorecido!... protestava Maria Brbara. Por qualquer coisa
parece que est morrendo! Fica todo Ai, ai, ai, eu mono desta! Uma
febrinha pe-no assim!
E Maria Brbara, para mostrar ao vivo como ficava o genro, puxou as
faces com os dedos e arregalou disformemente os olhos.
- Credo! exclamou Amncia. e citou a morte de um conhecido seu.
Maria do Carmo passou a contar, pattica, o falecimento do Espigo.
Aquilo  que era morte! S vendo!...
Seguiu-se uma enfiada de anedotas fnebres.
Freitas, na sala, examinava, com minuciosidade patritica, umas
litografias, que descansavam na pedra dos consolos. Eram episdios da
Guerra do Paraguai - havia a tomada de Paissandu, a passagem de Humait,
e outros, impressos no Rio e mel desenhados. Via-se o general Osrio, a
cavalo, sobressair com o seu bigode preto e a barba branca. E o pai de
Lindoca despregava de vez em quando os olhos do quadro e passeava-os
pela sala,  procura de uma vtima para a seca. Raimundo, logo que o
bispou, escondera se no quarto, com medo.
Ana Rosa cumpriu o prometido de nem voltar ao quarto de Raimundo, mas em
compensao falava-lhe todos os dias no casamento. Depois do seu ajuste
com o primo, andava escorreita, alegre, vivia a cantarolar, tanto na
costura, como passarinhando pela varanda, a pretexto de ajudar a avo nos
arranjos da casa, ao que ela agora ligava muito mais interesse. Maria
Brbara, por outro lado, deva aos diabos a papeira de Manuel e com esta
a tranferncia da viagem ao Rosrio. Aquela demora do cabra em
companhia de sua neta embrulhava-lhe o estmago! - No sossegada
enquanto no o visse pelas costas!...
Entretanto, aproximava-se o dia de So Joo. Em casa do Freitas, em casa
de Maria do Carmo, como em casa do Manuel, falava-se da festa. A
pagodeira seda, como todos os anos, no stio de Maria Brbara. Era um
antigo costume ainda do tempo do defunto coronel, avo materno de Ana
Rosa. A velha no relaxava a ladainha de So Joo. Tudo! menos de
deixar de fazer nesse dia a sua festa costumeira! Aquela data
representava para ela o aniversrio dos acontecimentos mais notveis da
sua vida - nesse dia nascera o nunca assaz chorado coronel, o seu Joo
Hiplito; tambm nesse dia fora pedida em casamento, e, um ano depois,
justamente no dia de So Joo, casara; ainda nesse dia batizara a sua
primeira filha - a defunta mulher de Sebastio Campos - e nesse dia
enfim, Mariana esposara Manuel.
Fez-se uma congregao em casa do negociante, composta por Amncia,
Maria do Carmo as sobrinhas desta, e presidida por Maria Brbara.
Falou-se muito em capados, carneiros e perus de forno; discutiu-se com o
que se devia encher o papo do peru - se de farinha ou com os prprios
intestinos do animal, decidiu a maioria que se enchera com farofa, 
moda de Pernambuco, explicava Etelvina. Fizeram-se grandes encomendas
de dzias de ovos; lembraram-se os doces menos lembrados; receitaram-se
processos dificultosssimos da arte culinria: consultou-se o
Cozinheiro Imperial, houve oferecimentos de loua, compoteiras,
talheres, moleques e negrinhas, para ajudarem no servio; citaram-se
pessoas privilegiadas na confeco de tais e tais quitutes; falou-se em
caruru da Bahia e presunto de fiambre.
- No dia seguinte encarregou se a um pedreiro de correr uma caiao
geral na casa do sitio; os escravos tiveram ordem de assear a quinta,
limpar as estradas, os tanques, os pombais; e preveniu-se o padre
Lamparinas. que era quem, todos os anos, cantava l a ladainha de So
Joo. Haveria dana e fogos Seda um festo de arromba! O diabo! pensava
Maria Barbara, era que o - cabra - s se ida do Maranho para o outro ms!...
No entanto, Raimundo aborrecia-se; a provncia parecia lhe cada vez mais
feia, mais acanhada, mais tola, mais intrigante e menos socivel. Por
desftio, escreveu e publicou alguns folhetins; no agradaram - falavam
muito a srio; passou ento a dar contos, em prosa e verso; eram
observaes do real, trabalhadas com estilo, pintavam espirituosamente e
os tipos ridculos do Maranho De nossa Atenas como dizia o Freitas.
Houve um alvoroo! Gritaram que Raimundo atacava a moralidade pblica e
satirizava as pessoas mais respeitveis da provncia.
E foi o bastante: os atenienses saltaram logo, espinoteando com a
novidade. Meteram-lhe as botas; chamaram-lhe por toda a parte besta!
cabra atrevido! Os lojistas, os amanuenses de secretaria, os caixeiros
frequentadores de clubes literrios, em que se discutia, durante anos, a
imortalidade da alma, e os inmeros professores de gramtica, incapazes
de escrever um perodo original, declararam que era preciso - meter-lhe
o pau! Escov-lo, para se no fazer de atrevido e desrespeitador das
coisas mais sagradas desta vida: - a inocncia das donzelas, a virtude
das casadas e a mgoa das vivas maranhenses! Nas portas de botica, nas
esquinas do Largo do Carmo no fundo das vendas em que se vendia vinho
branco e no interior de todas as casas particulares juravam nunca ter
visto semelhante escndalo de linguagem pelas folhas. Falou-se muito nos
jornais em Gonalves Dias, Odorico Mendes, Sotero dos Reis e Joo
Lisboa; apareceram descomposturas annimos, pasquins, contra Raimundo;
escreveram-se obscenidades pelas paredes, a giz e blac-verniz, contra o
Novo poeta dgua doce! Ele foi a ordem do dia de muitos dias;
apontaram-no a dedo, boquejaram, por portas travessas, que ia sair um
jornalzinho, intitulado O Bode s para botar os podres do ordinrio na
rua! Os moleques cantavam, contra o perseguido, torpezas tais, que este
nem sequer as compreendia.
E, alheio ao verdadeiro sentido das descomposturas e das indiretas,
jurou, pasmado, nunca mais publicar coisa alguma no Maranho.
- Apre! Com efeito! Dizia.
E tomou deveras um invencvel nojo por aquela provncia indigna dele;
impacientou-se por consumar o seu casamento com Ana Rosa e
retirar-se!... daquele chiqueiro de pretensiosos maus.
- Safa! terrinha estpida! resmungava sozinho, a fumar cigarros, de
barriga para o ar, no seu quarto.
Todavia, o pior lhe estava reservado para o ms de junho.
CAPTULO 7
Junho chegou, com as suas manhs muito claras e muito brasileiras.
 o ms mais bonito do Maranho. Aparecem os primeiros ventos gerais,
doidamente, que nem um bando solto de demnios travessos e brincalhes,
que vo em troca percorrer a cidade, assoviando a quem passa, atirando
ao ar o chapu dos transeuntes, virando-lhes do avesso os guarda-sis
abertos, levantando as saias das mulheres e mostrando-lhes brejeiramente
as pernas.
Manhs alegres! O cu varre-se nesse dia como para uma festa, fica
limpo, todo azul, sem uma nuvem; a natureza prepara-se, enfeita-se; as
arvores penteiam-se, os ventos gerais catam-lhes as folhas secas e
sacodem-lhes a frondosa cabeleira verdejante; asseiam-se as estradas,
escova-se a grama dos prados e das campinas, bate-se a gua, que fica
mais clara e fresca. E o bando turbulento no pra nunca e, sempre
remoinhando, zumbindo, cantando l vai por diante, dando piparotes em
tudo que encontra, acordando as pequeninas plantas, rasteiras e
preguiosas, no deixando dormir uma s flor, enxotando dos ninhos toda
a chilradora repblica das asas. E as borboletas, em cardumes
multicolores, soltam-se por aqui e por ali, doidejando; e nuvens de
abelhas revoam, peralteando, gazeando o trabalho e as lavadeiras, que
vadias! brincam ao sol, sobre os lagos, danando ao som de uma orquestra
de cigarras.
A gente bem conformada, nessas manhs, acorda lpida, depois de um sono
bom, completo, bebido de uma vez, como um copo de gua fresca. E no
resiste ao convite do bando endemoninhado que lhe salta pela janela e
lhe invade o quarto, atirando ao cho os papis da mesa, arrancando os
quadros da parede e desfraldando as cortinas, que tremulam no ar em
flutuaes alegres de bandeira; no resiste; veste-se rindo,
cantarolando, e vai para a rua, para o campo, mete uma flor na lapela do
fraque, agita a bengala, fala muito, ri, tem vontade de correr e almoa
nesse dia com um apetite selvagem.
A madrugada da vspera de So Joo era dessas. Raimundo, antes de raiar
o dia, j se achava de p e em caminho, junto com Maria Brbara, Manuel
e Ana Rosa, para o sitio, onde seria realizada a grande festa
tradicional dos tempos do defunto coronel. A velha arrependia-se de no
ter esperado pelo bonde das seis horas e, de cansada, assentou-se com o
genro no banco de Uma das quintas do Caminho Grande; Raimundo continuou
a andar distraidamente, de brao dado  rapariga.
Clareava o tempo; a este o horizonte tingia-se de vermelho para o seu
grande parto quotidiano e deslumbrante; ia nascer o sol. Houve uma
grande alegria rubra em torno do ventre de ouro e prpura, que se rasgou
afinal, num turbilho de fogo, jorrando luz pelo cu e pela terra. Um
hino de gorjeios partiu dos bosques; a natureza inteira cantou, saudando
o seu monarca!
Raimundo, esttico ao lado de Ana Rosa, no podia conter o seu entusiasmo.
- Como  belo! como  belo! exclamava ele, apontando para o nascente.
E, numa comoo de pintor, amarrotando entre os dedos o seu chapu de
feltro, parecia beber avidamente, pelos olhos deslumbrados, aquele
maravilhoso nascimento do sol meridional de junho. Depois, sempre
emocionado, segurava o brao da prima, chamando a ateno desta, sem
despregar a vista da paisagem, para o lindo efeito da luz, filtrada por
entre as folhas, na espessura das rvores; para as gotas de orvalho, que
cintilavam como diamantes; para a esfogueada selagem dos planos
afastados; para a luminosa cercadura dos casebres ao longe, em torno dos
quais pasciam bois e acogulavam-se carroes com grandes feixes de capim novo.
E vinham do campo para o mercado da cidade enormes tabuleiros de
hortalias, gotejantes da ltima rega, e pirmides de ramalhetinhos de
vintm, para se vender s mulatas; e cofos de frutas, que espalhavam no
ar um perfume desenjoativo; e matutos traziam. dependuradas de um pau
sobre o ombro, as pacas e as cutias, caadas no mato; e os carros da
roga passavam gemendo, com as suas imensas rodas inteirias; e os
caboclos, seguidos pelas mulheres e pelo bando dos filhos, num passo
sacudido e ligeiro, chegavam da Vila do Pao e de So Jos de Ribamar,
muito carregados, depois de engolir lguas e lguas a p descalo, para
vir vender  boca do Caminho Grande o seu peixe pescado e mosqueado na
vspera, os seus beijus fresquinhos, o azeite de gergelim, a massa de
gua, a macaxeira e os bolos de mandioca.
Ana Rosa no parecia a mesma daqueles ltimos tempos: estava alegre,
despreocupada; dir-se-ia ter voltado a um dos seus dias de colgio. Os
ventos gerais como que lhe levantaram o vu das suas melancolias de
donzela e arejaram-lhe o corao com uma rajada.
- Deixe l a paisagem, e d-me o brao, primo! disse ela arquejante,
tendo ido de carreira comprar tangerinas  mo de um roceiro. Ah!... cansada!
E, sem poder falar, prendeu-se ao brao de Raimundo. Este vergou-se
sobre ela, depois de contempl-la muito.
- Sabe? segredou-lhe, voc hoje est bonita como nunca, minha prima!
Suas faces so duas rosas!
- F debique seu... Se me achasse bonita, j me teria pedido a papai...
- Confesso que nunca a vi to linda...
- So os ventos gerais! Limparam-lhe os olhos!...
- No diga brincando! Quer que lhe confesse Uma coisa?... No sei que
singular efeito me produz esta manh. esquisito, mas eu mesmo me
desconheo! Sinto-me transformado! A idia, por exemplo, da minha
sisudez habitual, dessa gravidade exagerada, de que por mais de uma vez
a prima se queixou a mim prprio parece-me agora to pueril e ridcula
como o estilo do Freitinhas e o orgulho do Sebastio Campos! exato!
Creia que neste instante lamento no ser mais expansivo mais alegre mais
rapaz! Deploro ter esperdiado tantas madrugada a estudar, a matar-me de
trabalho; ter adormecido esfalfado ao raiar do dia quando os outros se
levantavam satisfeitos e confortados. Com franqueza toda a obra de uma
gerao inteira de investigadores da cincia; tudo quanto ensinam as
melhores academias, no vale a boa lio que em algumas horas de passeio
ao seu lado me d a natureza, a grande mestra! Com esta nica lio
renasce-me a mocidade que eu estupidamente me empenhava em sufocar!
Sinto-me disposto a ser feliz, sinto-me capaz de am-la, minha querida amiga!
Ana Rosa abaixou o rosto, afogada em pejo e contentamento, sem querer
interromp-lo, para no desperdiar uma s daquelas palavras, que lhe
faziam tanto bem. O que Raimundo lhe dizia dava-lhe vontade de chorar e
cair-lhe agradecida nos braos, traduzindo em beijos todas as ternuras,
que o pudor vedava aos lbios proferissem.
Haviam parado, junto um do outro; batia-lhes em cheio no rosto o sol
nascente. Emudeceram. O moo tomou-lhe as mos, e os dois fitaram-se com
um juramento nos olhos, e r ao falaram mais em amor, enquanto esperavam
por Manuel e Mana Brbara, que de novo se tinham posto a caminhar.
Meia hora depois chegavam todos ao sitio. Raimundo fazia pasmar com o
seu bom humor confessava-se no momento mais feliz da sua vida; deu at
para brincalho e ferrou, ao entrar na casa, um abrao em Dona Amncia,
que viera receb-los  porta A velha afastou-se, benzendo-se:
- Credo! Pra l mandado!
Ela j l se achava, desde a vspera, preparando tudo, arrumando, dando
ordens, ralhando, prometendo castigos, como se estivesse em fazenda
prpria e cercada de escravos seus.
A quinta de Maria Brbara como quase todas as quintas do Maranho, era
aprazvel e rstica. Um velho portal de ferro, com o competente lampio
de corrente, abria sobre duas longas filas de mangueiras seculares, que
iam terminar defronte da casa. formando sombrosa e mida galeria, onde o
sol penetrava horizontalmente, por entre os grossos troncos nodosos e
encascados. Por uma e outra banda sem ordem nem simetria, viam-se
plantaes, na maior pane teis e bem tratadas destacava-se o verde
alegre dos canteiros de hortalias donde voava um cheiro fresco de salsa
e coentro. Mais para o interior do sitio encontravam-se tanques cheios
esverdeados de limo; sinuosas calhas espalhavam, suspensas por estacas
de acapu, levando gua para todos os lados; extensas latadas vergavam ao
peso das abboras, dos jerimuns e dos maracujs de diversos tamanhos,
desde o da laranja at ao da melancia. Ainda mais para o interior,
destacavam-se, em qualquer dia do ano, o verde-escuro e lustroso das
jaqueiras colossais e das rvores da fruta-po, ambas com as suas folhas
grandes e recortadas caprichosamente, contrastando com as massas fuscas
da folhagem miudinha dos eternos tamarindeiros, com os tons dourados do
p de caj e com os altivos jenipapeiros, as graciosas pitombeiras,
cercados de goiabais floridos e cheirosos. Em outros pontos
adivinhavam-se olhos-dgua pela abundncia das juareiras Parasitas de
mil espcies enfeitavam com as suas flores, extravagantes e admirveis,
as rvores e os pombais, numa variedade prodigiosa de cores E por toda a
parte doidejavam, cantando, os passarinhos e saltitavam rolas, a
mariscar na relva.
A habitao olhava de frente para os dois renques de mangueiras,
franqueando as suas varandas sem parede; toda ela aberta, deixando-se
invadir pelas plantas do jardim que a rodeava. Uma dessas pitorescas
vivendas acaapadas, muito comuns nos sertes da ilha de So Lus.
Grande telheiro quadrado, telha v, formando bico na cumeeira e
sustentado nas quatro faces por moites de piqui pintados de verde, e
firmados estes em anteparos de pedra e cal, que formavam uma espcie de
amurada, alta pela parte de fora e rasa pela de dentro. No meio,
distanciado da antepara uns vinte palmos seguros, estava a casa feita de
paredes inteirias, caiadas de cima a baixo. O cho era todo forrado de
tijolos vermelhos. A entrada uma cancela, trs degraus de cantaria,
jasmins de Itlia, bancos de pau e uma confuso de trepadeiras, que se
enroscavam pelos moites e galgavam o telhado, vitoriosamente. erguendo
l em cima os seus rebentes novos, vidos de sol.
Esta quinta fora a menina dos olhos de Maria Brbara; ai passara ela
grandes delicias no tempo do coronel. Ainda estava muito forte e bem
conservada, mas, havia dez anos, desde que a velha foi fazer companhia 
neta, achava-se entregue aos cuidados do portugus Antnio e ao trabalho
de trs pretos velhos, que iam diariamente  cidade vender hortalias,
flores e frutas.
As seis e meia da manh chegou o bonde com os convidados.
Trazia msica. Era uma surpresa arranjada pelo Casusa. E este,
encarrapitado na plataforma do cano, doido de entusiasmo, dava vivas a
So Joo, vivas ao belo madamismo maranhense! e vivas  msica.
Os msicos romperam com o Hino Nacional.
O Casusa, inteiramente fora de si, rouco j, um bocadinho picado pelo
conhaque, cujo como de delito ele trazia a tiracolo enforcado num pedao
de cabinho, saltava, ia e vinha, singrando por entre todos, atravessando
o bonde com as senhoras ainda assentadas, fazendo-as apear,
assustando-as com os seus gritos, machucando nas costas dos bancos os
dedos dos que desciam, provocando gemidos, protestos, e fazendo rir ao
mesmo tempo. Deu um beijo em Dona Amncia que lhe chamou furiosa,
Cachaceiro! Pancada! Moleque!; bateu na barriga de Manuel, que o
exprobrava por se ter incomodado, feito despesas, contratado msico.
-  gosto,  gosto, seu Manuel! No faca caso! Hoje h de sair cinza nesta pndega!
E os convidados saltavam do bonde. O primeiro a descer foi o Freitinhas,
todo vestido de brim branco de Hamburgo irrepreensvel rodaque de botes
de osso, uma enorme cadeia de cabelo prendendo o relgio e dependurado
nela um anel de ouro, onde se lia esmaltado Saudade. Trazia, por causa
do p, umas lunetas azuis, grandes, verdadeiras vidraas, que lhe davam
 grande fisionomia o tom pitoresco de uma casa de campo; Um chapu de
feltro branco, peludo, alto, a que os gaiatos da provncia denominavam
Carneiro e do qual o dono contava maravilhosas propriedades. Era uma
pena!... Podia a gente machuc-lo  vontade sem ofender o plo, de bom
que era! Custara vinte mil-ris, mas valia cinqenta a olhos fechados!
E, com a bengala de unicorne debaixo do brao, ajudava a sua gorda
Lindoca a descer do bonde com dificuldade. As meninas Sarmento,
acompanhadas da tia de Eufrasinha e um cachorrinho branco e felpudo. que
esta trazia ao colo, saltaram, cheias de espalhafato, muitos risos,
latidos, cores vivas nos chapus e nas sombrinhas. O famoso cabelo
ostentava-se, mais que nunca, em cachos acastelados e trescalantes de
leo de babosa. O cnego, discretamente risonho e sempre janota, vinha
seguido por um padrezinho magricela, que desfrutava na provncia a
especialidade de cantar ladainhas; alcunhavam-no de Frei Lamparinas. O
Sebastio Campos, vestido de branco como o Freitas, porm de palet e
chapu-do-chile, pulara em terra, abraado a uma grande cesta de
busca-ps, pistolas, carretilhas e bombas.
- E o mantimento! respondia ele aos olhares curiosos.
Tinha paixo pelos fogos.
- Sou perdido por isto! dizia mostrando uma luva grosseira feita de
sola, com que tocava os formidveis busca-ps.
Nos sbados de Aleluia era o seu luxo queimar um judas defronte da casa;
no perdia fogo de vista nas festas de arraial e sabia fazer bichinhas,
carretilhas e foguetes.
Apresentaram-se tambm, fora da rodinha do costume, dois novos
convidados; Um levado por Manuel e o outro pelo Casusa. O primeiro era o
Joaquim Furtado da Serra, bom homem, do comrcio, muito amigo da famlia
e tapado como um ovo, o que, alias, no impedia que estivesse rico. S
entendia e s conversava sobre negcios, gostava de fazer bem e era
membro de vrias sociedades filantrpicas. Vivia contente da vida, cheio
de amigos e obsequiados, estava sempre a rir e a falar das suas trs
filhas. No puderam ir  festa de Manuel, coitadinhas! porque ficaram 
cabeceira de Uma doente... No queria comendas nem grandezas; contava a
todos como principiara no Brasil descalo, com um barril as costas, e
orgulhava-se, entre gargalhadas, da sua atual independncia. O outro era
um rapazola de vinte e dois anos, que  primeira vista, parecia ter
apenas dezesseis: magro, puxado, muito penteado e muito mope, com as
unhas burmidas, o colarinho enorme e os ps apertadinhos em sapatos de
polimento. Estudava no Liceu da provncia, usava uma cadeia de plaqu
brilhantes falsos no peito da camisa e uma bengalinha equilibrada entre
o indicador e o ndex da mo direita; tinha uma coleo de acrsticos e
recitativos da prpria lavra, uns inditos e outros j publicados a
dinheiro nos jornais aos quais qualificava desvanecidamente de seu
tesouro! Chamava-se Boaventura Rosa dos Santos; era conhecido por
Doutor Faisca e gostava de fazer e adivinhar charadas.
Entraram todos em casa, numa desordem, acossados pela msica, que
atropelava Uma polca do Colas, e por Uma intempestiva carretilha que
soltara Sebastio. Houve sarilho. Jos Roberto, debaixo de tempestuosa
descompostura, obrigava Dona Amncia a dar meia dzia de voltas pela
varanda, indo cair ambos, perseguidos pelo Joli, sobre um banco de
paparaba. Joli era o cozinho da Eufrsia.
No furor da terrvel dana, desprendera-se o coque de Amncia e fora
parar no jardim. Joli saltara-lhe logo atrs e destripava-o
freneticamente com os dentes.
- Olhe, seu Casusa! Gritou a velha, quase sem flego, voc no de perca
o respeito, seu pica-fumo! Quando tomar suas monas, meta-se em casa com
os diabos! Credo! Que cachaceiro acabado! V tomar liberdade com quem
lhas d! Diabo do sem brios!
O coque foi arrancado das garras do Joli e restitudo  dona.
- Vejam! Vejam em que bonito gosto me puseram o meu coque de pita!
Parece uma rodilha de limpar panelas! Diabo da brincadeira estpida!
Tambm, em vez de criar xirimbabos, sena melhor que cada Um cuidasse de
sua vida, que teria muito do que cuidar!
E voltando-se para Sebastio:
- Mas o culpado  voc, seu Sebastio; com voc e que me tenho de haver!
No posso perder o meu coque novo!
- Novo qu! . contestou Casusa Eu vi pular de dentro dele uma aranha!
-  novo, e quero outro praqui!
- Est bom, meus senhores, deixem-se disso, interveio Manuel, e vamos ao
caf, que est esfriando!
- Mas o meu coque? Isto no pode ficar assim!
- A senhora ter outro. descanse!
Mal se serviram de caf com leite e bolo de tapioca com manteiga,
formou-se uma quadrilha. na qual o Casusa, de par com Eufrasinha, fez o
que ele chamava pintar o padre Ditado este que sobremaneira
escandalizava o especialista das ladainhas. de cujos olhos partiam, por
cima dos culos, chispas repreensivas sobre aquele.
Este Frei Lamparinas era um homenzinho escorrido, feio, natural de
Caxias. No conseguira nunca ordenar-se em razo da sua extremada
estupidez: soletrava ainda as ladainhas que havia vinte anos recitava;
jamais entrara com o latim. Os rapazes do Liceu mexiam com ele e
atiravam limes verdes por detrs do muro do convento do Carmo, quando o
infeliz passava defronte Tinha uma biografia engraada, cheia de
disparates mas todos diziam que era bom de corao e no fazia mal a
ningum.
- O chorado! Venha o chorado! gritavam do fundo da varanda batendo
palmas.
E a msica, sem se fazer rogada gemeu a lnguida e sensual dana brasileira.
De pronto, Casusa e Sebastio pularam ao meio da sala e puseram-se a
sapatear agilmente. com barulho. estalando os dedos e requebrando todo o
corpo Em breve arrastaram o Serra, o Faisca e o Freitas: e as mocas.
chamadas por aqueles, entraram na irresistvel brincadeira. Elas rodavam
na portina dos ps, o passo miudinho e ligeiro, os braos dobrados e a
cabea inclinada, ora para um lado, ora para outro, estalando a lngua
contra o cu da boca, numa volpia original e graciosa.
Os velhos babavam-se
- Quebra! berrava o Casusa entusiasmado. Quebra meu bem!
E regamboleava furiosamente a perna.
O chorado atingira afinal a sua fase de loucura Os que no podiam danar
espectavam, acompanhando a msica com movimentos de corpo inteiro e
palmas cadenciado e espontneas.
- Bravo! Assim, seu Casusa!
- Picadinho! Picadinho!
De repente, ouviu-se um trambolho e um grito: era o Faisca. que cedera
a um cambite do Casusa, indo cair aos ps de Maria do Carmo Todos
riram.
- Credo! gritou a velha Pois este homem nem me queda agarrar a perna?...
Cruz capeta!
- No aumente, minha senhora, foi no tornozelo...Este ossinho do p!
- Mas eu tenho muita ccega, e, depois do defunto Espigo, ningum mais
me tocou no corpo!
Da a pouco, chamavam para o almoo, e o divertimento continuou sem
intenrupo.
No dia de So Joo nunca se abria o armazm de Manuel, e naquele ano a
vspera cara num domingo! Eram dois dias cheios! como dizia
satisfeito o Vila Rica.
Desde a vspera que o Benedito, e mais uma preta, haviam seguido para o
stio, carregados de fogos e dos paramentos necessrios para se armar o
altar: na madrugada do dia foi a Brgida, em companhia de Mnica l
estava Dona Amncia para tomar conta de tudo. Os empregados iriam tambm
todos; no havia, por conseguinte, necessitado de ficar escravo nenhum em casa.
O quarto dos caixeiros tinha ento um aspecto domingueiro: botas
engraxadas sobre os bas; roupas de casimira cuidadosamente estendidas
nas costas de cadeiras; camisas engomadas por aqui e por ali, a espera
da serventia, e um cheiro ativo de extratos para o leno. Os rapazes
vestiam-se. Seriam, quando muito, oito horas da manh.
Mas, apesar do aspecto festival dos colegas, Dias conservava-se em
trajos menores, a varrer o soalho.
- Voc no se apronta, seu Dias?... perguntou-lhe o Cordeiro, ocupado a
enfiar um par de calcas cor de alecrim. Voc nem vem conosco  quinta?
- Vo andando, que eu j vou.
No trocaram mais palavra. Os trs saram, e o Dias, encostando no
queixo o cabo da vassoura, ficou pensativo. Mal ouviu, porm, bater
embaixo o trinco da porta da rua, atirou a vassoura para um canto e
desceu cautelosamente  varanda.
A casa tinha a tranqilidade saudosa de Um lugar abandonado. S o sabi
chilreava na gaiola.
O caixeiro predileto de Manuel fechou  chave a cancela de madeira
polida, que separava a varanda do corredor, e, depois de olhar em torno,
seguiu para o quarto de Raimundo, fariscando, nem ele sabia bem o qu.
Ps-se a esquadrinhar o que l havia, no com a curiosidade amorosa da
primitiva bisbilhoteira, porm frio, calculado, com a prudncia de quem
sabe que est cometendo uma baixeza. E abria gavetas, lia os manuscritos
que encontrava, revistava as algibeiras da roupa estendida no cabide,
folheava os livros, examinando tudo, todos os cantinhos. Em Uma das
malas encontrou um folheto de capa verde, guardou-o logo, depois de lhe
ter lido o frontispcio, e afinal, quando j nada mais tinha para dar
f, retirou-se sem deixar o menor vestgio do que fez. Da seguiu para o
aposento de Ana Rosa, mas teve logo uma contrariedade: a porta estava
fechada; resbuscou a chave na varanda, pelos cantos, no a encontrou, e
subiu ento rapidamente ao segundo andar, donde trouxe um pedao de
cera, com que modelou a fechadura. Em seguida atirou-se para o quarto de
Maria Brbara, experimentou a porta; estava tambm fechada. Mas havia um
postigo Dias espremeu-se por esse e conseguiu entrar.
O aposento da velha conduzia com a dona. Sobre uma cmoda antiga, de
pau-santo, com puxadores de metal e coberta por um oleado j pudo e
gasto, equilibrava-se um oratrio de madeira, caprichosamente trabalhado
e cheio de uma poro variadssima de santos, havia entre eles, feitos
de casca de caj, de gesso, de terra vermelha e de porcelana. O Santo
Antnio de Lisboa, vindo de encomenda, com o pequeno ao colo, l estava,
muito rubicundo e lustroso; a Santa Ana, ensinando a filha a ler: um So
Jos de cores cruas, detestavelmente pintado; um So Benedito, vestido
de frade, pretinho, de beios encarnados e olhos de vidro: um So Pedro,
cujas propores o faziam criana ao lado dos outros, uma miualha de
santinhos, pequenitos e caricatos, que a gente no podia ver sem rir e
que se escondam na peanha dos grandes; e, finalmente, um grande So
Raimundo Nonato, calvssimo, barbado, feio, e com um clice na mo
direita. Ao fundo do oratrio litografias de carregao representavam
Santa Filomena, a fugida de So Jos com a famlia, Cristo crucificado e
outros assuntos religiosos. O grupo dos santos ressentia-se de uma
falta, a de Joo Batista, que havia desertado para a quinta. Havia ainda
sobre a cmoda dois castiais de lato, guarnecidos de papel rendado,
com as velas de cera meio gastas; um grupo de biscuit representando a
Mater dolorosa e um menino Jesus, fechado numa manga de vidro, por causa
das moscas. Encostada a parede, uma palma de pindoba benta a qual,
segundo a voz do povo, tinha a virtuosa propriedade de apaziguar os
elementos em dias de tempestade, duas outras palmas casquilhas,
enfeitadas de pano e malacacheta, guarneciam os lados do oratrio.
Viam-se ainda, por toda a parte, quadrinhos de gravuras e cromos, onde
se liam oraes milagrosas, a do Monte Serrate, a do Parto, a da Virgem,
e outras, sem desenho, com que os tipgrafos espertos da provncia
exploravam a carolice das beatas.
Contrastando com tudo isto, destacava-se, dependurada na parede, uma
formidveis palmatria de dar bolos, negra, terrvel e muito lustrosa de uso.
Defronte do oratrio simetrizavam duas molduras envidraadas, expondo
cada qual uma talagara cheia de amostras dos diversos bordados de l,
que as meninas aprendem no colgio. Panos de tapete como se diz no
Maranho. Em uma delas liam-se no centro as iniciais M. R. S. e Colgio
da Trindade em 1838", e na outra, que estava em melhor estado de
conservao A. R. S. S. e Uma data muito mais recente. A julgar por
estas letras, os dois quadros tinham sido bordados por Mariana e Ana
Rosa, me e filha. Tudo isso foi minuciosamente esmerilhado pelo Dias;
leu as Horas Marianas, apalpou as roupas de Maria Barbara, provou a
ponta do molho do fumo com que esta espairecia os passados dissabores,
e. depois, quando nada mais tinha para esmiuar, ps-se a refletir,
pensando, no que devia fazer. Afinal veio-lhe uma idia, que lhe deu um
sorriso de contentamento, acendeu logo uma das grossas velas de cera,
tomou pelas pernas a imagem de So Raimundo e tisnou-lhe a cara e a
careca de encontro  chama do pavio. Depois da operao, o pobre santo
parecia um carvoeiro; ficara to negro como o seu companheiro de
oratrio, o engraado So Benedito.
Dias contemplou a sua obra, riu de novo, calculando o bom efeito que ela
produziria, colocou em seguida a imagem no seu lugar, e saiu apressado,
por lhe parecer que ouvira rumor na porta da rua. Enganara-se.
Da a meia hora, vestido de pano preto, segundo o seu invarivel
costume. o acreditado caixeiro de Manuel Pescada, tomava o bonde do
Cutim, com destino ao sitio da sogra do patro.
CAPTULO 8
Eram cinco da tarde.
A festa de Maria Brbara continuara sempre muito animada; havia uma boa
disposio geral. Os homens bebericaram durante o dia clices de
conhaque, e sopravam agora o fumo dos seus charutos domingueiros, com um
grande ar de pessoas de importncia: as senhoras melaram galantemente os
beios com licor de rosa e hortel-pimenta Danara-se muito. Brincou-se
o Padre-cura o Anel, o Peixinho de Muqum Afinal. foram todos l pra
fora, apreciar a tarde, assentados nos bancos fronteiros a casa. A
sociedade estava engrossada pelos quatro caixeiros de Manuel e por um
sertanejo que a divertia com as suas cantigas. Lamparinas havia sado
para ir ali perto,  quinta de um amigo, mas prometera no faltar 
ladainha.
O sol escondera-se. Uma tarde formosa, com o seu poente esfogueado,
rubrava as caras suadas dos homens e os vestidos machucados das
senhoras, que se arejavam debaixo das latadas de maracujs e jasmins da
Itlia. As damas, comodamente assentadas, tinham requebros de etiqueta,
gestos cheios de convenincia, risos com a boca fechada, olhares por
debaixo das plpebras, o leque nos lbios e o dedo mnimo levantado com
galanteria.
Minava um apetite surdo pelo jantar: alguns estmagos resmungavam
indiscretamente. Contudo, todos os olhares e todas as atenes
convergiam, na aparncia, para o sertanejo, que a certa distncia, de
p, isolado, a cabea erguida com desembarao mal-educado, o chapu de
couro atirado para a cerviz e preso ao pescoo por uma correia, a camisa
de algodo cru por fora das calcas de zuarte, arregaadas no joelho, o
p descalo, curto e espalmado, p de andarilho, o peito liso e cor de
cedro  mostra, brao nu e sem cabelos - vibrava entusiasmado as cordas
metlicas de uma viola ordinria, acompanhando, com um repinicado muito
original, os versos que improvisava e outros que trazia de cor:
L vai a gara voando Para as bandas do serto! Leva Maria no bico,
Teresa no corao!
Ao terminar de cada estrofe, rebentava um coro de risadas, durante o
qual se ouvia o sapatear surdo do sertanejo, socando a terra, a danar.
No tenho medo da ona, Que todos tm medo dela!.. No tenho medo de
ti, Que far de Micaela!
E o matuto, depois do sapateado, dirigiu-se a Ana Rosa:
Me diga, minha senhora: (Quem pergunta quer saber...) Se eu sair daqui
agora, Onde vou amanhecer? 
- Este foi de sentimento!... considerou Etelvina com um gesto
aprovativo.
- Gostei, gostei... confirmava o Freitas, protetoramente.
E o sertanejo ferrou o olhar em Ana Rosa:
Sinh dona, se eu pedisse... Responda, mas no se ria... Uma flor do
seu cabelo... Sinh dona que diria?..
- Bravo!
- Sim senhor!
Houve um sussurro alegre
- Dona Anica, de a flor!...
Ana Rosa hesitava.
- Ento, menina... repreendeu Manuel em voz baixa.
Ana Rosa tirou um bogari da cabea e passou-o ao trovador, que versejou
logo:
O minha senhora dona, Deus lhe pague eu agradeo; Seus quindingues so
dos ricos Eu sou pobre e no mereo!... 
E, colocando a flor atrs da orelha, continuou, depois de olhar
intencionalmente para Raimundo:
 nh dona feiticeira! Me cativa seu favor Mas no v meter cimes
Agora pro moa e a flor!...
Em seguida, desprendeu o chapu e estendeu-o a um por um.
Consultaram-se as algibeiras do colete, pingaram os vintns e as
pratinhas de tosto. O menestrel, com a cabea erguida em ar de
exigncia, dizia:
Vamos, vamos, pingue o cobre, Qu eu no gosto de maada! Dos homens
aceito a paga, Das mocas no quero nada!
E, quando se chegou a Manuel:
Manuelzinho cravo roxo, Me desculpe a ;impertinncia; Se puder dar eu
aceito, Se no puder - pacincia!...
Entre gargalhadas, enchiam-lhe o chapu de moedas. Ao chegar a vez do
Faisca, este. em vez de dinheiro, lanou-lhe a ponta do cigarro; o
matuto, como de costume, cavaqueou com a pilhria e gritou zangado:
Seu lanceiro da Bahia, Casaquinha do Par A gente recebe o coice,
Conforme a besta que o d!
A hilaridade aumentou e o Faisca enfureceu-se, chegando a ameaar o
caboclo, que lhe soma em ar de mofa.
- Eu ainda atiro com alguma coisa  cara daquele diabo! resmungou o
estudante, lvido.
- Deixe-se disso! . aconselharam-lhe, voc j sabe que esta gente 
assim, para que se mete?...
- Tome l! disse Manuel ao sertanejo beba e v embora!
E passou-lhe um copo de vinho, que ele emborcou, trovando, depois de
estalar a lngua:
O vinho  sangue de Cristo,  alma de Satans.  sangue quando ele 
pouco,  alma quando  demais!
E, fazendo um grande cumprimento com o chapu:
Meus senhores e nhs donas, Vou-me embora de partida Deus lhes de muita
fortuna E muitos anos de vida!
E virou de costas e retirou-se, a danar, cantando uma passagem do -
bumba-meu-boi:
Isto no, isto no pode s. Isto no, isto no pode s A filha de meu
amo casar com voc! .. O caboclo me prendeu Meu amor! Foi to cena da
razo, Corao! Que o cabo... 
E perdeu-se nas fundas sombras do mangueiral a voz do sertanejo e o som
da viola.
Iam-lhe discutir o talento potico e a graa, quando de ama, Manuel,
Maria Barbara e Amncia, todos trs a um tempo, chamaram para a mesa,
com autoridade benfazeja.
Houve um sussurro de prazer.
- Olha, filha, que j tinha o estmago a dar horas!... cochichou Dona
Maria do Carmo, ao passar por Ana Rosa.
Subiram todos para a varanda e foram tomando vivamente os seus lugares 
mesa, entre uma confuso de vozes, a discutirem mil assuntos.
- Homem! exclamou Sebastio Campos, parece que tomaram alma nova s com
o cheiro!...
O Freitas amolava Raimundo sobre poesia popular; falou, com assombro, de
Juvenal Galeno.
- Muito original! muito original!
- Do Cear. no?
- Todo inteiro! Ah, o senhor no imagina o que  aquela provinciazinha
para as trovas populares!
E, antes que Raimundo desse alguma providncia contra a maada j o
Freitas lhe recitava junto ao ouvido:
Quando passares na nua, Escarra, cospe no cho! Questou cosendo 
candeia No sei se passas ou no!
- Pois no h como uma festa no sido! dizia Sebastio por outro lado.
Isto de pdegas, ou bem que  pndega ou bem que no !
O Freitas insista:
Sinh, me de qualquer coisa, Inda que s uma banana, Que a barriga 
bicho burro Com qualquer coisa s engana!
Raimundo j no o ouvia: prestava ateno a uma conversa entre Bibina,
Lindoca e Eufrsia
- Vocs no tiraram a sorte esta noite? perguntou a ltima.
- Como no? disse a gorda, porm no vi nada, ou pelo menos no acertei
com 0 que apareceu .
- No, pois eu, declarou a viva, tirei uma sorte bem bonita...
- Que foi? Que foi?
- Um vu branco e uma grinalda!
- Casamento! gritaram varias vozes.
- Eu tirei um tmulo!... disse do canto da mesa a Lagartixa,
suspirando funebremente.
- Credo! exclamou Amncia, passando com uma salada de agrio, que
acabava de preparar.
Raimundo, assentado, contra a vontade, ao lado do Freitas, falava com
saudade nos costumes portugueses nas noites de So Joo e So Pedro;
contou como era que as raparigas queimavam alcachofras e plantavam-nas
em vasos  janela, para ver com elas grelar a sorte; citou o costume das
favas sobre o travesseiro, os bochechos de gua  meia-noite para se
ouvir nome do namorado, as fogueiras de alecrim seco, e enfim aquele uso
do copo de gua, de que as moas ali falavam.
- Um antigo uso! explicava o Freitas, a mastigar pedacinhos de po.
Consiste em deitar ao sereno, na noite de So Joo, um copo de gua com
a gema de um ovo...
- E a clara! reclamou Dona Maria do Carmo, que acompanhava a conversa
com muito interesse.
- Pois seja assim! a gema e a clara; e, no outro dia, pela manh, dizem
que a sorte do indivduo aparece representada no interior do copo.
Patacoadas!
- Patacoadas, no! retorquiu a velha, tomando lugar junto das sobrinhas.
C est quem recebeu a noticia da morte do Espigo muito antes do dia
fatal!
E levou o guardanapo aos olhos num movimento pattico.
- H outros usos, continuou Freitas, passando adiante um prato de sopa.
O banho de So Joo, por exemplo!
- Imitaes de Portugal...
- Quem no se banha amanh de madrugada, fica com a alma suja! Dizem!
- Ento seu Cordeiro! seu Dias! e voc l, menino! nem tratam de se
assentar? intimou Manuel.
Ns esperamos a outra mesa... respondeu modestamente o Dias. No h mais
lugares...
- Qual outra mesa, o qu! No, senhor! Sente-se c, seu Dias!
E o negociante abriu um lugar ao lado da filha.
Lus Dias todo vexado foi assentar-se, sorrindo, ao lado de Ana Rosa,
que fez logo um gesto de contrariedade e repugnncia.
- E l os senhores? seu Cordeiro! seu Vila Rica! e esse menino! Venham
se chegando!
- Ns esperamos.. Faz-se depois outra mesa!...
- E a darem com a outra mesa! No, senhor! e a senhora, minha sogra?
Dona Amncia, onde ficam?
- Tem aqui um lugar, minha senhora!... disse Raimundo levantando-se. E
ofereceu a cadeira.
- Meu amigo, censurou Manuel, deixe-se dessas coisas! Olhe que estamos
no stio! Isto c no e cidade para se fazer cerimnias!
- Pagode de sitio no presta, quando nada falta!... arriscou o Serra,
mexendo e soprando uma colherada de sopa.
- No! contradisse o Freitas. Quero a minha comodidade at no inferno!
- Ora est tudo arranjado! gritou Amncia, que acabava de preparar outra
mesa. Ficamos ns aqui! Somos poucos, porm bons!...
- E eles l?... interrogou Vila Rica, contando as pessoas da mesa
grande, pela seguinte ordem, a partir da cabeceira: O patro - um,
senhor cnego - dois, Dona Maria do Carmo - trs, sobrinhas - cinco, o
Doutor Raimundo - seis, seu Freitas e a filha - oito, Dona Eufrasinha -
nove, seu Serra e aquele moo - era o Faisca - onze, o Dias e Dona Anica
- treze ao todo!
- Treze?! bradou Dona Maria do Carmo, soprando o macarro que tinha na
boca. Treze!
- Treze! repetiram todas as senhoras, assustadas.
- Saia um! reclamaram.
Ningum se mexeu.
- Ou venha outro... lembrou o cnego, largando a colher. Em treze no
pode ficar!
Suspendeu-se o jantar.
O Freitas passou logo a dar explicaes a Raimundo do que aquilo queria
dizer, posto haver este declarado de pronto que j sabia perfeitamente.
- No h mais ningum por ai?
Maria Brbara levantou-se e foi buscar l dentro uma negrinha de trs
anos.
- Aqui tem!
- E verdade! E o Casusa?!...
-  verdade, gente, seu Casusa!...
- Venha o Casusa!
Casusa dormia. tinha tomado um banho e recolhera se cansado. A pequena
foi novamente levada para a cozinha.
- Moleque! Chama seu Casusa ai no quarto!
O Casusa veio bocejando e esticando os braos.
- Para que jantar to cedo?... No tenho apetite algum!... resmungava
ele, abrindo a boca.
- Cedo!... Se lhe parece!... J deram cinco horas!
- Quase que ficavas a ver navios!... considerou Sebastio, rindo.
- Olha o prejuzo!... desdenhou Amncia, com um esgar de pouco caso.
- Tu j queres inticar comigo, corao?... Depois te queixa!... Mas,
enfim onde me assento? O que nem vejo  lugar! Ah, exclamou, voltando-se
para a mesa pequena. Tenho-o c, e em boa companhia!
- Pra l, ops-se Amncia, escandalizada. Venha pra c, homem de Deus!
Voc  c necessrio!
E com dificuldade arranjou-se uma cadeira ao lado de Sebastio,
- Ora at que afinal! disse Manuel, assentando-se descansadamente.
- Tollitur quaestio!
E o cnego sorveu uma colherada de sopa
Fez-se silncio por um instante; s se ouvia o arrastar das colheres no
fundo do prato e os assovios dos que chuchurreavam o macarro.
O Cordeiro cercava Amncia, e Maria Barbara de cuidados, cuja delicadeza
procurava acentuar  forca de diminutivos:
- Uma coxinha de galinha, senhora Dona Amancinha!...
- E um perfeito cavalheiro!... segredava esta  outra velha. Compare-o
s com a peste do Casusa!...
- No! que os rapazes de l so mais aqueles... est provado!
- Tm outro assento que no tm os de c!
- O senhor Serra, passa-me o pires das azeitonas?... E bondade.
- Quer mais piro, Dona Lindoca?
- Muito obrigada, assim! chega! Um tiquinho s!
- Gentes?... voc come essa pimenta toda, Dona Etelvina?!...
- Basta, oh! No quero afogar-me em caldo!
- Tenha o obsquio de encolher as asas, meu amigo!
- No enchas a boca desse modo!... dizia a velha Sarmento a uma das
sobrinhas. Era o que tinha o Espigo! Comia como um danado, mas ningum
dava por isso!
- Olhe que voc me suja de gordura, seu Casusa! Que diabo de homem!...
- Ento! Quem mexe esta salada?!
- A salada, sentenciou judiciosamente o Freitas com um sorriso, deve ser
mexida por um doido!
- Ento, tome conta, seu Casusa!
- Quanto quer o menino pela graa?... Se tivesse um vintm aqui,
dava-lho, seu poeta!
Isto era entre o Casusa e o Faisca
- Doutor, no deixe apagar a lanterna! recomendava Manuel a Raimundo.
- Uma fatia de porco, Dona Maria Brbara.
- Deite menos, minha vida! Assinzinho!
Dona Etelvina! a senhora est magra de no comer!...
Ai! suspirou ela fitando o talher cruzado sobre o prato.
- No queres arroz,  Sebastio? No! Vou  farinha-dgua.
- Um brinde! gritou Casusa, levantando-se e suspendendo o copo  altura
da cabea. Ao belo madamismo maranhense, que hoje nos honra!
- Hup! Hup! bang! Aproveito a ocasio, meus senhores, para agradecer o
obsquio que me fazem, e  minha sogra, comparecendo a esta nossa velha
festa da famlia!
Era Manuel que falava. Seguiu-se um inferno de vivas e hurras que se
prolongaram em medonha berraria. Os caixeiros do autor do brinde, j um
pouco eletrizados pelo vinho, gritaram familiarmente: Viva o Manuel!
Houve uma voz indiscreta que gritou: - Manuel Pescada.
Mas restabeleceu-se a ordem, e s se ouvia, alm do rumor dos talheres e
dos queixos, a voz avinhada do Cordeiro, que gritava para a sua vizinha
da direita com uma solicitude exagerada:
- Beba! beba, Dona Amancinha! Ataque-lhe pra baixo, que  o que se leva
desta vida!
E batia-lhe no ombro, revirando os olhos, em que o lcool pusera
faiscas.
- Credo! O senhor quer membebedar?!...
E, como o Cordeiro insistisse em servi-la de Lisboa, Amncia retirou o
copo e o vinho derramou-se-lhe no prato, pela mesa e sobre as pernas.
- Ui! fez ela, arredando sbito a cadeira, e gritou: - Que selvageria,
Virgem Santssima!
- Farinha! Farinha seca, Dona Amncia! Farinha seca! receitavam de todos
os lados.
O Cordeiro, j pronto, tomou a cuia da farinha e despejou-a em cheio
sobre a pobre velha, que entrou a tossir muito sufocada. Foi um
gargalhado geral e prolongado.
- Cruzes! Valha-me Deus, com os diabos! berrou Amncia, quando pde
falar, e a sacudir-se toda, muito enfarinhada Arre! Aqui mesmo no me sento mais!
- Vem c, pro meu lado, perdio! dizia Casusa, convidando Amncia entre
o riso da mesa inteira
- Se a farinha e o antdoto cure-se agora com este! aconselhou Raimundo
por pilhria.
- At voc?! esbravejou Amncia, cega de raiva. Ora mire-se! Quer um
espelho?!...
- Preferia uma escova, minha senhora, para limpar-lhe a roupa
As gargalhadas repetiam-se j sem intervalo, contagiosamente, sem
precisar de mais nada para as provocar.
- Vinho derramado - sinal de alegria! decidiu Freitas, preocupado a
esbrugar uma canela de frango, sem querer lambuzar os bigodes.
Serviu-se a sobremesa e reformou-se a bebida. Veio Porto em clice.
- Uma sade! exigiu Cordeiro, mal podendo ter-se nas pernas.
Criou-se logo silncio, em que se destacavam estas frases: Mau!... Temos
carraspana?...
- Cabea fraca de rapaz!...
- Esse bruto a teima em beber! Forte birra!
- Diabo do homem no pode ir a parte alguma!
- Vai j tudo isto raso!
- Pscio... pscio!...
- Meus senhores... e minhas senhoras, de ambos os sexos! Eu vou beber 
sade do melhor... sim! do melhor por que no?! do melhor patro que
todos ns temos tido, aquele que est me olhando, o Manuel Pescada!
Houve um sussurro de repreenso.
- Ou da Silva! emendou o orador.  um homem sem aquelas! E um mel!...
para um servio... quer dizer, quando a gente precisa dele pode falar,
que  o mesmo! Mas...
O sussurro aumentou.
- Cale-se! dizia baixo o Vila Rica, a puxar o palet do Cordeiro.
Cale-se com os diabos! Voc est servindo de bobo!
- Mas! berrou o espingardeira, sem fazer caso das advertncias do
colega, o que eu no posso admitir,  a poro de picardias e desaforos,
que ele me est a fazer constantemente!...
O sussurro transformou-se em um coro de protestos, que apagava os berros
do orador; as mocas atiravam-lhe bolas de miolo de po; Manuelzinho,
muito vermelho, possua-se de uma hilaridade excepcional; Vila Rica
puxava com ambas as mos o palet do Cordeiro.
- Solte-me! roncou este. Solte-me, com todos os diabos! ou vou-lhe aos
queixos! Meta-se l com a sua vida, e deixe-me, quero desabafar! Sebo!
No me calo, entende?! No me calo, porque no quero! no me calo! no
me calo! - Sim! continuou em tom de discurso, no admito os seus
desaforos!... Ainda outro dia...
- Viva o Manuel! gritou um.
- Viv! respondia o coro.
- Seu Manuel!  sua!
- A sua!
- Hup! hup! hurra!
- Bang! gritou Cordeiro, e quebrou o copo na mesa  de quebrar.
- S se fosse a tua cabea, grandssimo borracho! resmungou o Sena,
muito maado.
- Ateno! ateno, meus senhores!...
Em a voz do Faisca, acompanhada de palmas.
- Ateno!
E tirou da algibeira uma folha de papel.
Fez-se algum silncio, e o Fasca, depois de puxar os punhos, comeou a
falar, com uma voz aflautada, cheia de afetaes e com a minuciosa dos
mopes; a cabecinha inquieta muito arrebitada, os olhos esticados,
procurando alcanar o vidro das lunetas; a boca aberta e as ventas
distendidas.
- Meus senhores!... Em tal dia... eu no podia deixar de fazer... uma
poesia!...
-  verso! E verso! declarou Bibina, a bater palmas, contente.
- Eu creio tambm que sim...  uma poesia em verso!...
- E por isso... continuou Fasca, calcando a luneta, que o suor fazia
escorregar - recomendo s musas, ouso erguer a minha dbil voz, para
oferecer, como penhor de estima e considerao, ao senhor Manuel, digno
negociante matriculado da nossa Praa, este modesto soneto, que... se
no prima... sim!... se no prima...
- Primasse! gritou o Cordeiro.
Fasca, todo atrapalhado, procurava uma palavra.
- Venham os versos!
- Venha a poesia! Reclamavam.
Filho da antiga terra de Cames! principiou o Fasca a recitar,
trmulo.
- Filho da antiga terra de Cames! repetiu o Cordeiro, arremedando-lhe a
voz.
- Homem! voc nem se calar? repreendeu Manuel.
O recitador prosseguiu:
Filho da antiga terra de Cames! E nosso irmo de leite e
companhia!...
- Leite e companhia?... considerou o Sena na sua seriedade, meditando.
No! me  estranha a firma!... Ora espere!... Ser com o Jos e Cia., do
Piau?!...
Fasca continuou, muito enfiado:
Eu quero vos saudar no augusto dia Em que s juntos esto amigos bons!
- Bravo! Bravo!
- Olha, gentes! - rimou!
- Pscio!... Pscio!...
- Diga outro, seu Rosinha?
- Diga outro verso!
- Diga um de transporte!... lembrou Etelvina com um suspiro.
- Silncio!
Mas o poeta no pde continuar, porque, em um movimento de atrapalhao,
cara-lhe o pince-nez dentro de uma compoteira de doce de cada.
- Um brinde! pediu Casusa. Um brinde!
- Silncio!
- Espere!
- Ordem!
- Ne quid nimis!
E, depois destas palavras, ouviu-se a voz de Maria Brbara, dizendo a
Dona Maria do Carmo:
- Minha vida, coma uma naquinha de melo!
Passou-lhe o prato.
- Ai, filha! no sei se poderei entrar nele!... considerou lamentosa a
viva do Espigo, lembrando-se do protesto que fizera contra os pepinos
e a sua competente famlia - senhor doutor, inquiriu ela de Raimundo,
melo ser dos pepinos?
- Sim, minha senhora, pertencem ambos  dos cucurbitceos.
- Como? perguntou a velha com a boca cheia de arroz-doce.
- Quer dizer, explicou logo o Freitas, radiante por pilhar uma ocasio
de expor os seus conhecimentos, - quer dizer que  um fruto
cucurbitceo, da importante famlia dos dicotiledneos, segundo Jussieu,
ou das calicfloras, segundo De Candole.
- Fiquei na mesma com a tal famlia dos califorchons!
- Que famlia? que famlia? O que foi que fez ela?! Algum escndalo,
aposto? fariscou Amncia, pensando, assanhada j, a sentir o cheiro de
uma intriga. Quando eu digo!... No h em quem fiar hoje em dia! Mas
quem so esses danados? qual  a famlia?
-  a dos cucurbitceos.
- Ah! so estrangeiros!... J sei, j sei!  uma famlia de bifes, que
esta morando no Hotel da Boavista!  certo, agora me lembro que ainda
estoutrdia uma sujeita ruiva... deve ser mulher ou filha do tal...
como se chama mesmo?..
- Quem, Dona Amncia? A senhora est fazendo uma embrulhada da nossa
morte!...
- O tal ingls!
- Que ingls? Ningum aqui falou em ingleses, nem franceses!
E Mana do Carmo passou a explicar  amiga que se tratava de pepinos e
meles.
Casusa continuava a discursar num brinde feito ao Serra (a uma de cujas
filhas pretendia); j lhe tinha chamado gnio e agora comparava-o a um
lrio pendido na estrada; o bom homem escutava-o, sorrindo, sem
compreender; enquanto Raimundo, com a cabea quase dentro do prato,
suportava o Freitas, suspirando pelo fim do jantar, para fugir-lhe. O
maante, elogiava a sua prpria memria com a vaidade do costume:
- O senhor ainda no viu nada... segredava ele ao outro. Sei discursos
inteiros, longos, que ouvi h dez anos! sei de cor, meu caro doutor,
extensas poesias que apenas li duas vezes! No acha extraordinrio?...
- Decerto...
E o desalmado, como prova, entrou a recitar A Judia de Tomas Ribeiro,
que tinha nesse tempo no Maranho um cheiro ativo de novidade:
Coma branda a noite. O Tejo era sereno!...
- Mais alto! reclamou, da mesa pequena, o Cordeiro, com um grito. No
chega at c. Queremos ouvir o recitativo!...
E, como Raimundo conseguisse fazer calar o Freitas, aquele levantou-se
arrebatadamente e ps-se a estropiar uma chula:
Carolina que horas so estas?... Nove horas no bronze da torre!
- Cante antes o No quero que ningum me prenda! aconselhou
Eufrasinha, com uma risada.
- Gentes! disseram outras moas, admiradas do desembarao da viva.
Cordeiro obedeceu, e, trepando na cadeira, tomou uma garrafa pelo
gargalo, ergueu-a e, berrou o que ento representava na provncia o hino
dos borrachos:
Eu no quero que ningum de prenda; Aihe! Debaixo do meu pifo! Quando
fores de noite  nua, Aihe! Leva cheio o garrafo! Seu soldado no me
prenda, No me leve pro quartel Eu no vim fazer barulho, Vim buscar
minha mulh! Aihe! Debaixo do meu pifo! Quando fores de noite  rua,
Aihe! Leva cheio o garrafo!
A pouco e pouco, iam todos. menos o Dias, acompanhando em coro o
terrvel Aihe! e batendo. at algumas senhoras, com a faca nos
pratos. Da a nada, era uma algazarra em que ningum j se entendia.
A confuso tomou-se, afinal completa faziam-se brindes de brao
entranado, bebia-se de copos trocados; misturavam-se vinhos soltavam-se
gargalhadas estrepitosas; cruzavam-se projteis de miolo de po
quebravam-se copos e, dentro de todo esse tumulto, destacava-se a voz
rouca do Casusa, que insista no seu brinde ao Serra, a quem agora
chamava berrando: Poeta do Comrcio! Colosso de negcios!
As senhoras tinham-se j levantado dos lugares e palitavam os dentes
encostadas s competentes cadeiras, meio entorpecidas na replexo do
estmago. A noite fechava-se Maria Barbara afastara-se para dar
providencias sobre a luz Ouvia-se uma voz a discutir gramtica com o
Faisca: Cordeiro. que se calara. afinal, cara em prostrao, derreado
na cadeira e com as pernas estendidas em cima da que Amnia deixara
vazia Entretanto, o Freitas, sempre teso, sem alterao alguma na sua
roupa de brim engomado, pediu vnia para erguer um modesto brinde...
Limpou a superfcie dos lbios com o guardanapo dobrado, que pousou
depois vagarosamente sobre a mesa; passou a enorme unha do seu dedo
mnimo no desfibrado bigode, e, fitando uma compoteira de doce de
pacovas - erguida a mo direita, na atitude de quem mostra uma pitada;
declamou com nfase:
- Meus ilustres senhores e respeitabilssimas senhoras!...
Houve uma pausa.
No poderamos, pela ventura. terminar satisfatoriamente esta, to
pequena quo antiga e tradicional festa de famlia, sem brincarmos uma
pessoa respeitvel e digna de toda a considerao e. respeito! Por
isso... eu! eu, senhores, o mais insignificante, mais insuficiente de
todos ns! ...
- No apoiado! No apoiado!
- Apoiado! dizia o Cordeiro com os olhos, vidrados.
- Sim! eu, cuja voz no foi bafejada pelo dom sagrado de eloqncia! Eu,
que no possuo a palavra divina dos Ccero, dos Demstenes, dos
Mirabeau, dos Jos Estevo. etcetera, etcetera! eu, meus senhores! vou
brindar... a quem?!.
E desenrolou um repertrio interminvel de frmulas misteriosas
apropriadas  situao, exclamando no fim, cheio de sibilos:
- Intil  dizer o nome!
Todos perguntavam entre si com quem seria o brinde. Houve teimas,
fizeram-se apostas.
- Mais do que intil  dizer o nome, prosseguiu o discursador,
saboreando o efeito da sua impenetrvel aluso, mais do que intil 
dizer o nome! porquanto j sabeis de sobre que falo com referncia a
Excelentssima Sr Dona... (nova pausa! Maria Brbara Mendona de
Melo!...
Fez-se uma balbrdia de exclamaes
- Dona Maria Brbara! Dona Mana Barbara! gritavam muitas vozes.
E todos se voltavam para o interior da casa
- Minha sogra!
- Minha sogra!
- Dona Babu!
- Dona Maria Brbara!
Ela apareceu afinal, trazendo na mo um candeeiro aceso.
- C estou! c estou!
E, toda desfeita em risos, ps o candeeiro sobre a mesa e bebeu do
primeiro copo que lhe levaram  boca.
Seguiu-se um formidvel hup! hup! hurra! E a msica atacou o Hino
Brasileiro.
- O nosso hino! disse misteriosamente o Freitas a Raimundo tocando-lhe
no ombro. Um dos mais lindos que conheo!...
- Chit! Com os diabos! resmungou o Dias, empalidecendo e levando as mos
 cabea.
- Que ? que ?
Voltavam-se todos para ele.
- Nada... nada... disfarou sem despregar mais os lbios.
 que s agora,  vista da luz, se lembrara de no haver apagado a vela
do quarto de Maria Brbara.
Serviu-se o caf vieram os licores, o conhaque e a cana-capim.
O Dias sentia-se cada vez mais preocupado Ora que ferro!
Esquecer-se de soprar aquela maldita vela!... Que diabo! podia haver um
incndio e l ir tudo pelos ares!...
Sebastio Campos desapareceu com o Casusa, levando a sua cesta de fogos,
e todos os outros, mais ou menos excitados pelas libaes aproximaram-se
das anteparas da varanda. Cerrara-se completamente a noite; viam-se j
os pirilampos da quinta palpitando na sombra; punha-se nova mesa, para
os msicos, que continuavam a tocar o Cordeiro sapateava um fadinho ao
som do Hino Nacional, mal podendo ter-se nas pernas; o Serra, boleando o
seu respeitvel ventre foi desafiado pela gorda Lindoca, e danaram
ambos; o Serra puxou Manuel, e, com o exemplo do patro, atiraram-se
tambm o Vila Rica e Manuelzinho, sem mais contemplaes com a rigorosa
pragmtica comercial. O Fasca, que era fraco da cabea e do estmago,
dava para chorar espetaculosamente, lamentando-se com nsias e suores
frios dizia sentir um desgosto tremendo da vida, uma inabalvel
resoluo de suicidar-se e uma vontade estpida de vomitar.
Ento um busca-p, descrevendo no ar incendiados caracis de grossas
faiscas, foi cravar-se no rebordo da varanda, bem junto ao lugar em que
estava Amncia.
- Credo!
Fez-se um espalhafato. A velha pulou para trs, tossindo sufocada e o
Cordeiro afianava que, indo ela tomar flego engolira um busca-p
aceso. Ana Rosa, com o susto, correu at ao lado oposto da varanda, onde
no chegava claridade. e caiu trmula nos braos de Raimundo, que,
contra os seus hbitos de rapaz srio, ferrou-lhe dois beijos mestres.
Os busca-ps repetiam-se l fora sem interrupo. Acenderam-se afinal,
os candeeiros e iluminou-se, a velas de cera ao fundo do lado esquerda
da varanda, o vistoso altar, onde So Joo Batista, no meio de uma
fulgncia de luzes e flores de papel dourado, resplandeceu com o seu
cordeirinho nos braos e segurando um cajado de prata.
Ficou tudo claro e alegre. Os msicos foram para a mesa, e Manuel
distribuiu fogos por todos os convidados As mocas queimavam pistolas; os
homens carretilhas, foguetes e bombas. Levantou-se defronte da casa uma
grande fogueira de barricas alcatroadas, depois outras; e a varanda, com
os seus estampidos, afogueada pelo claro vermelho, cuspindo baias
brilhantes e multicores, parecia um baluarte em guerra.
Dias, alheio a tudo isso, passeava de um para outro lado, embebido na
sua preocupao Aquelas pistolas brancas e compridas, ainda mais o
irritavam, porque pareciam velas de cera.
Depois de jantar, a banda de musica retirou-se, tocando uma coisa alegre.
- Seu Freitas, dizia Bibina, me acenda esta rodinha!
- Ui! gritava ao mesmo tempo a Eufrasinha, procurando queimar uma
pistola, tenho medo disto que me pelo!
- Pegue com o leno, aconselhava a tia Sarmento
- Seu moo, me escorve isto, por seu favor...
Sebastio e Casusa continuavam l embaixo as voltas com os busca-ps,
que se cruzavam no ar freneticamente.
Raimundo, ao lado de Ana Rosa, acendia no seu charuto os fogos que ela
tocava, e falava-lhe baixinho em casamento.
- Na primeira ocasio falo a teu pai...
- E por que no falas amanh?... mame foi pedida justamente num dia de
So Joo!
- Pois bem, amanh!. .
- No menganas?.
- No. E tu, dize, tu me estimas deveras?... Olha que o casamento e
coisa muito sria!.
- Eu adoro-te meu amor!...
- Est ai o padre! Gritou Sebastio l de baixo.
- Chegou o padre! Chegou o padre! repetiram muitas vozes.
Frei Lamparinas, efetivamente, chegava para cantar a ladainha.
Acompanhavam-no quatro sujeitos de ar farandulesco; caras avermelhadas
pela cachaa, cabeleiras  nazarena, palets insuficientes, olhares
cansados; um todo cheio de insnia e movimentos reservados de quem no
conhece o dono da casa em que se apresenta Eram msicos de contrato,
pndegos afeitos s serenatas, aos chinfrins de todo o gnero, estmagos
vitimados s comezainas fora de horas, cujas digestes pem manchas
biliosas na face. Um trazia um violo debaixo do brao, outro uma
flauta, outro um pisto e outro uma rabeca. Entraram em rebanho, com os
ps surdos e foram assentar-se, modestamente risonhos, na amurada
varanda, a cochicharem entre si, olhando com tristeza gstrica para os
destroos da mesa.
Casusa. que os seguiu desde l debaixo, foi o nico a cumprimenta-los, a
cada um de per si, dando-lhes o nome e recebendo o tratamento de tu. Fez
logo vir uma garrafa e serviu com intimidade, a rir lembrando-lhes
outras patuscadas em que estiveram juntos Manuel acudiu tambm,
oferecendo-lhes de comer. e insistindo principalmente com Frei
Lamparinas que ainda no tinha jantado, conforme ele prprio confessava
Recusaram-se todos, prometendo cear depois da ladainha. Comeriam mais
- vontade!
- Pois ento vamos  ladainha!
E dispuseram-se para a nova festa que ia principiar. Sebastio Campos
continuava na quinta, a soltar os seus busca-ps e as suas formidveis
bombas, que estrondavam como canhes. Ah! s tocava fogo fabricado por
ele prprio! No tinha confiana nesses fogueteiros de meia-tigela!...
As barricas estalavam em labaredas fiscalizadas por Benedito. Havia por
toda a parte uma reverberao vermelha e Um cheiro marcial de plvora
queimada. Defronte da casa as arvores erguiam-se arremedando uma
apoteose de inferno. As mos encardiam-se, as roupas saraqueimavam-se
com fasca. Algumas pessoas saltavam as fogueiras; outras, de mos dadas
e braos erguidos, passeavam em tomo dela, com solenidade, arranjando
compradescos.
- Quer ser minha comadre, D Anica? perguntou Casusa a Ana Rosa.
- Vamos l!
E desceram  quinta. A, com a fogueira entre ambos, deram a mo um ao
outro e passaram trs voltas rpidas em tomo das chamas, com os braos
erguidos, a dizer de cada vez:
- Por So Joo! Por So Pedro! Por So Paulo! E por toda a corte do cu!
Na varanda, Lamparinas dava tranqilamente, no meio de um grupo, a
notcia de ter havido incndio na cidade.
- Onde? perguntaram a sustados.
- Na Praia Grande.
Dias, sem dar uma palavra, atirou-se de carreira para a quinta e
desapareceu logo na alameda de mangueiras.
Freitas exps a Raimundo o grande inconveniente daquele brinquedo
brbaro do fogo. Quase sempre, nos dias de So Joo e So Pedro havia
incndios na cidade!... Os negociantes apertados aproveitavam a ocasio
para liquidar a casa!... Entretanto, o Serra apontando para o lugar
onde desaparecera o caixeiro de Manuel, dizia ao ouvido deste: Aquilo 
que  Um empregado de truz, seu colega! Tenho inveja de voc, acredite!
Vale quanto pesa! 
Lamparinas procurava tranqilizar o animo dos dois negociantes,
declarando que o fogo era na Praa do Comrcio e que no atingira
grandes propores. Aquela hora talvez j no houvesse vestgio
dele!...
Varreu-se a varanda em todos os seus quatro lados; estenderam-se
esteiras de meaaba sobre o tijolo, no lugar em que as devotas teriam de
ajoelhar-se; acenderam-se mais algumas velas no altar, onde Frei
Lamparina ia recitar a sua milsima ladainha, segundo o que nesse
momento acabava de dizer o Freitas.
- Milsima?... perguntou Raimundo, pasmado.
- Admira-se, heis?... volveu o homem da unha grande. Pois olhe, s neste
stio, a julgar de um pequeno clculo, que me dei ao trabalho de fazer,
tem ele enrolado nunca menos de 657 ladainhas!
E, a propsito, Freitas contou minuciosamente o clssico costume daquela
festa de So Joo.
- Hoje no se faz nada,  vista do que j se fez!... dizia Bons
rega-bofes tivemos no tempo do coronel em que se faziam novenas e
trezenas de So Joo! E era danar pra a toda a noite, sem descansar!
Meu amigo, era uma brincadeirazinha que rendia seguramente meio ms de
verdadeira folia!
E, com um ar misterioso, como quem vai fazer uma revelao de suma
importncia:
- Quer que lhe diga, aqui entre ns?... As moa de hoje no valem as
velha daquele tempo! ..
E o maroto cascalhou uma risada, como se houvera dito alguma coisa com graa.
Os fogos continuavam ainda e os nimos persistiam quentes, quando, de
improviso, se abriu a porta de um quarto, e o padre Lamparinas apareceu,
todo aparamentado com a sua sobrepeliz nova; o livro da reza entre os
dedos, os culos montados no nariz adunco, os passos solenes, o ar cheio
de religio. E arvorou-se nos degraus do altar, anunciando que ia dar
comeo  ladainha.
Houve um prolongado rumor de saias, e as mulheres ajoelharam defronte do padre.
Do ato, contra a luz da velas de cera, desenhava-se em sombrinha o vulto
do Lamparinas, anguloso, com os braos levantados para o teto, num
xtase convencional. Os homens aproximaram-se todos,  exceo do
Faisca, que dormia. Alguns ajoelharam-se tambm. Atiraram-se fora os
charutos em meio; deixaram-se em paz os busca-ps e as bombas; correu
silencio. E a voz fnebre do Lamparinas chiou confusamente a Tua Domine.
- Ento no temos jaculatria?... perguntou Amncia, escandalizada.
Lamparinas atirou-lhe uma olhadela repreensiva e concentrou-se de novo
em sua orao, concluindo:
- Presentamos, Senhor, estas ofertas, sobre os vossos altares, para
celebrarmos esta festa, com a honra que  devida ao nascimento daquele
santo, que, alm de anunciar a vinda do Salvador ao mundo, nos mostrou
tambm que era j nascido o mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor, que conosco
vive e reina em unidade.
- Apoiado! gritou o Cordeiro.
Desencadeou-se um sussuro de indignaco. Todavia, entre a tosse, os
escarros secos e alguns espirros dispersos, que se acusavam daqui e
dali, continuou fanhoso o Lamparinas:
- Gratiam tuam, quoesumus, Domine, mentibus nostris infunde, ut qui
Angelo nuntiante Christi Filii tui incamationem cognovimus, per
pressionem ejus et crucem ad ressurrectionis gloriam perducamus. Per
eumdem Christum Dominum Nostrum. Amen!
- Amen! disseram em coro.
E a voz do Lamparina chilreava, acompanhada pela msica:
- Kyrie eleison!
Os devotos e devota respondiam cantando em todos os tons:
- Ora... pro... nobis!
E este bis fina ia longe!
- Christe eleison!
- Ora pro nobis!
Destacava-se a voz grossa e avinhada do Cordeiro, que sempre demorava no
canto e arrastava escandalosamente o bis.
- Diabo do herege!... resmungou Amncia, sem desfazer a sua atitude
beata.
- Pater de caelis, Deus, miserere nobis!...
- Ora pro nobis!... insistia o coro
- Fili Redemptor mundi, Deus miserere nobis.
- Ora pro nobis!
E o pobre Lamparina, no fim de um quarto de hora desta msica, sentia-se
plenamente no seu elemento, entusiasmava-se, cantava, marcando frentico
o compasso com o p, e quase danando J no espera pelo Ora pro
nobis, ia gritando:
- Santa Maria!
- Santa Dei genitrix!
- Santa virgo Virginum!
- Mater purssima!
E o coro, e a musica, a correrem atrs dele, a toda a fora.
Mas o especialista das ladainhas teve de interromper o seu entusiasmo,
porque, em torno de Maria do Carmo, levantava-se um zunzum.
- Que ter minha tia?!... exclamou Etelvina a alvoroada.
- Mame outrinha! Jesus! Valha-me Deus!
- O que ?
- Que foi?
- Que tem?
- Que sucedeu?
Ningum sabia. Entretanto, Maria do Carmo ajoelhada hirta, com o queixo
enterrado entre as clavculas, tinha uma imobilidade aterradora no olhar.
- Credo! gritou Amncia, benzendo-se.
As sobrinhas puseram-se logo a chorar ruidosamente; Ana Rosa Eufrsia e
Lindoca imitaram-nas no mesmo instante.
Correram todos para o lugar sinistro; os msicos com os instrumentos
debaixo do brao; Lamparinas com o manual de rezas marcado pelo
indicador da mo direita.
Ouvia-se roncar estranhamente o ventre de Maria do Carmo. Raimundo abriu
caminho, chegou onde ela estava, suspendeu-lhe a cabea e, ao solt-la
de novo, uma golfada de vmito podre jorrou pelo corpo da velha.
- E um vlvulo! disse ele, voltando a cabea.
- Do latim - volvulus - segredou-lhe o Freitas, que o acompanhara at l.
Maria do Carmo foi carregada para o quarto. Estenderam-na em uma
marquesa. Pingava-lhe de todo o corpo um suor copioso e frio; tinha o
ventre duro como pedra. Raimundo fez darem-lhe azeite doce e aconselhou
que mandassem comprar, quanto antes, eleturio de sena. Correu-se a
chamar o mdico na cidade.
A doente voltou a si, mas sentia clicas horrveis, comicho por todo o
corpo; queixava-se de grande secura, e delirava de instante a instante.
Da a meia hora vieram de novo os vmitos; cresceram-lhe as agonias;
aumentavam-lhe os rebates intestinais. A pobre velha arranhava a
palhinha da marquesa, cravando as unhas na madeira.
Em tomo dela fazia-se um silncio aterrador. Afinal chegou-lhe a reao:
deu um arranco dos ps  cabea e ficou logo imvel.
Raimundo pediu um espelho; colocou-o defronte da boca de Maria do Carmo,
observou-o depois e disse secamente:
- Est morta.
Foi um berreiro gera,. Etelvina caiu para trs, estrebuchando num
histrico; Manuel arredou a filha daquele lugar Acudiram todos os de
casa Os nimos que o vinho entorpecia, acordaram como por encanto. A
situao incontinenti tornou-se lgubre.
O Cordeiro, j em seu juzo perfeito, ajudou a carregar o cadver,
afastou cadeiras, arrastou uma cmoda, e preparou a encenao da morte.
Invadiram o quarto. Os pretos do stio chegavam-se com medo apavorados,
resmungando monosslabos guturais; o olhar parvo, a boca aberta.
Em menos de duas horas, Maria do Carmo estava estendida em um canap,
iluminada por velas de cera, lavada, vestida de novo e penteada Sobre a
cmoda, perto dela, a inaltervel imagem de So Joo Batista, e,
ajoelhado no tijolo, com o olhar fito no santo, o cnego, de braos
abertos, balbuciava uma orao.
Manuel expediu recados para a cidade; seus caixeiros partiram todos;
Maria Brbara fechara-se no quarto e pusera-se a rezar com desespero de
beata velha. A agitao era comum. S Amncia conservava o sangue-frio;
estava no seu elemento - ia e vinha, deva ordens, dispunha tudo,
aconselhava, ralhava, chorando quando era preciso, consolando os
desanimados, dizendo rezas, citando fatos, governado, repreendendo aos
que no obedeciam, e pondo ela mesma em prtica as suas prescries.
As dez horas da noite, uma rede de algodo, enfiada numa taboca de
muitas cores, cujas extremidades dois pretos vigorosos sustentavam no
ombro, conduzia o cadver de Maria do Carmo para o sobrado do Largo das
Mercs, com grande acompanhamento de homens e mulheres. Benedito ia na
frente, iluminando o fnebre cortejo  luz ruiva de um enorme archote
alcatroado que ele erguia sobre a cabea.
Lamparinas caminhava atrs furioso, fazendo voar ante seus ps as
pedrinhas soltas da estrada, e dando-se aos diabos pela m observncia
do antigo e confortador provrbio: O padre onde canta l janta!
CAPTULO 9
Logo depois da partida do cadver, Maria Barbara e Ana Rosa desceram do
sitio, em um carro que se mandou buscar; foram diretamente para o Largo
das Mercs. Manuel e Raimundo vieram de bonde e seguiram para casa. Mas
o rapaz, apesar de fatigado, no conseguiu repousar. Precisava de ar
livre. Mudou de roupa e tomou a sair.
Passava j de meia-noite. A cidade tinha o carter especial das vsperas
de So Joo: viam-se restos de fogueiras fulgurando ao longe, em
diversos pontos, de quando em quando ouviam-se estalos destacados.
Raimundo tomou a direo das Mercs. Seria crvel, pensava pelo
caminho, que estivesse deveras enfeitiado por sua prima?... ou seria
tudo aquilo uma dessas impresses passageiras, que nos produz em dias de
bom humor um rosto bonito de moa?... Verdade era que nunca se sentira
to preocupado por outra mulher.
- Em todo o caso, concluiu ele, convm dar tempo ao tempo!... Nada de
precipitaes!
Assim raciocinando, no antegosto do seu casamento provvel com Ana Rosa,
chegou  casa das Sarmentos.
Nessa ocasio reuniram-se a as velhas amizades da defunta, prevenidas
logo do triste acontecimento pelos empregados de Manuel. O enterro seria
no dia seguinte  tarde. Os conhecidos do comercio mandaram l os seus
caixeiros para ajudarem a encher as cartas de convite e fazerem quarto.
Chamou-se logo um armador, para preparar a casa, conforme o uso da
provncia; falou-se a um desenhista para fazer o retrato do cadver -
tomou-se medida e encomendou-se o caixo; discutiu-se a vestimenta que
devia levar Maria do Carmo, e resolveu-se que seria a de Nossa Senhora
da Conceio, por ser a mais bonita e vistosa. Amncia ofereceu-se
prontamente para talhar a roupa. Que no valia a pena encomend-la ao
armador, sobre vir malfeita e mal cosida, sairia por um dinheiro!
- No sei! dizia ela. Todas estas coisas pra enterro custam sempre
quatro vezes mais do que podem valer!  uma ladroeira descarada! Por
isso enriquecem to depressa os armadores! diabo dos gatunos!
Desta vez a velha tinha razo.
Mandaram comprar cetim cor-de-rosa, azul e branco, sapatinhos de baile,
escumilha e fil para o vu, que seria franjado de ouro. Uns teimavam
que a morta devia levar um ramalhete de cravos na mo, outros negavam,
considerando, nem s a idade da defunta, como o seu estado de viva.
E choviam exemplos de parte a parte:
- Outro dia Dona Pulquria das Dores apesar dos seus sessenta anos,
levou na mo um enorme ramo de rosas vermelhas! E demais, era casada.
- E o que tem isso?! Dona Chiquinha Vasconcelos foi de caixo aberto,
porm no levava ramalhete, e, at digo-lhe mais, nem palma nem capela!
no entanto era solteira e tinha a metade da idade de Dona Maria do Carmo.
- Mas ia com as faces pintadas de carmim, que  muito pior! Ora a
est!... Alm disso, dizia-se da Chiquinha o que todos ns sabemos. Deus
me perdoe! Uma mulata obesa cortou o n grdio da questo, declarando
que o ramalhete bem podia ir escondido por debaixo do hbito. Todos
concordaram logo.
Deu Uma hora. Vrios caixeiros retiraram-se j com um mao de cartas,
que entregariam pela manh; algumas famlias, vestidas de preto,
despediam-se com beijos, pedindo desculpa por no ficarem ate  hora do
enterro. O armador martelava na sala. A noite cala no silncio ouvia-se
um ou outro busca-p retardado. Na n a, grupos pndegos passavam em
troa para o banho de So Joo do Alto da Carneira vinha um sussurro
longnquo de bumba-meu-boi. Cantavam os primeiros galos; ces uivavam
distante, prolongadamente; no cu azul e tranqilo uma talhada de lua,
triste sonolenta mostrava-se como por honra da firma, e, todavia, um
homem, de escada ao ombro, ia apagando os lampies da rua.
Raimundo parara um instante olhando o mar, defronte da casa das
Sarmentos.  porta de entrada havia um grande reposteiro de veludo
negro, com uma cruz de gales amarelos. Ele considerou o prdio: era um
casaro velho, um desses antigos sobrados do Maranho, que j se vo
fazendo raros. Cinqenta palmos de alto e outros tantos de largo, barra
pintada de piche, mostrando a calia em vrios pontos, cinco janelas de
peitoril, enfileiradas sobre quatro portas lisas, com um porto entre
elas, pesado, batente de cantaria; cheirando tudo a construo dos
tempos coloniais, quando a pedra e a madeira de lei estavam ali a dois
passos e se levantavam, em terrenos aforados, paredes de uma braa de
grossura e degrau de pau santo.
Entrou. O corredor transpirava um carter sepulcral. Subia-se uma escada
feia, acompanhada de um corrimo negro e lustrado pelo uso; nas paredes,
via-se,  insuficiente claridade de uma lanterna suja, o sinal gorduroso
das mos dos escravos, e no teto havia lugares encarvoados de fumaa.
A escada era dividida em dois lances, dispostos em sentido contrrio um
do outro; Raimundo chegou ao fim do primeiro lance sufocado e galgou o
segundo de carreira, dando aos diabos o maldito costume de fechar toda a
casa, quando ela mais precisa de ar porque tem dentro um cadver. Numa
das salas da frente, forrada ento pelo tapete do armador, tapete velho
e, to crivado de pingos de cera, que o p escorregava nele, estava um
grande tabuleiro de paparaba, cheio de tochas e enormes castiais de
madeira e folha-de-flandres, pintados de amarelo. Em uma das quatro
paredes, cobertas de alto a baixo de veludo preto e orladas de gales de
ouro destacava-se um altar, ainda no aceso, todo estrelado de
lantejoulas; carregado de adornos, com uma toalha de rendas no centro,
sobre a qual pousavam dois castiais de lato, pintalgados pelas moscas,
tendo entre eles um crucifixo do mesmo metal, extremamente azinhavrado.
Defronte estava a essa, enfeitada de acordo com o resto,  espera do
caixo, que aquelas horas se reparava em casa do Manuel Serigueiro.
Empoleirado numa escada e de martelo em punho um homem, em mangas de
camisa, pregava sobre as portas bambinelas bordadas.
- A que horas e o enterro? perguntou-lhe Raimundo.
- s quatro e meia, disse o armador, sem voltar o rosto.
Da varanda vinha um murmrio de vozes. Raimundo seguiu para l.
Varanda larga e alta caiada, toda aberta para o quintal; telha v,
mostrando os caibros irregulares, donde pendiam melanclicas teias de
aranha. Num dos cantos um banco de pau roxo, muito escuro, sustentando,
em buracos redondos, dois grandes potes bojudos de barro vermelho; sobre
o parapeito da varanda, uma fila de quartinhas tambm de barro,
esfriavam gua. Aberto na parede um imenso armrio tosco, e logo ao p
um alapo no assoalho, resguardado por uma grade, com a cancela
despejada sobre uma escada tenebrosa.
Encostado  grade - um sujeito gordo, sem bigode, de culos e barba
debaixo do queixo, dizia a outro do mesmo feitio, batendo com o p nas
largas tbuas do cho.
Hoje ningum mais pilha deste madeiramento! Repare! E tudo pau-darco,
pau-santo, pau-cetim, bacuri, jacarand e pequi! Madeiras que valem o
ferro e que nem o machado pode com elas!
Em volta de uma mesa, dez homens, a ttulo de fazer quarto  defunta,
jogavam cartas, conversando em voz discreta repetindo xcaras de caf e
clices de conhaque, entre pilhrias segredadas, risos abafados e o fumo
espesso dos cigarros.
Quando Raimundo entrou, confidenciava um deles ao vizinho:
- J no sou homem para estas coisas!... No posso perder uma noite!...
Por mais que beba caf, sinto sono!... Porm no podia deixar de vir,
era uma ocasio de encontrar-me com a pequena... No tenho entrada na casa dela...
E bocejava.
- Conhecias esta velha que morreu? interrogou-lhe o outro.
- No. Creio que a encontrei uma vez em casa do Manuel Pescada... J
estive a olh-la -  horrvel!
- Pois aqui onde me vs, estou furioso! O patro mandou-me para c, mas
com poucas arribo! Tenho um pagode no Cutim e no o perco!
- Tambm porque a velha no escolheu melhor dia pra morrer!...
- Logo na vspera de So Joo! Que espiga!
E bocejavam ambos.
- Quem  este tipo? perguntou um dos jogadores, vendo entrar Raimundo.
Corte com o trs de espadas!
-  um tal Raimundo... um sujeito que o Pescada tem em casa por
compaixo.
- O que faz ele? - Dama!
- Diz que  doutor. -  meu!
- No parece mau rapaz...
- Fia-te!
- J te pregou alguma hein? conta-nos isso!
No te digo mais nada... Fia-te na Virgem e no corras!... Fizeram uma
pausa, em que se ouvia atirar cartas  mesa, com uma pancada de dedos no
tapete.
- Mas do que vive ele? perguntou o curioso que se informava de Raimundo.
- Venha o s!
- Ora do que vive!... Voc no tem copas?... Pergunte a toda essa gente
sem emprego, de quem oficialmente se de vive de agncias e ficars
sabendo.
- Ganhei!
- Mas o que  ele do Manuel?
- Diz que primo... respondeu o outro, baralhando as cartas.
Ah!...
- D cartas.
Raimundo cumprimentou-os e perguntou pela famlia da defunta.
Estava fazendo quarto. Que entrasse por ali, responderam-lhe, indicando
uma porta.
Logo que o rapaz deu as costas, o maledicente levantou o brao e fez-lhe
uma ao feia.
- Gosto muito destes tipos, acrescentou, ento em voz alta, para o grupo
inteiro, depois de um silncio, todos eles so uma coisa l por fora
Porque eu fiz! e porque eu aconteci! Porque isto  uma aldeia!  um
chiqueiro! E no entanto metem-se no chiqueiro e daqui no saem!...
- Meu amigo, nem h Maranho como este!...
- Mas dizem que este cabra tem alguma coisa... arriscou um terceiro.
- Qual nada!... Voc ainda come araras! Todos eles dizem ter mundos e
fundos!... Gosto deste Maranhozinho, porque no perdoa os tipos que vm
pra c com pomadas!... O sujeito aqui, que se quiser fazer mais sabicho
do que os outros, h de levar na cuia dos quiabos, para no ser pedante!
Diabo dos burros! Se sabe muita coisa guarde pra si a sabedoria, que
ningum por c precisa dela, nem lha pediu! E no se meta a escrevinhar
livrinhos e artigos para os jornais, que isso  ridculo!... L o meu
patro  quem sabe haver-se com esses espoletas! Ainda h pouco tempo
ele precisou ai no sei de que pape! - para o sobrinho que tinha chegado
do Porto - e vai - pede a um doutorzinho, muito nosso conhecido, que lhe
arranjasse a histria... Pois o que pensam vocs que respondeu o tal
bisca ao patro?...
No sabiam.
- Pois mandou-o plantar batatas! Chamou-o de toleiro! Que o que ele
queria, era um absurdo!
- Sim, hein?...
- Com estas palavras!... Estou lhe dizendo!... Ah, meu amigo mas tambm
o patro pregou-lhe uma de respeito!... Voc sabe que o Lopes, em
questes de capricho, no se importa de gastar dois vintns... - Sim,
como naquela histria da comenda...
- Bom. Pois ele foi ai a um outro tipo e encomendou-lhe uma dessas
descomposturas de criar bicho!
- E ento?
- Ora! Se bem o patro o disse, melhor o tipo o faz... Ora, espera! Como
era mesmo o nome da coisa?... Era... Estou com o diabo na ponta da
lngua... Ah! Era um annimo!
- Ah! Um annimo!
- Uma descomponenga, que ps o tal doutorzinho de borra mais raso que o
cho!
- Ah! Isso foi com o Melinho!... : - Foi. Voc leu, hein?
- Ora, mas aquilo do Lopes foi demais. Desacreditou o pobre moo!...
- No sei! Bem feito!
- E, segundo me consta, nem tudo era verdade no tal annimo!
- No sei!... o caso  que esfregou o tipo!
- Sim, mas o que no se pode negar  que o Melinho  um rapaz
inteligente e honesto a toda a prova!...
- Que lhe faa muito bom proveito! Coma agora da sua inteligncia e beba
da sua honestidade! Meu menino, deixemo-nos de patacoadas! O tempo hoje
 de cobre! Honesto e inteligente  isto!...
E com os dedos fazia sinal de dinheiro.
- Tenha eu o jimbo seguro acrescentou, e bem que me importa a boca do
mundo! E seno olhe a para a nossa sociedade!...
E citava nomes muito conhecidos, contava histrias medonhas de
contrabandos de grande ladroeiras de notas falsas, do diabo!
- Sim! sim isso  velho mas que fim levou o Melinho?
- Sei c! muscou-se para o Sul! Que o leve o diabo!
- Pois olhe, gosto daquele moo!...
- No lhe gabo o gosto! Raimundo, depois de atravessar um quarto
espaoso, penetrou na sala de visitas e achou-se defronte de uma roda de
senhoras de todas as idades, na maior parte vestidas de luto, e que,
assentadas, fitavam, de cabea  banda com o olhar cansado e sonolento,
o corpo inanimado de Maria do Carmo. Numa rede a um canto, soluava
Etelvina, escondendo a cabea entre travesseiros; ao lado, uma mulata
gorda e enfeitada de ouro - sala de chamalote preto e toalha de rendas
sobre os ombros - dizia maquinalmente as frases da consolao. Assentada
no sobrado sobre uma esteira. Amncia talhava o hbito de Nossa Senhora
da Conceio, com que a defunta devia ir vestida  fantasia para a
sepultura, como se fosse para um baile de mscaras. Nas paredes, os
retratos de famlia estavam cobertos por um vasto crepe; o do tenente
Espigo horrorosamente pintado a leo, com um colorido cru, tinha
atravs do vu, um sorriso duro de beios vermelhos. No meio da sala, em
um sof de gosto antigo com encosto de palhinha envernizada,
decompunha-se o cadver da velha Sarmento; tinha o rosto coberto por um
leno de labirinto encharcado de gua-flrida; as mos cruzadas sobre o
peito e amarradas  fora por uma fita de seda azul; as pernas esticadas
o cabelo muito puxado para trs, bem penteado, o corpo todo se mirrando
hirto um pouco empenado na tenso dos msculos. Em cima do ventre opado
um prato cheio de sal.
 cabeceira do canap numa mesinha coberta de rendas, um Cristo
colorido, de braos abertos pendia da cruz, e duas velas de cera
derretiam-se no lugar do bom e do mau ladro. Logo junto, uma vasilha de
gua benta com um galinho de alecrim; mais para a frente, uma Nossa
Senhora pequenina, de barro pintado.
Ouviam-se soluos discretos e o crepitar seco das velas.
Raimundo aproximou-se do cadver e, por mera curiosidade descobriu-lhe o
rosto; estava lvido, com os raros dentes  mostra, os olhos mal
fechados mostrando um branco bao, cor de sebo; dos queixos subia-lhe ao
alto da cabea um leno, amarrado para segurar o queixo. Principiava a
cheirar mal.
Ento, apareceu na sala uma negrinha com uma bandeja de xcaras de caf.
Serviram-se.
Raimundo foi levar uma chvena a Ana Rosa, que se achava entre as
senhoras.
- Obrigada, disse ela, chorosa, eu j tomei ainda agorinha mesmo.
De vez em quando ouvia-se um suspiro estalado e o som nasal das moas
que assoavam as lgrimas. Um grupo de mulheres, de saia e camisa,
conversava soturnamente sobre as boas qualidades e as virtudes da
defunta. Tinham a voz medrosa de quem receia acordar algum ou ser
ouvido pelo objeto de conversao.
- Era pra um tudo!... afirmava uma delas, compungida. Devo-lhas
muitas!... que lhas hei de pagar com padre-nossos! Inda stroudia,
quando me atacou a pneumonia na pequena, com quem foi que me achei?!...
Pois olhe que os doutores de carta no lhe souberam dar voltas! E hoje,
minha rica?... Ela est a fina e lampeira, que faz gosto, ao passo que
a pobre da senhora Dona Maria do Carmo... Deus me perdoe, at parece
feitiaria! - E apontou para o cadver com um gesto desconsolado. - Ao
menos descansou, coitada!
- No semos nada neste mundo!... suspirou, com a mo no queixo, uma
mulherinha magra e pisca-pisca, que ate ento se conservara numa
imobilidade enternecida.
E contou a histria de uma sua camarada, que, havia trinta anos, morreu
na flor da idade.
Este caso puxou outros. Foi um cordo de anedotas fnebres. A mulata
obesa fechou a rosca, narrando, muito sentida, a histria de um papagaio
de grande estimao, que ela possua, e que, um belo dia, cantando,
coitado! a Maria Cachucha, cara para trs - morto! - Credo! exclamou
Amncia. E, voltando-se para a mulata, com os culos na ponta do nariz.
- Nh Maria! esta espiguilha  toda para o vu, ou tem de se tirar daqui
tambm os laarotes?...
Depois do enterro, quando Maria Barbara, de volta a casa entrou no seu
quarto, dera logo com a vela de cera gasta at o fim e com a singular
mascara do seu milagroso So Raimundo; ficou aterrada, sem saber o que
pensar, e, na sua cegueira supersticiosa, atirou-se de joelhos defronte
do oratrio e ps-se a rezar fervurosamente.
Nessa noite, apesar da canseira em que vinha, nem pode dormir seno pesa
volta da madrugada; e,  fora de meditar o caso, acabou por enxergar
nele um milagre. Sim, um milagre, justamente como o explicam os
catecismos que se do na escola e como a sua prpria mestra lhe
ensinara; um mistrio incompreensvel. No havia que duvidar - Deus
Nosso Senhor servira-se daquele engenhoso ardil] para preveni-la de
presentes e futuras calamidades!...
Entretanto, s ao cnego se animou de confiar o fato, e at lhe pediu
segredo, que, se o genro viesse a conhec-lo, havia de sair-se com
alguma das suas. J lhe estava a ouvir resmungar com o seu insuportvel
risinho de homem sem f Pomadas de minha sogra!... Alm disso, se So
Raimundo quisesse tomar pblico o seu sagrado aviso, no usaria dos
meios que empregou!...
- Agora, o que est entrando pelos olhos, senhor cnego,  que aquele
maldito cabra do Mundico tem parte nisto! Deus queira que eu me engane,
porm a coisa toca-lhe a ele por casa!
- Pode ser, pode ser... Davus sum non Edipus!...
- E o que devo fazer?...
- Oferea uma missa a So Raimundo. Cantada, no seria mau... Uma
missinha cantada!
Ficaram nisto; mas a velha no podia tranqilizar-se assim s:
afigurava-se-lhe que, em tomo dela, grandes transformaes se operavam.
Verdade  que a morte de Maria do Carmo como que viera perturbar o
ramerro daquela panelinha de Manuel Pescada. Uma semana depois do
passamento, chegara de Alcntara um irmo da defunta, e em seguida 
missa do stimo dia, carregou consigo as duas ]inconsolveis sobrinhas.
Etelvina, embrulhada no seu vestido preto, de l, encarecera o costume
de dar suspiros; Bibina, com grande abnegao, ocultara o cabelo numa
coifa de retrs. Dona Amncia Sousellas, para carpir mais  vontade a
perda da amiga, fora passar algumas semanas no recolhimento de Nossa
Senhora da Anunciao e Remdios, ao calor confortvel das rezas e do
caldo forro do refeitrio. Eufrasinha, percebendo frieza em Ana Rosa,
dera-se por magoada e no lhe aparecia. Que, de algum tempo quela
parte, notava-lhe certo aninho de constrangimento e fastio, bem
aborrecido! A Anica j no era a mesma! No sabia quem lhe pisara o
cachorrinho; tinha plena convico de estar sendo intrigada por alguma
insoneira, mas tambm tinha alma grande e deixava correr o barco pra
Caxias! A repolhuda Lindoca igualmente se retrara, mas esta, coitada!
por desgosto das suas banhas; j no queria aparecer a pessoa alguma, de
vergonha. Entrara, por conselho do pai, a dar longos passeios de
madrugada, enquanto houvesse pouca gente na rua, para ver se lhe
descaiam as enxndias, mas qual! a enchente de gordura continuava
bolear-lhe cada vez mais os membros. A pobre moa j no tinha feitio;
quando sala era obrigada a descansar de vez em quando, provocando
olhares de admirao, que a irritavam; j no podia usar botinas, ficara
condenada ao sapato de pano, raso, quase redondo; as suas mos perderam
o direito de tocar nos seus quadris; trazia os braos sempre abertos; o
pescoo apresentava roscas assustadoras; os olhos, o nariz e a boca
ameaavam desaparecer afogados nas bochechas Entretanto, afeioava-se
pela linha reta, tinha predilees por tudo que era seco e escorrido,
olhava com inveja para as magricelas. Freitas gastava os lazeres a
consultar tratados de medicina, a ver se descobria remdio contra aquele
mal, o bom homem maava-se; as cadeiras de sua casa estavam todas
desconjuntadas: Daquele modo, no lhe chegaria o ordenado s para
moblia e, como homem fino mandou fazer uma cadeira especial para
Lindoca, com parafusos fortes, de madeira de lei. Viviam ambos tristes.
E tudo isto, todo esse desgosto surdo que minava na panelinha, era
atirado por Maria Brbara  conta de Raimundo. Queixava-se dele a todos,
amargamente; dizia que, depois da chegada de semelhante criatura, a casa
parecia amaldioada Tudo agora lhe saia torto! Chegou a pedir ao
cnego que lhe benzesse o quarto e juntou  promessa da missa mais a de
dez libras de cera virgem, que mandaria entregar ao cura da S no dia em
que o cabra se pusesse ao fresco.
Mas, pouco depois, a sogra de Manuel chamou o padre em particular, e
disse-lhe radiante de vitria:
- Sabe? J descobri tudo!
- Tudo, o qu?
- O motivo de todas as desgraas, que nos tm acontecido ultimamente.
- E qual ?
- O cabra  bode!...
- Bode?! Como?
Maria Brbara chegou a boca ao ouvido de Diogo e segredou-lhe
horripilada:
- E maom!
- Ora o que me conta a senhora!... exclamou Diogo, fingindo uma grande
indignao.
- E o que lhe digo, senhor cnego! O cabra  bode!
- Mas isso  srio?... Como veio a senhora a saber?...
- Se  srio... Veja isto!
E, cheia de repugnncia e trejeitos misteriosos sacou da algibeira da
saia o folhetinho de capa verde, que Dias subtrara da gaveta de
Raimundo.
- Veja esta bruxaria, reverendo! Veja, e diga ao depois se o danado tem
ou no parte com o co tinhosos! Pois se eu c senta um palpite!...
E apontava horrorizada para a brochura, em cujo frontipcio havia
desenhado um xadrez, duas colunas amparando dois globos terrestres e
outros emblemas. O cnego apoderou-se do folheto e leu na primeira
pgina Lenda manica ou condutor das lojas regulares, segundo o rito
francs reformado.
- Sim senhora! tem toda a razo! C esto os trs pontinhos da
patifaria!... patifaria!... E leu na introduo da obra, possuindo-se de
uma raiva de partido: Maons, penetremo-nos da nossa dignidade! A
retido de nossos votos, a unio de nossos trabalhos, e a harmonia de
nossos coraes, alimentem sem cessar o fogo sagrado, cuja claridade
resplandecente ilumina o interior de nossos templos!
- Sim senhora! Tem mais essa prenda... resmungou, entregando o folheto 
velha; alm de cabra,  bode!
E sem transio, duro:
-  preciso pr esse homem fora de c!
- E quanto antes!...
- O compadre est a?
- Creio que sim, no armazm.
- Pois vou convenc-lo. At logo.
- Veja se consegue, reverendo! Olhe lembra-me at que seria melhor
desistir de tal compra da fazenda... Esta gente, quando no tisna suja!
No imagina a arrelia que me faz v-lo todo o santo dia 1a mesa de janta
ao lado de minha neta!... Tambm nunca esperei esta de meu genro! 
preciso pr o homem pra fora! Isto no tem jeito! As Limas j falaram
muito; disse a Brgida que na quitanda do Z Xorro lhe perguntaram se
era certo que ele estava para casar com Anica... Ora isto no se atura!
Cada um que ponha o caso em si!... Pois ento aquele no-sei-que-diga
precisa que lhe gritem aos ouvidos qual  o seu lugar?... No fim de
contas quantos somos ns?!... Nada! Nada!  precioso pr cobro a
semelhante coisa. Fale a meu genro, senhor cnego fale-lhe com
franqueza! Olhe pode dizer-lhe at que se ele no quiser tratar disto,
eu mencarrego de pr a peste no olho da rua! A porta da nua  a
serventia da casa! No v que entre paredes, onde cheira a Mendona de
Melo, se tem aquelas com um pedao de negro! Iche cac!
- Est bom est bom!... No se arrenegue, Dona Babu! Pode arranjar-se
tudo, com a divina ajuda de Deus!...
E o cnego foi entender-se com o negociante.
- Homem... respondeu Manuel tendo ouvido as razes do compadre, l de
recambi-lo para o diabo, convenho! porque enfim sempre  um perigo que
um pai de famlia tem dentro de casa!... mas essa agora de no negociar
a fazenda,  pelo que no estou! Seria asnice de minha parte! E boa!
Pois se o Cancela me escreveu quer entrar em negcio, e eu posso meter
para a algibeira uma comissozinha menos m, sem empregar capital algum
e quase sem trabalho - hei de agora meter os ps e deixar o pobre rapaz
s tontas, em risco at de cair nas mos de algum finrio!... Porque,
venha c seu compadre, mesmo deitando de parte o interesse, com quem a
no ser comigo podia o Mundico, coitado! haver-se neste negcio? Tambm
a gente deve olhar prestas coisas!...
Ficou resolvida a viagem para o sbado seguinte.
Raimundo acolheu a noticia com uma satisfao que espantou a todos. At
que afinal ia visitar o lugar em que lhe diziam do!...
- Olhe! disse ele a Manuel, tenho um importante pedido a fazer-lhe... -
Se estiver em minhas mos...
- Esta...
- O que ?
- Coisa muito sria... Em viagem para o Rosrio conversaremos.
Manuel coou a nuca.
CAPTULO 10
No dia combinado, s seis horas da manh, acharam-se Manuel e Raimundo a
bordo do vaporzinho Pindar, pertencente  ento Companhia Maranhense de
Navegao Costeira.
Fazia um tempo abrasado, muito seco, cheio de luz. A viagem era
incmoda, pela aglomerao dos passageiros, os quais, no dizer sedio de
um de bordo, iam como sardinhas em tigela.
Tudo aquilo, no entanto, estava muito melhor... considerava Manuel.
Agora j se podia viajar facilmente pelo interior da provncia!...
Dantes  que a navegao do Itapicuru tinha os seus qus!...
E passou a narrar circunstanciadamente as dificuldades primitivas da ida
ao Rosrio. Aquela companhia, assim mesmo, viera prestar grandes
servios  provncia!... Deixasse l falar quem falava, o nico
inconveniente que ele via era a - baldeao no Cod! - Isso sim! Tinha o
que se lhe dizer, e devia acabar quanto antes!
- Felizmente, concluiu, o Rosrio  a primeira estao e no temos de
sofrer a maldita maada!
Ao anoitecer saltaram na Vila do Rosrio, em companhia de um antigo
conhecido de Manuel, ali residente havia um bom par de anos. Em Um
portuguesinho de meia-idade, falador, vivo, brasileiro nos costumes e
trigueiro como um caboclo.
- Venha c pra casa e pela manhzinha seguir o seu caminho, oferecia
ele ao negociante. Sempre lhe quero mostrar o meu palcio!
Foi aceito o convite, e os trs puseram-se a andar, de mala pendurada na
mo.
- Sabe voc, ia dizendo o homenzinho, toda aquela baixa que pertencia ao
Bento Moscoso? pois isso fica-me hoje no quintal! Arrecadei a fazenda da
viva por uma tuta e mea e hoje est produzindo, que  aquilo que voc
pode ver! O meu projeto  levantar uma engenhoca a perto, onde fica o
igarap do Ribas; quero ver se aproveito as baixas para a cana, percebe?
E dissertava largamente sobre a sua roga, sobre as suas esperanas de
prosperidade, censurando medidas mal tomadas pelos vizinhos; afinal
atirou a conversa sobre o Barroso. Barroso era a fazenda no para onde se
dirigiam os outros dois.
- So boas tenras, so! Muito limpas, muito abenoadas! O que foi que
levantou o Lus Cancela? E  verdade! se me neo engano, creio que ele
uma ocasio me disse que foi voc quem lhas aforou. No  isso?
- E exato, respondeu Manuel. - Ah! so suas?...
- No! So deste amigo.
E Manuel indicou Raimundo, que nesse momento contratava, com um homem
que se mandou chamar, os cavalos para a viagem no dia seguinte.
- So muito boas terras!... o outro. O Cancela j por vrias vezes
tem-nas querido comprar.
- Compra-as agora.
E chegaram a casa.
A minha gente est toda fora declarou o roceiro. Mas no faz mal, temos
ai de sobra com que passar.  Gregrio!
- Meu senh!
Veio logo um preto velho, a quem ele se dirigiu para dar as ordens em
voz baixa.
A noite, ao contrrio do dia, fizera-se fresca. Depois da cela, cada um
se estendeu na sua rede, preguiosamente. Raimundo queixava-se de pragas
e maruins; Manuel meditava os seus negcios, toscanejando, e o
portuguesinho no dava trguas  lngua: falava daquelas tenras com um
entusiasmo progressivo; contava maravilhas agrcolas; mostrava-se
fantico pelo Rosrio. E, no empenho da conversa, arrastado, chegava a
mentir, exagerando tudo o que descrevia.
Raimundo interrompeu-o, para saber se ele conhecia a antiga fazenda So
Brs.
- So Brs!...
E o homenzinho levantou-se da rede com um espanto.
- So Brs! Se conheo! E por aqui V.S no encontra quem no saiba a
histria dela!...
O outro ardia de curiosidade.
- Tenha ento a bondade de contar-ma, pediu, assentando-se. Como vou
andar por essas bandas...
Manuel adormeceu.
- Pois V.S no sabe a histria de So Brs?... Valha-o Deus, meu caro
senhor, que podia cair em algum malfarrico; mas eu vou ensinar-lhe a
reza que aprendemos com o nosso santo vigrio. Olhe! quando V.S topar
uma cruz na estrada, apeie e reze, e ao depois siga o seu caminho por
diante, repetindo sempre:
Por So Brs! Por So Jesus! Passo aqui, Sem levar cruz
At avistar as mangueiras do Barroso: da  riba pode seguir descansado,
que l no chega chamusco!
- Mas por que toma a gente tais precaues?
- Ora ai est onde a porca torce o rabo! E por causa do diabo de uma
alma danada, que empesta essas garagens... Eu conto a V.S!
E o homenzinho, engolindo em seco, contou prolixamente que So Brs, ou
Ponta do Fogo, como dantes lhe chamavam, fora noutro tempo lugar de
terras boas e frteis, onde se podia plantar e colher muito, que
abenoadas eram elas pelas mos de Deus. Mas, que uma vez aparecera por
l o clebre assassino Bernardo, terror do Rosrio e sobressalto dos
fazendeiros, e, depois de uma vida errante pelo serto, roubando e
matando, meteu-se na Ponta do Fogo e ai estourou. E desde ento nesse
desgraado lugar nunca mais vingara fruto que no tivesse ressaibo de
veneno, nem medrara planta sem mitinza; as guas deixavam cinza na boca,
a terra, se a gente a colhia na mo, virava-se em salitre, e as flores
fediam a enxofre; mas, quem comesse desses frutos, se deitasse nesse
cho, se banhasse nessas guas e cheirasse aquelas flores, ficava por
tal modo enfeitiado, que no havia meio de arranc-lo dali, porque o
diabo tinha untado o fruto de mel, e perfumado as flores e amaciado a
relva, para engodar o caminheiro incauto.
- Foi isso, continuou o que sucedeu ao pobre Jos do Eito, quando se
meteu por c - enfeitiou-se! Eu era muito novo nesse tempo, mas bem me
lembro de o ter visto tantas vezes, coitado! todo amarelo, morrinhento e
resmungo, que logo se adivinhava que o diabo lhe pregara alguma! E
sempre andou assim!... um dia morreu-lhe a mulher de repente, e ele
pouco depois foi varado por um tiro, que nunca mais ningum soube donde
veio. Da em diante So Brs ficou tapera. No lugar em que morreu o Jos
levantou-se Uma cruz, e todos os que passam por l rezam por alma do
desventurado, at encher certa conta de oraes, com que ela possa
descansar!... Enquanto isso no chega, vaga pela tapera a pobre alma
penada, de dia que nem um pssaro negro, enorme, que canta a finados, e
de noite vira-se numa feiticeira, que dana e canta, rindo como as
raposas. Quando algum imprudente atravessa perto, a feiticeira o
persegue de tal feitio, que o infeliz, se no estiver montado, ela o
pilha com certeza!
- E se o pilha?
- Se o pilha?... Ah, nem falar nisso  bom! Se o pilha, vira-se logo
toda em ossos e cai-lhe em riba, com tal fria de pancadas, que o deixa
morto!
- E depois?
- Depois, volta a alma para penitncia, tendo perdido, por cada pancada
que deu, vinte coroas de padre-nossos. Quando V.S for amanh  bom
levar na sela do seu cavalo um galhinho de arruda, e ao depois de rezar
 cruz, v sacudindo sempre at as mangueiras do Cancela, sem nunca
parar com a reza que lhe ensinei!
- Sim, sim, mas diga-me uma coisa: esse Jos do Eito no se chamava Jos
Pedro da Silva?
- Justo! V.S o conheceu?
- De nome.
- Pois eu conheci, perfeitamente. E, a pedido de Raimundo, o
portuguesinho descreveu o tipo Jos, e contou o que sabia da vida dele.
O rapaz escutava tudo com um interesse religioso; no queria perder uma
s daquelas palavras; mas tinha, muitas vezes, que interromper o
narrador, para lhe fazer perquntas, a que o outro respondia em
parntesis rpidos.
- Pois a Dona Quitria Santiago morreu pouco antes do marido; eu fui
v-la! e olhe V.S que, de bonitona que era, ficou horrvel. Estava mais
roxa que Uma berinjela!
- No tinha filhos?
- Nunca os teve.
- Nem o marido?... Sim... este podia ter algum filho natural...
No, que eu saiba, no tinha.
- Nem consta de alguma parenta, que vivesse na fazenda em companhia do
Jos?...
- Sei c, mas...
- Alguma irm de Dona Quitria, ou talvez alguma amiga, hein? Veja se
lembra...
- Qual o qu!... Viviam ao contrrio muito ss! Dona Quitria a nica
parenta que tinha era a me; esta andava sempre de ponta com o genro e
nem saia da sua fazenda, que vem a ser aquela em que est hoje o Cancela
- a fazenda do Barroso!  verdade! sabe quem pode informar bem estas
coisas?  o Senhor Vigrio! ele ainda vive na cidade; hoje  cnego.
Pois era muito unha com carne do Jos do Eito.
- O cnego Diogo?...
- Justamente! Ele  que era o vigrio desta freguesia. Ora quanto tempo
j l vai!...
- Ah! O cnego Diogo era o vigrio desta freguesia, e muito da casa das
Santiagos?...
- Sim senhor! E ele est ai, que a quem quiser ouvir as voltas que deu
para desencantar So Brs! Coitado! nada conseguiu e quase que ia sendo
vitima da sua boa vontade!
- Ele tambm acreditava na feitiaria?
- Se acreditava! Pois se ele a viu, que o disse! E olhe V.S que o
cnego no  homem de mentiras! Afirmava que havia em So Brs uma alma
danada, e no gostava at que lhe falassem muito nisso!... Proibia-o
expressamente, sob pena de excomunho! Se acreditava? E boa! Por que foi
ento que ele abandonou a parquia, tendo aqui nascido, gozando da mais
alta considerao e recebendo, como recebia, presentes e mais presentes
de toda a freguesia?... Eram bois, carneiros, capados, muita criao.
Ele est ai na cidade, que o diga!
Raimundo caia de conjetura em conjetura.
- Ele era ento bastante amigo do Jos da Silva? o cnego?
- Se era, coitado! Amigo e muito bom amigo!... Quando assassinaram o
pobre homem, o senhor vigrio nem quis espargir-lhe a gua benta; mandou
o sacristo! No podia encarar com o corpo do Jos! E, veja V S ,
meteu-se em casa, e pouco nada apareceu, at que se retirou para sempre
c da vila! Todos ns sentimos deveras semelhante retirada; estvamos
to acostumados com ele!... Eu, nesse tempo, trabalhava nas terras do
coronel Rosa; tinha os meus vinte anos e ainda estava solteiro; assisti
a tudo, meu rico senhor! Lembra-me como se fosse ontem! A fazenda, essa
foi logo abandonada; ningum quis saber mais dela, pois, todas as
noites, quem passasse por ai, ouvia gritos medonhos, de arrepiar o
couro!
- Mas, alm do Jos e da mulher, quem mais morou nesse lugar?
- Oressa! a escravatura e o feitor.
- No. Digo senhores.
- Ningum mais.
- Ah,  verdade! O Jos era feliz com a mulher? Viviam bem?...
- Qual! Pois se lhe estou a dizer que aquelas tenras so tenras do
diabo! Viviam que nem o co com o gato! O cnego, ainda assim, era quem
os acomodava, dando-lhes conselhos e pedindo a Deus por eles!
E Raimundo perdia-se novamente em conjeturas. as. Sempre sombras!...
Sempre as mesmas duvidas sobre o seu passado!...
A conversa afrouxou. O portuguesinho deitou-se, e depois de uns restos
de palestra, vaga e bocejado, adormeceu Raimundo sonhou toda a noite.
As quatro da madrugada estavam de p, selados os cavalos, cheio o farnel
para a viagem, e o guia montado.
Partiram s cinco horas.
Logo que os dois, e mais o guia, se acharam em caminho, Raimundo
procurou entabular a mesma conversao que tivera na vspera com o
roceiro; queria ver se conseguia arrancar de Manuel algum esclarecimento
positivo sobre os seus antepassados. Nada obteve; as respostas do
negociante eram, como sempre que o sobrinho lhe tocava nisso, obscuras,
difusas, entrecortadas de pausas e reticncias. Manuel falou-lhe no
cnego, na cunhada, no mano Jos, e em mais ningum. A respeito da me
de Raimundo - nem a mais ligeira referncia. Ora adeus!... Estou sempre
na mesma!... concluiu o moo de si para si e fez por pensar noutra
coisa. O fato, porm,  que ele, apesar do seu temperamento de artista
no tinha uma frase para as belas paisagens que se desenrolavam diante
de seus olhos. Ia cabisbaixo e preocupado.
Jornadearam em silncio horas e horas. De vez em quando o guia, com o
seu de sertanejo, levava-os a uma fazenda ou a um rancho, onde os trs
descansavam e comiam, para tomar logo a cavalgar por entre as
melanclicas carnaubeiras e pindovais da estrada. Raimundo sentia-se
aborrecido e impacientava-se pelo fim da viagem. Seu maior empenho era
visitar So Brs; props at que se fosse l primeiro, mas o negociante
declarou que era impossvel. No tinham tempo a perder!...
- Na volta, doutor, na volta, acrescentou, sairemos bem cedo e daremos
um pulo at l. Lembre-se de que nos esperam, e no seria razovel bater
fora de hora em casa de uma famlia. O outro consentiu, praguejando
entre dentes contrariado e cheio de tdio: Que grandssima estopada! O
diabo da tal fazenda do inferno parecia fugir diante deles!...
- No se rale, patrozinho! E ali quase! disse compassadamente o guia,
espichando o beio inferior Meta a espora no animal, que talvez
chegaremos com dia!
- Ah! suspirou Raimundo, desanimado por ver o sol ainda alto e
compreender que tinha de caminhar at  noite.
E deixou-se cair numa prostrao mofina, a fitar as orelhas do burro,
que arfavam com a regularidade montona das asas de um pssaro voando.
- C est! exclamou Manuel, duas horas depois, chegando a um lugar mais
sombrio do caminho.
- Que ? ia perguntar o moo quando deu por sua vez com uma cruz de
madeira, muito tosca e arruinada. Ah!
- Foi neste lugar assassinado o Jos!...
Todos pararam, e o guia apeou-se e foi rezar de joelhos ao cruzeiro.
- Reze pela alma de seu pai, meu amigo. Neste lugar foi ele varado por
uma bala.
- E o assassino? perguntou Raimundo depois de um silncio.
- Algum preto fugido!... at hoje nada se sabe ao certo... mas dizem que
nisto andou unha poltica. . outros atribuem o fato ao diabo. Bobagens!
...
Raimundo apeou-se e indagou se o pai estava enterrado ali.
Manuel, j de p, respondeu que no. Enterrara-se no cemitrio da
fazenda, ao lado da mulher. Aquela cruz, explicou ele, era um antigo uso
do serto; servia para mostrar ao viajante o lugar onde fora algum
assassinado e faz-lo rezar pela alma da vtima, como ali estava
praticando aquele homem.
E apontou para o guia, que, terminada a sua orao, levantou-se e foi
colher um ramo de murta, que deps aos ps da cruz.
Raimundo sentia-se comovido. Manuel, de joelhos, cabea baixa e chapu
pendurado das mos postas, rezava convictamente. Ao terminar
surpreendeu-se por saber que Raimundo no tencionava fazer o mesmo.
- O qu? Pois ento o senhor no reza?...
- No. Vamos?
- Ora! essa c me fica!... Ento qual  a sua religio? Como adora o
senhor a Deus?
- Ora, senhor Manuel, deixemo-nos disso; conversemos sobre outra
coisa...
- No! queria s que o senhor me dissesse como adora a Deus! - Deixe-se
disso homem, deixe Deus em paz! Ora para que lhe havia de dar!...
- Mas, nesse caso, o senhor no tem religio!
- Tenho, tenho...
- Pois no parece!... Pelo menos nem devia fazer to pouco caso das
rezas, que nos foram ensinadas pelos apstolos de Nosso Senhor Jesus
Cristo!...
Raimundo no pde conter uma risada, e, como o outro se formalizara,
acrescentou em tom srio que no desdenhava da religio, que a julgava
at indispensvel como elemento regulador da sociedade. Afianou que
admirava a natureza e rendia-lhe o seu culto, procurando estud-la e
conhec-la nas suas leis e nos seus fenmenos, acompanhando os homens de
cincia nas suas investigaes, fazendo, enfim, o possvel para ser til
aos seus semelhantes, tendo sempre por base a honestidade dos prprios
atos.
Montaram de novo e puseram-se a caminho. Uma cerrada conversa travou-se
entre eles a respeito de crenas religiosas; Raimundo mostrava-se
indulgente com o companheiro, mas aborrecia-se, intimamente revoltado
por ter de atur-lo. Da religio passaram a tratar de outras coisas, a
que o moo ia respondendo por comprazer; afinal veio  baa a
escravatura e Manuel tentou defend-la; o outro perdeu a pacincia,
exaltou-se e apostrofou contra ela e contra os que a exerciam, com
palavras to duras e to sinceras, que o negociante se calou, meio
enfiado. Entretanto, o guia cavalgava na frente, distrado, cantando
para matar o tempo:
Voc diz que amor no di No fundo do corao!... Queira bem e uiva
ausente... Me dir se di ou no!...
Caminharam meia hora em silncio. O dia declinava, os primeiros sintomas
da noite levantavam-se da tenra, como um perfume negro, as aves
refugiavam-se no seio embalsamado da floresta; a virao fresca da tarde
eriava os leques das palmeiras, enchendo os ares de um doce murmrio
voluptuoso.
- Tenho pairado tanto, disse por fim Raimundo com certa perplexidade, e
todavia no tratei do que mais me interessa ..
- Como assim?...
- Lembra-se o senhor que, outro dia, pedi-lhe uma conferncia em seu
escritrio, e, ou porque o meu amigo se esquecesse, ou porque mesmo no
houvesse ocasio, o certo  que no chegamos a falar, e no entanto, o
assunto  de suma importncia para ambos ns...
- E o que vem a ser?
- E um grande favor, que tenho a pedir-lhe...
Manoel abaixou a cabea, contrafazendo o embarao em que se via.
- Trata-se de alguma questo comercial?... perguntou.
- No senhor; trata-se de minha felicidade... - E a mo de minha filha
que deseja pedir?
- ...
- Ento... tenha a bondade de desistir do pedido...
- Por qu?
- Para poupar-me o desgosto de uma recusa...
- Como?!...
-  natural que o senhor se espante, concordo; dou-lhe toda a razo;
est no seu direito! O senhor  um homem de bem,  inteligente, tem o
seu saber, que ningum lho tira, e vir sem dvida a conquistar uma
bonita posio, mas...
- Mas... Mas, o que?
- Desculpe-me, se o ofende tal recusa de minha parte, mas creia, ainda
mesmo que eu quisesse, no podia fazer-lhe a vontade...
- Est j comprometida talvez... Bem! Nesse caso, esperarei... Resta-me
ainda a esperana!...
- No  isso... E peo-lhe que no insista.
- No quer separar-se da menina?
- Oh! O senhor maritiza-me!...
- Tambm no ?... Ento que diabo! Terei, sem saber, alguma divida de
meu pai, que haja de rebentar por ai, como uma bomba?...
- Que lembrana! Se assim fosse eu seria um criminoso em no o ter nunca
prevenido. O que o senhor possui est limpo e seguro! Presto contas
quando quiser!...
- Ah! j sei... tomou Raimundo com um vislumbre, rindo. No quer dar sua
filha a um homem de idias to revolucionrias?...
- No! no  isso! E fiquemos aqui! Sei que o senhor tem direito a uma
explicao, mas acredite que, apesar da minha boa vontade, no a possa
dar...
- Ora esta! Mas ento por que ?...
- No posso dizer nada, repito! E peo-lhe de novo que no insista...
Esta posio  para mim um sacrifcio penoso, creia!
- De sorte que o senhor me recusa a mo de sua filha? Definitivamente?!
- Sinto muito, porm... definitivamente...
Calam-se ambos, e no trocaram mais palavra at  fazenda do Cancela.
CAPTULO 11
Quando chegaram ao porto da fazenda, j a lua resplandecia, desenhando
ao longo da eira a sombra espichada de enormes macajubeiras
sussurrantes. Fazia um tempo magnfico, seco, fresco, transparente;
podia ler-se ao luar.
O guia sacudiu com vigor a campainha e gritou:
- O de casa!
Seguiu-se uma algazarra de ces. Veio abrir um preto, munido de um
tio, que trazia sempre em movimento, para conserv-lo aceso.
- Boa noite, tio velho! disse Manuel.
- Des-ba-noite, branco! respondeu o negro.
E, segurando a brida do cavalo, conduziu com este o cavaleiro at a
casa.
Raimundo e o guia seguiram atrs. De longe, avistaram logo uma parede
rebocada, disforme, que ao luar se afigurava um lago entre rvores. Mais
perto, o lago se transformou num sobrado e os viajantes descobriram uma
porta, em cujo esvazamento se desenhara o vulto varonil do Cancela, que
detinha dois formidveis rafeiros.
- Ora viva! gritou o dono da casa. E, voltando-se para os ces, que
insistiam em ladrar: Safa, Rompe-Nuvens! Arreda, Quebra-Ferros!
Os ces rosnaram amigavelmente, e o fazendeiro, com sua voz forte, de
pulmes enxutos, gritou para Manuel:
- Ento sempre veio!.. Pois olhe, cuidei que desta vez fizesse como das
outras!... Enfim, como vai essa catlica?
- Assim, assim, um pouco modo da viagem... disse Manuel, entregando o
cavalo ao preto e apertando a mo do Cancela. Como lhe vo c os seus?
- Bons, louvado Deus. Ainda esto na Ave-Maria, mas no devem tardar.
Efetivamente, do interior da casa um coro abafado de vozes, que rezava
cantando.
Raimundo aproximou-se, depois de apear.
- Este  o Mundico de que lhe falei! declarou Manuel, empurrando o
sobrinho para a frente.
O rapaz espantou-se com a rstica apresentao, e muito mais, quando o
roceiro, em vez de cumpriment-lo, ps as mos nas cadeiras e comeou a
passar-lhe uma revista de cima a baixo, como quem examina uma criana.
- Com os diabos! exclamou, soltando uma risada. Voc e seu compadre
falaram-me em um menino!... - H doze anos!
- Olha o demo! Pois, seu Mundiquinho, aperte esta mo, que  de um
antigo amigo de seu pai, e no repare se no encontrar por aqui o bom
trato da cidade! Isto c sempre  roga! mas v como o outro, que diz:
Mais vai pouca de bom corao, que muito de sovina!...
E conduziu os hspedes  varanda, menos o guia, que se tinha aboletado
j pelos ranchos dos pretos.
- Homem! vocs vo se assentando nessas redes! O Pedro! v cachimbos!
Trazer a cana e o caf. Ou querem antes vinho?
- Qualquer coisa serve.
- Temos aqui conhaque! ofereceu Raimundo, apresentando um frasco que
trazia a tiracolo.
- Pode fartar-se com ele! desdenhou Cancela.  coisinha que no me entra
c no bico!
Encheram-se trs copinhos de cana-capim.
- V l  nossa! E venham despir-se para cear!
E conduziu-os a um quarto, destinado exclusivamente a hspedes.
A casa compreendia a antiga fazenda Barroso, onde noutro tempo morou e
morreu a sogra de Jos da Silva, e uma parte nova, feita de pedra e cal,
cujo cuidado de construo revelava a prosperidade do rendeiro.
A casa nova, como chamavam a ltima parte, compunha-se de um grande
avarandado, no qual, fazendo as vezes de cadeiras, viam-se redes armadas
em todos os cantos. No centro, que  o lugar de honra nas fazendas do
Maranho, havia um quarto espaoso e arejado, e o mais eram paredes sem
pintura e tetos sem forro, potes de barro vermelho, vassouras de
carnaba encostadas por aqui e por ali, selins estendidos no parapeito
da varanda; a respeito de moblia, nada mais do que uma mesa tosca e
bancos compridos de pau. O paiol da farinha era por baixo do sobrado,
onde se encontravam enormes bas, forrados de couro, com umas setenta
redes destinadas aos hspedes. A adega ao lado do paiol. De fora
ouvia-se o grunhir preguioso dos porcos no chiqueiro, e do fundo do
quintal, soprado pelos ventos da noite, vinha um cheiro bom de jasmins
de Caiana, lrios do Peru, reseds e manjeronas.
Quando os trs voltaram do quarto, j a filha e a mulher do fazendeiro
tinham vindo da reza. Manuel apareceu enfronhado comodamente num palet
de brim pardo e um par de tamancos. Raimundo no mudara de roupa, apenas
banhara o rosto e as mos e penteara os cabelos. A mulher do Cancela
punha a mesa para a ceia; a filha correra a esconder-se no quarto,
espiando as visitas por detrs da porta, com vergonha de aparecer.
- Anda pra c, Angelina! gritou o roceiro. Pareces um bicho do mato!
Nunca viste gente, rapariga?!
Foi ter com ela e obrigou-a a sair do esconderijo.
- Ora vamos! direito! No estejas a esconder o rosto, que neo tens de
que o esconder!... Vamos!
Angelina apareceu, com muito acanhamento, e foi cumprimentada.
- Ento! ralhou o pai.  com a cabea que se responde?... Ah, que estas
cada vez mais matuta!... Que mal te fez este pobre cabeo para o
maltratares desse modo?... Olha que o rompes, estonteada!
Angelina, muito contrafeita, abaixara o seu rosto moreno, agora mais
corado sob o frouxo do riso da encalistrao que a dominava.
- Ento, de que tanto ris, sua feiosa?...
Esta ltima palavra era uma injustia que o Cancela fazia  filha;
Raimundo, ao apertar-lhe a mo, desenvolta e maltratada, compreendeu
logo que estava defronte de uma bonita e toleirona sertaneja, inocente e
forte como um animal do campo. Era mulher de dezoito anos; mulher,
porque tinha j o corpo em plena formatura - ombros fartos, colo cheio e
braos desenvolvidos no trabalho ao ar livre: Boa mulher para
procriar!... pensou ele.
- Isto que voc est vendo aqui, meu amigo,  uma sonsa!... disse o
Cancela, satisfeito com o ar lisonjeiro de Raimundo. Capaz  ela de
virar esta casa de pernas pro ar! e parece que nem quebra um prato! Olhe
se a tonta j me tomou a bno depois da reza!... Parece que empanemou
com as visitas!... Anda da bicho brabo!
A rapariga foi beijar lhe a mo, e ele ferrou-lhe depois uma palmada na
rija almofada do quadril. Esta disfarada! V l! Deus te faa branca!
Por esse tempo, Manuel conversava com a esposa do Cancela; brasileira
pequenina, socada, cheia de vida, dentes magnficos, morena e de cabelos
crespos. Respirava de toda ela um ar modesto de quem gosta de fazer bem;
estava sempre  procura de alguma coisa para arrumar, muito ativa. muito
asseada e muito trabalhadeira. Na cozinha dava sota e s a mais pintada;
sabia lavar como ningum e assistia  roa dos pretos sem cair doente.
Era prum tudo! diziam dela os escravos. Chamava-se Josefa, e s fora
duas vezes  cidade.
- Ento! reclamou o fazendeiro, vem ou no vem essa merenda?... olhem
que os homens devem trazer o estmago na espinha, e eu no lhes quero
dar trela sem havermos manducado!
A mulher ouviu o fim da reclamao j na cozinha.
- Por que nem despiu voc essas tafularias? perguntou o dono da casa a
Raimundo. Por c ningum olha para elas! Se quer, ponha-se a gosto!
- Obrigado, bem sei, estou  vontade.
E conversavam, enquanto Angelina punha a mesa. Cancela sentia-se
satisfeito, loquaz; gostava de dar  lngua e, quando pilhava hspedes
que o aturassem ningum podia com a vida dele.
Entretanto, Josefa trazia j as iguanas e os homens dispunham-se a comer
com apetite.  luz de um antigo candeeiro de querosene, reverberava uma
toalha de linho claro, onde a loua reluzia escaldada de fresco; as
garrafas brancas, cheias de vinho de caju, espalhavam em tomo de si
reflexos de ouro; uma torta de camares estalava sua crosta de ovos; um
frango assado tinha a imobilidade resignada de um paciente; uma cuia de
farinha seca simetrizava com outra de farinha dagua; no centro, o
travesso do arroz, solto, alvo, erguia-se em pirmide, enchendo o ar
com o seu vapor cheiroso.
Sentia-se a gente bem ali, com aquele asseio e com aquela franqueza rude
do Cancela.
- Ol! gritou este, destapando uma fumegante terrina de mundubs e
fidalgos, temos peixe de escabeche?! Bravo! - E passando a examinar o
que mais havia: - Bravo, bravo! moquecas de sururus! Peixe moqueado!
Olhem que este no  do rio e por isso no se pilha por c todos os
dias! Tem escamas, seu Manuel!
E enchiam-se os pratos.
- Famoso! est famoso! repetia, levando  boca grandes colheradas.
- Ento as senhoras no nos fazem companhia?... disse Raimundo,
voltando-se para as duas.
- Qual! apressou-se o fazendeiro a responder. No esto acostumadas com
pessoas de fora... Deixei-as l! deixe-as l, que ao depois se
arranjaro mais  vontade! Olhe, ali a minha Eva diz que no aprecia o
seu peixinho, seno comido com a mo. Coisas de mulher! Deixe-as l!
Contudo, Josefa veio presidir  mesa, ao lado do marido, e informava-se
do xito dos seus quitutes.
- No os deixe sem provarem daquela torta de sururus, que est de encher
o papo!
- L chegaremos! l chegaremos! Vai apanhar mais pimentas!
-  amigo entorne, sem receio! No tenha medo que o vinhito  fraco! -
Seu Manuel! seu Mundico! topemos  memria do velho amigo Jos da Silva!
Os trs beberam, e Cancela, depois de pousar o copo vazio, acrescentou
com respeito, limpando a boca nas costas da mo:
- Foi um meu segundo pai!... Quando arribei por estas tenras, no tempo
da minha defunta patroa, D rsula Santiago no tinha de meu mais do que
sade fora e boa vontade! Pois o Jos que ento namoriscava a filha da
patroa a Dona Quiterinha, meteu-me aqui, como feitor, e disse-me: Olha
l rapaz! encosta-te por a, que, se souberes levar o gnio da velha e
mais o do vigrio, podes at fazer fortuna! Ela tem l uma afilhada de
muita estimao, bem prendada e de boa cabea!... Vou eu - fico a
servir na casa e, graas a Deus, sempre mereci a confiana de Dona
rsula. De noite vinha para a varanda conversar com ela junto com a
minha Josefa, que nesse tempo era uma tetia que se podia ver! O certo 
que, ao fim de dois anos, casava-nos o senhor padre Diogo e, em boa hora
o diga! tenho sido feliz, louvado o Santssimo! - Comeu e prosseguiu: -
J fiz esta casa em que estamos ceando, levantei o engenho, meti braos
na roga, plantei algodo, que aqui no havia, e tenciono, se Deus
quiser, fazer no seguinte ano muitas outras benfeitorias!
- Eles j querero o caf?... perguntou Josefa, comovida com a narrao
do marido.
Depois do caf, serviram-se de restilo de anans e acenderam-se os
cachimbos de cabea de barro preto e taquari de trs palmos. Gasta meia
hora de palestra, Manuel queixou-se de que j no era homem para grandes
faanhas e prensava descansar o corpo.
- Pois fica o resto para amanh! Pedro!
- Meu senhor!
- Leva essa gente para a casa dos hspedes e mostra-lhe o quarto que tua
senhora preparou.
- J ouvi, sim senhor.
- Ento, muito boa noite!
- At amanh!
Manuel e Raimundo instalaram-se num quarto da casa velha, outrora morada
da sogra de Jos da Silva; esta parte, ao contrrio da outra era um
sobrado silencioso e triste, que s respirava abandono e decrepitude.
Em breve o negociante ressonava; ao passo que o rapaz, estendido numa
rede olhava pela janela o cu afogado em luar, passando mentalmente
revista ao que fizera o dia. Os acontecimentos desfilaram no seu
esprito em uma procisso vertiginosa e extravagante: vinha na frente o
pedido da mo de Ana Rosa de brao dado  recusa; logo atrs o
portuguesinho da vila passava cantando, com um galho de arruda na mo:
Por So Brs! Por So Jesus! Passo aqui Sem levar cruz!
E seguia-se uma infinidade de imagens fantsticas: o pssaro negro
cantando a finados, a feiticeira que se transformava em ossos; e
seguia-se o cnego Diogo, remoado, cercando de desvelos a sogra de Jos
da Silva formada imaginariamente pelo tipo de Mana Brbara.
E Raimundo sem poder conciliar o sono, demorava-se at a pensar em
coisas de todo indiferentes: o guia, preguioso e tristonho, a cantar no
seu falsete de mulher; uma fazenda que encontraram, em que havia um
homem muito gordo e idiota; as runas de uma casa, que de longe lhe
pareceu  primeira vista uma fortaleza bombardeada, e assim, mi! outros
assuntos vagos e sem interesse, vinham-lhe  memria com insistncia
aborrecida. Afinal, chegou a vontade de dormir; mas a recusa de Manuel!
apresentou-se de novo e a vontade fugiu espantada. Por que seria que
aquele homem e negou to formalmente a mo da filha?... Ora! com certeza
por qualquer tolice, e nem valia a pena preocupar-se com semelhante
futilidade! Amanha! amanh! calculava ele, saberia tudo!. . E tinha at
vontade de rir pelo ar grave com que o fio lhe respondera. Ora! no fim
de contas no passava de alguma criancice do Manuel!... Ou, quem sabia
l? alguma intriga!... Sim! Bem podia ser!... No Maranho o esprito de
bisbilhotice ia muito longe! E no havia de ser outra coisa! Uma
intriga! Mas que intriga? Ah! ele descobriria tudo! ol! Ficaria tudo em
pratos limpos. Nada de desanimar!... E, sem saber por qu reconhecia-se
muito mais empenhado naquele casamento desejava-o muito mais depois da
resistncia aposta ao seu pedido; a recusa de Manuel vinha dar-lhe a
medida do verdadeiro apreo em que tinha Ana Rosa. Ate ali julgava que
aquele casamento dependia dele somente e preparava-se frio sem
entusiasmo, quase fazendo sacrifcio: e agora, depois do insucesso do
seu pedido, eis que o desejava com ardor. Aquela recusa inesperada era
para Ana Rosa o que um fundo negro  para uma esttua de mrmore fazia
destacar melhor a harmonia das linhas a alvura da pedra e a perfeio do
contorno. E Raimundo procurando medir a extenso do seu amor por ela,
topava de surpresa em surpresa, de sobressalto em sobressalto, pasmado
do que descobria em si mesmo, espantando-se com os prprios raciocnios,
como se foram apresentados por um estranho, chegando s vezes a no
compreend-los bem e fugindo de esmerilh-los, com medo de concluir que
estava deveras apaixonado. Nesta duplicidade de sentimentos, seu
esprito passeava-lhe no crebro s apalpadelas, como quem anda s
escuras num quarto alheio e desconhecido.
- E que tal?... monologava. No  que estou h duas horas a pensar
nisto?...
E no podia convencer-se de que ligava to sria importncia quele
casamento, procurando at capacitar-se de que tentara realiz-lo por uma
espcie de compassiva indulgncia para com Ana Rosa; entretanto,
revolucionava-se todo s com a idia de no lev-lo a efeito. Ora
adeus! tambm no morreria de desgosto por isso!... No faltava bons
partidos para fazer famlia!... dispor-se a procurar noiva!... Sim, nem
lhe ficava bem insistir no projeto de casar com a prima!... No fim de
contas aquela recusa grosseira, seca, o ofendia!... decerto que o
ofendia!... No! no devia pensar, nem por sombras, em semelhante
asneira!... definitivamente no casaria com Ana Rosa!... Com qualquer,
menos com ela! Nada! Como no, se aquilo j era uma questo de
brios?... Mas com este propsito, voltava-lhe, de um modo mais claro e
positivo, uma grande admirao pelos encantos da rapariga, e um surdo
pesar dissimulado, um desgosto hipcrita, de no poder possu-la.
Manuel, a poucos passos, roncava com insistncia incmoda; Raimundo,
depois de virar-se muitas vezes na rede, ergueu-se fatigado, acendeu um
charuto e saiu para a varanda. Um morcego, na curva do vo, rogou-lhe
com a ponta da asa, pelo rosto.
O luar entrava sem obstculo ate  porta do quarto e estendia no cho
uma luz branca. Raimundo encostou-se ao parapeito da varanda e ficou a
percorrer com o olhar cansado a funda paisagem que se esbatia nas
meias-tintas do horizonte como um desenho a pastei. O silncio era
completo; de repente, porm, a uma nota harmoniosa de contralto
sucederam-se outras, prolongadas e tristes, terminando em gemidos.
O rapaz impressionou-se o canto parecia vir de uma rvore fronteira a
casa. Dir-se-ia uma voz de mulher e tinha uma melodia esquisita e
montona.
Era o canto da me-da-lua. O pssaro levantou vo, e Raimundo o viu
ento perfeitamente, de asas brancas abertas, a distanciar seus gorjeios
pelo espao. Considerou de si para si que os sertanejos tinham toda a
razo nos seus medos legendrios e nas suas crenas fabulosas. Ele, se
ouvisse aquilo em So Brs lembrar-se-ia logo, com certeza, do tal
pssaro que canta a finados. Segundo a indicao do guia, continuava a
pensar, a tapera amaldioada ficava justamente para o lado que tomara a
me-da-lua. Devia ser naquelas baixas, que dali se viam. No podia ser
muito longe, e ele seria capaz de l ir sozinho... Veio distra-lo
destas consideraes um frouxo vozear misterioso, que lhe chegava aos
ouvidos de um modo mal balbuciado e quase indistingvel. Prestou toda a
ateno e convenceu-se de que algum contou toda a ateno e
convenceu-se de que algum conversava ou monologava em voz baixa por ali
perto. Quedou-se imvel a escutar. No havia dvida! Desta vez ouvira
distintamente! Chegara a apanhar uma ou outra palavra! Mas, onde diabo
seria aquilo?...
Foi ao quarto de Manuel, o bom homem dormia como uma criana; agora
associava em vez de ressonar. Atravessou p ante p a varanda inteiranada
descobriu; voltou pelo lado oposto ao luar- ainda nada! Seria l
embaixo?... Desceu, mas deixou de ouvir o sussurro. Ora esta!... A
coisa era l mesmo em cima!... Mas em cima no havia outros hspedes,
alm dele e Manuel, dissera-lhe 0 Cancela!... Tornou a subir, mas desta
vez pela escada do fundo. Oh! agora a coisa estava mais clara.
Raimundo ouviu frases inteiras, e queixas, lamentaes, palavras soltas,
ora de revolta, ora de ternura. Era de enlouquecer!... Quem diabo
estaria ali falando?...
- Quem est ai?! gritou ele, no ltimo lance da varanda, com a voz um
pouco alterada.
Ningum respondeu, e o murmrio misterioso caiou-se logo. Raimundo
esperava todavia, possudo j de certa impacincia nervosa e com o
ouvido ainda impressionado do estranho efeito da sua prpria voz a
perguntar no silncio: Quem est ai? Decorreu um espao que lhe
pareceu infinito, e afinal reapareceu o vozear, agora porm muito
mais afastado, vindo do lado contrrio ao lado em que ele estava.
Encaminhou-se, to em silncio lhe foi possvel, na direo da voz
misteriosa, e notou satisfeito que esta ia gradualmente se alteando.
- Oh! fez Raimundo consigo, maravilhado. Tinha ouvido bem claro o seu
nome, e o de seu pai Jos do Eito. Redobrou de ateno. Estaria
sonhando? Aquela vez infernal falava dubiamente de So Brs, do padre
Diogo, de Dona Quitria e outras pessoas que ele no sabia quem eram.
Com certeza ia ouvir alguma coisa a respeito de - sua me! - Seria a
primeira vez! Oh! j no era sem tempo!... Reprimiu a respirao;
faz-se todo ouvidos; estava trmulo, frio, nunca sentira comoo
tamanha.
Mas a voz falou, falou, referindo-se aos acontecimentos maiores de So
Brs, fazendo revelaes, citando, um por um, todos os personagens,
menos a me de Raimundo. Este, na treva, com o corao oprimido,
estendia a cabea, arregalava os olhos, arfando-lhe o peito. Nada. Que
desespero! Mas a voz prosseguia, e ele escutava. De sbito, porm,
caiou-se tudo e nada mais se ouviu que o piar longnquo das aves
noturnas.
Raimundo esperou, esttico e sfrego, dois minutos, quatro, cinco. Foi
intil, a voz no reapareceu. De sua me - nem uma palavra!... Maldita
conspirao!... No fim de meia hora percorreu de novo a varanda; no
sabia que julgar daquilo, nem o que devia fazer, mas jurava descobrir
tudo. Oh! quem quer que falara estava perfeitamente a par da histria
de So Brs e havia de saber alguma coisa de sua vida!... Foi  alcova,
tomou o candeeiro, deu-lhe luz, percorreu os vrios lados da varanda,
entrou nos aposentos abertos, desceu, andou l por baixo, s tontas,
porque estava tudo atravancado de coisas, tomou a subir, sem conseguir
nada, e, aborrecido, frentico, tomou ao seu quarto, diminuiu a luz e
deitou-se, sem descalar as botas.
No fechara a porta, de propsito; estava alerta, ao primeiro n mor
saltaria. Contudo cerrou as plpebras; a fadiga da viagem pedia repouso;
j era quase madrugada. Ia adormecer.
Mas, um leve e surdo rudo despertara-o. Raimundo encolheu-se na rede e
insensivelmente se lembrou do revlver que tinha a seu lado; na porta
desenhava-se, contra a claridade exterior, a mais esqulida, andrajosa e
esqueltica figura de mulher, que  possvel imaginar. Era uma preta
alta, cadavrica, tragicamente feia, com os movimentos demorados e
sinistros, os olhos cavos, os dentes encarnados.
O rapaz, apesar da sua presena de esprito, teve um forte sobressalto
de nervos; todavia, no se mexeu, na esperana de ouvir ainda alguma
revelao; o espectro porm, olhou em torno de si, viu-o, sorriu, e
tomou a sair silenciosamente.
Raimundo levantou-se de um pulo e precipitou-se atrs dele que fugiu na
sua frente, como uma sombra. Atravessaram o primeiro lance da varanda, o
segundo e o terceiro.
O fantasma desapareceu pela porta do fundo, Raimundo acompanhou-o com
dificuldade e, ao chegar l embaixo, avistou-o j no ptio, a fugir-lhe
sempre. O rapaz tinha contra si no conhecer o terreno; foi s
apalpadelas e aos encontres que conseguira atravessar a parte inferior
da casa. L fora havia j perdido de vista a sombra fugitiva; olhou em
tomo de si, caminhou  toa de um para outro lado, nervoso, irrequieto,
voltando-se rpido ao menor mexer de galhos. Afinal, auxiliado pela lua,
divisou em distancia o vulto sinistro, que se afastava, prestes a
sumir-se nas meias-tintas da noite. Ento abriu contra ele numa
vertiginosa carreira de boas pernas; mas o vulto embrenhando-se no mato,
desapareceu totalmente.
Entretanto, os primeiros sintomas do dia avermelhavam o horizonte e nos
ranchos erguia-se j a escravatura para o trabalho das roas. As poucas
horas em que Raimundo encostou a cabea. para descansar um bocado, foram
cheias de sonho.
Ao levantar-se pelas sete da manh, aborrecido e quase em dvida se
sonhara toda a noite ou se, com efeito, vira e ouvira o singular
espectro. Todavia, ao almoo. conversou-se alegremente sobre o fato, e o
Cancela explicou que o fantasma devia ser alguma dessas muitas pretas
velhas, agregadas aos ranchos das fazendas e que naturalmente estava
bbada. E contou que, nas noites de tambor - elas costumavam dormir; por
ali, no primeiro rancho encontrado em caminho. Ali mesmo havia sempre
uma scia dessas pestes; apareciam e desapareciam, sem ningum lhes
perguntar donde vinham, nem para onde iam.
- So escravas fugidas? indagou Raimundo.
O Cancela respondeu que no. Os mocambeiros formavam grupo a parte;
nunca apareciam publicamente, viviam escondidos nos seus quilombos e s
se mostravam na estrada real para atacar os viajantes. Os agregados eram
pretos forros, forros em geral com a morte de seus senhores, e que
habituados desde pequenos ao cativeiro no tendo j quem os obrigasse a
trabalhar e no querendo sair do serto, ficavam por ai ao Deus dar,
pedinchando pelas fazendas um bocado de arroz para matar a tome, e um
pedao de cho coberto para dormir; Simples vagabundos, que no faziam
mal a ningum.
- Olhe, continuou ele, de So Brs tnhamos aqui a principio trs que
andavam pra sem fazer nada. Dois morreram e eu enterrei-os, o
terceiro no sei se ainda existe,  uma preta idiota. Talvez a que o
senhor doutor viu esta noite.
E, como Raimundo pedisse mais informaes, acrescentou que ela as vezes
passava meses inteiros na fazenda; os pretos gostavam de ouvi-la cantar
e v-la danar. Doida varrida! estava sempre resmungando ia consigo; mas
que, de tempos quela parte, no aparecia, era bem possvel que o
pobre-diabo tivesse J esticado a canela ai pelo mato.
Falou-se tambm da me-da-lua. Cancela contou velhas anedotas de
estrangeiros que se perderam nas matas, seguindo o canto original
daquele pssaro. Depois trataram de interesses; e fechou-se o negocio da
fazenda - Raimundo estava por tudo, contanto que lhe no demorassem a
partida - ardia de impacincia por visitar So Brs.
No obstante, o Cancela instava com os dois hspedes para que se
demorassem uma semana, ou, pelo menos, alguns dias Manual disparatou:
Que loucura! Pois ele podia l passar dias longe do seu armazm?:..
Ento que partissem pela manh seguinte.
Nada! Havia de ser naquela mesma noite! Para que diabo agentar sol pelo
caminho, quando tinham um luar que nem dia?...
O jantar demorava-se e Raimundo mal podia conter a sua contrariedade. S6
s trs horas da tarde conseguiram levantar acampamento.
- Leve-nos a So Brs, disse ele ao guia, logo que se acharam fora do
porto da fazenda.
- A So Brs? Deus me livre.
E o caboclo, depois de benzer-se, perguntou para que diabo iam a So
Brs.
- Ora essa! No  de sua conta! Leve-nos!
A So Brs no vou!
- Essa  melhor No vai! Ento que veio voc fazer conosco seno
guiar-nos?
- Sim senhor, mas  que a So Brs no vou, nem amarrado!
- V para o inferno! Iremos ns!  seor Manuel, o senhor no sabe o
caminho?
- Verdade, verdade, o homem no deixa de ter sua razo! . No fim de
contas que diacho vai fazer o amigo quela tapera?...
-  boa! Ver o lugar em que nasci..
- Tem razo, mas...
- Se no quiser ir, vou s!
- Mas o senhor sabe que...
- Contam bruxarias do lugar, e h quem acredite nelas... Fao-lhe,
porm, a justia de no sup-lo desses...
Os cavalos ganhavam a Estrada Real.
- Homem, disse Manuel, l saber o caminho, eu sei, e o guia, se no
quisesse vir, poderia esperar-nos ao p da cruz, mas... confesso-lhe:
tenho meu receio dos mocambeiros... alm disso... quem, como eu, ouviu
as ltimas palavras de meu irmo...
- De meu pai?! exclamou Raimundo vivamente. Oh! Conte-me isso!
- O senhor h de rir-se.. So coisas que parecem asneira... Hoje, os
moos no acreditam em nada! Mas  que certas palavras, ouvidas da boca
de quem vai morrer... mexem com a gente... no acha? fazem um homem
ficar assim meio aquele! Olhe, meu amigo, eu digo-lhe aqui entre ns, e
o senhor no se mace, seu pai no teve a vidinha l muito sossegada,
no! Depois que casou, nem se dava com pessoa alguma, e nem a prpria
sogra queria saber dele... vivia como que abandonado! Eu era nesse tempo
principiante no comrcio e quase que no podia arredar p do trabalho,
contudo, aqui vim trs vezes; porm creia que no gostava de c vir!...
Era uma tal tristeza!... Doa-me de ver o Jos to desprezado, to
triste, que parecia estar a cumprir uma sentena! Viajante nenhum
aceitava o pouso em So Brs; preferiam dormir; ao relento e as cobras!
Contavam que alta noite ouviam-se constantemente gritos horrveis na
fazenda, pancadas por espao de muitas horas, correntes arrastadas; os
escravos morriam sem saber de qu! Enfim, o cnego Diogo, que era o
vigrio desta freguesia, confessa que nunca lhe soube dar volta! E olhe,
coitado! meteu-se-lhe em cabea abenoar e proteger So Brs, e quase ia
sendo vitima da sua dedicao! at ficou assim a modo de aluado! E, foi
to perseguido por c, que o pobre homem viu-se obrigado a abandonar a
parquia! Ainda hoje, quando lhe toco nisso, benze-se todo! Pois pode
crer o senhor que ele era o mais ntimo amigo de meu irmo e o nico
talvez que ultimamente lhe freqentava a casa; entretanto, compreenda-se
l, seu pai, j por ltimo no o queria ver nem pintado! e, nos delrios
das suas febres, estava sempre a ver fantasmas e a gritar como um doido
que queria dar cabo do padre! Quero matar o padre! - Tragam-me o padre!
- O padre  que  o culpado de tudo! Este fulano padre era o cnego! Eu
no quis nunca falar nestas coisas ao compadre, porque, cismtico como
, podia agastar-se comigo!...
E, depois de uma pausa
- Ora, j v o meu amigo que, apesar de no acreditar em almas do outro
mundo, tenho as minhas razes para...
Raimundo procurava disfarar a preocupao em que o punham as palavras
de Manuel, e declarou que, se este no estava disposto a ir a So Brs,
que se ficasse com o guia, ele iria s.
- Mas saiba, disse, que ao caboclo perdo o medo, porque enfim no est
na altura de certas verdades, mas ao senhor...
- Eu neo tenho medo de coisa alguma, j disse!...
- Receia sempre que o diabo lhe saia ao encontro, compreendo!
E o rapaz fingiu uma gargalhada, para intimidar o companheiro.
- No, mas  que...
- Ora deixe-se de histrias! O senhor no me parece um homem!...
Manuel cedeu afinal, e os dois tomaram a direo da .tapera.
Fizeram em silncio todo o caminho; Raimundo por muito comovido e Manuel
por amedrontado.
Instintivamente, pararam em respeitvel distncia.
- Creio que chegamos! arriscou o moo.
E, avanando alguns passos, disse ao outro:
- L est ela! -  de casa! gritou Manuel.
S o eco respondeu.
Adiantaram-se mais e Raimundo gritou por sua vez, com o mesmo resultado.
- Ande, senhor Manuel! Estamos a quixotear... Aqui no h viva alma!...
Mais alguns passos e estavam defronte da tapera.
Eram os restos de uma casa trrea, sem reboque e cujo madeiramento de
lei resistira ao seu completo abandono.
Ia anoitecer. O sol naufragava, soobrando num oceano de fogo e sangue;
o cu reverberava como a cpula de uma fornalha; o campo parecia
incendiado.
Como era preciso aproveitar o dia, os dois viajantes apearam-se logo,
cada qual prendeu o seu cavalo, e introduziram-se na varanda da casa por
uma brecha que cortava de alto a baixo o primeiro pano de parede. Essa
parte estava completamente arruinada e cheia de mato; os camalees, as
osgas e as mucuras fugiam espantados pelos ps de Raimundo, que ia
galgando moitas de urtiga e capim-bravo.
L dentro a tapera tinha um duro aspecto nauseabundo. Longas telas de
aranha pendiam tristemente em todas as direes, como cortina de crepe
esfacelado; a gua da chuva, tingida de terra vermelha, deixara, pelas
paredes, compridas lgrimas sangrentas que serpeavam entre ninhos de
cobras e lagartos; a um canto descobria-se no cho ladrilhado um
abominvel instrumento de suplcio, era um tronco de madeira preta, e os
seus buracos redondos, que serviam para prender as pernas, os braos ou
o pescoo dos escravos, mostravam ainda sinistras manchas arroxeadas.
Os dois seguiram adiante, penetrando o interior da casa. Ao transporem
cada porta fugia na frente deles uma nuvem negra de morcegos e
andorinhas. O solo, empastado de excremento de pssaros e rpteis era
pegajoso e mido; o telhado abria em vrios pontos, chorando uma luz
morna e triste; respirava-se uma atmosfera de calabouo. De um charco
vizinho a casa palpitava, montono como um relgio, o rouquenho coaxar
das rs. Os anus passavam de uma para outra rvore, cortando o silncio
da tarde, com os seus gemidos prolongados e agudssimos; do fundo
tenebroso da floresta vinham de espao a espao o gargalhar das raposas,
e os gritos sensuais dos macacos e sagins. Era j o concerto da noite.
Manuel, um tanto comovido, contemplava demoradamente as runas que o
cercavam, procurando descobrir naqueles restos mudos e emporcalhados, a
antiga residncia de seu irmo. Nada lhe trazia  lembrana uma nota
ainda viva do passado.
- Vejamos agora por aqui... disse ele, passando, seguido pelo sobrinho,
a um quarto, cujas janelas tinham as folhas despregadas e prestes a
desabar. Era este o quarto de Jos...
E ps-se a meditar.
Raimundo olhava para tudo com uma grande tristeza, infinita, sem bordas,
mas fechada que nem um horizonte de nvoas. Como seria seu pai?...
pensava ele, sem uma palavra, como seria esse bom homem, que nunca se
descuidara da educao do pobre Raimundo?... Quantas vezes, naquele
quarto, talvez junto a uma daquelas janelas, olhando para a quinta, no
pensaria o infeliz no querido filho, que tinha to longe dos seus
afagos?... E sua me?... Sua pobre me desconhecida, estaria ali, ao
lado dele, ou, quem o sabia? escondida, envergonhada, a chorar as faltas
em algum desterro humilhante?...
- Aqui, disse Manuel, batendo no ombro do companheiro, nasceu o senhor,
meu amigo, e viveu os seus primeiros anos...
Raimundo sentia um desejo doido de perguntar pela me, mas no se achava
com animo; temia agora uma inesperada decepo, uma agonia indita, que
o esmagasse de todo; receava alguma verdade implacvel e fria, rija, de
ao, que o atravessasse de lado a lado, como uma espada. At ali,
ningum lhe falara nela.  que, sem duvida, havia em tudo aquilo um
segredo de famlia, alguma paixo vergonhosa, uma falta horrvel, talvez
um crime abominvel, que ningum ousava revelar! E, no entanto, Raimundo
tinha plena certeza de que aquele homem, que ali estava em sua presena,
ao alcance de suas palavras, sabia de tudo e poderia. se quisesse,
arranc-lo para sempre daquela maldita incerteza!.. Quem seria ela?...
essa estranha me misteriosa, por quem ele sentia um amor
desnorteado?... Alguma senhora, bonita sem dvida, porque causava
crimes; criminosa ela prpria, por amor, a inspirar loucuras a seu pai,
a acender-lhe uma paixo fatal e romanesca, cheia de sobressaltos e de
remorsos! E desse amor secreto e criminoso, desse adultrio, que sem
dvida causou a morte de seu pai, nascera ele!... Mas, por que no lhe
contavam tudo com franqueza?... Por que no lhe diziam toda a
verdade?... Oh! devia ser um segredo infernal, para o esconderem com
tamanho empenho!... E, acabrunhado por estes raciocnios, humilhado
pela dvida de si prprio, miservel e triste, Raimundo percorria a
casa, em silncio.
Despertou-o de novo a voz de Manuel:
- Vamos  capela, antes que anoitea de todo.
Entraram primeiro no cemitrio. Estava arrasado. Manuel apontou para uma
velha sepultura, e disse ao outro com respeito:
- Ali est seu pai!
Raimundo chegou-se para o tmulo, descobriu-se, e procurou ler na
carneira alguma inscrio que lhe falasse do morto. Absolutamente nada!
o tempo apagara da pedra o nome de seu pai. Ali s havia um pedao de
mrmore carunchoso e negro. Deixara de ser uma tabuleta, era uma tampa.
O rapaz sentiu ento, mais do que nunca, pesar-lhe dentro da alma, como
uma barra de chumbo, todo o mistrio da sua vida; compreendeu que sobre
esta havia tambm uma pedra silenciosa e negra; compreendeu que o seu
passado nada mais era do que outra sepultura sem epitfio.
Enovelou-se-lhe na garganta um godilho de soluos e Raimundo sentiu a
necessidade de ajoelhar-se defronte do silncio daquele tmulo.
Manuel afastara-se discretamente, tossindo, para disfarar a sua
comoo. O moo enxugava as lgrimas, agora abundantes e fartas; depois
encaminhou-se para uma outra cova mais adiante, abrigada por uma
frondosa mangueira. Estava j vazia e com a lousa fora do lugar.
Naturalmente, os parentes do cadver haviam retirado dali os ossos para
alguma igreja da capital. A posio da lpida da rvore serviram de
resguardo ao epitfio; Raimundo passou o leno por ama dele e conseguiu
ler o seguinte: Aqui jazem os restos mortais de Quitria Inocncia de
Freitas Santiago, filha extremosa, esposa exemplar; Casou em 15 de
dezembro de 1845 e faleceu em 1849. Orai por ela.
- No h dvida que, alm de bastardo, descendi de uma tremenda
vergonha! Meu nascimento combina aproximadamente com estes algarismos...
E, tendo monologado estas palavras, chegou ao fundo do cemitrio e
achou-se defronte de uma capela. Entrou, galgando trs degraus
escalavrados. Uma coruja fugiu espavorida. A luz triste da lua
filtrava-se j pelas aberturas do telhado, mas pelas janelas entrava de
rojo o quente lusco-fusco do crepsculo. Raimundo, ao chegar 
sacristia, estacou e estremeceu todo: o vulto esqueltico e andrajoso,
que lhe aparecera  noite, como um fantasma, ali estava naquela meia
escurido, a danar uns requebros estranhos, com os braos magros
levantados sobre a cabea. O rapaz sentiu gelar-lhe a testa um suor frio
e conservou-se esttico, quase duvidoso de que aquilo que tinha defronte
de si fosse uma figura humana.
Todavia, a mmia se aproximava dele, a dar saltos, estalando os dedos
ossudos e compridos. Viam-se-lhe os dentes brancos e descamados, os
olhos a estorcerem-se-lhe convulsivamente nas rbitas profundas, e a
caveira a desenhar-se em ngulos atravs das carnes. Ora erguia as mos,
descaindo a cabea; ora fazia voltas, sapateando e dando pungas no ar.
De repente deu com Raimundo e precipitou-se para ele de braos abertos.
Na primeira impresso o rapaz recuava com repugnncia, mas, caindo logo
em si, aproximou-se da louca e perguntou-lhe se conhecia quem morara
naquela fazenda.
A idiota olhou para ele, e riu-se sem responder.
- No conheceste o Jos da Silva ou Jos do Eito?
A preta continuou a rir. Raimundo insistiu no seu interrogatrio mas sem
obter resultado algum. A doida o considerava fixamente, como que
procurando reconhecer-lhe as feies; de sbito, deu um salto sobre ele,
tentando abra-lo; o rapaz no tivera tempo de fugir e sentiu-se em
contacto com aquele corpo repugnante. Ento num assomo nervoso repeliu-a
bruscamente. Ela caiu para trs, estalando os ossos contra os tijolos do cho.
Raimundo saiu de carreira para reunir-se a Manuel, porm a idiota
alcanou-o, j no cemitrio, e arremessou-se de novo contra ele.
- No me toques! gritava o moo, com raiva, levantando o chico
Manuel acudiu correndo:
- No lhe bata, doutor! No lhe bata, que  doida! Conheo-a!
- Mas, se ela no me quer deixar!... Sai! Sai, diabo! Olha que te
Manuel mostrava-se agoniado e surpreso.
- J! disse ele, intimidando a louca. J pra dentro!
A preta retomou-se humildemente.
- Quem  ela? perguntou Raimundo, l fora, tratando de montar. O senhor
disse que a conhecia.
- Essa pobre negra... respondeu Manuel hesitante, foi escrava de seu
pai. Vamos! E puseram-se a caminho.
CAPTULO 12
Voltaram ambos impressionados da tapara. Manuel tentara por duas vezes
uma conversa que no vingara no nimo acabrunhado do companheiro;
Raimundo respondia maquinalmente s suas palavras, ia muito preocupado e
aborrecido. Na dvida da sua procedncia e com a certeza do seu
bastardismo, vinha-lhe agora uma estranha suscetibilidade; no sabia por
que motivo, mas sentia que precisava, que tinha urgncia, de uma
explicao cabal do que levou Manuel a recusar-lhe a filha. Com certeza
estava ai a ponta do mistrio!
Ele o que queria era penetrar no seu passado, percorr-lo, estud-lo,
conhec-lo a fundo; encontrara at ento todas as portas fechadas e
mudas, como a sepultura de seu pai; embalde bateu em todas elas; ningum
lhe respondera. Agora um alapo se denunciava na recusa de Manuel;
havia de abri-lo e entrar, custasse o que custasse, ainda que o alapo
despejasse sobre um abismo.
E, to dominado ia pela sua resoluo que, ao passar pelo cruzeiro da
Estrada Real, nem s deu por ele, como pelo guia que logo se pusera a
caminho.
-  meu amigo! gritou-lhe o tio Isto tambm no vai assim!... Despea-se
deste lugar!
E apeou-se, para depor aos ps da cruz um galho de murta.
Raimundo voltou atrs e, depois de um grande silencio, fitou Manuel e
perguntou-lhe. externando um retalho do pensamento que o dominava:
- Ela ser, porventura, minha irm?...
- Ela, quem?
- Sua filha
O negociante compreendeu a preocupao do sobrinho.
- No.
Raimundo tomou a mergulhar no pau} da sua dvida e das conjeturas,
procurando de novo o motivo daquela recusa, como quem procura um objeto
no fundo dgua; e a sua inteligncia, de outras vezes to lcida e
perspicaz, sentia-se agora impotente e cega, s apalpadelas, s tontas,
desesperada, quase extinta, nas lamacentas e misteriosas trevas do
pntano.
E, de tudo isso, vinha-lhe um grande mal-estar. Depois da negativa de
Manuel, Ana Rosa afigurava-se-lhe uma felicidade indispensvel; j no
podia compreender a existncia, sem a doce companhia daquela mulher
simples e bonita, que, no seu desejo estimulado, lhe aparecia agora sob
mil novas formas de seduo. E, na sua fantasia enamorada, acariciava
ainda a idia de possu-la, idia, que, s ento o notava, dormira todas
as noites com ele, e que agora, ingrata, queria escapar-lhe com as
desculpas banais e comuns de uma amante enfastiada. Oh! sim! desejava
Ana Rosa! habituara-se imperceptivelmente a julg-la sua; ligara-a a
pouco e pouco, sem dar por isso, a todas as aspiraes da sua vida;
sonhara-se junto dela, na intimidade feliz do lar, vendo-a governar uma
casa que era de ambos, e que Ana Rosa povoava com a alegria de um amor
honesto e fecundo. E agora, desgraado, olhava para toda essa
felicidade, como o criminoso olha, atravs s grades do crcere para os
venturosos casais, que se vo l pela nua, de brao dado, rindo e
conversando ao lado dos filhos. E Raimundo antejulgava perfeitamente que
aquele empenho de Manuel em negar-lhe a filha, longe de arred-la do seu
amor, mais e mais o empurrava para ela, ligando-a para sempre ao seu
destino.
- Ter sua filha alguma secreta enfermidade, que levasse o m
dico a proibir-lhe o casamento? Ter algum defeito orgnico?...
- Oh! com efeito! O senhor tortura-me com as suas perguntas. . creia
que, se eu pudesse dizer-lhe a causa de minha recusa, t-lo-ia feito
desde logo! Oh!
Raimundo no pde conter-se e disparatou, fazendo estacar o seu cavalo.
- Mas o senhor deve compreender a minha insistncia! No se diz assim,
sem mais nem menos, a um homem que vem, legitima e constenciosamente,
pedir a mo de uma senhora, que a isso o autorizou. No lha dou, porque
no quero! Por que no quer? Porque no! No posso dizer o motivo!...
P boa! Tal recusa significa uma ofensa direta a quem faz o pedido! Foi
uma afronta  minha dignidade. O senhor h de concordar que me deve uma
resposta, seja qual for! uma desculpa! uma mentira, muito embora! mas,
com todos os diabos! e necessria uma razo qualquer!
-  justo, mas...
- Se me dissesse: Oponho-me ao casamento, porque antipatizo solenemente
com o seu carter. Sim senhor! No seda uma razo plausvel, mas
estaria no seu direito de pai, mas o senhor...
- Perdo! eu no podia dizer semelhante coisa depois de o haver elogiado
por vrias vezes, e ter-me declarado, como repito, seu amigo e seu
apreciador...
- Mas ento?! Se  meu amigo, que diabo! diga-me a razo com franqueza!
tire-me, por uma vez, deste maldito inferno da duvida! declare-me o
segredo da sua recusa, seja qual for, ainda que uma revelao
esmagadora! Estou disposto a aceitar tudo, tudo! menos o mistrio, que
esse tem sido o tormento da minha vida! Vamos, fale! suplico-lhe por...
aquele que caiu assassinado! E apontou na direo da cruz. Era seu irmo
e dizem que meu pai... Pois bem, peo-lhe por ele que me fale com
franqueza! Se sabe alguma coisa dos meus antepassados e do meu
nascimento, conte-me tudo! Juro-lhe que lhe ficarei reconhecido por
isso! Ou, quem sabe? serei to desprezvel a seus olhos, que nem sequer
li e merea to miservel prova de confiana?...
- No! no! ao contrrio, meu amigo! Eu at levaria muito em gosto o seu
casamento com a minha filha, no caso de que isso tivesse lugar!... E s
peo a Deus que lhe depare a ela um marido possuidor das suas boas
qualidades e do seu saber; creia, porm, que eu, como bom pai, no devo,
de forma alguma, consentir em semelhante unio. Cometeria um crime se
assim procedesse!...
- Com certeza h parentesco de irmo entre ela e eu!
- Repare que me est ofendendo...
- Pois defenda-se, declarando tudo por uma vez!
- E o senhor promete no se revoltar com o que eu disser?...
- Juro. Fale!
Manuel sacudiu os ombros e resmungou depois, em ar de confidencia:
- Recusei-lhe a mo de minha filha, porque o senhor ...  filho de uma
escrava...
- Eu?!
- O senhor  um homem de cor!... Infelizmente esta  a verdade...
Raimundo tomou-se lvido. Manuel prosseguiu, no fim de um silncio:
- J v o amigo que no  por mim que lhe recusei Ana Rosa mas e por
tudo! A famlia de minha mulher sempre foi muito escrupulosa a esse
respeito, e como ela  toda a sociedade do Maranho! Concordo que seja
uma asneira; concordo que seja um prejuzo tolo! o senhor porm no
imagina o que  por c a preveno contra os mulatos!... Nunca me
perdoariam um tal casamento; alm do que, para realiz-lo, teria que
quebrar a promessa que fiz a minha sogra, de no dar a neta seno a um
branco de lei, portugus ou descendente direto de portugueses!... O
senhor  um moo muito digno, muito merecedor de considerao, mas...
foi forro  pia, e aqui ningum o ignora
- Eu nasci escravo?!...
- Sim, pesa-me diz-lo e no o faria se a isso no fosse constrangido,
mas o senhor  filho de uma escrava e nasceu tambm cativo.
Raimundo abaixou a cabea. Continuaram a viagem. E ali no campo, 
sombra daquelas rvores colossais, por onde a espaos a lua se filtrava
tristemente, ia Manuel narrando a vida do irmo com a preta Domingas.
Quando, em algum ponto hesitava por delicadeza em dizer toda a verdade,
o outro pedia-lhe que prosseguisse francamente, guardando na aparncia
uma tranqilidade fingida. O negociante contou tudo o que sabia.
- Mas que fim levou minha me?... a minha verdadeira me? perguntou o
rapaz, quando aquele terminou, Mataram-na? Venderam-na??? O que fizeram
dela?
- Nada disso; soube ainda h pouco que est viva... E aquela pobre
idiota de So Brs.
- Meu Deus! exclamou Raimundo, querendo voltar  tapera.
- Que  isso? Vamos! Nada de loucuras! Voltars noutra ocasio!
Calaram-se ambos. Raimundo, pela primeira vez, sentiu-se infeliz; uma
nascente m vontade contra os outros homens formava-se na sua alma ate
ai limpa e clara; na pureza do seu carter o desgosto punha a primeira
ndoa. E, querendo reagir, uma revoluo operava-se dentro dele; idias
turvas, enlodadas de dio e de vagos desejos de vingana, iam e vinham,
atirando-se raivosos contra os slidos princpios da sua moral e da sua
honestidade, como num oceano a tempestade aula contra um rochedo os
negros vagalhes encapelados. Uma s palavra bolava  superfcie dos
seus pensamentos: Mulato. E crescia, crescia, transformando-se em
tenebrosa nuvem, que escondia todo o seu passado. Idia parasita, que
estrangulava todas as outras idias.
- Mulato!
Esta s palavra explicava-lhe agora todos os mesquinhos escrpulos, que
a sociedade do Maranho usara para com ele. Explicava tudo: a frieza de
certas famlias a quem visitara; a conversa cortada no momento em que
Raimundo se aproximava; as reticncias dos que lhe falavam sobre os seus
antepassados; a reserva e a cautela dos que, em sua presena, discutiam
questes de raa e de sangue; a razo pela qual Dona Amncia lhe
oferecera um espelho e lhe dissera: Ora mire-se! a razo pela qual
diante dele chamavam de meninos os moleques da rua. Aquela simples
palavra dava-lhe tudo o que ele at a desejara e negava-lhe tudo ao
mesmo tempo, aquela palavra maldita dissolvia as suas dvidas,
justificava o seu passado; mas retirava-lhe a esperana de ser feliz,
arrancava-lhe a ptria e a futura famlia; aquela palavra dizia-lhe
brutalmente: Aqui, desgraado, nesta miservel terra em que nasceste,
s poders amar uma negra da tua laia! Tua me, lembra-te bem, foi
escrava! E tu tambm o foste!
- Mas, replicava-lhe uma voz interior, que ele mal ouvia na tempestade
do seu desespero; a natureza no criou cativos! Tu no tens a menor
culpa do que fizeram os outros, e no entanto s castigado e amaldioado
pelos irmos daqueles justamente que inventaram a escravido no Brasil!
E na brancura daquele carter imaculado brotou, esfervilhando logo, uma
ninhada de vermes destruidores, onde vinham o dio, a vingana, a
vergonha, o ressentimento, a inveja, a tristeza e a maldade. E no
circulo do seu nojo, implacvel e extenso, entrava o seu pas, e quem
este primeiro povoou, e quem ento e agora o governava, e seu pai, que o
fizera nascer escravo, e sua me, que colaborara nesse crime. Pois
ento de nada-lhe lhe valia ter sido bem educado e instrudo; de nada
lhe valia ser bom e honesto?... Pois naquela odiosa provncia, seus
conterrneos veriam nele, eternamente, uma criatura desprezvel, a quem
repelem todos do seu seio?.. E vinham-lhe ento, ntidas 3 luz crua do
seu desalento, as mais rasteiras perversidades do Maranho; as conversas
de porta de botica, as pequeninas intrigas que lhe chegavam aos ouvidos
por intermdio de entes ociosos e objetos, a que ele nunca olhara seno
com desprezo. E toda essa misria, toda essa imundcia, que ate ento se
lhe revelava aos bocadinhos, fazia agora uma grande nuvem negra no seu
esprito, porque, gota a gota, a tempestade se formara. E, no meio desse
vendaval, um desejo crescia, um nico, o desejo de ser amado, de formar
uma famlia Um abrigo legtimo, onde ele se escondesse para sempre de
todos os homens.
Mas o seu desejo s pedia, s queria, s aceitava Ana Rosa, como se o
mundo inteiro houvera desaparecido de novo ao redor daquela Eva plida e
comovida, que lhe dera a provar, pela primeira vez, o delicioso veneno
do fruto proibido.
CAPTULO 13
A volta pareceu-lhe muito mais longa do que a ida ao Rosrio; quase que
no falou por toda a viagem, estalava de impacincia por estar s,
inteiramente s, para pensar  vontade, conversar consigo mesmo e
convencer-se de que era um esprito superior quelas pequenas misrias
sociais.
Logo que chegou a casa, foi direto ao seu quarto, fechou-se por dentro,
com um rudo spero spero de fechadura que funciona poucas vezes.
Fazia-se noite. Ele parou junto  mesa, no escuro, acendeu um fsforo,
apagou-se; segundo, terceiro, o quarto ardeu bem, porm Raimundo ficou a
olhar abstrato para a flama azul, torcendo entre os dedos,
automaticamente, o pedacinho de madeira, que se queimou at
chamuscar-lhe as unhas; e ficou as escuras, por longo tempo, cismando,
perdido na sua preocupao E que, de raciocnio em raciocnio, chegara
ao mago do fato Devia ceder ou lutar?... Mas o seu esprito nada
resolvia; acuava como um cavalo defronte de um abismo. Ele metia as
esporas; era tudo intil!
- Diabo! exclamou, voltando a si.
E acendeu a vela. Assentou-se  escrivaninha, sem tirar sequer o chapu,
e ps-se a pensar, sacudindo nervosamente a perna Tomou distrado a
pena, embebeu-a repetidas vezes no tinteiro, e rabiscou as margens dos
jornais que lhe estavam mais prximos. Desenhou, com uma pachorra
inconsciente. um sino Salomo, e, como se estivesse prestando sumo
cuidado ao seu desenho, emendou-o, corrigiu-o, fez um novo igual ao
primeiro, outro, mais outro, encheu com eles toda uma margem de jornal.
- Diabo! exclamou novamente, no desespero de quem no encontra a soluo
de um problema.
E ps-se a fitar, com a mxima ateno a chama da vela. Depois, tomou um
invlucro de cigarros, abandonado sobre a mesa, e comeou a quebrar com
ele as estalactites da estearina, ate que o papei, por muito embebido no
combustvel, inflamou-se e foi lanado ao cho.
- Diabo!
E repetia insensivelmente as palavras de Manuel: Recusei-lhe a mo de
minha filha, porque o senhor  filho de uma escrava! - O senhor  um
homem de cor! - O senhor foi forro  pia, e aqui ningum o ignora! - O
senhor no imagina o que  por c a preveno contra os mulatos!...
- Mulato! E eu que nunca pensara em semelhante coisa!... Podia
lembrar-me de tudo, menos disto!...
E acusava-se de frouxo; de no ter dado boas respostas na ocasio; no
ter reagido com esprito forte, e provado que Manuel estava em erro e
que ele, Raimundo, no ligava a mnima importncia a semelhante -
futilidade! Assistiam-lhe agora respostas magnficas, verdadeiros raios
de lgica, com que fulminaria o adversrio. E, argumentando com as
rplicas que lhe faltaram ento, reformava mentalmente todo o caso,
dando a si prprio um novo papel, to brilhante e enrgico quo fraco e
passivo fora o primeiro.
Afastou a cadeira da secretria, debruou-se sobre esta e escondeu o
rosto nos braos dobrados. Assim levou quase uma hora; quando levantou
de novo a cabea, reparou, pela primeira vez, numa litografia de So
Jos, que sempre estivera ali na parede do seu quarto. Raimundo examinou
minuciosamente o santo com o seu colorido vivo, o menino Jesus no brao
esquerdo e uma palma na mo direita. Surpreendeu-se de v-la naquele
lugar: em dias de despreocupao nunca dera por ela. E da, recordou-se
de ter visto na Alemanha trabalhar um prelo litogrfico dos mais
aperfeioados; depois pensou nos processos do desenho, nos diversos
estilos de artistas seus conhecidos e, afinal, em So Jos e na religio
crist. E mais: acudiam-lhe agora coisas inteiramente indiferentes:
lembrava-se de um homem, vermelho e suado, que ele vira uma semana
antes, a conversar sobre Napoleo Bonaparte com um lojista da Rua de
Nazar. Diziam muita asnice; e a imagem do lojista saltava-lhe perfeita
 memria magricela, com uns bigodes compridos, afetando delicadezas de
alfaiate de Lisboa. Ouvira-lhe o nome, mas estava na dvida. Moreira?
No, no era Moreira! E procurava mentalmente o nome, com insistncia.
Pereira? No! Nogueira... Era Nogueira  Este nome trouxe-lhe logo 
lembrana uma ocasio em que conversava com Nogueira Penteeiro, e passar
na nua uma mulher doida, que levantava as saias para mostrar o corpo. De
repente, Raimundo estremeceu, era a idia que voltava, a idia
primitiva, a idia capital. Reaparecia; tinha feito uma retirada falsa;
ficara  porta do crebro, espiando para dentro. E ele soltou um suspiro
com a presena importuna e vexatria dessa idia que esperava, pelo seu
pensamento, como um policia espera um criminoso, para o levar preso. E o
pensamento de Raimundo remancheava; no queria ir mas a idia implacvel
reclamava-o. E o prisioneiro entregou afinal os pulsos.
Ergueu-se da cadeira; bateu vigorosamente uma punhada na mesa,
protestando como se algum lhe falasse:
- Ora sebo! Que diabo tenho eu com isto? O que vim fazer a esta
provncia estpida, foi tratar dos meus negcios pecunirios! Liquidados
nada mais tenho que fazer aqui! Musco-me! Ponho-me ao fresco! Passem
muito bem!
E comeou a passear pelo quarto, agitado, a fingir-se muito egosta com
as mos nas algibeiras das calas monologando:
- Sim! sim! longe daqui no sou forro  pia! o filho da escrava sou o
Doutor Raimundo Jos da Silva, estimado, querido e respeitados! Vou! Por
que no?! O que mo impediria?
E parou, tomou a andar, afinal assentou-se na cama, disposto a
recolher-se. Despiu o palet, arremessou o chapu e o colete.
- Sim! O que mo impediria?...
Ia descalar a primeira botina, quando espantou-se com a lembrana de
Ana Rosa. Uma voz exigente bradava-lhe do corao: E eu? e eu? e eu?...
Esqueceste de mim, ingrato? Pois bem, no quero que vs, ouviste? No
irs! sou eu quem to impedir!
E Raimundo, pasmo por no ter, durante tanto tempo, pensado em Ana Rosa,
despiu-se com pressa e, como querendo fugir a esta nova idia, atirou-se
de bruos  cama, soluando.
As seis horas da manh ainda havia luz no quarto dele.
No dia seguinte, s duas da tarde, desceu, muito abatido, ao escritrio
de Manuel e pediu-lhe secamente que apressasse os seus negcios e 0
despachasse quanto antes, porque no podia demorar-se mais tempo no
Maranho. Precisava partir o mais cedo possvel.
- Mas venha c, doutor, o senhor no me deve guardar dio por ter eu...
- Ah, certamente, certamente! Nem pensemos nisso! interrompeu Raimundo,
procurando desviar a conversa. O senhor tem toda a razo... Vamos ao que
importa! Diga-me quando poderei estar desembaraado?
- Mas no ficou maado comigo!... No  verdade? Creia que...
-  senhor! Como quer que lhe diga que no? Maado! Ora essa! por qu?
J nem pensava em tal! Vinha at pedir-lhe um servio...
- Se estiver em minhas mos...
-  simples.
E, depois de uma pausa, Raimundo continuou, com a voz um pouco alterada,
a despeito do esforo que fazia por afetar tranqilidade: Como lhe disse
ontem... estava autorizado pela senhora sua filha a pedi-la em
casamento; em vista, porem, do que me exps o senhor a meu respeito,
cumpre-me dar  Sr Ana Rosa qualquer explicao. Compreende que no
posso retirar-me desta provncia, assim, sem mais nem menos, estando j
empenhado em um compromisso to melindroso...
- Ah, sim... mas no lhe d isso cuidado... Arranjarei qualquer
desculpa..
- Uma desculpa, justamente!  preciso dar-lhe uma desculpa; e o melhor
seria declarar-lhe a verdade. Explique-lhe tudo. Conte-lhe o que se
passou entre ns .Ningum, para isso, est mais no caso que o senhor!...
Manuel caava a nuca com uma das mos, enquanto com a outra batia o cabo
da caneta entre os dentes, na atitude contrariada de quem toma,  pura
fora de circunstncias, interesse numa causa estranha; porem, como
Raimundo falasse em mudar de casa, ele atalhou logo.
- Como o senhor quiser... mas a nossa choupana est sempre s suas
ordens...
- Bem, concluiu o rapaz, agradecendo o oferecimento com um gesto; posso
ento contar que o meu amigo se encarrega de explicar tudo  senhora sua
filha?
- Pode ficar descansado.
- E quando terei os meus negcios concludos?
- Antes da chegada do vapor j o senhor estar inteiramente
desembaraado.
- Muito agradecido.
E Raimundo subiu para o seu quarto.
Fazia um grande calor. O cu, todo limpo, com as suas nuvens
arredondadas, parecia um vasto tapete azul, onde dormiam enormes ces
felpudos. Raimundo lembrou-se de sair; feitou-lhe o nimo:
afigurava-se-lhe que na rua todos os apontariam, dizendo: L vai o
filho da escrava! ia abrir a janela e hesitou; sentia um grande tdio,
um mal-estar crescente, desde a revelao de Manuel; uma surda
indisposio contra tudo e contra todos; naquele momento, irritava-o,
por exemplo, a voz aflautada de um quitandeiro, que argumentava, l
embaixo na nua, com um scio. Abriu o lbum com a inteno de desenhar,
mas repeliu-o logo; tomou um livro e leu distraidamente algumas linhas;
levantou-se, acendeu um cigano e passeou a largos passo pelos pelo
quarto, com as mos nas algibeiras.
Em um destes passeios, parou defronte do espelho e mirou-se com muita
ateno. procurando descobrir no seu rosto descorado alguma coisa, algum
sinal, que denunciasse a raa negra. Observou-se bem, afastando o cabelo
das fontes; esticando a pele das faces, examinando as ventas e
revistando os dentes; acabou por atirar com o espelho sobre a cmoda,
possudo de um tdio imenso e sem fundo.
Sentia uma grande impacincia, porm vaga, sorrateira, sem objeto, um
frouxo desejar que o tempo corresse bem depressa e que chegasse um dia,
que de no sabia que dia era; sentia uma vontade indefinida de ir de
novo a Vila do Rosrio, procurar a pobre me, a pobre negra, e dedicada
escrava de seu pai, e traz-la em sua companhia, para dizer a todos:
Esta preta idiota, que aqui vem ao meu brao e minha me, e ai daquele
que lhe faltar ao respeito! Depois fugir com ela da ptria, como quem
foge de um covil de homens maus e meter-se em qualquer terra, onde
ningum conhecesse a sua histria. Mas, de improviso, chegava-lhe Ana
Rosa  lembrana, e o infeliz desabava num grande desanimo, vencido e
humilhado.
E deixava cair a cabea na palma das mos, a soluar.
Por este tempo, Manuel acabava de expor  filha a necessidade absoluta
de no pensar em Raimundo.
- Enfim, dizia de, tu j no es uma criana, e bem podes julgar o que te
fica bem e o que te fica mal!... H por a muito rapaz decente, de boa
famlia... e nos casos de fazer-te feliz .Vamos! No quero ver esse
rostinho triste!... Deixa estar que mais tarde me agradecers o bem que
agora te fao!...
Ana Rosa, de cabea baixa ouvia, aparentemente resignada, as palavras do
pai. Confiava em extremo no seu amor e nos juramentos de Raimundo, para
recear qualquer obstculo. S agora soubera ao certo da precedncia de
seu primo bastardo e no entanto, ou fosse porque lhe germinavam ainda no
corao os supremos conselhos matemos, ou fosse que o seu amor era dos
que a tudo resistem, o caso  que essa histria que a tantos arrancara
exclamaes de desprezo; isso que forneceu assunto a gordas palestras
nas portas dos boticrios; isso que foi comentado em toda a provncia,
entre risos de escrnio e cuspalhadas de nojo, desde a sala mais
pretensiosa, at  quitanda mais pfia; isso que fechou muitas portas a
Raimundo e cercou-o de inimigos; isso, essa grande histria escandalosa
e repugnante para os maranhenses, no alterou absolutamente nada, o
sentimento que Ana Rosa lhe votava. As palavras de Manuel no lhe
produziam o menor abalo; da continuava a estremecer e desejar o mulato
com a mesma f e com o mesmo ardor; tinha l para si que de possua
bastante merecimento prprio, bastante atrativo, para ocupar de todo a
ateno de quem o observasse, sem ser preciso remontar aos seus
antepassados. Estabelecia comparaes entre as regalias do amor de
Raimundo e as vergonhas que dele pudesse resultar, e conclua que
aquelas bem mereciam o sacrifcio destas, Amava-o - eis tudo.
Manuel, depois dos seus conselhos, passou a fazer consideraes
desfavorveis a respeito das qualidades morais do mulato, e. com isso
apenas conseguiu estimular o desejo da filha, juntando aos atrativos do
belo rapaz mais um, no poderoso o da proibio. Enquanto ele,
entestando com a inadmissvel hiptese de um casamento to desastrado,
desenrolava um quadro assustador, profetizando, com as negras cores da
sua experincia e com febre do seu amor de pai um futuro de humilhaes
e arrependimentos chegando at a amea-la ia de retirar-lhe a bno;
Ana Rosa, distrada, olhando para um s ponto respondia maquinalmente:
Sim... No... Decerto!... Est visto!..  sem prestar a mnima ateno
ao que ele discretamenteava porque o prprio objeto discutido lhe
arredava dali o pensamento trazendo-lhe por associao de idias, os
seus devaneios favoritos nos quais se sonhava ao lado de Raimundo, em
plena felicidade conjugal.
- Enfim, disse Manuel, procurando encenar o discurso e satisfeito pelo
ar atento e resignado da filha; nada temos que recear... Ele muda-se por
estes dias e parte definitivamente no primeiro vapor para o Sul!
Esta notcia, dada assim  queima-roupa e em tom firme, despertou-a com
violncia.
- Hein? como? parte? muda-se? por qu?...
E fitou o pai, sobressaltada.
- , ele muda-se... No quer esperar aqui o dia da viagem..
- Mas por qu, senhores?
O negociante viu-se num grande embarao; no lhe convinha dizer
abertamente a verdade; dizer que Raimundo se retirava, para fugir ao
tormento de ver todos os dias Ana Rosa, sem esperana de possu-la. E
no atinando com uma resposta, com uma sada, o pobre homem balbuciava:
- ! o rapaz maou-se com o que eu lhe disse, e como e senhor do seu
nariz, muda-se! Ora essa! Pensas talvez que ele se sinta muito com
isso?... Ests enganadinha, filha! Foi-me muito lampeiro ao escritrio e
pediu-me que o desculpasse contigo. Que desses o dito por no dito! Que
ele precisava mudar de ares!... Que se aborrecia muito c pela
provncia! pela aldeola como ele a chama!
- Mas por que no veio ele mesmo entender-se comigo?...
- Ora, filha! bem se v que no conheces o Raimundo.. Pois ele  l
homem para essas coisas?... Um tipo que no liga a menor importncia s
coisas mais respeitveis! Um ateu que no acredita em nada! At ficou
mais satisfeito depois da minha recusa! S parece que estava morrendo
por um pretexto para desfazer o seu compromisso contigo!
- Percebo! exclamou Ana Rosa transformando-se e cobrindo o rosto com as
mos. E que no me ama! Nunca me amou, o miservel!
E abriu a chorar.
- Hein?! Ol! Ento que quer isto dizer... Ora os meus pecados! Ai, que
isto de mulheres no h quem as entenda!
Ana Rosa fugiu para o seu quarto, nervosa, soluando, e atirou-se de
bruos na rede.
O pai seguiu-a assustado:
- Ento, minha filha, que  isto?...
- Diabo da peste!
E a infeliz soluava.
- Ento, que tolice a tua, Anica! Olha, minha filha! escuta!
- No quero escutar nada! Diga-lhe que pode ir quando entender! Pode ir,
que ate  favor!
- Grande coisa perdes, na verdade! Ora vamos! Nada de asneiras!
Ana Rosa continuava a soluar. cada vez mais aflita, com o rosto
escondido nos braos; as mangas do seu vestido e os travesseiros da rede
estavam j ensopados das lgrimas. Assim levou algum tempo, sem
responder ao que lhe dizia o pai, de repente suspendeu de chorar, ergueu
a cabea e soltou um gemido rpido e agudo. Era o histrico.
- Diabo! resmungou Manuel, coando a nuca atrapalhado. E chamou logo
pelos de casa: Dona Maria Brbara! Brgida! Mnica!
O aposento encheu-se imediatamente.
O cnego Diogo, que ficara na saleta,  espera daquela conferncia de
Manuel com a filha, entrou tambm atrado pelos gritos da afilhada.
- Hoc opus hic labor est!
Nessa ocasio, Raimundo, no seu quarto, passava pelo sono, estendido
sobre um div. Sonhava que fugia com Ana Rosa e que, em caminho, eram,
os dois, perseguidos por trs quilombolas furiosos armados de faco. Um
pesadelo. Raimundo queria correr e no podia: os ps enterravam-se -lhe
no solo, como no tujuco, e Ana Rosa pesava como se fosse de chumbo. Os
pretos aproximavam-se, dardejando os fenos, iam alcan-los. O rapaz
suava de medo; estava imvel, sem ao, com a lngua presa.
Os gritos reais da histrica coincidiam com os gritos que Ana Rosa, no
sonho, soltava, ferida pelos mocambeiros. Com o esforo, Raimundo pulou
do div e olhou estremunhado em torno de si; depois, deitou a correr
para a varanda.
O cnego, ouvindo-lhe os passos, veio sair-lhe ao encontro.
- Attendite!
- Ora, at que enfim nos encontramos! disse-lhe Raimundo.
- Pschio! fez o cnego. Ela est sossegando agora! No v l, que lhe
pode voltar o ataque!... O senhor  o causador de tudo isto!...
- Preciso dar-lhe duas palavras incontinente, senhor cnego!
- Homem, deixe isso para outra ocasio... No v o alvoroo em que est a casa?...
- Se lhe digo que preciso falar-lhe incontinenti!... Ande! Vamos ao meu
quarto!
- Que diabo tem o senhor que me dizer?!
- Quero tomar alguns esclarecimentos sobre So Brs, percebe?
Horresco referens!...
E Raimundo, com um empurro, meteu-se, mais o cnego, no quarto, e
fechou-se por dentro.
- V dizer-me quem matou meu pai! exclamou, ferrando-lhe o olhar.
- Sei c!
E o cnego empalideceu. Mas estava a prumo, defronte do outro.
Cruzou os braos.
- Que quer isto dizer?...
- Quer dizer que descobri afinal o assassino de meu pai e posso
vingar-me no mesmo instante!
- Mas isto  uma violncia! tartamudeou o padre, com a voz sufocada pela
comoo.
E, fazendo um esforo sobre si, acrescentou mais seguro:
Muito bem senhor doutor Raimundo! muito bem! Est procedendo
admiravelmente!  ento por esta forma que me pede noticias de seu pai?
 este o modo pelo qual me agradece a amizade fiel, que dediquei noutro
tempo ao pobre homem? Fui o seu nico amigo, o seu amparo, a sua
darradeira consolao! e  um filho dele que vem agora, depois de vinte
anos, ameaar um pobre velho, que foi sempre respeitado por todos!
Parece que s esperavam que me embranquecessem de todo os cabelos, para
insultarem esta batina, que foi sempre recebida de chapu na mo! Ah,
muito bem! muito bem! Era preciso viver setenta anos para ver isto!
muito bem! Quer vingar-se? Pois vingue-se! Que lho impede?! Sou eu o
criminoso? Pois venha o carrasco! No me defenderei, mesmo porque j me
faltam as foras para isso!... Ento! que faz que no se mexe?!
Raimundo, com efeito, estava imvel. Ter-se-ia enganado?...  vista do
aspecto sereno do cnego chegara a duvidar das concluses dos seus
raciocnios. Seria crive! que aquele velho, to brando, que s
respirava religio e coisas santas, fosse o autor de um crime
abominvel?,.. E, sem saber o que decidir, atirou-se a uma cadeira,
fechando a cabea nas mos.
O padre compreendeu que ganhara terreno e prosseguiu, na sua voz untuosa
e resignada:
- , o senhor deve ter razo!... Fui eu naturalmente o assassino de seu
pai!...  um rasgo generoso e justo de sua parte desmascarar-me e
cobrir-me de ultrajes, aqui nesta casa, onde sempre me beijaram a mo. O
senhor esta no seu direito! Olhe! agarre aquela bengala e bata-me com
ela! Est moo, pode faz-lo! est no vigor dos seus vinte e cinco anos!
Vamos! Fustigue este pobre velho indefeso! castigue este corpo
decrpito, que j no presta para nada! Ento! bata sem receio que
ningum o saber! Pode ficar descansado que no gritarei - tenho
defronte dos olhos a imagem resignada de Cristo, que sofreu muito mais!
E o cnego Diogo, com os braos e olhos erguidos para cima, caiu de
joelhos e disse entre dentes, soluando:
-  Deus misericordioso! Tu, que tanto padeceste por ns, lana um olhar
de bondade sobre esta pobre criatura desvairada! compadece-te da pobre
alma pecadora, levada s pela paixo mundana e cega! No deixes que
Satans se apodere da msera. Salva-a, Senhor! perdoa-lhe tudo, como
perdoaste aos teus algozes! Graa para ela! eu te suplico, graa, meu
divino Senhor e Pai!
E o cnego ficou em xtase.
- Levante-se, observou-lhe Raimundo, aborrecido. Deixe-se disso! Se lhe
fiz uma injustia, desculpe. Pode ir descansado, que no o perseguirei. V!
Diogo ergueu-se, e pousou a mo no ombro do moo.
- Perdo-te tudo, disse; compreendo perfeitamente o teu estado de
excitao. Sei o que se passou! Mas consola-te, meu filho, que Deus 
grande, e s no seu amor consiste a verdadeira paz e felicidade!
E saiu de cabea baixa, o ar humilde e contrito; mas, ao descer a escada
para a rua, resmungava:
- Deixa estar, que mas pagars, meu cabrinha apistolado!...
CAPTULO 14
Sete dias depois, morava Raimundo em uma das suas casinhas da Rua de So
Pantaleo.
Vivia aborrecido; vivia exclusivamente a esperar o dia da viagem para a
Corte. Nunca a provncia lhe parecera to enfadonha, nem o seu
isolamento to pesado e to triste. No sala quase nunca  nua; no
procurava pessoa alguma, nem tampouco ningum o visitava. Dizia-se por
a que ele estava de cama por uma bonita sova, que lhe mandara dar o pai
da namorada. Era bem feito! Para se no fazer apresentado com uma
menina branca!
Os maldizentes, empenhados na vida dele, como se Raimundo fosse um
poltico de quem dependesse a salvao da provncia, afianavam que
alguma pea estava o tratante urdindo em silncio.
- Acreditem, exclamava um dos tais, a um grupo, que todos estes sujeitos
que se fazem muito santarres e de quem a boca do mundo nada tem que
dizer, so os mais perigosos! Eu, c por mim, no me fio de ningum!
quando vejo um tipo, julgo logo mal dele; se o traste prega-me alguma,
no me espanta, porque j a esperava!
- E se no prega?
- Fico na certeza de que muita coisa se faz s caladas neste Maranho!
Mas 1 acreditar em virtudes de aventureiros, isso  que nem  stima facada!
Entretanto, Raimundo levava uma vida de degradado, sem amigos e sem
carinhos de espcie alguma. No seu desterro tinha por companhia nica
uma preta velha, que se encarregara de servi-lo; magra, feia,
supersticiosa arrastando-se, a coxear, pela varanda e pelos quartos
desertos fumando um cachimbo insuportvel, e sempre a falar sozinha, a
mastigar monlogos interminveis.
E esta solido enchia-o de tdio e de saudades pelas boas horas alegres,
que passava dantes ao lado de Ana Rosa, aquecido ao calor benfico da
famlia. Ultimamente muito pouco se dava ao estudo; estava desleixado,
preguioso, vivia para as suas preocupaes recentes. Ficava horas
esquecidas  mesa, depois do almoo ou do jantar, olhando vagamente para
o seu quintal sem plantas, com os ps cruzados a cabea molemente calda
sobre o peito, a fumar ciganos um atrs do outro, num aborrecimento invencvel.
Tomara embirrncia por tudo e emagrecia.
 noite, acendia-se o candeeiro de querosene, e Raimundo assentava-se
junto  secretaria, lendo distrado algum romance ou revendo as gravuras
de algum jornal ilustrado. A um canto da varanda resmungava a criada,
cosicando trapos. O rapaz sentia um fasto de morte, tinha
espreguiamentos de febre, moleza geral no corpo; no podia entrar com a
cozinha da preta era uma coisa muito mal amanhada tinha nojo de beber
pelos copos mal lavados; banhava com repugnncia o rosto na bacia
barrada de gordura. O senhores! Que vida! E ficava cada vez mais
nervoso e frentico; esperava o dia da viagem contando os minutos;
porm, a despeito de tudo, sentia uma surda e funda vontade de no ir,
uma ntima esperana de ser ainda legitimamente amado por Ana Rosa.
- Impossvel!... conclua sempre, fazendo-se forte. Deixemo-nos de asneiras!
E pensava no que no estaria ela julgando dele; no juzo que formarda do
seu carter Nunca mais tiveram ocasio de trocar uma palavra ou um
olhar; apenas recebia noticias de Ana Rosa por aquela idiota, que no as
sabia dar. Ora! tambm de que servia afligir-se daquele modo? o melhor
era deixar que as coisas levassem o seu destino natural! No podia, nem
devia, por forma alguma, casar com semelhante mulher, para que, pois,
pensar ainda nisso?...
Em casa de Manuel as coisas igualmente no corriam l muito bem. Ana
Rosa curtia densas tristezas, mal dissimuladas aos olhos do pai, da av
e do cnego. A pobre moa esforava-se por esquecer o desleal amante que
a abandonara covardemente. E, na sua decepo imaginava vinganas
irrefletidas; tinha desejos absurdos: queria casar-se por aqueles dias,
arranjar um marido qualquer, antes que Raimundo se retirasse da
provncia; desejava provar-lhe que ela no ligava a menor importncia ao
caso e que se entregaria com prazer a outro homem.
Pensou no Dias e esteve quase a falar-lhe.
Manuel, soprado pelo compadre, indispunha mais e mais o nimo da filha
contra o mulato; contando-lhe, a respeito deste, fatos revoltantes,
inventados pelo cnego; fazia-se agora muito meigo ao lado dela,
submetia-se aos seus caprichos, s suas vontadezinhas de menina doente.
com a compungida solicitude de um bom enfermeiro.
Ana Rosa abanava a cabea, resignada. O fato provado de que Raimundo
contsentia sem resistncia e talvez por gosto, em abandon-la, ao mesmo
tempo que aumentava nela o desejo de reconquist-lo e possu-lo, dava a
seu orgulho bastante energia para esconder de todos o seu amor
Supunha-se vtima de uma decepo; julgava o seu amante mais apaixonado
e mais violento, e,  vista da passividade com que ele <e submeteu logo
s circunstncias; 3 vista daquela condescendncia burguesa e medrosa,
pois Raimundo no se animara a dar-lhe, nem a es rever-lhe, urna palavra
depois da recusa de Manuel, ela se julgava desenganada e desiludida.
Nunca nunca me amou! dizia de si para si desesperada Se me amasse, como
eu imaginava, teria reagido! E um impostor! um tolo! Um vaidoso, que
desejou apenas ter mais uma conquista amorosa!
E vinha-lhe um grande desejo de chorar e preferir muito mal contra
Raimundo. Agora. achava que ele era o pior dos homens, a mais
desprezvel das criaturas. s vezes, porm, arranhava-lhe a conscincia
uma pontinha de remorso: lembrava-se de que a iniciativa daquele namoro
partira toda de sua parte, e ento. com uma dorzinha de vergonha
assistiam-lhe consideraes mais favorveis ao primo; chegava ate a
doer-se de haver feito um juzo to mau do pobre rapaz. Sim... pensava.
Verdade, verdade, se no fosse eu... coitado! ele talvez nunca me
falasse em amor!... fui eu que o provoquei, que lhe lancei a primeira
faisca no corao!... E por este caminho Ana Rosa fazia mil
raciocnios, que abrandavam um tanto a sua me vontade contra o perjuro.
Mas a av saltava-lhe logo em ama:
- Parece que ficaste meio sentida com o que se passou!... Pois Olha. se
tivesse Te assistir ao teu casamento com um cabra, juro-te, por esta luz
que est nos alumiando, que te preferia uma boa morte, minha neta!
porque sedas a primeira que na famlia sujava o sangue! Deus me perdoe
pelas santssimas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo! gritava ela,
pondo as mos para o cu e revirando os olhos, mas tinha animo de torcer
o pescoo a uma filha, que se lembrasse de tal, credo! que nem falar
nisto  bom! E s peo a Deus que me leve, quanto antes, se tenho algum
dia de ver, com estes que a terra h de comer, descendente meu caando a
orelha com o p!
E, voltando-se para o genro, num assanhamento crescente:
- Mas creia seu Manuel. que se tamanha desgraa viesse a suceder, s a
voc a deveramos, porque, no fim das contas, a quem lembra meter em
casa um cabra to cheio de fumaas como o tal doutor das dzias?... Eles
hoje em dia so todos assim!... D-se-lhes o p e tomem a mo!... J no
conhecem o seu lugar, tratantes! Ah, meu tempo! meu tempo! que no era
preciso estar c com discusses e polticas! Fez-se besta? - Rua! A
porta da nua  a serventia da casa! E  o que voc deve fazer, seu
Manuel! No seja pamonha! despea-o por uma vez para o Sul, com todos os
diabos do inferno! e trate de casar sua filha com um branco como ela. Arre.
- Amm! disse beaticamente o cnego.
E sorveu uma pitada.
Falou-se em toda a capita! do rompimento de Raimundo com a famlia do
Manuel Pescada. Cada qual comentou o fato como melhor o entendeu,
alterando-o, j se sabe, cada um por sua parte. O Freitas aproveitou
logo a ocasio dizer dogmaticamente aos seus companheiros de secretaria
- Acontece, meus senhores, com um boato, que corre a provncia, o mesmo
que com uma pedra levada pela enxurrada da chuva;  proporo que rola,
de rua em rua, de beco em beco, de fosso em fosso, vo-se-lhe apegando
toda sorte de trapos e imundcia que encontra na sua vertiginosa
carreira; de sorte que, ao chegar  boca-de-lobo, j se lhe no
reconhece a primitiva forma. Do mesmo feitio, quando uma notcia chega a
cair no esquecimento, j to desfigurada vai de si, que da prpria no
conserva mais do que a origem!
E o Freitas, satisfeito com esta tirada, assoou-se estrondosamente, sem
despregar do auditrio o seu penetrante sorriso de grande homem, que
prodigaliza, sem olhar a quem d, as preciosas jias da sua prdiga
eloqncia.
Durante aqueles dias no se falava seno em Raimundo.
- Desacreditou, para sempre, a pobre moa!... dizia um barbeiro no meio
da conversa da sua loja.
- Desacreditar quis ele! responderam-lhe, mas  que ela nunca lhe deu a
menor confiana! Isto sei eu de fonte limpa!
Na casa da praa, afirmava um comendador, que a sada de Raimundo da
casa do tio era devida simplesmente a uma ladroeira de dinheiro,
perpetrada na burra de Manuel, e que este, constava, j tinha ido
queixar-se  polcia e que o doutor chefe procedia ao inqurito.
-  bem feito! E bem feito!... vociferava um mulato plido, de carapinha
rente, bem vestido e com um grande brilhante no dedo E muito bem feito,
para no consentirem que estes negros se metam conosco!
Seguiu-se um comrcio rpido de olhadelas expressivas, trocadas entre os
circunstantes, e a conversa torceu de rumo, indo a cair sobre as
celebridades de raa escura, vieram os fatos conhecidos a respeito do
preconceito da cor; citaram-se pessoas gradas da melhor sociedade
maranhense, que tinham um moreno bem suspeito; foram chamados  conversa
todos os mulatos distintos do Brasil narrou-se enfaticamente a clebre
passagem do Imperador com o engenheiro Rebouas. Um sujeito, levantou
pasmo da roda, nomeando Alexandre Dumas, e dando a sua palavra de honra
em como Byron tinha casta.
- Ora! isso que admira?... disse um estpido. Aqui J tivemos um
presidente to negro como qualquer daqueles cangueiros, que ali vo com
a pipa de aguardente!
- No... rosnou convencido um velhote, que entre os comerciantes passava
por homem de boa opinio Que eles tm habilidade, principalmente para a
musica, isso  inegvel!...
- Habilidade?... segredou outro, com o mistrio de quem revela uma coisa
proibida. Talento! digo-lhe eu! Esta raa cruzada  a mais esperta de
todo o Brasil! Coitadinhos dos brancos se ela pilha uma pouca de
instruo e resolve fazer uma chinfrinada. Ento  que vai tudo pelos
ares! Felizmente no lhe do muita ganja!
- Aquilo, comentava Amncia, boquejando esse dia, sobre o mesmo assunto,
em casa de Eufrsia; aquilo no podia ter outro resultado! C est quem
no poria l mais os pezinhos, se o basbaque do Pescada metesse o cabra
na famlia!
- Ora no  tambm tanto assim!... objetava a quente viva. Conheo
certa gente, que se faz muito de manto de seda e que, no entanto, vai
filar constantemente o jantar dos cabras que passam bem. A questo  de
boa mesa!
- O qu? berrou a velha, pondo as mos nas cadeiras. Isso  uma
indireta?! comigo?!...
E subiu-lhe uma roxido s faces.
- Diga! exclamou. Pois diga! Quero que diga qual foi o negro a quem
Amncia Diamantina dos Prazeres Sousella, neta legtima do Brigadeiro
Cipio Sousella, conhecido pelo Corisco na Guerra dos Guararapes,
desse algum dia a confiana de ocupar! Eu?!... At brada ao cu! Qual
foi o cabra com quem a senhora j me viu de mesa?!...
- Eu no falo com a senhora! E esta?
- Ah!... Pois ento conhea!
- Falo no gera!
E Eufrasinha dava as provas, citava nomes, contava fatos, e terminou
declarando que, apesar de tudo que se dizia nesse Maranho velho,
Raimundo era um cavalheiro distinto, com um futuro bonito, alguns
cobres, e... enfim. . Ora, adeus, deixasse l falar quem falava! - era
um marido de encher as medidas!
E a viva arregalou os olhos e mordeu os beios, chupando o ar com um
suspiro.
- Que lhe faa muito bom proveito! arrematou a neta do Corisco
traando o xale j na porta, para sair. H gente para tudo nesta vida!
Credo!
E foi logo, direitinha como um fuso, para a casa do Freitas.
Pois no sabem de uma muito boa?... disse ao chegar l, sem tomar
flego. A sirigaita de Eufrsia diz que no se lhe dava de casar com o
Mundico do Pescada!
- Ele  que eu duvido que a aceitasse!... bocejou o Freitas, estendendo
com preguia as suas magras e longas pernas na cadeira, e cruzando os
ps, com um ar feliz e descansado. Que ela morre por um marido isso 
velho! E tem razo, coitada!
Riu-se.
- Credo! cruz! trejeitou Amncia. Assim tambm no!... No meu tempo...
- Era a mesmssima coisa, Dona Amncia; as raparigas pobres pediam aos
cus um marido, como... como... insistia ele, a procura de uma
comparao, como no sei o qu!... A senhora, j sei que fica para
jantar...
- Se tiver peixe, fico! disse, autorizada pelo cheiro ativo de azeite
frito, que vinha da cozinha.
- Ento, titia Amncia, saiba que temos e muito bom! observou Lindoca,
bamboleando-se pela varanda.
-  menina! gritou-lhe a velha, onde queres ir tu com toda essa gordura?
J basta! Apre!
- No ir muito longe, disse o Freitas, sempre risonho, cansaria
depressa...
- Olhe, veja, reclamou a moa, fazendo parar a escrava, que passava com
a terrina do peixe. Est convidando! Quentinho que  um fogo!
- Ai, filha!  a minha paixo! Um peixinho bem preparado, quentinho, com
farinha-dgua! Mas, olha, bradou para a criada, e levantou-se logo, no
o deites a, rapariga, que o gato e muito capaz de pregarmos alguma
pea... Bota antes neste armrio!
E, como se estivesse na prpria casa, tomou a terrinha e acondicionou-a
em uma das prateleiras. No havia que fiar em gatos!... Eles eram
necessrios por mor dos ratos, mas que canseira seu Bom Jesus!
Indestrodia o seu Peralta fora-lhe ao guarda-petiscos e... nem dizia
nada! unhara-lhe a carne-de-sol, que havia para o almoo, porque ela
estava de purga Forte ladro! tambm, dera-lhe uma mela, que o pusera
assim!...
E Amncia, procurando mostrar como ficara o gato arreganhou uns restos
de dentadura acavalada e espichou as peles do pescoo
Passava j das trs da tarde. Os empregados pblicos saam da
repartio, procurando a sombra, cora o seu passo metdico inatervel, o
chapu-de-sol dependurado do brao esquerdo, corno de um cabide, o ar
descansado e indiferente dos homens pagos por ms, que nunca se
apressam, que nunca precisam de se apressar.
Comeava a soprar a virao da tarde, e c tempo refrescava
Lindoca, com grande entremecimento do assoalho, arrastou-se at 
janela, para ver passar o Dudu Costa Dudu era um da Alfndega, que lhe
arrastava a asa, rapaz srio, sequinho de carnes, bem arranjado e com
muito jeito para o casamento. O Freitas olhava com bons olhos este
namoro, e s esperava que o moo tivesse nesse mesmo ano um acesso na
repartio havia l um empregado superior muito doente, que, sem dvida,
bateria o cachimbo por todos aqueles trs meses, e, como Dudu tinha um
amigo, cujo pai dispunha de bons empenhos para o presidente, dava corno
certa a sua nomeao, to certa que pensava j no enxoval do casamento,
punha de parte alguma coisa do ordenado e convidava os amigos mais
ntimos para o grande dia da amarrao. De tudo isto o Freitas andava a
par. Diabo era s aquela maldita gordura da menina, que aumentava todos
os dias e estava fazendo dela um odre!
- Ora queira Deus no seja alguma praga!... observava Amncia :. H
muita gente invejosa neste mundo, minha rica!
- Minha senhora, o casamento e a mortalha no cu se talham! citou o
grande homem, sacrificando a rima  boa concordncia gramaticalmente.
Por essas mesmas horas, topavam-se numa esquina . Sebastio Campos e o
Casusa.
- O1! por c, seu Susa?
- Como vai isso?
- Ora! voc no faz idia! desquerido de dor de dentes. Este diabo no
me deixa pr p em ramo verde!
E Sebastio escancarou a boca, para mostrar um queixal ao amigo.
- Andao! resmungou este. D c um cigarro
Sebastio passou-lhe prontamente a enorme bolsa de borracha amarela e o
caderninho de mortalhas de papei.
- Ento que h de novo por a? perguntou.
- Tudo velho... Voc vai se chegando pra casa..
- Hum-hum, afirmou o Campos com a garganta. Chegou o vapor do Par?
- Chegou; sai amanh para o Sul s nove. E verdade! o Mundico vai nele,
sabe?
- ! Ouvi dizer que tinha brigado com o Pescada.
- Brigou, hein?...
- Diz que por causa de dinheiro, que Raimundo pedira-lhe certa quantia
emprestada, e, como o outro negara, disparatou!
- Homem! no sei se pediu dinheiro, mas a filha sei, por fonte limpa,
que pediu!
- E o galego?
- Negou-a! diz que porque o outro e mulato!
- Sim, em parte... aprovou Sebastio
- Ora, deixe disso, seu Campos! No sei se  porque no tenho irms, mas
o que lhe asseguro  que preferia o doutor Raimundo da Silva a qualquer
desses chourios da Praia Grande.
- No! l isso  que no Preto  preto! branco  branco! Nada de
confuses!
- Djgo-lhe ento mais! asneira seria a dele se se amarrasse, porque o
cabra  atilado s direitas!
- Sim, isso faria... confirmou o Campos entretido a quebrar a calia da
parede com a biqueira do chapu-de-sol. Aquilo esta se perdendo por
c...  homem para uma cidade grande!.. Olhe, ele talvez faa futuro no
Rio... Voc lembra-se do...?
- E segredou um nome ao ouvido do Casusa.
- Ora! como no? Muita vez dei-lhe aos cinco e aos dez tostes para
comer, coitado! E hoje, hein?
- ! Foi feliz... mas, quer que lhe diga? no acredito l essas coisas
no futuro deste por causa daquelas idias de repblicas... porque,
convenam-se por uma vez de uma coisa! a repblica  muito bonita, 
muito boa sim senhor! porm no  ainda para os nossos beios! A
repblica aqui vinha dar em anarquia!...
- Voc exagera, seu Sebastio
- No  ainda para os nossos beios, repito! ns no estamos preparados
para a repblica! O povo no tem instruo!  ignorante! e burro! no
conhece os seus direitos!
- Mas venha c! replicou o Casusa, fechando no ar a sua mo plida e
encardida de cigano. Diz voc que o povo no tem instruo; muito bem!
Mas, como quer voc que o povo seja institudo num pas, cuja riqueza se
baseia na escravido e com um sistema de governo que tira a sua vida
justamente da ignorncia das massas?... Por tal forma, nunca sairemos
deste circulo vicioso! No haver repblica enquanto o povo for
ignorante, ora, enquanto o governo for monquico conservar, por
convenincia prpria, a ignorncia do povo; logo - nunca haver
repblica!
- E ser o melhor!...
- Eu ento j no penso assim! Acho que ela devia vir, e quanto antes!
tomara eu que rebentasse por ai uma revoluo: s para ver o que sala!
Creio que somente quando tudo isto ferver, a porcaria ir na espuma! E
ser espuma de sangue, seu Sebastio!... Acredite, meu rico, que no h
Maranho como este! Isto nunca deixar de ser uma colnia portuguesa!...
O alto governo no faz caso das provncias do Norte! A tal centralizao
 um logro para ns! ao passo que, se isto fosse dividido em
departamento, cada provncia cuidaria de si e havia de ir pra diante,
porque no tinha de trabalhar para a Corte! a insacivel cortes! - E o
Casusa gesticulava indignado. - Mas o que quer voc?! O governo tem
parentes tem afilhados tem comitivas, tem salvas tem maapes tem o
diabo! e para isso e preciso cobre! cobre! O povo esta a, que pague!
Tome imposto pra baixo e deixa correr o pau para Caxias!
E, chegando a boca a uma orelha do outro: - Olhe meu Sebastio, aqui no
Brasil vale mais a pena ser estrangeiro que filho da terra!... Voc no
esta vendo todos os dias os nacionais perseguidos e desrespeitados, ao
passo que os portugueses vo se enchendo, vo se enchendo, e as duas por
trs so comendadores so bares, so tudo! Uma revoluo! exclamou
repelindo o Campos com ambas as mos Uma revoluo  do que precisamos!
- Qual revoluo o qu! Voc  um crianola seu Casusa e ainda no pensa
seriamente na vida! Deixe estar que em tempo julgar as coisas a meu
modo, porque em nossa lena . Que idade tem voc?
- Entrei nos vinte e seis.
- Eu tenho quarenta e quatro... em nossa terra esto se vendo
constantemente entradas de leo e sadas de sendeiro!... Voc acha que a
repblica convinha ao Brasil! pois bem... Ai!
- O que ?
- O dente! diabo!
E, depois de uma pausa
- Adeus. At logo, disse cobrindo o rosto com o leno e afastando-se.
- Olhe! Espere, seu Sebastio gritava o Casusa, querendo det-lo,
empenhado na palestra.
- Nada! Vou ali ao Maneca Barbeiro curar este maldito!
E separaram-se.
Entretanto, na noite desse mesmo dia, quando o relgio de Raimundo
marcava onze horas, acabava este de aprontar as suas malas.
- Bom! E sacudiu as mangas da camisa, que o suor prendia aos braos.
Amanha a estas horas j estou longe daqui!...
Em seguida, assentou-se  secretria e tirou da pasta uma folha de
pape!, escrita de princpio a fim com uma letra mida e s vezes
tremida. Releu tudo atentamente, dobrou a folha, meteu-a num envelope e
subscritou-o a Ex Senhor Dona Ana Rosa de Sousa e Silva. Depois
quedou-se a fitar este nome, como se contemplasse uma fotografia.
- Deixemo-nos de fraquezas!...
E levantou-se.
Fazia um grande silncio nas ruas ao longe ladrava tristemente um co,
e, de vez em quando ouviam-se ecos de uma msica distante. E Raimundo,
ali, no desconforto do seu quarto, sentia-se mais s do que nunca;
sentia-se estrangeiro na sua prpria tenra, desprezado e perseguido ao
mesmo tempo. E tudo, por qu?... pensava ele, porque sucedera sua me
no ser branca!... Mas do que servira ento ter-se instrudo e educado
com tanto esmero? do que servira a sua conduta reta e a inteireza do seu
carter?... Para que se conservou imaculado?... para que diabo tivera
ele a pretenso de fazer de si um homem til e sincero?... E Raimundo
revoltava-se. Pois, melhores que fossem as suas intenes todos ali o
evitavam, porque a sua pobre me era preta e fora escrava? Mas que culpa
tinha ele em no ser branco e no ter nascido livre?.. No lhe permitam
casar com uma branca? De acordo! V que tivessem razo! mas por que
insult-lo e persegui-lo? Ah! amaldioada fosse aquela maldita raa de
contrabandistas que introduziu o africano no Brasil! Maldita! mi! vezes
maldita! Com ele quantos desgraados no sofriam o mesmo desespero e a
mesma humilhao sem remdio? E quantos outros no gemiam no tronco,
debaixo do relho? E lembrar-se que ainda havia surras e assassnios
irresponsveis tanto nas fazendas como nas capitais!... Lembrar-se de
que ainda nasciam cativos porque muitos fazendeiros, apalavrados com o
vigrio da freguesia batizavam ingnuos como nascidos antes da lei do
ventre livre!... Lembrar-se que a conseqncia de tanta perversidade
seda uma gerao de infelizes, que teriam de passar por aquele inferno
em que ele agora se debatia vencido! E ainda o governo tinha escrpulo
de acabar por uma vez com a escravatura; ainda dizia descaradamente que
o negro era uma propriedade, como se o roubo, por ser comprado e
revendido em primeira mo ou em segunda, ou em milsima, deixasse por
isso de ser um roubo para ser uma propriedade!
E continuando a pensar neste terreno muito excitado, Raimundo
dispunha-se a dormir, impaciente pelo dia seguinte, impaciente por verse
bem longe do Maranho. dessa miservel provncia que i e custara tantas
decepes e desgostos; dessa terrinha da intriga mida e das invejas
pequeninas! Desejava arrancar-se para sempre daquela ilha venenosa e
traioeira, mas pungia-lhe uma grande mgoa de perder Ana Rosa
eternamente. Amava-a cada vez mais!
- Ora sebo! interrompeu-se. E eu a pensar nisto!... Tenho tudo liquidado
e pronto!... Amanh est a o vapor e... adeus! adeus queridos
atenienses!
E, afetando tranqilidade, acendeu um cigarro.
Nisto, caiu na sala uma carta que meteram pelas rtulas da janela.
Raimundo apoderou-se dela e leu no subscrito: Ao Doutor Raimundo. Teve
um estremecimento de prazer, imaginando fosse de Ana Rosa, mas era
simplesmente uma carta annima.
Ilustre canalha:
Ento Vossa Senhoria muda-se amanh?... Se  verdade! agradeo-lhe o
obsquio em nome da provncia. Creia, meu caro senhor, que ser talvez o
primeiro ato judicioso que Vossa Senhoria pratica em sua r ida to
aventurosa porque nos j temos por c muita pomada e no precisamos mais
dessa fazenda. Honre-nos com a sua ausncia e faa-nos o especial
obsquio de ficar-se por o maior tempo que poder! Quem disse a Vossa
Senhoria que isto aqui  uma tenra de becios, onde os pedantes arranjam
bons casamentos, debicou-o, respeitvel senhor, debicou-o redondamente.
J se no amarram ces com lingia. No entanto, se vir a prima d-lhe
lembranas. 
Assinava: O Mulato disfarado .
Raimundo sorriu, amarrotou a folha de papel e lanou-a ao cho
- Coitados! disse, e foi pr-se  janela.
A ficou longo tempo, debruado no peitoril, a olhar a escurido da
noite, onde os bicos de gs se acusavam tristemente, muito distantes uns
dos outros. A Rua de 530 Pantaleo tinha um silncio de cemitrio.
Bateu uma badalada, ao longe.
- Devem ser duas e meia.
Raimundo fechou a janela e recolheu-se  cama. Levantou-se de novo,
tornou a apanhar a carta e releu-a. S a assinatura o irritou.
- Ces! disse.
E soprou a vela.
Comeavam ento as chuvas, que no Maranho chamam de caju; o vento
soprou com mais fora, esfuziando nas ripas do telhado. Em breve, o cu
peneirava um chuvisco fino e passageiro. Na rua, no obstante, um
trovador de esquina, cantava ao violo
Quis debalde varrer-te da memria, E teu nome arrancar do corao.
Amo-te sempre, que martrio infindo! Tem a fora da morte esta paixo!
Na manh seguinte Manuel levantou-se antes dos caixeiros vestiu-se ainda
com a meia claridade da aurora e endireitou para a casa de Diogo.
- Ol! voc madrugou, compadre! disse-lhe o cnego da janela, onde fazia
a barba em mangas de camisa.
- E verdade. Vim busc-lo para o embarque do Mundico
- Tem tempo. V subindo, compadre, que lhe vou dar um cafezinho fazenda!
E, voltando-se para o interior da casa:
- Anda com isso,  Incia! que temos de sair mais cedo! gritava ele,
enquanto estendia com pachorra, em um paninho de barba, a espuma do
sabo que tirava do queixo.
- Compadre, v estando  vontade e diga o que h de novo.
A caseira entrou com uma bandeja, onde vinha o caf, um pires de papa,
uma garrafa de licor clices.
- Vai uma papinha, compadre?
- No, obrigado. Quero o caf.
- Pois eu c no passo sem ela, mais o meu caf e o meu chartreuse... V
um calicezinho, seu Manuel! Que tal? Deste  que no vem para negcio
hein?...
- Decerto! no vale a pena! Mas com efeito,  papa-fina.
- Ento outro, v outro, compadre, isto nunca sobe logo  primeira
dose...
- Tambm no vai a matar..
- Assim! agora um gole de caf. . Hein? E o que me diz do caf?,,
- Soberbo! Do Rio, no e verdade?
- Qual Rio! muito bom Cear! Acredite, seu compadre, que o melhor caf
do Brasil  o do Cear!... E esta crioula, que o trouxe,  mestra em
pass-lo!... Nunca vi! para um caf e para uma papa de araruta com ovos,
no h outra!
E o cnego passou a vestir-se esticando muito as suas meias de seda
escarlate; calando, com a caladeira de tartaruga, os seus sapatos de
polimento azeitado, cujos fivelas levantavam cintilaes. Enfiou depois
a batina de merin lustroso, ameigando a barriga redonda e carnuda,
saracoteando-se todo, a sacudir a perninha gorda, indo ao espelho do
toucador alcochetar no pescoo a sua volta de rendas alvas. Estava
limpo, cheiroso e penteado; tinha, no rosto escanhoado e nos anis dos
seus cabelos brancos, uns tons frescos de fidalgo velho e namorador; o
crista! dos culos redobrava-lhe o brilho dos olhos, e o seu chapu
novo, de trs bicos, elegantemente derreado um pouco para a esquerda,
dava  sua cabea distinta e ao seu rosto todo barbeado o ar pitoresco e
nobre dos cortesos do sculo 17.
- Quando quiser, compadre, estou as suas ordens... lembrou ele a Manuel,
que fumava um cigarro  janela, pensativo.
- Ento vamos indo. O homem talvez j esteja  nossa espera.
E saram.
A manh levantava-se bonita. As caladas de cantaria secavam a umidade
da noite aos primeiros raios do sol. Ouviam-se tinir nas pedras os
saltos dos sapatos do padre. Passavam os trabalhadores para as suas
obrigaes; o padeiro com o saco s costas; a lavadeira, em caminho da
fonte, com a trouxa de roupa suja equilibrada na cabea; pretas-minas
apregoavam Mingau de milho!; os escravos desciam para o aougue com a
cesta das compras enfiada no brao; das quintas chegavam os vendedores
de hortalias, com os seus tabuleiros acumulados de folhas e legumes. E
todos cumprimentavam respeitosamente o cnego, e ele a todos respondia:
Viva! Algumas crianas, em caminho da escola, iam, de bon na mo,
beijar-lhe o anel.
- Voc de que ele j est  nossa espera?...
-  natural! respondeu Manuel.
- No tenha medo!  muito cedo ainda - e consultou o relgio. - Podemos
ir mais devagar. Ele s chegar daqui a uma hora. Ainda no so sete.
- Estou impaciente por v-lo pelas costas...
- No tardar muito. E a pequena, como ficou?
- Assim; menos maada do que eu esperava... E que aquilo passou-lhe.
- E o outro?
- O Dias?
- Sim.
- Por ora... nada.
- H de chegar! h de chegar!... afirmou o cnego ar de experincia.
Labor improbus omnia vincit!...
- Como?
- Aquilo e um marido que convm  Anica!...
Assim conversando, ao lado um do outro, acharam-se na rampa de Palcio
Ainda pouca gente l havia.
- Um bote, patrozinho! exclamou um rampeiro, aprumando-se defronte de
Manuel e descobrindo a cabea com arremesso.
- Espere, deixe ver se est o Z Isca, que  fregus.
O catraieiro afastou-se lentamente, jogando o corpo, no seu andar de
pernas abertas. Os dois desceram ao cais. Apareceu o Isca, e
contratou-se a viagem.
- Patro, podemos ir?
- Deixe vir o doutor.  preciso esper-lo.
O padre observou que tinha ido cedo demais, enquanto Manuel fazia SS no
cho com a biqueira do guarda-sol.
- Homem! este vapor assim mesmo fez desta vez uma viagenzinha bem
boa!... disse o primeiro, provocando palestra.
- Quinze dias.
- E ento?... quando saiu de do Rio?...
- No dia dois.
- Daqui a outros quinze est por l!... calculou o cnego.
- No, leva menos! para l e muito mais favorvel a viagem... onze,
doze, treze dias e o mximo.
No fim de algum tempo aborreciam-se de esperar Manuel havia fumado j
quatro cigarros. Raimundo demorava-se
- Isto j so oito horas! quantas tem voc, compadre?
- Oito e um quarto. O rapaz com certeza descuidou-se!...  seu Manuel de
sabe que o vapor sai as dez?
- Como no? se ainda ontem  tarde lho mandei dizer!... - Ento h de
ser alguma despedida mais demorada... explicou o cnego com um risinho
velhaco. Fugit irreparabile tempus!...
- Isto vai, mas e esquentando demais, seu compadre.
E Manuel limpava e tomava a limpar o caro vermellho, estendendo pela
rampa um olhar suplicante, que parecia chamar o sobrinho.
- Vamos c para a guardamoria, aconselhou o outro, resguardando-se do sol.
Um empregado obsequioso ofereceu-lhe logo duas cadeiras.
- Vossa Senhoria por que no se sentam?... Tenham a bondade de estar a gosto...
- Obrigado, obrigado, meu amigo!
E assentaram-se impacientes.
- Vossa Senhoria vem ao bota-fora do doutor Raimundo?...
- E! Ele j desceu?
- No o vi ainda, no senhor; porem no poder tardar. Vo se fazendo
horas!...
Um assovio muito agudo deu o primeira sinal de bordo, chamando os
ltimos passageiro Manuel levantou-se logo, foi ate  porta, lambeu com
um olhar o trapiche, consultou sequioso a ladeira de Palcio: Nada!
Olhou para o relgio, o ponteiro orava pelas nove. Ora sebo!
Entendam-se l com semelhante gente!...
A rampa j se tinha enchido e j se ia esvaziando. Grupos demorados
acenavam de terra com o leno para os escaleres que fugiam; choravam com
o rosto escondido nas mos; outros abraavam-se por cortesia. Ao lado de
protestos e oferecimentos oficiais, ouviam-se frases quentes de
sinceridade, arrancadas pela dor; diziam-se ternuras; davam-se
conselhos; faziam-se carcias; expunham-se, ai, ao ar livre, em meio do
publico o amor e o desespero, como se estivessem entre famlia, no
segredo da casa. Os botes largavam com grande algazarra dos catraieiros.
Ningum mais se entendia. Os ganhadores passavam correndo, com as costas
carregadas de malas, de bas e gaiolas de papagaio. Havia grandes
encontres. Uma mulatinha escrava, gritava que nem doida, l no fim da
rampa, com os ps na gua, agitando os braos soluando, porque lhe
levavam a irm mais velha, vendida para o Rio. Os tripulantes
praguejavam; os barcos enchiam-se numa confuso, e a lanchinha do Portal
guinchava de instante a instante silvos que ensurdeciam.
E Raimundo - nada de chegar!
Pouco a pouco foram rareando os grupos. Enxugavam-se os olhos;
guardavam-se os lenos, e os amigos e parentes dos que partiam retiravam
se em magotes, com o passo frouxo, a cara congestionada na ressaca das
comoes. O empregado da policia externa do porto voltou da sua visita
ao navio. S os exportadores de escravos permaneciam encostados ao
porto do cais, para ver a ltima baforada do monstro a que confiavam um
bom carregamento de negros.
A rampa recaiu afinal no seu habitual sossego, e Raimundo nada de
aparecer.
Manuel suava.
- E esta?! perguntou furioso ao cnego. O que me diz desta, seu
compadre?!
O cnego no respondeu. Cismava.
Nisto, chegou uma carruagem, a rodar vertiginosamente. Os que esperavam
Raimundo acudiram, de pescoo estirado.
- Deve ser ele!... aventou o cnego.
- Diabo! rosnou Manuel, ao ver saltar um homem e entrar lpido na
guardamoria.
No era Raimundo.
O vapor chamava, insistia com os seus guinchos impacientes e sibilantes.
O recm-chegado arrastou uma pequena mala para a rua e entregou-a ao
primeiro catraieiro, que pulou de uma nuvem deles.
- Avia, rapaz! Pega da - E mostrava os outros volumes. - Ligeiro!
Ligeiro!
O homem do bote atirou com a bagagem num escaler, gritando para um
moleque que o ajudava:
- Anda! mexe-te! seno arriscamos a no alcanar o vapor!
Estas ultimas palavras acabaram de pr Manuel fora de si. A pobre
criatura suava como o fundo de um prato de sopa.
- E esta, seu compadre?! E esta?! O que me diz desta?!
O cnego no dava palavra, fazia consideraes ntimos sorrindo
amargamente  superfcie dos lbios.
- Ora! ora! ora! - E o negociante passeava a grandes pernadas na
guardamoria. Ora! ora, senhores! Esta s a mim!
O cnego bateu com o chapu-de-sol no cho.
- Astutos astu non capitur!
Os empregados da guardamoria, vestidos de farda, e os curiosos
desocupados, que ali estavam por distrao, faziam perguntas a Manuel a
respeito de Raimundo, satisfeitos com aquele episdio prometedor de
escndalo.
Arriscavam-se j os comentrios e as opinies.
- Homem, dizia um. Ele, c pra nos, nunca me pareceu grande coisa!...
- Eu tambm, acrescentava outro, a falar verdade, nunca pude tragar
aquele cara de mscara!...
- Pois eu c sabia que ele no havia de ir!
- Nem ir mais! Pilhou-se aqui, adeus!
- Mas que grande patife! Sim senhor!
- Ora! ora, que filho da me! resmungava Manuel, a dar voltas no ar com
o seu imenso chapu-de-sol.
Mas todos correram para a porta, porque uma nova carruagem puxada com
sofreguido encheu de tropel a Rua do Trapiche.
 o tipo com certeza! bradou um sujeito. A bons horas!
Fez-se no grupo um silncio ansioso. A sege estacou em frente 
guardamoria. Mas ainda desta vez no era Raimundo.
CAPTULO 15
O paquete havia entrado, na vspera, s duas horas da tarde, fundeando
com um tiro, a que todo o litoral da cidade respondeu com um grito
alegre de chegou vapor! e, desde esse momento, Ana Rosa possura-se de
um sobressalto constante que a punha enferma; sabia que nele se iria
Raimundo, para sempre. Raimundo, que ela tanto amara e tanto
desejara!... Todavia, era preciso deix-lo partir, sem uma queixa, sem
Uma recriminao, porque todos, at o prprio ingrato, assim o
entendiam!... E que loucura de sua parte estar ainda a pensar nessas
coisas!... Pois j no estava porventura tudo acabado?... para que ento
mortificar-se ainda com semelhante doidice?...
No obstante, preferia perdoar-lhe tudo, antes que ele se partisse para
nunca mais voltar. Passou uma noite horrvel  procura de um motivo, um
pretexto qualquer para absolver o amante, sentia Uma irresistvel
vontade de fazer de si uma vitima resignada capaz de comover o corao
menos humano. J no o queria; no contava com ele para mais nada, por
Deus que no contava! mas desejava v-lo arrependido de tamanha
ingratido humilhado. triste padecendo por faz-la sofrer daquele modo e
confessando as suas culpas e a sua crueldade.
- Oh! se ele me tivesse dado coragem!... monologava a msera, o que eu
no faria?... porque o amava muito! muito! Sim!  preciso confessar que
o amava loucamente!... Mas aquele silncio... Silncio? Que digo eu?...
Desprezo! aquele desprezo insultuoso por mim, que era toda sua,
colocou-o abaixo dos outros homens! Pois ento ele to nobre to leal
com todos, devia proceder assim comigo?... Abandonar-me em semelhante
ocasio, quando sabia perfeitamente que eu precisava, mais do que nunca,
da sua energia e da sua firmeza?... Desconfiaria de que no o amava?
No! falei-lhe com tanta franqueza... Ah! e ele sabe perfeitamente que
no se pode fingir o que lhe disse, o que chorei! Sim, tinha plena
certeza, o miservel! o que lhe faltava era amor! Nunca me estimou
sequer. Ou pensaria ele que eu seria capaz como as outras de sacrificar
meu corao aos preconceitos sociais?... Mas, ento, por que no me
falou com franqueza?... no me escreveu ao menos?.. no me disse que
tambm sofria e no me deu animo?... Porque, juro, tivesse-o eu,
possusse-o s meu, como marido, como escravo, como senhor, a tudo mais
desprezaria! Juro que desprezada! Que me importava l o resto?! e o que
eu no seria capaz de fazer por aquele ingrato, aquele homem mau e
orgulhoso?!
E Ana Rosa soluava, sem conseguir conciliar o sono.
s seis da manh estava de p e vestida no seu quarto. Manuel tinha
saldo a ir buscar o cnego para o embarque de Raimundo. Maria Barbara,
ainda de rede, preparava os seus cachos de seda, mirando-se num espelho,
que a Brgida segurava com ambas as mos, ajoelhada defronte dela.
Havia em toda a casa o triste constrangimento dos dias de enterro. Ana
Rosa, ao aparecer na varanda, trazia os olhos muito pisados e a cor
desbotada, um ar geral de fadiga espalhado por todo o corpo e duas
rosetas de febre nas faces.
Serviram-lhe uma canequinha de caf.
- Onde esta vov? perguntou ela com a voz fraca.
- Esta l pra dentro respondeu o moleque cruzando os braos.
- Olha, Benedito! dize-lhe que... Est bom no lhe digas coisa alguma...
E, arrastando vagarosamente a cauda do seu vestido de cambraia e, dando
as suas tranas castanhas, pesadas e fartas ondulaes de cobra
preguiosa, ia voltar, toda irresoluta, para o quarto, quando se deteve
com medo de ficar l dentro sozinha com a impetuosidade do seu amor e a
feminilidade da sua razo. Agora causava-lhe terror o isolamento;
receava que lhe faltasse coragem para acabar decentemente com aquilo;
desfalecera-lhe de todo a energia, que ela afetara ate a; ao contrrio
da vspera, precisava naquele momento ouvir dizer muito mal de Raimundo,
para poder consentir em perd-lo, sem ficar com o corao inteiramente
despedaado. Compreendia que precisava de algum que a convencesse das
mas qualidades de semelhante impostor, algum que a persuadisse, por uma
vez, de que o miservel nunca a merecera, de que de fora sempre um
indigno; algum que a obrigasse a detest-lo com desprezo, como a um
ente nojento e venenoso; precisava afinal de uma alma caridosa, que lhe
arrancasse de dentro,  pura fora, aquele amor, como o medico arranca
uma criana a feno.
E no entanto, por mais alto que reclamassem as circunstncias e por mais
forte que gritasse o raciocnio, seu corao s queria perdoar, e atrair
o seu amado e dizer-lhe francamente que, apesar de tudo, o estremecia
ainda como sempre, mais que nunca! A realidade estava ali a exigir em
honra do seu orgulho, que tudo aquilo se acabasse sem um protesto por
parte dela; a exigir que Raimundo partisse, que se fosse por uma vez e
que Ana Rosa ficasse tranqila, ao abrigo de seu pai, mas uma voz
chorava-lhe dentro, uma voz fraca de rfo desamparado, de criancinha
sem me, a suplicar-lhe em segredo, com medo, que no estrangulassem
aquele primeiro amor, que era a melhor coisa de toda a sua vida. E esses
vagidos, to fracos na aparncia, suplantavam a voz grossa e terrvel da
razo. Oh! era preciso ouvir muitas e muitas verdades contra aquele
ingrato, para suportar tamanha provao sem sucumbir! Era preciso que
uma lgica de ferro em brasa a convencesse de que aquele homem mau nunca
a amara e nunca a merecera!
Mandou o escravo chamar a av. Benedito foi ter com Maria Brbara; e a
moa ficou s na varanda, encostada  ombreira de uma porta a conter e
reprimir nos soluos os mpetos dos seus desejos violentados, como se
sofreasse um bando de lees feridos.
Um tropel de passos rpidos, que vinham da escada, sobressaltou-a, ia
fugir, mas Raimundo, aparecendo de improviso, suplicou-lhe com a voz
tomada pela comoo, que o escutasse.
Ana Rosa ficou esttica.
- No nos veremos mais, nunca mais, balbuciou o moo, empalidecendo. O
vapor sai daqui a poucas horas. L essa carta, depois que eu tiver
partido. Adeus.
Entregou-lhe uma carta e, sentindo que lhe fugia de todo o animo, ia a
descer, muito confuso, quando se lembrou de Maria Brbara. Perguntou por
ela, que acudiu logo, e ele despediu-se, sem saber o que dizia,
gaguejando. Ana Rosa, defronte de ambos, conservava-se imvel parecia
estonteada, nem dava uma palavra, no respondia, no apresentava uma
objeo.
- Adeus, repetiu Raimundo.
E tomou, trmulo, a mo que Ana Rosa tinha desamparada e mole apertou-a
nas suas com sofreguido e, sem se importar com a presena de Maria
Brbara, levou-a repetidas vezes  boca, cobrindo-a de beijos rpidos e
sequiosos. Depois desgalgou de uma s carreira a escada dando encontres
pela parede e tropeando nos degraus.
- Raimundo! gritou a moa com um gemido.
E abraou-se  av vibrando toda numa convulso de soluos.
O rapaz saiu e achou-se no meio da rua, distrado apatetado, sem saber
bem para que lado tinha de tomar. Ah! precisava ainda fazer algumas
compras... Ps-se a avi-las; nem havia tempo a perder correu s lojas.
Mas, independente da sua vontade e do seu discernimento dentro dele
alimentava-se por conta prpria, uma dbia esperana de que aquela
viagem no se realizaria; contava topar com qualquer obstculo que a
transtornasse; confiava num desses abenoados contratempos que nos
acodem muito a propsito, quando a despeito do corao, cumprimos o que
nos manda o dever. Desejava um pretexto que lhe satisfizesse a
conscincia.
Entrou em vrias casas, comprou charutos, um par de chinelas, um bon,
mas fazia tudo isto como por mera formalidade, como que para
justificar-se aos seus prprios olhos, cada vez mais abstrato sem
prestar ateno a coisa alguma. Foi ao armazm, em que mandara, logo ao
romper do dia, depositar as suas malas; contava, ao entrar a, receber a
noticia de que elas j l no estavam, que algum as havia reclamado que
algum as roubara, e esta circunstncia lhe impediria de sair por aquele
vapor; mas qual! todos os seus objetos se achavam intactos e
respeitosamente vigiados. Mandou carregar tudo para a rampa e seguiu
atrs, esperando ainda que na Agencia lhe dariam a noticia de que a
viagem fora transferida para o dia seguinte.
Pois sim!...
No havia remdio seno ir. Estava tudo pronto tudo concludo, s lhe
faltava embarcar. Despedira-se de todos a quem devia essa fineza nada
mais tinha que fazer em tenra; as suas malas estavam j a caminho do
cais - era partir!
Senha um terrvel desgosto em aproximar-se do mar, e contudo era para l
que ele se dirigia, vacilante, oprimido. Consultou o relgio, o ponteiro
marcava pouco mais de oito horas e parecia-lhe como nunca disposto a
adiantar-se. O desgraado, depois disso perdeu de todo a coragem de
pux-lo da algibeira; aquela inflexvel diminuio do tempo o torturava
profundamente. Tinha de seguir! Diabo! S lhe faltava meter-se no
escaler!... Tinha de seguir! E, da a pouco estaria a bordo, e o paquete
em breve navegando, a afastar-se, a afastar-se, sem tomar atrs!...
Tinha de seguir! isto : tinha de renunciar, para sempre a sua nica
felicidade completa - a posse de Ana Rosa! l desaparecer deix-la, para
nunca mais a ver! para nunca mais a ouvir, abra-la possu-la!
Inferno!
E,  proporo que Raimundo se aproximava da rampa sentia escorregar-lhe
das mos um tesouro precioso. Tinha medo de prosseguir, parava,
respirando alto, demorando-se, como se quisesse conservar por mais
alguns instantes a posse de um objeto querido, que depois nunca mais
seria seu, mas a razo o escoltava com um bando de raciocnios.
Caminha! caminha pra diante! gritava-lhe a maldita. E ele obedecia, de
cabea baixa, como um criminoso. Entretanto, Ana Rosa nunca se lhe
afigurou to bela, to adorvel, to completa e to lhe como naquele
momento! chegou a ter cime e a censur-la do intimo da sua dor, porque
a orgulhosa no correra ao encontro dele, para impedir aquela separao.
E ia deix-la desamparada, exposta ao amor do primeiro ambicioso que se
apresentasse, e a quem ela se daria inteira, fiel, palpitante e casta,
porque todo o seu ideal era ser me! Inferno! Inferno! Inferno!
Raimundo surpreendeu-se parado na rua, a fazer estas consideraes, como
um tonto, observado pelos transeuntes; olhou em tomo de si, e ps-se a
caminhar apressado, quase a correr, para a rampa de embarque.  medida
que se aproximava do mar, ia avultando ao seu lado o nmero de
carregadores de bagagens; pretos e pretas passavam com bas, malas de
couro e de folha-de-flandres, cestas de vime de todos os feitios, cofos
de pindoba, caixas de chapu de plo e gaiolas de pssaros. Ele
continuava a correr. Todo aquele aparato de viagem que lhe fazia mal aos
nervos. De repente, estacou defronte de um raciocnio, que lhe puxou aos
olhos um claro de esperanas: E se o Manuel no tivesse ido ao
cais?... Sim era bem possvel que ele, sempre to cheio de servio,
coitado! to ocupado, no pudesse l ir!... E seria uma dos diabos -
partir assim, sem lhe dizer adeus!... E, como em resposta  oposio de
um estranho, seu pensamento acrescentou: Oh! como no? Seria uma dos
diabos! O homem podia tomar por acinte!... supor-me ridculo!... Seria,
alm disso, uma imperdovel grosseria, uma ingratido at! Ele foi
receber-me a bordo, hospedou-me no seio da sua famlia, cercou-me sempre
de mi! obsquios!... No, no fim de contas devo-lhe muitas
obrigaes!... No  justo que agora parta sem despedir-me dele!...
Passava um cano vazio. Raimundo consultou rapidamente o relgio.
- Rua da Estrela, nmero 80, gritou ao cocheiro, atirando-se para cima
da almofada. Toda fora! Toda fora! No podemos perder um minuto!
E dentro do carro, impaciente, sentiu uma alegria nervosa, que lhe punha
em vibrao todo o corpo; enquanto a unha do remorso continuava a
esgaravunchar-lhe a conscincia. Oh! mas seria uma grande falta de
minha parte!... respondia ele  importuna. Pois eu devia sair daqui,
para sempre sem me despedir do irmo de meu pai do nico amigo que
encontrei na provncia?... juro que chego l, despeo-me e volto
incontinenti...
E a carruagem voava, soprada pela esperana de uma boa gorjeta.
Ana Rosa, quando tornou a si do espasmo em que a prostara a visita de
Raimundo, chorou copiosamente e depois encerrou-se na alcova com a
carta, que ele lhe dera. Abriu-a logo, mas sem nenhuma esperana de consolo.
Entretanto, a carta dizia:
Minha amiga,
Por mais estranho que te parea, juro que te amo ainda, loucamente mais
do que nunca, mais do que eu prprio imaginava se pudesse amar; falo-te
assim agora, com tamanha franqueza, porque esta declarao j em nada
poder prejudicar-te, visto que estarei bem longe de ti quando a leres
Para que no te arrependas de me haver escolhido por esposo e no me
crimines a mim por me ter portado silencioso e covarde, defronte da
recusa de teu pai, sabe minha querida amiga, que o pior momento da minha
pobre vida foi aquele em que vi fugir-te para sempre. Mas que fazer? -
eu nasci escravo e sou filho de uma negra. Empenhei a teu pai minha
palavra em como nunca procuraria casar contigo; bem pouco porm me
importava o compromissos que no teria eu sacrificado pelo teu amor? Ah!
mas  que essa mesma dedicao seria a tua desgraa e transformaria o
meu dolo em minha ltima a sociedade apontar-te-ia como a mulher de um
mulato e nossos descendentes teriam casta e seriam to desgraados
quanto eu! Entendi pois que, fugindo, te daria a maior prova do meu
amor. E vou, e parto, sem te levar comigo, minha esposa adorada,
estremecida companheira dos meus sonhos de ventura! Se pudesse avaliar
quanto sofro neste momento e quanto me custa a ser forte e respeitar o
meu dever; se soubesses quando me pesa a idia de deixar-te, sem
esperana de tornar a teu lado tu me abenoarias, meu amor!
E adeus. Que o destino me arraste para onde se quiser, sers sempre o
imaculado arcanjo a quem votarei meus dias; ser a minha inspirao, a
luz da minha estrada; eu serei bom, porque existes.
Adeus, Ana Rosa.
Teu escravo RAIMUNDO. 
Ao terminar a leitura, Ana Rosa levantou-se transformada. Uma enorme
revoluo se havia operado nela; como que vingava e crescia-lhe por
dentro uma nova alma, transbordante. Ah! Ele amava-me tanto e fugia com
o segredo, ingrato! Mas por que no lhe dissera logo tudo aquilo com
franqueza?... E saltava pelo quarto como uma criana, a rir, com os
olhos arrasados de gua. Foi ao espelho, sorriu para a sua figura
abatida, endireitou estouvadamente o penteado, bateu palmas e soltou uma
risada. Mas, de improviso, lembrou-se de que o vapor podia ter j
partido, estremeceu com um sobressalto, o corao palpitou-lhe forte,
com um aneurisma prestes a rebentar.
Correu  varanda.
- Benedito! Benedito!
 senhores! Onde estaria aquele moleque?...
- Que vossemec queria? perguntou Brgida, com a voz muito tranqila e
compassada.
- A que horas sai o vapor? perguntou a moa sem tomar flego.
- Senhora?
- Quando sai o vapor?!
- Que vapor, sinh?...
- Diabo! O vapor do Sul!
- H! J saiu, sinh!
- Hein?! o qu? No  possvel, meu Deus!
E, tremendo por uma certeza horrvel, correu ao quarto da av.
- Sabe se j saiu o vapor, vov?
- Pergunta a teu pai.
Ana Rosa sentiu uma impacincia medonha, infernal; desceu os primeiros
degraus da escada do corredor disposta a ir ao armazm, mas voltou logo,
foi  cozinha e encarregou a Brgida de saber de Manuel se o vapor havia
largado J.
A criada tornou, dizendo, muito descansada, que sinh tinha saldo de
manhzinha cedo, para o bota-fora de nh Mundico.
- Vai para o diabo! gritou Ana Rosa colrica.
E correu  janela do seu quarto, escancarou-a precipitadamente. O
sossego da Rua da Estrela entorpeceu-a, como o efeito de um jato de gua
fria sobre um doente de febre.
Depois, veio-lhe a reao; teve um apetite nervoso de gritar, morder,
agatanhar. Pensou que ia ter um histrico; saiu da janela, para ficar
mais  vontade; deu fortes pancadas frenticas na cabea. E sentia uma
raiva mortal por tudo e por todos, pelos parentes, pela casa paterna,
pela sociedade, pelas amigas, pelo padrinho; e assistiu-lhe, abrupto,
uma fora varonil, um animo estranho, um querer dspota; pensou com
prazer numa responsabilidade; desejou a vida com todos os seus
trabalhos, com todos os seus espinhos e com todos os seus encantos
carnais; sentiu uma necessidade imperiosa, absoluta, de entender-se com
Raimundo, de perdoar-lhe tudo com beijos ardentes, com carcias doidas,
selvagens, agarrar-se a ele, rangindo os dentes, e dizer-lhe cara a
cara: Casa-te comigo! Seja l como for! No te importes com o resto!
Aqui me tens! Anda! Faze de mim o que quiserem Sou toda tua! Dispe do
que  teu!
Nisto, rodou uma carruagem na Rua da Estrela.
Ana Rosa correu  janela, assustada, palpitante. O carro parou  porta
de Manuel; a moa estremeceu de medo e de esperana, e, toda excitada,
convulsa, doida, viu saltar Raimundo.
- Suba! suba pra c! disse-lhe ela, j no corredor. Suba por amor de
Deus!
Raimundo sentiu as mos frias da moa prenderem as suas. Gaguejou.
- Seu pai? No quis partir, sem...
- Entre, entre para c. Venha! Preciso falar-lhe.
E Ana Rosa puxou-o violentamente. O rapaz deixou-se arrastar; supunha
encontrar-se com Manuel.
- Mas... balbuciava ele confuso, reparando, todo trmulo, que entrava no
gabinete de sua prima. Perdo, minha senhora, porm seu pai onde
est?... Vinha pedir-lhe as suas ordene...
Ana Rosa correu  porta, fechou-a bruscamente, e atirou-se ao pescoo de
Raimundo.
- No partirs, ouviste? No hs de partir!
- Mas...
- No quero! Disseste que me amas e eu serei tua esposa, haja o que
houver!
Ah! se fosse possvel!...
- E por que no? Que tenho eu com o preconceito dos outros? que culpa
tenho eu de te amar? S posso ser tua mulher, de ningum mais! Quem
mandou a papai no atender ao teu pedido? Tenho culpa de que no te
compreendam? Tenho culpa de que minha felicidade dependa s de ti? Ou,
quem sabe, Raimundo, se s um impostor e nunca sentiste nada por mim?...
- Antes assim fosse, juro-te que o desejava! Mas supes que eu seria
capaz porventura de sacrificar-te ao meu amor? que eu seria capaz de
condenar-te ao dio de teu pai, ao desprezo dos teus amigos e aos
comentrios ridculos desta provncia estpida?... No! deixa-me ir,
ridculos desta provncia estpida?... No! deixa-me ir, Ana Rosa! 
muito melhor que eu v!... E tu, minha estrela querida, fica, fica
tranqila ao lado de tua famlia; segue o teu caminho honesto; s
virtuosa sers a casta mulher de um branco que te merea... No penses
mais em mim. Adeus.
E Raimundo procurava arrancar-se das mos de Ana Rosa. Ela
prendeu-se-lhe ao pescoo, e, com a cabea derreada para trs, os
cabelos soltos e dependurados, perguntou-lhe, cravando-lhe de perto o
olhar:
- O que h de sincero na tua carta?
- Tudo, meu amor, mas por que a leste antes de eu ter partido?
Ento, sou tua! Olha, saiamos daqui! j! fujamos! Leva-me para onde
quiseres! Fazer de mim o que entenderes!
E deixou cair o rosto sobre o peito dele, e abraou - o estreitamente
Raimundo estava imvel, medroso de sucumbir, entalado numa profunda
comoo.
- Decide! exigiu ela, soltando-o.
Ele no respondeu. Ofegava. - Pois olha, se no quiseres fugir, farei
acreditar a meu pai que s um infame! Tens medo, no  verdade? Um pois
bem, eu lhe direi tudo que me vier  cabea chamarei sobre ti todo o
dio e toda a responsabilidade, meu amor! porque tu s um homem mau,
Raimundo, e meu pai acreditara facilmente que abusaste da hospitalidade
que ele te deu. s um miservel. Sai daqui.
Raimundo precipitou-se contra a porta. Ana Rosa atirou-se-lhe de novo ao
pescoo soluando.
- Perdoa meu amor! eu no, sei o que estou dizendo! Desculpa-me tudo
isto, meu querido, meu senhor! Reconheo que s o melhor dos homens mas
no partas, eu te suplico pelo que mais amas! Sei ,que  o teu orgulho
que me faz mau; tens toda razo, mas no me abandoes! Eu morreria,
Raimundo, porque te amo muito, muito! e ns mulheres, no temos como tu
tens, outras ambies alm do amor da pessoa que idolatramos! Bem vs!
Eu sacrifico tudo por ti; mas no partas, tem piedade! Sacrifica tambm
alguma coisa por mim! no sejas egosta! no fujas!  o orgulho! mas que
nos importa os outros, procuro agradar! Anda! Leva-me contigo! Eu
desprezarei tudo; mas preciso ser tua, Raimundo, preciso pertencer-te
exclusivamente.
E Ana Rosa caiu de joelhos, sem se desgarrar do corpo dele.
-  uma escrava que chora a teus ps!  uma desgraada que precisa de
tua compaixo! Sou tua! aqui me tens, meu senhor, ama-me! No me
abandones!
E soluou, empalmado o rosto com as mos. Raimundo, procurando ergu-la,
vergava-se todo sobre ela. E o contato sensual daquela carne branca dos
braos e do colo da rapariga, e o sarrafaar daqueles lbios em brasa, e
a proibio de tocar em todo aquele tesouro proibido, fustigavam-lhe o
sangue e punham-lhe a cabea a rodar, numa vertigem.
- Meu Deus!  Ana Rosa, no chores! Levanta-te pelo amor de Deus!
Ana Rosa continuava a chorar, e um tremor nervoso percorria o corpo
inteiro de Raimundo. Foi nessa ocasio que a lanchinha do Portal soltou
o seu primeiro sibilo, chamando os passageiros retardados; e aquele
grito, penetrante impertinente chegou aos ouvidos do rapaz, ali, na doce
recluso daquele quarto, como uma nota destacado do coro de imprecaes
com o pblico maranhense, formigando l fora nas ruas, aplaudia a sua
retirada da provncia. Ele um relance mediu a situao, calculou a
conseqncias ridculas da sua franqueza, lembrou-se das palavras de
Manuel, e afinal o seu orgulho rebentou com impetuosidade de um
temporal.
- No, gritou, repelindo bruscamente a moa.
Precipitou-se para a sada.
Ana Rosa caiu a meio, amparando-se numa das mos, mas ergueu-se logo,
tornando-lhe a passagem. Em com um gesto altivo, atravessou-se contra a
porta, de braos abertos, sombraceira, nobre, os punhos cerrados. Estava
lvida e desgrenhada; a boca contraa-se-lhe numa dolorosa expresso de
sacrifcio e desespero. Arfavam-lhe as narinas e o seu olhar fulgurava
terrvel e cheio de ameaa.
Raimundo conservou-se um instante imvel e perplexo defronte daquela
inesperada energia.
- No sairs porque eu no quero! disse ela com a voz estalada e surda.
No sairs daqui, do meu quarto, enquanto no estivermos de todo
comprometidos!
- Oh!
Houve ento um silncio angustioso para ambos. Raimundo abaixou os olhos
e ps-se a meditar, muito aflito. Parecia arrependido e humilhado pela
sua fraqueza. Por que voltara?... Ana Rosa foi ter com ele e
passou-lhe meigamente o brao pelas costas. Era outra vez a mesquinha
rola medrosa e comovida.
- Tudo que de bom eu podia fazer para casar contigo, bem sabes que j o
fiz... murmurou ela, agora sem animo de encar-lo. Papai no consentiu,
na esperana de dar-me a outro... E eu no me sujeito a isso!... Hei de
esgotar at o ltimo recurso para continuar a ser s tua, meu amigo! E
com essa resoluo que te prendo a meu lado!... Pode ser que isso parea
mau e desonesto, mas juro-te que nunca defendi tanto o meu pudor e a
minha virtude como neste momento! Para salvar-me tenho por fora de
fazer-me tua esposa, e s h um meio de conseguir que o permitam, 
tomando-me desvirtuada aos olhos de todos e s aos teus me conservando
casta e pura...
E abaixou as plpebras, toda ela afogada em pejo. Raimundo no fez o
menor movimento, nem deu uma palavra.
Ana Rosa abriu a soluar.
- Agora... podes ir quando quiseres... acrescentou, desligando-se dele.
Agora podes abandonar-me para sempre... fico com a minha conscincia
tranqila, porque lancei mos de todos os recursos para casar contigo...
Vai-te! Nunca pensei  que, nesta ltima provao, ainda o covarde
fosses tu! Vai-te embora por uma vez! Deixa-me! - E soluou forte. - Se
mais tarde hei de arrepender-me,  melhor mesmo que se acabe desde j
com isto! Eu sou uma infeliz! uma desgraada!
E chorava.
Raimundo puxou-a carinhosamente para junto dele; afagou-a, chamando-lhe
a cabea para seu peito.
- No chores, disse-lhe. No te mortifiques desse modo...
- Mas no  assim?... queixava-se a msera, com o rosto escondido no
colo do moo. Por uma outra que no te merecesse mais, farias tudo!...
Tola fui eu em confessar que te amo tanto, ingrato!... Tu no merecias a
metade do que fiz por ti! s um fingido!
E soluava, mais e mais, como uma criana magoada. O rapaz abraou-se
com ela e beijou-a repetidas vezes, em silncio.
- No chores, minha flor... segredou-lhe afinal. Tens toda a razo...
perdoa-me se fui grosseiro contigo! Mas que queres? todos ns temos
orgulho, e a minha posio ao teu lado era to falsa!... Acredita que
ningum te amar mais do que te amo e te desejo! Se soubesses, porem,
quanto custa ouvir cara a cara: No lhe dou minha filha, porque o
senhor  indigno dela, o senhor  filho de uma escrava! Se me
dissessem:  porque  pobre! que diabo! - eu trabalharia! se me
dissessem: t porque no tem uma posio social! juro-te que a
conquistaria, fosse como fosse! P porque  um infame! um ladro! um
miservel! eu me comprometeria a fazer de mim o melhor modelo dos
homens de bem! Mas um ex-escravo, um filho de negra, um - mulato! - E,
como hei de transformar todo meu sangue, gota por gota? como hei de
apagar a minha histria da lembrana de toda esta gente que me
detesta?... Bem vs, meu amor, tenho posio definida, no me faltam
recursos para viver em qualquer parte, jamais pratiquei a mnima
desairosa, que me envergonhe; e no entanto nunca serei feliz porque s
tu es a minha felicidade e eu nada devo esperar de ti! Ah, se soubesses,
Ana Rosa, quanto doem estas verdades... perdoarias todo o meu orgulho,
porque o orgulho de cada homem de bem esta sempre na razo do desprezo
que lhe votam!
Ana Rosa bebeu-lhe, boca a boca estas ltimas palavras.
- Entretanto... prosseguiu ele, vencido de todo, j no tenho coragem
para deixar-te!... E abraavam-se. - Como poderei, de hoje em diante,
viver sem ti, minha amiga minha esposa, minha vida?... Dize! fala!
aconselha-me por piedade, porque eu j no sei pensar!...
Um novo assobio de bordo veio interromp-lo.
- No ouves, Ana Rosa?... O vapor est chamando...
- Deixa-o ir meu bem! tu ficas...
E os dois estreitaram-se, fechados nos braos um do outro, unidos os
lbios em mudo e nupcial delrio de um primeiro amor.
No obstante Manuel e o cnego ainda se deixavam ficar na guardamoria,
depois da decepo da ltima carruagem.
- Cachorro! exclamava o negociante fora de si, a passear de um para
outro lado, ameaando o teto com o seu enorme guarda-chuva. Grandssimo
tratante! E parando defronte de Diogo: Caoou conosco, seu compadre!
caoou conosco, o desavergonhado! Tambm, que faa cruz, em casa no me
pe mais os ps! sou eu quem o diz! Nunca mais!
Ouviram-se trs silvos repetidos.
-  o ltimo sinal. . disse o empregado da guardamoria. O vapor vai
largar. Suspendeu a escada.
Manuel, com as mos cruzadas atrs, o chapu descado para a nuca, o
corpo a bambolear sobre as suas perninhas curtas, interrogou, muito
vermelho, o cnego:
- E o que me diz desta, compadre?.. Ento que me diz! desta?!... Ora j
se viu?...
- Deixe-se disso!... repreendeu o outro. E encaminhou-se para a porta,
abriu o seu guarda-sol de dezoito varetas, e acrescentou, disposto a
retirar-se:
- Vamos indo. Meus senhores, vivam! obrigado.
Puseram-se os dois a subir vagarosamente a rampa. - Ora, meta-se um
homem com semelhante gente!... resmungava o negociante, batendo com a
biqueira do chapu-de-chuva nas pedras da calada. Traste! Peralta! Mas
tambm, pode chegar-se para quem quiser!... comigo no conte mais nada!
Canalha!
E continuou a praguejar, numa verbosidade de clera. O cnego
interrompeu-o no fim de algum tempo:
- Suaviter in modo,fortiter in re!...
O outro calou-se logo, e prestou-lhe toda a ateno; conversaram uma boa
hora, em voz baixa, parados a uma esquina do Largo do Palcio,
combinando sobre o que melhor convinha fazer.
- Adeus, disse afinal o cnego. No se esquea, hein? E observe bem tudo
o que ela responda
- Voc aparece por l?
- Logo depois do almoo.
E, ambos cabisbaixos, cada qual tomou o seu rumo.
Comentava-se j o fato na Praa do Comrcio e na Rua de Nazar.
Manuel chegou a casa e foi atravessando o armazm.
- O doutor Raimundo esteve ai em cima? perguntou ele ao Cordeiro.
- Esteve, sim senhor. porm j saiu. Metia-se no carro, justamente
quando eu chegava da cobrana.
- H muito tempo?
- H coisa de meia hora pouco mais ou menos.
- Vocs j almoaram?
- J, sim senhor.
- Bem! Diga ao seu Dias, quando vier, que no se esquea de tirar
aquelas contas correntes do interior; e voc v  alfndega e veja se no
manifesto do Braganza esto aqueles fardos de estopa, nmero 105 a 110.
Olhe, tome o conhecimento.
E passou-lhe um quarto de papel azulado, impresso. Depois ia subir, mas
voltou ainda.
- Ah!  verdade! seu Vila Rica!
- Senhor!
- O pequeno est a?
- No senhor, foi ao tesouro.
- Aviaram-se j aquelas encomendas de Caxias?
- J esto duas caixas de chitas arrumadas. O vapor s sai depois de
amanh.
- Bom..,
E Manuel pensou um pouco.
- Ah! Sabe se seu Cordeiro despachou os fsforos?
- Ainda no senhor, porque o conferente , que est nos despachos sobre
gua, no os pde fazer ontem.
- Bem, diga ao Cordeiro que veja se acaba com isso hoje.
E o negociante subiu afinal.
A varanda estava deserta. Maria Brbara rezava no seu quarto,
agradecendo aa Deus e aos santos a suposta partida de Raimundo. Manuel
tomou seu clice de conhaque ao aparador, e dirigiu-se depois para a
cozinha.
- Que  de Anica?
- Est no quarto, deitada.
- Doente?
- Sim senhor, com febre.
- Que tem ela?
- No sei, no senhor...
Manuel bateu  porta da alcova de Ana Rosa. Veio ela mesma abrir, muito
plida, e voltou logo, para se meter de novo na rede.
- Que tens tu, Anica?
- No estava boa!... Nervoso!... Mas no encarava com o pai, e suspiros
estalavam-lhe na garganta
Manuel assentou-se pesadamente nu na cadeira, junto dela limpando com o
leno o rosto, o pescoo e a cabea.
- Recomendaes do Mundico! disse no fim de um silncio,
disfaradamente.
- Como?! exclamou Ana Rosa, soerguendo-se em sobressalto e ferrando no
pai o mais estranho e doloroso olhar
- Foi-se! explicou Manuel O vapor deve estar saindo neste momento. L
ficou ele a bordo! Coitado! talvez seja feliz na Corte!...
- Miservel bradou a moa, com um grito desesperado
E deixou-se cair para trs, na rede, a estrebuchar.
- Bonito! Ana Rosa! Ento que  isto, minha filha?.. gritava Manuel,
procurando conter lhe os movimentos crnicos. Dona Maria Brbara!
Brgida! Mnica!
O quarto encheu-se. Escancararam-se a porta e as janelas; vieram os sais
e o algodo queimado. Mas, s depois de grandes lutas, a histrica
quebrou de foras e ps-se a soluar, extenuada e arquejante. Manuel,
todo aflito, no sossegava, de um para outro lado, na ponta dos ps,
falando em voz discreta, indo de vez em quando ao corredor corredor se o
cnego j tinha chegado, e voltando sempre a coar a nuca, o que nele
indicava extrema perplexidade,
- Vossemec j quer almoar? perguntou-lhe a Brgida,
- Vai para o diabo!
O cnego chegou afina, ao meio-dia, com um ar muito tranqilo de boa
digesto; o palito ao canto da boca
- Ento?... informou-se ele de Manuel, levando-o misteriosamente para um
canto da varanda.
- Foi o diabo... seu compadre! A pequena, logo que ouviu a peta, caiu-me
com um ataque; e agora o vers! gritou e estrebuchou por um ror de
tempo, at que lhe vieram os soluos! Um inferno!
- E agora? Como est ela?
- Mais sossegadinha, porm suponho que vai ter febre... Eu no quis
chamar o medico, sem falar primeiro com voc...
- Fez bem.
E o cnego recolheu-se a meditar.
- Com os demos!... resmungou por fim. A coisa estava muito mais
adiantada do que eu fazia...
- E agora?
Agora,  dizer-lhe a verdade!... O que eu queria era saber em que p
estava a questo... Ela se supe trada e, para supor tal,  preciso que
tenha concertado algum plano com o melro... E eis justamente o que
convm destruir quanto antes!...
E, depois de uma pausa:
- Aquela indiferena pela retirada de Raimundo era devida  certeza do
contrrio...
Calou-se e perguntou da a um instante:
- Ela acreditou logo no que voc disse?
- Logo, logo! gritou: Miservel! e zs! caiu com o ataque!
- E singular...
- O qu?
- Ter acreditado to facilmente... mas, enfim... conte-se-lhe a
verdade!. ..
- Ento, espere um instantinho, que...
- No senhor, venha c, compadre, vou eu; a mim talvez que a pequena
diga tudo com mais franqueza.
E, inspirado por uma idia, voltou-se para Manuel:
- Olhe! voc, o melhor  fingir que no sabe de coisa alguma...
compreende?
- Como assim?
- No se d por achado... finja que ests deveras persuadido da partida
de Raimundo.
- Para qu?
-  c uma coisa...
E o cnego, revestindo um ar consolador e respeitoso, entrou, com passos
macios, no aposento de Ana Rosa.
A crise tinha cessado de todo; a doente soluava baixinho, com o rosto
escondido entre dois travesseiros. A boa Mnica, ajoelhada aos ps dela,
vigiava-a com a docilidade de um co. Dona Maria Brbara assentada perto
da rede, exprobrava a neta, a meia voz, aquele mal cabido pesar por um
fato que nada tinha de lamentvel.
- Ento, minha afilhada que e isso?... perguntou o padre, passando
carinhosamente a mo pela cabea da rapariga.
Ela no se voltou; continuava a chorar, inconsolvel, assoando de espao
a espao o narizinho, agora vermelho do esforo do pranto. No podia
falar, os soluos secos e muito suspirados, repetiam-se quase sem
intervalo. Com um sinal o cnego afastou Mana Brbara e Mnica, e,
chegando os seus lbios finos ao ouvido da afilhada, derramou nele estas
palavras, doces e untuosas, como se fossem ungidas de santo leo:
- Tranqilize-se... Ele no partiu... est a... Sossegue...
- Como?
E Ana Rosa voltou-se logo.
- No faa espalhafato... Convm que seu pai no saiba de coisa
alguma... Descanse! sossegue! Raimundo no partiu, ficou!
- Vossemec est me enganando dindinho!...
- Com que interesse, minha desconfiada?
- No sei mas...
E soluou ainda.
- Est bom! no chore e ona o que lhe vou dizer: Saindo daqui, procuro
o rapaz e fao-o ausentar-se por algum tempo, at que as coisas voltem
de novo aos seus eixos; mais tarde ele se mostrar, e ento ns
trataremos de tudo pelo melhor... Nec semper lilia florent!...
- E papai?
- Deixe-o por minha conta! fie-se inteiramente em mim! Mas precisamos
ter uma conferncia completa, sozinhos, num lugar seguro, onde possamos
falar  vontade. Para ajud-los preciso pr-me bem a par do que h!
entregue-se pois s minhas mos e ver que tudo se arranja com a divina
proteo de Deus!... Nada de desesperos! nada de precipitaes!...
Calma, minha filha! sem calma nada se faz que preste!...
E, depois de uma meiguice: - Olhe, venha um dia  S, confessar-se
comigo... Sua av encomendou-me uma missa cantada. No pode haver melhor
ocasio... Confesso-a depois da missa. Est dito?
- Mas, para qu, dindinho?...
- Para qu?...  boa! para poder ajud-la, minha afilhada!...
- Ora...
- No? pois ento l se avenham vocs dois, mas duvido muito que
consigam alguma coisa!... Se tem confiana em seu padrinho, v  missa,
confesse-se, e prometo que ficar tudo arranjado!
Ana Rosa tinha j a fisionomia expansiva, sentia vontade at de abraar
o cnego; aquele bom anjo que lhe trouxera to agradvel notcia.
- Mas no me engane, dindinho!... Diga srio! ele no foi mesmo?
- J lhe disse que no, oh! Tranqilize-se por esse lado e venha comigo
 igreja! Tudo se acomodar a seu gosto! - Jure!
- Ora, que exigncia!... que criancice!...
- Ento no vou.
- Est bom, juro.
E o cnego beijou os indicadores, traados em forma de cruz sobre seus
lbios.
- E agora? est satisfeita?
- Agora sim.
- E vai  confisso?
- Vou.
Ainda bem!
CAPTULO 16
A casa particular de Manuel Pescada tinha, pelo menos em aparncia,
recaido no seu primitivo estado de paz e esquecimento. Tanto ai como
pela cidade, j bem pouco se falava de Raimundo.
Ele, ao sair do quarto da amante havia reformado seu programa de vida.
No mesmo dia partiu para Rosrio; foi visitar a me, na esperana de
traz-la em sua companhia para a capita e viver ao lado dela, mas
Domingas no se deixou apanhar e o infeliz teve de voltar s.
Instalou-se no Caminho Grande, numa casinha velha, escondido como um
criminoso de morte. Da com muita dificuldade, escreveu uma carta a Ana
Rosa, confiando-lhe os seus projetos; a carta terminava assim: O melhor
 deixarmos que tudo serene completamente e que de todo se esqueam de
ns, e ento eu te aparecerei na noite que combinarmos e poremos em
prtica o plano exposto no comeo desta. Quanto a teu pai, s me
entenderei com ele, no dia em que esse teimoso estiver resolvido a
perdoar o genro e a filha. Adeus. No desanimes e tem plena confiana no
teu noivo extremoso. - Raimundo.
Com essa missiva Ana Rosa tranqilizou-se tanto, que procurou dissuadir
o cnego da idia da tal confisso. No fim de contas, se era pecadora,
fora-o premeditadamente e no se arrependia. A conscincia dizia-lhe que
o casamento resgatava a sua falta. Dindinho, por conseguinte, que
tivesse pacincia, ela no sentia necessidade de perdo!...
Raciocinando deste modo, falou com franqueza ao padre e retirou a
promessa que lhe fizera; mas o reverendo repontou, ameaando-a com uma
denncia a Manuel. A rapariga chegou a suspeitar que o padrinho sabia de
tudo, e amedrontou-se.
- Mas, dindinho, vossemec embirrou com este negcio da confisso!. ..
O cnego assentou os olhos no teto,  mingua de cu, e, recorrendo aos
efeitos artsticos da sua profisso, desenrolou uma prtica, que
terminava no seguinte:
- Malos tueri haud tutum No sabes porventura, pecadora, vtima inocente
de tentaes diablicas! que eu devo  minha conscincia e a Deus duplas
contas do que fao c na terra?... No sabes, minha afilhada, que todo
sacerdote caminha neste vale de lgrimas entre dois olhos perspicazes e
penetrantes, dos juizes austeros e inflexveis, um chamado Deus, e outro
Conscincia?... Um que olha de fora para dentro, e outro de dentro para
fora?... E que o segundo  o reflexo do primeiro, e que, satisfeito o
primeiro, o segundo est tambm satisfeito?... No sabes que terei um
dia de prestar contas dos meus atos mundanos, e que, percebendo agora
que uma ovelha se desgarra do rebanho e arrisca perder-se do caminho da
luz e da pureza,  de minha obrigao, como pastor, correr em socorro da
desgraada e gui-la de novo ao aprisco, ainda que se faa preciso a
violncia?... Por conseguinte, filha de Eva, vem  igreja! vem!
confessa-te ao sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo! abre tua alma de
par em par defronte dele que teu corao se fechar logo aos imundos
apetites da carne! Abraa-te, como Madalena, aos ps do representante de
Deus, at que este ltimo se compadea de ti, pecadora! Deum colenti
stat sua merces!
E o cnego ficou ainda um instante a olhar para o teto com os braos
erguidos e os olhos em branco.
- Pois bem Dindinho, pois bem! disse Ana Rosa, impressionada. E desarmou
sem cerimnia a posio exttica do padre. - Irei a tal confisso, mas
deixe-se dessas coisas e no esteja a falar desse modo, que isso me faz
mal aos nervos! Bem sabe que sou nervosa.
Ficou resolvido que a missa encomendada por Maria Brbara seria no
primeiro domingo do seguinte ms, e que Ana Rosa iria  confisso.
Mnica, sempre desvelada e extremosa por sua filha de leite, iniciara-se
nos segredos desta e, como era lavadeira, todas as vezes que ia  fonte,
dava um pulo  casa de Raimundo para trazer noticias dele a lai.
Uma noite o cnego Diogo, envolvido na sua batina de andar em casa
debruado sobre uma velha mesa de pau-santo, com os ps cruzados sobre
um surrado couro de ona, ainda do tempo do Rosrio, a cabea engolida
num trabalhado gorro de seda, primorosamente bordado pela afilhada, lia,
defronte do seu candeeiro, um grosso volume de encadernao antiga, em
cujo frontipcio estava escrito: Histria Eclesistica. Tomo undcimo.
Continuao dos sculos cristos ou Histria do Cristianismo nos seus
estabelecimentos e progresso: Que compreende desde o ano de 1700 at o
atual Pontificado de N.S.P. Pio Sexto. Traduzida do espanhol. Lisboa. Na
Tipografia Rolandina, 1807. Com a licena da mesa do desembargo do
Pao. O bom velho perdia-se numas descries enfadonhas sobre a seita
dos Pietistas, fundada nos fins do sculo 18 por Spener, cura de
Francfort, quando bateram  porta do seu gabinete trs pancadinhas
discretas e compassadas. Marcou logo o livro, com o palito com que
escarafunchava os dentes, e foi abrir.
Era o Dias. Estava cada vez mais magro e mais bilioso, porm com a
figura mascarada sempre por aquele inveterado sorriso de astuciosa
passividade.
- Venho incomod-lo, senhor cnego...
- Essa  boa!... V entrando.
E, como a visita no se animasse a falar, acrescentou depois de uma pausa:
- Mandou a carta que lhe dei?...
- J ele a tem no papo. Atirei-a eu mesmo pelas rtulas da sua janela,
na vspera do tal embarque!
- J descobriu onde ele mora presentemente?
- Ainda no consegui, no senhor, mas quer me parecer que o patife se
aninha l pras bandas do Caminho Grande.
- Olho vivo. O traste pode surgir de repente e pregar-nos alguma
partida! Olho vivo! Voc tem feito o que lhe recomendei?
- A que respeito?
- A respeito da espionagem.
- Tenho, sim senhor.
- Ento! o que j descobriu?
- Por hora nada que valha... E creia o senhor cnego que no me
descuido. Alm daquela busca que dei no dia de So Joo, no h
instantinho, que possa roubar ao servio, que no seja para dar f do
que se passa l por casa. Mas, do que tenho apanhado, s o que me disse
respeito ao negcio foi uma conversa entre a Dona Anica e a velha...
- A Brbara?
- Sim senhor.
- E ento?
-  que a pequena, depois de pedir muito  av que se compadecesse dela
e obtivesse do pai liberdade para se casar com o cabra, abriu a chorar e
a lamentar-se como uma varrida! E que era muito desgraada; que ningum
em casa a estimava; que todos s queriam contrari-la... E porque faria
isto, e porque faria aquilo!...
- Mas o que dizia ela que faria?... Ora que diabo de maneira tem voc de
contar as coisas!...
- Tolices, senhor cnego, tolices de moa... Que se matava! Ou que
fugia! que se meda a freira!... E porque o casamento pra c! e porque o
casamento pra l! Enfim, queria dizer na sua, que uma mulher nunca devia
casar obrigada! Afina!, atirou-se aos ps da av, soluando e dizendo
que, se no a deixassem casar com o Raimundo, que ela no responderia
por si!...
- Ento, a velha j sabe que o Raimundo ficou?...
- Parece. A rapariga, pelo menos, disse que a av, junto com o pai,
haviam de amargar muito desgosto por mor de no consentirem no
casamento!...
- E o que fez ela?
- Quem, a pequena?
- No, a velha.
- A velha enfezou-se e p-la do quarto pra fora, jurando que antes
queria v-la estrada debaixo da terra do que casada com um cabra, e que,
se o patro...
- Que patro senhor?
- Seu Manuel, o pai!
- Ah! o compadre.
- Sim senhor Mas sim, se o patro, por qualquer aquela, cedesse, ela 
que no consentiria no casamento da neta, e romperia com o genro!
- Bom, bom! Vamos bem! E a rapariga?
- Ora, a rapariga l se foi choramingando para o quarto e, se me no
engano, meteu-se a rezar.
- Reza, hein?! perguntou o cnego com interesse.
- E! ela reza mais agora...
- Muito bem! muito bem! Vamos maravilhosamente!
- E est toda cheia de abuses... Ainda outro dia, dei f que ela
pendurava alguma coisa no poo; logo que pude, corri para ver se
descobria o que vinha a ser. Ora o que pensa vossemec que era?...
- Um Santo Antnio.
- Justo. Em um Santantoninho assinzinho!... confirmou o Dias, marcando
uma polegada no Index.
- Bem! disse o cnego. Continue a espreitar. Mas... todo cuidado e
pouco! Que ningum perceba!... principalmente minha afilhada,
compreende?... Se descobrem que voc anda farejando, est tudo
perdido!... Finja-se tolo!... Tenha f em Deus! E animo! Quando apanhar
qualquer novidade, aparea-me fogo! No deixe de espiar! lembre-se de
que a arma com que havemos de esmagar o bode, ainda est nas mos
dele!...
- Ora, senhor cnego, mas eu j vou perdendo a f!... Confesso-lhe que...
- No seja idiota, que voc no tem razo nenhuma para desanimar! trate,
mas  de ver se descobre alguma coisa, porem coisa grossa, que d para
agarrar, porque depois o mais fcil  o seu casamento! Olhe! Preste
ateno para quem entra e para quem sai! Se eles ainda no se
correspondem, o que duvido, viro a correspondem-se mais tarde! em todo
o caso,  prudente no recorrer por ora as cartas - deixe-os escrever,
deixe-os escrever, que lhe direi quando  que voc ter de apoderar-se
de alguma delas. A fruta, para ser aproveitvel, deve ser colhida de vez!...
- Bem, senhor cnego posso retirar-me?...
- Viva!
- Ento, vou-me chegando.
- Sis felix!
- Como? perguntou o Dias, voltando-se.
- No se descuide. V!
O caixeiro fez uma mesura e saiu Diogo fechou a porta e tomou  sua
Histria Eclesistica, at que a caseira Incia foi cham-lo para a
ceia. Ento, depois de abaixar a luz do candeeiro, passou-se  varanda e
assentou-se, pachorrentamente, defronte de uma tigela de canja. Veio
logo um gato malts, gordo, grande, encarapitar-se-lhe nas cosas, miando
ternamente e voltando para ele a sua fosforescente pupila, que lhe
suplicava carcias.
Dir-se-ia que naquele canto, modesto e asseado, reinava a paz abenoada dos justos.
No domingo seguinte a S chamava para a missa, com um alegre repinicar
de sinos. Era a promessa de Dona Maria Brbara.
Havia grande afluncia do povo. As beatas subiam piedosamente os
arruinados degraus do trio e iam, de cabea vergada, ajoelhar-se no
corpo principal da igreja. Sentia-se o frufru de vetustas e farfalhudas
saias de chamalote, restauradas com ch-preto, o estalar de fortes
chinelas novas na sonora cantaria do templo, e o tilintar das contas de
coco babau, cujos rosrios deslizavam entre os trmulos dedos das
velhas, no fervoroso sussurro das oraes. Viam-se-lhes as camisas de
cabeo bordado e cheias de rendas e labirintos; destacavam-se tambm
grandes toalhas de linho branco, penduradas dos ombros carnudos das
cafuzas e mulatas; reluziam os seus enormes pentes de tartaruga,
enfeitados de ouro, e as contas preciosas, que lhes circulavam, com
muitas voltas, as tocinhudas espduas e as roscas taurinas do cachao.
Em cima, perto do altar-mor, em lugares privilegiados, sobressaiam
chapus enfeitados de fitas e plumas, leques irrequietos, que se
agitavam desordenadamente, com um rudo casquilho de varetas batendo de
encontro aos broches e alfinetes de peito, numa confuso de cores
espantadas; eram devotas de fino trato, velhas e moas ostentavam jias
vistosas e perfumes ativos segurando, com luva Horas Marianas
encadernadas de marfim, veludo, prata e madreprola.
Recendia por toda a catedral um aroma agreste de pitangueira e trevo
cheiroso. Pela porta da sacristia lobrigavam-se de relance padrecos
apressados, que iam na carreira, vestindo as suas sobrepelizes dos dias
de cerimnia. Havia na multido um n mor impaciente de platia de
teatro. O sacristo, cuidando dos pertences da missa, andava de um para
outro lado, ativo como um contra-regra, quando o pano de boca vai subir.
Afinal,  deixa fanhosa de um padre muito magro que, aos ps do altar
desafinava uns salmos da ocasio, a orquestra tocou a sinfonia e comeou
o espetculo. Correu logo o surdo rumor dos corpos que se ajoelhavam;
todas as vistas convergiam para a porta da sacristia; fez-se um sussurro
de curiosidade, em que se destacavam ligeiras tosses e espirros; e o
cnego Diogo apareceu, como se entrasse em cena, radiante, altivo senhor
do seu papel e acompanhado de um aclito que dava voltas frenticas a um
turibulo de metal branco.
E o velho artista, entre uma nuvem de incenso, que nem um deus de
mgica, e coberto de gales e lantejoulas, como um rei de feira, lanou,
do ato da sua solenidade, um olhar curioso e rpido sobre o pblico,
inadiando-lhe na cara esse vitorioso sorriso dos grandes atores nunca
trados pelo sucesso.
Com efeito, os espectadores adoravam-no, posto que ele agora raras vezes
trabalhasse; mas nessas poucas, em que se dignava mostrar-se por
condescendncia a uma velha amiga, como naquela ocasio, o seu triunfo
era esplndido e certo. Vinha gente de longe para v-lo; para admirar a
imponncia, a gentileza daquele porte de homem. Incomodaram-se muitas
pessoas para no perder aquela missa; sexagenrias do seu tempo mandaram
espanar o palanquim, havia longos anos esquecido debaixo da escada, e
espantaram a vizinhana com uma sada  nua; e ali, esses duros corpos
encarquilhados, que envelheceram com Diogo, pareciam reviver por
instantes, como cadveres sujeitos a uma ao galvnica, e, trmulos,
mordiam o beio roxo e franzido, palpitante de recordaes.
Em caminho para o altar, o exmio artista olhou para os lados, falou em
voz baixa aos seus ajudantes, e encarou a platia com um sorriso de
discreta soberania; mas de sbito o seu sorriso dilatou-se numa feio
mais acentuada de orgulho:  que distinguira Ana Rosa, entre as devotas,
ajoelhada num degrau da nave, de cabea baixa, o ar contrito, a rezar
freneticamente ao lado da av.
Os turbulos fumegaram com mais fora; espirais de incenso
espreguiaram-se, dissolvendo-se no espao; o ambiente saturou-se de
perfumes sacros, e enervantes, e as mulheres, todas, se contraram
preparadas para msticos enlevos. O celebrante chegara enfim ao altar,
depois de ajoelhar-se de leve, como fazendo uma mesura apressada,
defronte dos santos grandes, aprumados nos seus tronos de brocados
falsos. Os janotas, separados do altar-mor por uma grade de madeira
preta, tiraram da algibeira, com a ponta dos dedos, o leno almiscarado
e ajoelhavam-se sobre ele, numa atitude elegante. As moas escondiam a
boca no livrinho das rezas e passeavam furtivamente o olhar para o lado
dos fraques pretos. Os que at ai estiveram ajoelhados, rezando  espera
da missa, mudavam de posio; os opulentos quadris das pretas-minas
rangiam; os ossos dos velhos estalavam; criancinhas soltavam aclamaes
de aplauso pela festa, algumas choravam. Mas, finalmente, tudo tomou um
sossego artificial; fez-se silncio, e a missa principiou solene, ao som do rgo.
Ao repicarem de novo os sinos, toda a gente se levantou com algazarra;
os rapazes endireitavam as joelheiras das calas; as moas arranjavam os
pufes e os laarotes; as beatas sacudiam as suas eternas saias, agora
entufadas pela presso dos joelhos. A orquestra tocou uma msica
profana, alegre como uma farsa depois de um drama; e o cnego Diogo, na
sacristia, tirava o seu pitoresco vesturio de seda bordada, que o
sacristo recolhia religiosamente nas suas mos de tsico, para guardar
nos extensos gavetes de pau-negro.
O povo, confortado de religio, mas estalando pelo almoo espremia-se
sfrego pelas largas portas da matriz. Mendigos, alinhados  sada,
pediam, com chorosa insistncia, uma esmola pelo amor de Deus ou pelas
divinas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo; as devotas desapareciam
pelo largo, ligeiras como baratas perseguidas; algumas senhoras, no
vestbulo, arejavam-se ao sol, esperando quem lhes dizia respeito e
conversando garrulamente sobre o bom desempenho da missa sobre a
excelncia das vozes, a riqueza da roupa do padre e da toalha do altar e
sobre a boa observncia das cerimnias. Tudo agradara.
A igreja estava quase vazia. Dona Maria Barbara e a neta esperavam pelo
heri da funo.
- C est sua afilhada, senhor cnego! Comungue-a; veja se lhe arranca o
diabo de dentro do corpo! disse a velha ao v-lo.
E, falando-lhe mais baixo, pediu-lhe com interesse que a aconselhasse
bem; que lhe sacasse da cabecinha a idia do tal cabra. E afinal
afastou-se, traando no espao uma cruz na direo da neta.
- Vai! Deus te ponha virtude, que mau corao no tens tu, minha estonteada!
E saiu, para esper-la na sala do cortador Benedito, que nessa ocasio
aparecia trazendo um carro da cocheira do Porto.
O cnego Diogo calculara bem A encenao da missa, os amolecedores
perfumes da igreja, o estmago em jejum, o venerando mistrio dos
latins, o cerimonial religioso, o esplendor dos altares, as luzes
sinistramente amarelas dos crios, os sons plangentes do rgo,
impressionariam a delicada sensibilidade nervosa da afilhada e
quebrantariam o seu animo altaneiro, predispondo-a para a confisso. A
pobre moa considerou-se culpada; pela primeira vez, entendeu que era um
crime o que havia praticado com Raimundo. sentiu minguar-lhe aquela
energia de ao, que lhe inspirara o seu amor, e, ao terminar a missa,
quando a av a depusera nas mos do velho lobo da religio, a sua
vontade era chorar.
Ajoelhou-se, muito comovida, na cadeira, junto ao confessionrio e
gaguejou, quase sem flego, o confiteor. Mas,  proporo que rezava, os
seus sentidos embaciavam-se por um acanhamento espesso
- Vamos... disse-lhe o padrinho quando ela terminou a orao. No tenha
receios, minha filha!. Confie em mim, que sou seu amigo... Plus videas
tuis oculis quan alinis! Por que chora?. . Diga. .
Ana Rosa tremia.
- Vamos! No chore e abra-me o corao... Vai responder-me, como se
estivesse falando com o prprio Deus, que tudo escuta e perdoa. Faa o
sinal da cruz
Ela obedeceu.
- Diga-me, minha afilhada, no se tem ultimamente descuidado da
religio?...
- No senhor, balbuciou Ana Rosa por detrs do leno.
Tem rezado todas as vezes que se deita e todas as vezes que se levanta?...
Tenho, sim senhor...
- E nessas rezas no promete obedecer a seus pais?...
- Prometo, sim senhor...
- E tem cumprido?
- Tenho, sim senhor.
- E sente a sua conscincia tranqila? acha que tem cumprido,  risca,
tudo o que prometeu a Deus. e tudo o que lhe manda a Santa Madre
Igreja?...
Ana Rosa no respondeu.
- Ento!. . Vamos... disse o padre com brandura. No tenha medo!... Isto
 apenas uma conversa que a senhora tem com a sua prpria conscincia,
ou com Deus, que vem a dar na mesma... Conte-me tudo!... Abra-me seu
corao!... Fale. minha afilhada!.. Aqui, eu represento mais do que seu
pai; se fosse casada - mais do que seu marido! sou o juiz, compreende,
represento Cristo! - represento o tribunal do cu! Vamos, pois, conte-me
tudo com franqueza; conte-me tudo, e eu lhe conseguirei a absolvio!...
eu pedirei ao Senhor Misericordioso o perdo dos seus pecados!...
- Mas o que lhe hei de eu contar?...
E soluava.
- Diga-me: o que  que ultimamente a tem posto triste?... Sente-se
possuda de alguma paixo, que a atormenta?... Diga.
- Sim, meu padrinho, respondeu ela, sem levantar os olhos.
- Por quem?
- Vossemec j sabe por quem ...
- Pelo Raimundo...
A moa respondeu com um gesto afirmativo de cabea
- E quais so as suas intenes a esse respeito?
- Casar com ele..
- E no se lembra com isso, ofende a Deus por vrios vrios Ofende,
porque desobedece a seus pais; ofende porque agasalha no seio uma paixo
reprovada por toda a sociedade e principalmente por sua famlia; e
ofende, porque com semelhante unio, condenar seus futuros filhos a um
destino ignbil e acabrunhado de misrias! Ana Rosa, esse Raimundo tem a
alma to negra como o sangue! alm de mulato,  um homem mau sem
religio, sem temor de Deus!  um - pedreiro livre! -  um ateu!
Desgraada daquela que se unir a semelhante monstro!... O inferno ai
est, que o prova! o inferno ai est carregado dessas infelizes, que no
tiveram, coitadas! um bom amigo que as aconselhasse, como te estou eu
aconselhando neste momento!... V bem! repara, minha afilhada, tens o
abismo a teus ps! mede, ao menos, o precipcio que te ameaa!... A mim,
como pastor e como padrinho, compete defender-te! No cairs, porque eu no deixo!
E, como a rapariga mostrasse um cerro ar de dvida, cnego abaixou a
cabea, e disse misteriosamente:
- Sei de coisas horrorosas, praticadas por aquele esconjurado!... No 
somente o fato de cor o que levanta a oposio do teu pai... (Ana Rosa
fez um gesto de surpresa). Sabers, porventura, o que precedeu ao
nascimento daquele homem; sabers como veio ele ao mundo?!.. (E,
alterando a voz, para um tom sinistro): Horrible dictu!..  filho de um
enxame de crimes e vergonhas!... Aquilo  o prprio crime feito
gente!... E um diabo! E o inferno em carne e osso! No te diria isto,
minha filha, se assim no fosse preciso; sabe, porm, que ele, se quer
casar contigo,  porque tem a teu pai dio de morte e pretende vingar-se
do pobre homem na pessoa da filha!...
- Mas do que quer ele vingar-se de papai?...
- Do qu?... De muitas e muitas coisas, que lhe no perdoa!... So
segredos de famlia, que ainda s muito criana para conhecer e
Julgar!... Mas um dos motivos , digo-te aqui no sagrado sigilo do
confessionrio, o fato de haver teu pai herdado consideravelmente do irmo!...
- No  possvel! exclamou Ana Rosa, tentando erguer-se.
- Menina! repreendeu o cnego, obrigando-a a ficar ajoelhada. Reze j!
incontinenti, para que Deus se compadea de tamanho desatino! De
joelhos, pecadora! que s muito mais culpada do que eu supunha!
A moa caiu de joelhos, tonta sob o bombardear daquelas imprecaes, e
gaguejou: o confiteor, batendo muito no peito na ocasio de dizer o Por
mea culpa! mea mxima culpa! E depois calaram-se ambos, por um instante.
- Ento?... disse afina o padre, tornando  primitiva brandura. Ainda
est na mesma ou j entrou a razo nessa cabecinha?... Fale minha
afilhada!
- No posso mudar de resoluo, meu padrinho...
- Ainda pensa em casar com. ?
- No posso deixar de pensar... creia!
O padre velho levantou-se tragicamente, fechou as sobrancelhas e ergueu
o brao como um profeta.
- Pois ento, declamou, sabe, infeliz, que sobre ti pesara a maldio
eterna! sabe que tenho plenos poderes de teu pai para retirar-te a sua
bno! sabe que...
Foi interrompido por um Ai de Ana Rosa que perdia os sentidos, caindo
a seus ps.
Ora bolas! resmungou ele, entre dentes.
E saiu do confessionrio, para assentar a afilhada num dos longos bancos
de madeira preta, que havia ali junto.
Felizmente no era nada. A rapariga deu um profundo suspiro e encostou a
cabea ao colo do patrinho, chorando em silncio de olhos fechados.
Ele ficou algum tempo a contempl-la naquela posio, que a fazia mais
bonita, e, perdido em saudosas reminiscncias da sua mocidade, admirava
a curva macia dos seios, palpitantes, sob a compresso . da seda, a
brancura mimosa das faces, a engraada harmonia das feies.  tmpora!
 mores!... disse consigo e dep-la, carinhosamente, contara o alto
espaldar do banco.
- Vamos. continuou, quase em segredo, como um amante sequioso pelas
pazes, depois de um arrufo. Vamos.. no seja teimosa...
No se faa m... Ponha-se bem com Deus e comigo...
- Se para isso, balbuciou Ana Rosa, sem abrir os olhos,  preciso
desistir do casamento, no posso...
- Mas por que no podes, minha tolinha?... insistiu o confessor,
tomando-lhe as mos com meiguice. - Hum?... por que no podes?...
- Porque estou grvida! respondeu ela, fazendo-se escarlate e cobrindo o
rosto com as mos.
- Horresco referens!
E o cnego deu um salto para trs, ficando de boca aberta por muito
tempo,  sacudir a cabea.
- Sim senhora!... f-la bonita!...
Ana Rosa chorava, escondendo a cara.
- Sim senhora!...
E o velho apalpava com o olhar o corpo inteiro da afilhada, como
procurando descobrir nele a confirmao material do que ela dizia.
- Sim senhora!...
E tomou uma pitada.
- Bem v... arriscou afinal a rapariga, entre lgrimas, que no tenho
outro remdio seno...
- Est muito enganada! interrompeu o cnego energicamente. Est muito
enganada! O que tem a fazer  casar com o Dias! E logo! antes que a sua
culpa se manifeste!
Ela no deu palavra.
- Quanto a isso... acrescentou o lobo velho, apontando, desdenhoso, com
o beio, o ventre da afilhada, eu me encarregarei de lhe dar remdio
para...
Ana Rosa ergueu-se com um s movimento e ferrou o olhar no cnego
- Matar meu filho?!... exclamou lvida.
E, como se temesse que o padre lho arrancasse ali mesmo das entranhas,
precipitou-se correndo para fora da igreja
Saiu pelo lado que fronteira com o jardim pblico. Maria Brbara s a
pde alcanar j dentro do cano.
- Com efeito! disse lhe agastada. Parece antes que vens do inferno do
que da casa de Deus!
-  mesmo! - Que diabos de modos so esses, Anica? repreendeu a velha.
Ora vejam se no meu tempo se dava disto! Por que ests com essa cara to
fechada, criatura?!
Ana Rosa, em vez de responder, virou o rosto. E no trocaram mais
palavra at a casa, apesar do muito que serrazinou a av por todo o
caminho
E, no entanto, a pobre moa sentia se horrivelmente oprimida e precisava
desabafar com algum. Um desejo doido a devorava: era correr em busca de
Raimundo, contar-lhe tudo e pedir-lhe conselhos e amparo, porque nele, e
s nele, confiaria inteiramente. Queimava-lhe o corpo uma necessidade
carnal de v-lo, abra-lo, prend-lo ela com todo o ardor dos seus
beijos, e depois arrast-lo para longe para um lugar oculto, bem oculto,
um canto ignorado de todos, onde os dois se entregariam exclusivamente
ao egosmo feliz daquele amor.
Desde que se apercebera grvida, no podia suportar o seu acanhado
quarto de menina; a sua rede de solteira causava-lhe ntimas revoltas. E
agora, depois de disparatar com o padrinho sentia-se com foras para
tudo; vibrava-lhe no sangue uma energia estranha e absoluta; pensava no
filho com transporte e orgulho, como se ele fora uma concepo gloriosa
da sua inteligncia. E, na obsesso dessa idia, alheava-se de tudo
mais, sem pensar sequer na falsidade da situao em que se avinha.
Aguardava ansiosa os prazeres da maternidade, como se os conquistasse
por meios lcitos, e tremia toda em sobressalto s com a lembrana de
que poderia vir a faltar  criancinha o menor cuidado ou o mais
dispensvel conforto; vivia exclusivamente para ela; vivia para esse
entezinho desconhecido que lhe habitava o corpo; o filho era o seu
querido pensamento de todo o instante; passava os dias a conjeturar como
seria ele, menino ou menina, grande ou pequeno, forte ou franzino; se
puxaria ao pai. Tinha pressentimentos e tornava-se mais supersticiosa.
Apesar, porm de todos os perigos e dificuldades sentia-se muito feliz
com ser me e no trocada a sua posio pela mais digna e segura, se
para isso fosse preciso sacrificar o filho. O filho! s este valia por
tudo; s este lhe merecia verdadeira importncia, o mais era mesquinho,
incompleto, falso ou ridculo, ao lado daquela verdade que se realizava
misteriosamente dentro dela, como por milagre aquela felicidade, que Ana
Rosa sentia crescer de hora a hora de instante a instante no seu ventre,
como um tesouro vivo que avulta; aquela outra existncia, que esgalhava
da sua existncia e que era uma parcela palpitante do seu amado, do seu
Raimundo, que ela trazia nas entranhas!
Ao chegar a casa, correu logo para o quarto, fechou-se por dentro, tomou
pena e papel e escreveu, sem tomar flego uma enorme carta ao rapaz.
Vem, dizia-lhe vem quanto antes meu amigo, que preciso de ti, para no
acreditar que somos dois monstros! Se soubesses como me fazes falta!
como me dois ausente, terias pena de mim! Vem, vem buscar-me! se no
vieres at o fim do ms, irei ter contigo, irei ao teu encontro, farei
uma loucura!
Mas Raimundo respondeu que ainda era cedo e pediu-lhe que esperasse com
resignao o momento de por em prtica o que eles j tinham antes
combinado.
O rapaz vivia agora muito aborrecido e muito nervoso estava macambzio;
no queria ver ningum. s vezes assustava-se todo quando a criada lhe
entrava inesperadamente no quarta. Deixou crescer a barba; j mal
cuidava de si; lia pouco e ainda menos escrevia As suas relaes,
granjeadas por intermdio do tio, fecharam-se logo como golpes em
manteiga. No se despregava nunca de casa porque, sendo Ana Rosa o nico
motivo de sua demora no Maranho, s ela o interessava e o atraia  nua.
Ana Rosa, porm, era guardada a vista, desde a malograda partida do
primo. E, no obstante, as visitas de Manuel abstinham-se de falar em
Raimundo; estabeleceu-se uma hipcrita indiferena em torno do fato;
ningum dava palavra a esse respeito, mas todos sentiam perfeitamente
que o escndalo ainda, abafado mas palpitante, espreitando a primeira
ocasio para rebentar de novo E a panelinha da casa do negociante,
esperava, esperava, reunida  noite at as horas regimentais do ch com
o po torrado, conversando em mil assuntos, menos naquele que mais
interessava a todos eles, posto que nenhum tivesse coragem de inici-lo.
Mas a primeira semana correu sem novidade, e a segunda, a terceira, a
quarta; foram-se dois meses, e a panelinha afrouxou desanimada.
Eufrsia, a pouco e pouco, ausentara-se de todo; Lindoca, chumbada  sua
obesidade, prendera o Freitas ao seu lado; o Campos moscara-se afinal
para a roga; o Jos Roberto afastara-se tambm, e vivia por ai, na
pndega; s quem no desertou, e aparecia com a mesma regularidade, era
D Amncia Sousellas pronta sempre para tudo, sempre a dizer mal da vida
alheia nunca deixando de clamar que os tempos estavam outros e que hoje
em dia os cabras queriam meter o nariz em tudo.
- Tambm se lhe do confiana!... disse ela, uma noite, envesgando uma
olhadela indireta sobre Ana Rosa.
A filha de Manuel cruzou instintivamente os braos sobre o ventre.
CAPTULO 17
E passaram se trs meses. Ana Rosa, ao contrrio do que era de esperar,
parecia mais tranqila; a vigilncia contra ela diminura
consideravelmente: o cnego fosse por clculo ou fosse por cumprimento
de dever, guardara o segredo da confisso. A casa de Manuel havia,
enfim, recado na sua moma e profunda tranqilidade burguesa.
De tudo isto Raimundo recebera parte fielmente; e deliberou jogar a
ltima cartada. Escreveu  amante, marcando o dia da fuga. Ana Rosa
adoeceu de contente. A coisa seria no prximo domingo; ele faria um
carro esper-la ao canto da rua e uma vez que estivessem juntos,
fugiriam para lugar seguro. O raptor no seria facilmente reconhecido,
porque as barbas lhe transformavam de todo a fisionomia. No entanto,
dizia ele na carta domingo, s oito da noite hora em que teu pai costuma
conversar na botica do Vidal quando os vizinhos e caixeiros ainda esto
no passeio e tua av aos cuidados da Mnica que  nossa, nessa ocasio
um sujeito barbado vestido de preto, associar junto  tua porta uma
msica tua conhecida. Esse sujeito sou eu. Ao meu sinal descers
cautelosamente e sem risco algum. O resto fica por minha conta, a casa
que nos h de receber e o padre que nos casar, estaro nesse momento 
nossa disposio. nimo! e at domingo as oito horas da noite.
P.S. - Toda a cautela  pouca!...
Ana Rosa durante os poucos dias que faltavam para a fuga, no fazia mais
do que sonhar se na futura felicidade; estava sobressaltada e ao mesmo
tempo radiante de satisfao; mal se alimentava, mal dormia, cheia de
uma impacincia frentica que lhe dava vertigens de febre. No egosmo da
sua alegria materna suportava de mau humor as poucas amigas que a
procuravam ou os velhos companheiros de Manuel, que s vezes apareciam
para jantar. Mas ningum parecia, nem por sombras desconfiar dos seus
planos; ao contrrio em casa falava se,  boca cheia na obedincia
daquela boa filha to resignada  vontade do pai, e cochichava se
devotamente sobre o salutar efeito da confisso. Maria Brbara
resplandecia de triunfo e como os outros da famlia, redobrava de
solicitudes para com a neta; Ana Rosa era tratada como uma criana
convalescente de molstia mortal, cercavam na de pequenas delicadezas e
mimos amorosos, evitavam lhe contrariedades. perdoavam lhe os caprichos
e as rabugices. O cnego, malgrado o que sabia, nunca se lhe mostrara
to paternal e to meigo. E os Dias, o inaltervel Dias, ia surdamente
ganhando certo predomnio sobre seus colegas, que principiavam j
respeit-lo como patro, porque viam iminente o seu casamento com Ana
Rosa.
- Est de dentro! Est ali, est entrando pra sociedade!... rosnavam os
caixeiros do Pescada, depois de comentar os novos ares com que a menina
tratava Lus.
Ela com efeito, agora o acolhia com menos repugnncia; uma vez chegou
mesmo a sorrir para ele. Este sorriso, porm, to mal entendido por
todos, nada mais era do contentamento de quem observa o precipcio por
onde passou e do qual se considera livre.
O fato, porem ,  que Manuel andava satisfeito de sua vida . Ouviam no
cantarolar ao servio; viam no  porta dos vizinhos, sem chapu, s
vezes em mangas de camisa, a chacotear ruidosamente, afogado em risos; e
 noite, em casa, quando chegava o cnego, agora ferrava lhe sempre um abrao.
- Voc  um homem dos diabos, seu compadre. Voc  quem as sabe
todas!...
- Davus sum non OEpidus!...
A panelinha discutia em particular o grande acontecimento. Quem seriam
os padrinhos?... Quais seriam os convidados?... Como seria o enxoval?...
Como seria o banquete?... E, em breve, por toda provncia, falou se no
prximo casamento da filha do Pescada. Comentaram no, profetizando boas
e ms conseqncias; riram se muito de Raimundo; elogiaram, em geral , o
procedimento de Ana Rosa: Sim senhor! pensou como moa de juzo!...
Todos os amigos da casa comearam a preparar se para a festa, antes
mesmo do convite. O Rosinha do Santos andava pouco depois preocupado com
o improviso de uma poesia, com que contava reabilitar se do seu fiasco
no dia de So Joo; o Freitas desfazia se em discursos, aprovando o fato
, mas lastimando Raimundo, cujos artigos e cujos versos ele apreciava
convictamente; o Casusa verberava contra os portugueses, furioso porque
uma brasileira to bonita e to mimos fosse cair nas mos de um pua
fedorento; Amncia e Etelvina perdiam horas a boquejar sobre o caso,
insistindo a viva em que, s vendo, acreditaria em semelhante
casamento. Afiaavam por toda a parte que a festa seria de arromba;
diziam, com assombro respeitoso, que haveria sorvetes, e constava at
que o Pescada, s para aquele dia, ia fazer funcionar do novo a mquina
de gelo de Santo Antnio.
Mas o domingo fatal, que Raimundo destinara a fuga, chegou finalmente.
Por sinal que foi um dia bem aborrecido para a gente do Manuel, porque o
cnego no apareceu, como de costume, para a palestra, e ningum sabia
por onde andava Dias. O jantar correu frio, sem pessoas de fora, mas em
boa disposio de humor;  mesa, o negociante fez vrias consideraes
sobre o futuro da filha; mostrou se bom e alegre com o seu corpo de
Lisboa; acudiram lhe anedotas j conhecidas da famlia; vieram lhe
pilhrias a respeito de casamento; disse, a brincar com a filha, que
havia de arranjar lhe para noivo o Tinoco ou o major Cotia. Ela ria se
exageradamente; estava corada, muito inquieta e nervosa; tinha vontade
de acariciar o pai, abra-lo, beij-lo, despedir se dele.  sobremesa,
sentiu um desejo absurdo de contar lhe com franquesa todo os seus
planos, e pedir lhe, pela ltima vez, a sua aprovao a favor de Raimundo.
s seis horas entrou Dona Amncia; ainda os encontrou no caf. Ana Rosa
teve uma pontada no corao. Que contratempo!... A velha declarou que
estava cansada, vinha ofegante; pediu que a deixassem repousar um pouco.
- Que estafa a sua, credo! Subir oito ladeiras no mesmo dia!... - Oito,
hein?...
E Ana Rosa mordia os beios, sorrindo contrariada.
- Contadinhas!  de estrompar uma criatura!
E conversaram largamente sobre as ladeiras do Maranho.
- Ento aquela do Vira Mundo!.. Benza te Deus!
- No  pior do que a do Largo do Palcio...
- Deixe estar que a desta sua rua, seu Manuel, tambm tem o que se lhe
diga!...
- E a da Rua do Giz?...
- Um inferno! resumiu a velha, ainda arquejante. Ter a gente de estar
sempre a subir e a descer como uma coisa danada! Cruzes!
A conversa continuou, tomando para Ana Rosa um carter assustador.
Amncia parecia disposta a dar  lngua; no se despregaria dali to
cedo. Os caixeiros recolhiam se j, e a rapariga tremia de impacincia.
Diabo daquela velha no se poria ao fresco?...  Qual!
O tempo corria.
Manuel declarou da a pouco, que no saia de casa. Foi buscar os seus
jornais portugueses e ps se a ler,  mesa de jantar, na varanda.
A pequena quase disparava. Correu para o seu quarto, fula de raiva,
chorando. Tambm, diabo! tudo parecia conspirar contra ela!.. 
O relgio bateu uma badalada Eram sete e meia Ana Rosa soltou um murro
na cabea Diabo!
Manuel bocejava Amncia parecia resolvida a no sair.
Ana Rosa voltou  varanda; tinha as mos frias; o corao queria saltar
lhe de dentro. Sentia uma impacincia saturada de medo; seu desejo era
gritar, descompor aquele estafermo da velha, p-la na rua, aos
empurres, que fosse amolar a av! Semelhantes obstculos  sua fuga
pareciam lhe uma injustia, uma falta de considerao; vinha lhe vontade
at de queixar se ao pai; de protestar contra aquelas contrariedades que
a faziam sofrer.
Decorreu um quarto de hora. Manuel levantou se, espreguigando se com os
jamais na mo.
- Bom! Dona Amncia d licena!...
E recolheu se ao quarto, para dormir.
- Ah!
Ana Rosa criou alma nova; teve vontade de abraar o pai, agradecendo lhe
tamanha fineza
- Eu tambm j me vou chegando... disse Amnca. E ergueu se.
- J?... balbuciou a moa, por delicadeza.
A visita tornou a assentar se; a outra sentiu mpetos de estrangul-la.
Maria Barbara veio do quarto, e entabulou conversa com a amiga
Ana Rosa arfava
- Diabo!
Faltavam cinco para as oito. Amncia levantou se afinal, e despediu se.
- Ora graas a Deus!...
Maria Brbara foi at o corredor.
- Olhe, gritou a Sousellas. No se esquea, hein?... Trs pingos de
limo e uma colherzinha de gua de flor de laranja.... Santo remdio!
Ainda  receita da nossa defunta Maria do Carmo!.
E desceu.
Mas, j debaixo, voltou, chamando por Mana Brbara.
- Olhe, Babu!
Ana Rosa quase perde os sentidos.
Deixou se cair em uma cadeira.
-  verdade voc no sabe de uma?...- Pois no lhe ia esquecendo?...- A
Eufrasinha estava de namoro com um estudante do Liceu?...
- Que estouvada! ..
- Um menino de quinze anos, criatura!
E contou toda a histria, puxando pelos comentrios, e esticando-os.
Ana Rosa, assentada na varanda, em uma cadeira de balano, rufava com as
unhas nos dentes.
- Bem, bem adeus minha vida!
E Amncia beijocou a cara de Maria Brbara
- At que enfim!
Ana Rosa correu logo ao quarto Raimundo recomendara lhe que no levasse
nada, absolutamente nada, de casa, que ele estava preparado e prevenido
para receb-la. relgio pingou, inalteravelmente oito badaladas roucas.
Maria Brbara afastara se para o interior da casa; Manuel continuava a
dormir no seu quarto. E da a instantes, no silncio da varanda, ouviu
se o assovio forte de Raimundo, entoando um trecho italiano.
Ana Rosa cujo corao fazia do seu peito um crculo de ginstica apanhou
trmula as salas e, com uma ligeireza de pssaro que foge da gaiola,
desceu a escada na ponta dos ps, atirando se l embaixo nos braos de
Raimundo, que a esperava nos primeiros degraus.
Mas, ao transporem a porta da nua, ela soltou um grito, e o rapaz
estacou, empalidecendo. Do lado de fora, o cnego Diogo e o Dias,
acompanhados por quatro soldados de policia, saram ao seu encontro,
cortando lhes a passagem.
Dias, s por si, era um pobre pedao de asno, incapaz da mnima sutileza
de inteligncia e pouco destro na pontaria dos seus raciocnios; posto,
porm, ao servio do cnego Diogo, tornara se uma arma perigosa, de
grande alcance e maior certeza. Guiado pelo mestre, o imbecil nunca
tinha deixado de espreitar, sempre desconfiado e atento, sondando tudo
aquilo que lhe parecia suspeito, acordando, muita vez, por alta noite,
para ir, tenteando as trevas, espiar e escutar, na esperana de
descobrir alguma coisa. As furtivas conversas de Ana Rosa com a preta
Mnica quando esta voltava da fonte no lhe passaram despercebidas e por
a chegou ao conhecimento da correspondncia de Raimundo, desde logo as
primeiras cartas.
- Devo apoderar me delas... no  verdade? perguntou ao padre.
- Nada! Por ora no!  cedo ainda!... respondeu Diogo
E este continuava a freqentar assiduamente a casa do compadre sempre
muito solicito pela sade da sua afilhada, informando se, com paternal
interesse, das mais pequeninas coisas que lhe faziam respeito, querendo
saber quais os dias em que ela comia melhor, quais em que se sentia
alegre ou triste, quando chorava, quando se enfeitava, quando acordava
tarde e quando rezava. Como bom velho amigo da famlia exigia que lhe
dessem contas de tudo, e Manuel as dava de bom grado satisfeito por ver
que as coisas iam voltando aos seus eixos e que a sua casa recaia na
primitiva tranqilidade. O cnego nem por sombra, lhe revelara o segredo
da confuso de Ana Rosa, temendo como solidrio do Dias, que o
negociante, em conjuntura to feia esquecesse tudo e preferisse casar a
filha com o homem que a desvirtuara. Quanto ao seu protegido, tambm no
lhe quadrou dizer lhe a verdade, porque receava que o caixeiro, por
escrpulo ou por medo do rival, desistisse do casamento... Ora,
desitindo o Dias, Diogo estaria em maus lenis, porque Ana Rosa casava
se logo com Raimundo e ele ficaria sujeito a vingana deste, a quem
temia, e com razo, depois daquela pequena conferncia  volta de So
Brs. Sei perfeitamente, raciocinava o finrio, que o traste no tem
nenhuma prova contra mim, mas convm me, a todo custo , faz-lo sair do
Maranho!... Seguro morreu de velho!... O que o prende aqui  a
esperana de obter ainda Ana Rosa; esta, uma vez casada com o basbaque
do Dias, ir, mas o marido , dar um passeio  Europa, e o outro musca se
naturalmente. Mas se por acaso, quiser antes de ir, desmoraliza me
perante o pblico, todos lanaro  palavra conta do despeito e, alm de
ridculo, ficar tido como um caluniador!... E, esfregando as mos,
satisfeito com os seus desgnios, conclua: Quem o mandou meter se de
gorra c com o degas!...
Assim, nas ocasies em que Dias ia preveni lo da chegada de uma nova
carta de Raimundo, o cnego tratava de estudar, olho de mestre, a
impresso que ela deixava no nimo de afilhada e, vendo o alvoroo em
que a rapariga ficara com a ltima, apressou se em dizer ao caixeiro:
- Chegou a vez, eu amigo,  agora! Atire se! Precisamos desta carta!
- E por que nunca precisamos das outras?... perguntou Lus
estupidamente.
- Por qu?... Ora eu lhe digo... (Voc pilhou me em boa mar!). As
outras cartas eram simples palavrrios de namoro; n valia a pena
arriscar se a gente por elas; demais, minha afilhada podia a vir
desconfiar de uma coisa, redobraria de cuidado, e agora a aquisio
desta, que nos  imprescindvel, no seria to fcil como h de ser,
compreende?
Mas a verdadeira causa no revelou o disfarado. O cnego no queria que
o caixeiro lesse as primeiras cartas de Raimundo, por dois motivos: um
porque temia que este fizesse em alguma delas qualquer revelao a
respeito do crime de So Brs; e segundo, porque receava que
incidentalmente se referisse a elas ao interessante estado de Ana Rosa.
O certo, porem,  que semelhante medida, facilitou, sem dvida, a posse
da carta, em que Raimundo marcava o dia de fuga. O caixeiro, engodando o
Benedito com uma cdula de dez mil ris, mesmo instantes; copiou a logo,
restituiu a, e correu  casa de Diogo.
Ento, os dois aliados, senhores j nos planos do inimigo trataram de
cortar lhe o vo, recorrendo  polcia, que lhes forneceu quatro praas.
O escndalo, como era de prever, reuniu povo na Rua da Estrela, e Manuel
acordou sobressaltado aos gritos da sogra, da Brgida e da Mnica, que
sem darem por falta de Ana Rosa, assustavam se com a presena dos
soldados e com o alvoroo da gentalha acumulada a porta do sobrado.
Maria Brbara, toda safrapantada, correu aos gritos para seu quarto e,
abraando se a um santo, encafuou se na rede, porque no estava em suas
mos ver fardas e baionetas sentia logo um formigueiro pelas pernas e o
estmago nu embrulho! Credo!
Raimundo, entretanto no descorooou com a situao e subia a escada,
sem hesitar, levando consigo Ana Rosa, meio desfalecida. Em cima, deu
cara a cara com Manuel, e estacou, fitando se os dois com a mesma
firmeza, porque cada um tinha plena conscincia dos seus atos. O padre e
o caixeiro subiram em seguida acompanhados pelos soldados.
Juntos todos, a situao tornou se difcil; o silncio coalhava em torno
deles, imobilizando os. Afinal o cnego puxou pelo seu farto leno de
seda da ndia, assoou se com estrondo e declarou, depois uma mxima que,
na qualidade de amigo e compadre do pai de Ana Rosa, entendeu de sua
obrigao evitar o criminoso rapto que o Senhor Doutor Raimundo, ali
presente, tentara perpetrar contra um dos membros daquela famlia.
A rapariga voltara a si com as palavras do padrinho e escutava o de
cabea baixa, ainda amparada ao ombro de Raimundo.
- Eu ia por minha vontade... murmurou ela, sem levantar os olhos. Fugia
com meu primo, porque esse era o nico meio de casar com ele.
- E o senhor, como se explica?... perguntou o cnego a Raimundo, com
autoridade.
- No me defendo, nem aceito o juiz: apenas declaro que esta senhora
nenhuma responsabilidade tem no que se acaba de passar. O culpado sou
eu: bem ou mal, entendi, e entendo, que hei de casar com ela e para isso
empregarei todos os meios
Ana Rosa ia dizer alguma coisa, o cnego atalhou: Vamos todos c pra
dentro!
E, depois de despedir os soldados, seguiram para a saia, de cuja entrada
Maria Brbara os espiava, ainda corrida e espantadia do susto.
- Agora que estamos em famlia, acrescentou ele, fechando as portas,
resolvamos, como homens de boa e s justia, o que nos cumpre fazer em
to melindrosa situao!... Hodie mihi, cras tibi!... Seu Manuel,
primeiro voc! Tem a palavra!
Manuel passeava ao comprido da casa. Parou, fazendo face ao sof, onde
estavam todos, e dirigiu se ao grupo. O pobre homem tinha uma grande
tristeza na fisionomia; transparecia lhe no olhar a sua perplexidade,
impondo o respeito e a compaixo, que nos inspiram as dores resignadas.
Percebia se que lhe faltavam as palavras, e que o infeliz lutava para
expor as suas idias de um modo fiel e claro. Afinal, voltou se para o
cnego e declarou que estimava bastante v lo, naquele momento, ao seu
lado. O compadre fora sempre o seu guia, o seu companheiro, o seu
melhor amigo, como, ainda uma vez, acabava de prov-lo. Ficasse pois e
ouvisse, que era da famlia! Depois, pediu  sogra que se aproximasse.
A presena dela e a sua opinio eram igualmente imprescindveis.
E passou ao caixeiro: Ali o seu Dias tambm devia ficar porque no
representava um simples empregado, que Manuel tinha no armazm;
representava um colega zeloso, um futuro scio, que em breve devia fazer
parte dos seus por direito, que de fato j o era, havia muito tempo.
Achavam se por conseguinte na maior intimidade, e ele, para descargo da
sua conscincia, podia falar com franqueza ao Doutor Raimundo e dizer
lhe tudo, po, queijo queijo, o que pensava a respeito do ocorrido!
E, depois de uma pausa, declarou que, desde o momento em que pensara no
casamento de sua filha, fora sempre com sentido no futuro e na
felicidade dela. No fossem supor que ele queria cas-la com algum
prncipe encantado ou com algum sbio da Grcia!... No senhor! o que
queda era d la a um homem de bem e trabalhador como ele; mas, com os
diabos! que fosse branco e que pudesse assegurar um futuro tranqilo e
decente para os seus netos! Vai ele ento pensou no Dias; l lhe dizia
no sei o que por dentro que ali estava um bom marido para Anica.
Um belo dia, descobriu da parte do rapaz certa inclinao por ela e
ficara satisfeito, prometendo logo, com os seus botes, dar lhe
sociedade na casa, se porventura se realizasse o casamento... Ora, bem
viam os circunstantes, que, em tudo aquilo, Manuel s tinha em vista o
bem da rapariga! . nem acreditassem que houvesse por a pais to
desnaturados que chegassem a desejar mal para os seus prprios filhos!
Qual o qu, coitados! o que s vezes queriam era prevenir o mal, que s
depois havia de aparecer! Como agora poderia ele, que s tinha aquela,
que s possua a sua Anica, que a educara o melhor que pudera, que
embranquecera a cabea a pensar na felicidade daquela filha; ele, que
lhe fazia todas as vontades, todos os caprichos! ele, que seria capaz
dos maiores sacrifcios por amor daquela menina!.. como poderia pois
contrari-la causar lhe mal, s por gosto?. . Ento os senhores achavam
que isso tinha cabimento?... Ele desejava v la casada, por Deus que
desejava! no a criara pra feira!... mas, com um milho de raios,
desejava v-la casada em sua companhia! Queria v la feliz, satisfeita,
cercada de parentes e amigos; mas, boas! na sua terra, ao lado de seu
pai! Ora essa! pois ento um homem por estar velho, j no tinha direito
ao carinho de seus filhos?... Ou quem sabe, se a filha por estar mulher
j no devia saber do pai? - Morre pra, calhamao, que me importa a
mim! No! que isso tambm Deus no mandava!... Queria ir se embora?
queria deixar o pobre velho ali sozinho sem ter quem lhe quisesse bem
sem ter quem tratasse dos seus achaques?... podia ir! Que fosse! mas
esperasse um instante que ele fechasse os olhos primeiro, sua ingrata!
E Manuel, enxugando os olhos na manga do palet concluiu com a voz
trmula: - Ai tm os senhores o que eu pensava fazer; porem vai o diabo
chega do Rio um meu sobrinho bastardo um filho do defunto mano Jos com
a preta Domingas, que foi sua escrava! Como era de esperar visto que
sempre me encarreguei dos negcios de meu irmo e ultimamente dos de meu
sobrinho, hospedei o c em casa Raimundo afeioou se  minha filha ela a
modos que lhe correspondeu, ele vem pede ma em casamento; vou eu - nego
lha! Ele quer saber o porqu e eu dou-lhe a razo com franqueza! Pois
bem! Vejam! este homem deixa de fazer uma viagem, que, para me iludir,
fingiu que ia fazer, e, depois de andar por a a esconder se de todos,
falta  sua palavra de honra, e...
- Senhor, gritou Raimundo.
- Senhor, no! que vossemec deu me a sua palavra em como nunca
procuraria casar com Anica! Por conseguinte digo e sustento: depois de
ter faltado  sua palavra de honra vem astuciosamente raptar minha
filha! Ser isto legal?! No haver nos cdigos desta terra uma pena
para semelhante abuso?!..
- H, disse o rapaz, reconquistando o sangue frio, h, quando o
delinqente se nega a reparar o delito com o casamento.. Eu, porm, no
desejo outra coisa!...
- Iche! disparatou Mana Brbara, saltando em frente. Casar minha neta
com filho de uma negra?! Voc mesmo no se enxerga!
Manuel sentiu se embaraado.
- Apelo, suplicou, para a conscincia de cada um! Coloquem se no meu
lugar e digam o que fariam! .. Mas parece me que ns o que devemos 
acabar com isto e evitar um escndalo maior! Compreendo perfeitamente
que o Doutor Raimundo no tem culpa da sua procedncia e como  um
homem de juzo e de bastante saber, espero que a pedido de ns todos,
deixar o Maranho quanto antes!...
- Amm! . aprovou o cnego
- E eu, desde j, props Lus. obedecendo a um sinal do guia peo a mo
da senhora Dona Anica
- No quero! exclamou Ana Rosa, ainda mesmo que Raimundo me abandone!
-  uma injustia que me faz, observou este ltimo  moa. Sei
perfeitamente cumprir com os meus deveres!
- Como com os seus deveres?!... interrogou Maria Brbara, refilando os
dentes
- Sim, minha senhora com os meus deveres!
- Ento o senhor no parte, definitivamente?! interveio Manuel.
- Juro que no me retirarei do Maranho, sem ter casado com sua filha!
respondeu o rapaz, calmo e resoluto
- E eu declaro, berrou a velha, que voc no h de casar com minha neta
enquanto eu viva for! - E eu retiro a minha beno de minha afilhada, se
ela no obedecer a sua famlia... reforou o cnego.
Raimundo cravou lhe um olhar, que perturbou o padre.
E Ar a Rosa ergueu se, levantando a cabea. Brilhava lhe no rosto,
embaciado pelas lgrimas, o reflexo de uma grande e dolorosa resoluo.
Todas as vistas se voltaram para ela; estava plida e comovida, seus
lbios tremiam; mas afinal, vencendo a onda vermelha do pudor que a
sufocava, balbuciou:
- Tenho por fora de casar com ele... Estou grvida!
Foi um choque geral. At o prprio cnego, para quem o estado da moa
no era segredo pasmou de ouvi la. Manuel caiu sobre uma cadeira,
fulminado com os olhos abertos, arquejante. O Dias fez se da cor de um
cadver. E Raimundo cruzou os braos; enquanto Maria Brbara espumando
de raiva saltava para junto da neta, escondendo a com o corpo, como se
quisesse defend-la do amante.
- Nunca! Nunca! bramiu a fera. Grvida?... Embora! Antes monta ou
prostituda!...
- Pchit... fez o cnego. E disse em tom misterioso e suplicante:
- Mais baixo! .. mais baixo!... Olhe que a podem ouvir da rua, Dona
Babita! ...
Tu ests de barrida?... exclamou por fim Manuel, erguendo se, vermelho
de clera.
E arrancou para a filha com os punhos cerrados.
Raimundo repeliu o, sem lhe dar palavra
- O senhor  um malvado, invectivou o pobre pai, afastando se para um
canto a soluar.
O rapaz foi ter com ele e pediu lhe humildemente que o perdoasse e lhe
desse Ana Rosa por esposa.
O negociante no respondeu e ps se a praguejar entre lgrimas
- Calma! calma! aconselhou o cnego, passando lhe o brao no ombro.
Vamos ver o que se pode arranjar!... s para a monte no h remdio ..
Mentem hominis spectate, non frontem!. .
- Arranjem l seja o que for, menos o casamento de minha neta com um
negro!
- Sim senhora, Dona Maria Brbara... Mnima de malis!...
E o cnego, depois de tomar uma pitada, voltou se cortesmente para o
Dias:
- O senhor, ainda h pouco, pediu a meti compadre a mo de minha
afilhada, no  e verdade?
- Sim senhor.
- Pois o seu pedido est de p e eu lhe darei a resposta amanh  tarde.
Pode retirar se.
- Diogo no lhe deu tempo para mais. Conduziu o at  ponta e segredou
lhe rapidamente:
- Espere por mim no canto da Prensa V!
O Dias fez um cumprimento e saiu.
O cnego tornou a meio da sala, para dirigir se a Raimundo.
- Quanto aqui ao Senhor Doutor, diz que est disposto a reparar o seu
corpo.
-  exato.
- Sim senhor,  muito natural,  muito bonito at!... Mas,... continuou,
estalando os lbios, diz por outro lado o meu compadre, diz a senhora
Dona Maria Brbara e diz este seu humilde servo, que Vossa Senhoria no
est no caso de reabilitar ningum!... Suspecta malorum beneficia!... O
que Vossa Senhoria chama reparao, longe de salvar, prejudicaria
aviltada ainda mais a vitima!...
- Canalha! gritou Raimundo, perdendo de todo a pacincia e agarrando o
padre pelo pescoo Esmago te aqui mesmo bandido!
E repulsou o das mos, com medo de mat-lo.
Manuel e a sogra acudiram, cheios de indignao contra Raimundo;
enquanto o cnego puxava para o lugar a sua volta de rendas e
endireitava a batina, resmungando:
- Espere l, meu amigo! isto no vai  fora!... Hoo avetart Deus/..
Sabemos perfeitamente que Vossa Senhoria  muito boa pessoa... Apre!
Mas... h de concordar que no tem o direito de pretender a mo de minha
afilhada! Nem a murros me obrigar a negar que o senhor ...
- Um cabra! concluiu a velha com um berro. E um filho da negra Domingas!
alforriado  pia!  um bode!  um mulato!
- Mas afinal, com todos os diabos! a que pretendem chegar? gritou
Raimundo, batendo com o p. Desembuchem!
-  que, respondeu o cnego, inalteravelmente; ns, para evitarmos que o
escndalo prossiga, vamos oferecer lhe de n ovo o nico alvitre a
seguir, e olhe que poderamos, sem mais delongas, process-lo em regra,
se assim o entendssemos!... Mas... para que negar?... no acreditamos
que o senhor abusasse da inocncia desta menina!... aquela declarao de
h pouco nada mais foi do que um simples estratagema, urdido por V. S,
com o fim de realizar os seus intentos. Enganou se! Sabemos que ela est
to pura como dantes! O que se tem a fazer, por conseguinte,  isto: O
doutor vai retirar se quanto artes desta terra, retirara se
imediatamente, sob pena de ser justiado corno o entendermos melhor!
Raimundo foi buscar o chapu. O cnego atalhou lhe  sa da.
- Ento! Que decide?
- Fomente se! respondeu lhe aquele, e encaminhou se para Ana Rosa, que
chorava, encostada  parede. - Ainda nos resta um meio.. A senhora 
maior. Amanh ters notcias minhas. Juro que serei seu esposo!
- E eu juro que sou tua! exclamou ela, lanando se para acompanh-lo at
 ponta.
- Cale se! ordenou Manuel, obrigando a a retroceder com um empurro.
- Bem!... resmungou o padre, logo que rendo saiu. Seja!...
Ana Rosa correu a fechar se no quarto.
Manuel deixou se cair numa cadeira, abafando nas mos os seus soluos;
Maria Brbara continuou a praguejar, voltando agora contra o genro todo
o seu desespero; e o cnego, indo ter, ora com um, ora com outro,
procurava acalm-los, prometendo arranjar tudo Que se deixassem daquela
arrelia. a situao no era tambm l essas coisas!... No valia a pena
afligirem se de semelhante modo!... Fiassem se nele, que tudo se
arranjaria decentemente!... O negcio da gravidez era uma patranha,
engendrada  ltima hora!... Pois ento, se houvesse nisso alguma
verdade, a pequena no lha teria confessado? .
E da a pouco descia a escada, rangendo nos degraus os seus sapatos de
polimento.
- Aqui estou, senhor cnego, Podemos ir? perguntou lhe o Dias, no canto
da Prensa logo que se reuniram.
- Espere! espere l meu amigo! Para que lado seguiu o homem?
- Desceu o Beco da Prensa.
- Ento temos ainda o que fazer por c...
E dirigiu se ao cocheiro de um carro que estacionava na esquina, falou
em voz baixa, e o carro afastou se
- Bem, disse, tomando ao caixeiro, agora encomodarmo-nos aqui, por
detrs deste lote de pipas.
- Para qu?
- Para no sermos vistos pelo cabra, quando passar.
E ficaram conspirando em voz baixa, at que Raimundo apareceu de volta
na entrada do beco. Fora despedir um escaler, que estava l embaixo s
suas ordens, na praia. A luz do lampio da esquina bateu lhe em cheio no
rosto porque ele trazia o chapu de feltro derreado para a nuca. Parou
um instante, hesitando, procurou o seu cano, e afina! resolveu, com Um
gesto de impacincia, descer para o lado da Praa do Comrcio.
- Bom! murmurou misteriosamente o padre ao companheiro. Siga r., mas em
distncia que no seja percebido... E, se ele demorar se muito na rua,
faa o que lhe disse! fome!
E passou lhe, sem levantar o brao, um objeto, que o Dias teve
escrpulos em receber. - Ento?! insistiu Diogo.
- Mas...
- Mas o que?... Ora no seja besta! Tome l!
O outro quis ainda recalcitrar, o cnego acrescentou:
- No seja tolo! Aproveite a nica ocasio boa, que Deus lhe oferece!
Faa o que lhe disse ser rico e feliz! Audaces fortuna juvat!...
Agradea  Providncia o meio fcil que lhe depara, e que estou vendo
agora que voc no merecia!... A maior parte dos homens poderosos
tiveram. coitados! muito maiores provaes para chegar aos seus fins!
Ande da no seja ingrato com a fortuna que o protege!... Tambm era s
o que faltava, que, por um instante de medo infantil, voc perdesse o
trabalho de tantos anos!.. afiano lhe, porm, que ele no teria para
com voc a mesma hesitao, como h de acontecer naturalmente te ..
- Vossa Reverendssima acha ento que?..
- Acho no, tenho plena certeza! Quem o seu inimigo poupa, nas mos lha
morre! Mas, quando mesmo ele no o mate, ser isto razo para que voc
no o extermine?. . Ora, diga me c, mas fale com franqueza! voc est
ou no resolvido a casar com minha afilhada?...
- Estou sim senhor.
- Bem! Pois lembro lhe somente que um homem de cor, u n mulato nascido
escravo desvirtuou a mulher que vai ser sua esposa, e isto, fique
sabendo representa para voc, muito maior afronta que um adultrio!
Assiste lhe, por conseguinte, todo o direito de vingar a sua honra
ultrajada; direito este que se converte em obrigao perante a
conscincia e perante a sociedade!
- Mas...
- Imagine se casado com Ana Rosa e o outro no gozo perfeito da vida; a
criana, j se sabe, parecida com o pai... Pois bem! l chega um belo
dia em que o meu amigo, acompanhando sua famlia, topa na rua, ou dentro
de qualquer casa, com o cabra! . Que papel far voc, seu Dias?. com que
cara fica?. O que no diro todos?... e vamos l, com razo, com toda a
razo! E a criana? a criana, se continuar a viver, o que no julgar
do basbaque que a educou? .. Sim, porque, convena se de uma coisa! com
a existncia de Raimundo, o filho deste vir fatalmente a saber de quem
descendeu! No faltar quem lhe declare!
- Isso e!
- Mas, apesar de tudo, se os partidos fossem iguais, ainda v! Assim
porm, no acontece; voc conquistou a sua posio naquela casa com uma
longa dedicao, com um esforo de todos os dias e de todos os
instantes; voc enterrou ali a sua mocidade e empenhou o seu futuro;
voc deu tudo, tudo do que dispunha, para receber agora o capital e os
juros acumulados! E o outro? o outro  simplesmente um intruso que lhe
surge pela frente, e um especulador de ocasio,  um aventureiro que
quer apoderar se daquilo que voc ganhou! O que pois lhe compete fazer?
Repeli lo! Fizeram lhe todas as admoestaes; ele insiste, mate-o! Qual
 o direito dele? Nenhum! Um negro forro  pia no pode aspirar  mo de
uma senhora branca e rica! E um crime!  um crime, que o facnora quer,
a todo transe, perpetrar contra a nossa sociedade e especialmente contra
a famlia, do homem a quem voc se dedicou, uma famlia, que, por bem
dizer, j  sua, porque o Manuel Pedro tem sido para voc um verdadeiro
pai, um amigo sincero, um protetor que devia merecer lhe, ao menos, o
sacrifcio que voc agora duvida fazer por ele! E uma ingratido! nada
mais, nada menos! Mas a justia divina, seu Dias, nunca dorme! Deus
tentou fazer de voc um instrumento dos seus sagrados desgnios, e voc
se recusa Muito bem! Eu com isso nada mais tenho!  l com a sua
conscincia!... Lavo as mos! Como sacerdote, e como amigo do seu
benfeitor, j fiz e j disse o que me cumpria; o resto no me pertence!
Faa o que entender!
- Sim... mas...
- Apenas lhe observo o seguinte: ainda mesmo que Raimundo no consiga
realizar o casamento com Ana Rosa, o que alis  impossvel, porque ela
 maior e o outro tem por si a justia, fique certo de que, enquanto
viver aquele homem, a me do filho dele nunca far o menor caso de voc
Isso  o que lhe afiano!
- Mas o pai pode obrig-la a casar comigo
- No seja pedao de asno, que uma rapariga naquelas condies no se
casa seno por gosto prprio! mas, quando assim no fosse, aceitando a
hiptese absurda de que o pai a obrigasse, isso ento seria muito pior
para voc! Era s o Raimundo dizer, em qualquer tempo, a Ana Rosa Vem
c! e ela, a sua esposa, meu caro amigo, seguia o logo, como um
cachorrinho! Voc sabe l o que  a mulher para o primeiro homem que a
possui, principalmente quando ele a emprenha?... E um animal com dono!
Acompanha o para onde ele for e far somente o que ele bem quiser! E um
autmato! No se pertence! No tem vontade sua! Casada com outro? Que
importa! h de correr atrs do amante, segui lo por todas as
degradaes! h de rir se  custa do pobre marido! cobri-lo de
vergonhas! h de ser a primeira a chamar lhe nomes! Voc, seu palerma,
servir unicamente para apimentar o prazer dos dois, dar lhe um travo
picante de fruto proibido, de pecado! E calcule, por um instante, as
terrveis conseqncias da sua covardia; no pra aqui a negra cadeia
das vergonhas que o esperam! Raimundo h de, mais cedo ou mais tarde,
aborrecer da amante, como a gente se aborrece de tudo que  ilegal;
passada a quadra das iluses, desaparecer o ardor que o prende a Ana
Rosa e todo o seu sonho ser conquistar uma posio brilhante na
sociedade pois bem, desde que ele
no possa associar a amiga s suas aspiraes, s suas glrias polticas
e literrias, ela se converter num obstculo  sua carreira, num
estorvo para o seu futuro, num trambolho, a que ele, na primeira ocasio
dar um pontap, substituindo a por uma esposa legitima, de quem tire
partido para subir melhor! Ento, Ana Rosa passar  segunda mo, depois
 terceira,  quarta,  quinta; at que, por muito batida, resvale no
lodo dos trapiches, na taverna dos marujos, em todo lugar, enfim, onde
possa vender se para matar a fome! E lembre se bem que ela, por tudo
isto, nunca deixar de ser sua mulher, sua senhora, recebida aos ps do
altar, em face de Deus e dos homens! Ora diga me pois, seu Dias, no lhe
parece que evitar tamanhas calamidades  servir bem ao nosso criador e
aos nossos semelhantes?... Ainda duvidar que pratica uma boa ao,
removendo a causa nica de tanta desgraa?.. Vamos, meu amigo, no seja
mau, salve aquela ovelha inocente das vogareis da prostituio! Salve a
em nome da igreja! em nome do bem! em nome da moral!
E o grande artista levantou os braos para o cu, exclamando em voz
chorosa
- Quis talia fando tempera a lacrymis?...
Dias escutava o concentrado. O cnego prosseguiu, mudando de tom:
- Viremos a medalha! vejamos agora o que suceder se voc seguir o meu
conselho A rapariga chora por algum tempo, pouco, muito pouco, porque eu
a consolarei com as minhas palavras; depois como precisa de um pai para
o filho, casa se com voc e ai est o meu amigo, de um dia para outro,
feliz, rico, independente! sem contar o seu gozo intimo de haver
resgatado de infalvel perdio a filha do seu benfeitor, a qual deixar
de ser uma mulher perdida para ser o modelo das esposas!
-  exato!
- Pois mos  obra! Todo aquele que encontra em casa o ladro que lhe
vai roubar o simples dinheiro tem direito a meter lhe uma carga de
chumbo nos miolos, e, como h de fica. de braos cruzados o que se v
ameaado na sua honra, na sua fortuna na sua mulher e na sua
tranqilidade?... Sim, fica... quando  um miservel! um basbaque!
- Reverendo, juro lhe que...
- Ento avie se! Est a fugir a nica ocasio que Deus lhe faculta!..
Amanh ser tarde!... j ele a ter por justia e, ainda que no se
casem, o escndalo ser patente! Resolva se ou deixe por uma vez o campo
livre ao mais forte e mais esperto!
- Adeus, senhor cnego!
- V com a Virgem Santssima!
E o Dias, de cabea baixa, passos largos e abafados subiu a Rua da
Estrela. De repente, voltou, chamou o padre e perguntou-lhe alguma coisa
ao ouvido.
- E melhor, ...
O caixeiro tomou ento a Rua de Santana.
Da a uma hora, o compadre de Manuel, depois de saborear a sua canja e
depois de amaciar o lombo luzidio do seu malts fazia a orao do
costume e espichava se tranqilamente numa rede de algodo, lavada e
cheirosa, disposto a passar uma boa noite.
CAPTULO 18
Entrementes, Ana Rosa chorava no seu quarto; Manuel continuava a passear
na sala, com as mos cruzadas atrs e a cabea descada sobre o peito,
como se uma preocupao de chumbo a puxasse para baixo; e Maria Brbara
ceava na varanda, resmungando, embebendo fatias de po torrado na sua
xcara de ch verde. E a noite envelhecia, e as horas rendiam-se, que
nem sentinelas mudas, e nenhum dos trs procurava dormir, afinal, Marta
Brbara obrigou o genro a recolher-se, depois foi ter com a neta e
disps-se a fazer-lhe companhia at amanhecer Em breve, porm a velha
ressonava, e tanto o pai, como a filha, viram, atravs das suas
lgrimas, nascer o dia.
Raimundo, esse vagara pelas luas da cidade, com o corao encharcado de
um grande desanimo. Apoquentava-o menos a estreiteza da situao do que
a brutal pertincia daquela famlia, que preferia deixar a filha
desonrada a ter de d-la por esposa a um mulato. Com efeito!... Em
preciso levar muito longe o escrpulo de sangue!... E, malgrado o vigor
e a firmeza com que ele at ai afrontara as contrariedades, sentia-se
agora abatido e miservel Na transtornada corrente das suas idias a do
suicdio misturava-se, como uma moeda falsa que mareasse as outras
Raimundo repelia-a com repugnncia, mas a teimosa reaparecia sempre.
Para ele o suicdio era uma ao ridcula e vergonhosa, era uma espcie
de desero da oficina; ento, para animar-se, para meter-se em brios,
evocava a memria dos fortes, lembrava-se dos que lutaram muito mais
contra os preconceitos de todos os tempos; e, de pensamento em
pensamento, sonhava se em plena felicidade domstica, ao lado de uma
famlia amorosa, cercado de filhos, e feliz, cheio de coragem,
trabalhando muito, sem outra ambio, alm de ser um homem til e
honrado. Mas todas estas esperanas j lhe no acordavam no esprito o
mesmo eco de entusiasmo agora, o que mais o preocupava era a sua
humilhao e o seu amor ultrajado: desejava esposar Ana Rosa,
desejava-o, como nunca, mas por uma espcie de vingana contra aquela
maldita gente que o envilecia e rebaixava; queria amarr-la ao seu
destino, como se a amarrasse a um posto infamante: queria espalhar bem o
seu sangue, porque onde ele casse, deixaria uma ndoa escandescente;
precisava, para sofrer menos, ver sofrer algum; era necessrio que os
outros chorassem muito, para que, por sua vez. risse um pouco. Oh!
havia de rir!. Ana Rosa pertencer-lhe-ia. de direito! .. Por que no? .
Ele tinha a lei por si! Quem poderia impedir lhe de tir-la por
justia?... Alm de que, com um filho nas entranhas. ela lhe obedeceria
como escravas!...
E ruminando estes projetos fingindo-se muito senhor de si, mas com
grande desespero a ladrar-lhe por dentro. Raimundo vagabundeava pelas
mas, a espera que amanhecesse, com as mos nas algibeiras. vacilante
como um brio. Impacientava-se pelo dia seguinte, perecia atra-lo com a
sua ansiedade crescente; aquela noite, comprida e silenciosa, pesava-lhe
nas costas, que nem a mochila do soldado no meio da batalha. Sim! urgia
que amanhecesses!... queria tratar dos seus interesses, liquidar aquela
maada. aquela grande maada!. . Mais doze horas, doze horas! e estaria
tudo concludo!
CAPTULO 19
No dia seguinte estaria tudo pronto! ele no primeiro vapor seguiria para
a Corte, acompanhado da esposa, feliz, independente! sem lembrar-se,
nunca mais, do Maranho, dessa provncia madrasta para os filhos!
Ao chegar ao Largo do Carmo, assentou-se num banco. Um vento fresco
agitava as rvores: ameaava chuva; ouvia-se o surdo e longnquo
marulhar da costa, e, por ali perto, em algum sarau, urna garganta de
mulher cantava ao piano a Traviata.
Raimundo passou a mo pela testa e reparou que estava suando] frio.
Deram duas horas. Um policia aproximou-se vagarosamente r pediu-lhe um
cigarro e o fogo, e seguiu depois, com ar preguioso de quem cumpre uma
formalidade intil aborrecida. E Raimundo ficou a escutar os passos
sonoros do rondante, cadenciados com a regularidade montona de uma pndula.
Deram trs horas Chuviscava.
Raimundo levantou-se e seguiu pela Rua Grande. Agora talvez dormisse um
pouco... Estava to fatigado!... Quando atravessou o campo de Ourique,
pensou sentir algum acompanhando-o, olhou para os lados e no descobriu
viva alma. Enganara-se com certeza... Era talvez o eco dos seus
prprios passos... Continuou a andar, at chegar a casa.
Mas, do vo escuro, em que se formava o limite da parede, rebentou um
tiro, no momento em que ele dava volta  chave.
Este tiro partira de um revlver fornecido ao Dias pelo cnego Diogo.
Todavia, no instante supremo, faltara ao pobre-diabo coragem para matar
um homem, mas as palavras do padre ferviam-lhe na cabea, em tomo da sua
idia fixa. Como poderia agora perder num momento o trabalho de toda
uma existncia, destruir o seu castelo dourado a sua preocupao, a
coisa boa da sua vida?... Perder o jogo no melhor lance!...
inutilizar-se reduzir-se a lama, quando, s com um ligeiro movimento de
dedo, estaria tudo salvo!...
Isto pensava o caixeiro de Manuel escondido na treva, por detrs de um
monto de pedras e barrotes, ao lado dos espeques de um casebre em
runas. Mas o tempo corria, e Raimundo ia entrar pra casa, sumir-se numa
fronteira inexpugnvel, e s reapareceria no dia seguinte,  luz do sol.
Era preciso aviar!... Um instante depois seda tarde, e Ana Rosa
passaria s mos do mulato e a cidade inteira ficaria senhora do
escndalo, a sabore-lo, a rir-se do vencido! E, ento, estaria tudo
acabado, para sempre! sem remdio! E ele, o Dias, coberto de ridculo
e... pobre! 
Nisto, rangeu a fechadura. Aquela porta ia abri-se como um tmulo, onde
o miservel sentia resvalar o seu futuro e a sua felicidade; no entanto,
tamanha calamidade dependia de to pouco! O grande obstculo da sua vida
estava ali, a dois passos, em magnfica posio para um tiro.
Dias fechou os olhos e concentrou toda a energia no dedo que devia puxar
o gatilho. A bala partiu, e Raimundo, com um gemido, prostrou-se contra a parede.
Amanhecera um dia enfadonho, cheio de chuviscos e umidade. Pouca gente
pela rua; nenhum sol, e um aborrecimento geral a abrir a boca por toda
parte. Grossas nuvens, grvidas e sombrias, arrastavam-se pelo espao,
no peso da sua hidropisia; o ar mal podia cont-las. Ouvia-se um
trovejar ao longe, que lembrava o rolar de balas de pea por um assoalho.
A casa de Manuel tinha a silenciosa quietao do luto; as janelas
fechadas; os moradores tristes; a varanda e a sala de visitas totalmente
desertas. Embaixo, no armazm, os caixeiros fingiam no saber de nada.
Os pretos cochichavam na cozinha, com medo de falar alto, e iam dar
trela  vizinhana, onde se comentava j o escndalo da vspera.
Manuel s apareceu fora do quarto  hora do almoo, que nesse dia foi
tarde, porque os escravos, privados da vigilncia de Maria Brbara e
empenhados no mexerico, descuidaram-se das obrigaes. O pobre homem
trazia no rosto, fotografada, a sua dor e a sua insnia tinha os olhos
pisados e intumescidos. Mal tocou nos pratos, cruzou logo o talher e
limpou com o guardanapo uma lgrima, que o lugar vazio de Ana Rosa lhe
desprendera. Aquela cadeira sem dono parecia dizer-lhe com a tristeza:
Descansa, desgraado, que filha nunca mais ters tu!... No quis
descer ao armazm e fechou-se em cima, no seu escritrio, recomendando
que mandassem l o Dias quando chegasse.
O sabi trinava desesperadamente na varanda. Tinham-se esquecido de
encher-lhe o comedouro.
Ana Rosa no sara da rede; estava excitada, doente, toda nervosa, com
uma irritao de estmago. A av, cheia de mau humor, levara lhe um bule
de ch de contra-erva, para a febre, e, depois de recomendar  neta que
no sasse do quarto e fizesse por dormir, fechou-se com os seus santos,
a rezar.
A rapariga ignorava o que ia l por fora. Amncia foi a nica visita que
apareceu, falando muito da palidez que lhe notara.
- At lhe achei mau hlito, disse  Mnica, logo que saiu do aposento da enferma.
-  do estmago, explicou a cafuza. Ela, coitada, ainda hoje no comeu
nada, e ainda no pregou olho desde ontem de manh!
A velha passou  cozinha,  procura da Brgida, para indagar que diabo
havia sucedido naquela casa, que andavam todos a modos de assombrados!
Ana Rosa achava-se, com efeito, muito abatida, num estado perigoso de
irritao e fraqueza. Mnica obrigou-a a tomar um mingau de farinha, e
ela vomitou-o logo. - H, Iai! Isto assim no est bom!... censurava
maternalmente a preta. No te fica nada no bucho!
- Me-pretinha, pediu depois a moa, eu posso ir at  sala? No cone
vento; as vidraas esto fechadas!
- Vai, lai, porm mete algodo no ouvido. Espera! agasalha a cabea!
E envolveu-lhe a testa com um leno encarnado de seda.
- laia quer que eu te ajude?
- No, me-pretinha, fique; voc deve estar cansada.
A preta assentou-se junto  rede, encolheu as pernas, que abrangeu com
os braos, e ps-se a cochilar, escondendo a cara contra os joelhos. Ana
Rosa levantou-se muito fraca e, lentamente, apoiando-se nos mveis,
atravessou por entre o desarranjo do seu quarto e foi at  sala.
Fazia m impresso v-la com aquele andar vagaroso e triste, acompanhado
de suspiros e descaimentos de plpebras. Parecia convalescente de uma
longa molstia grave; estava cor de cera, com grandes olheiras roxas;
muito puxada, os cabelos, despenteados e secos, caam-lhe por debaixo do
leno vermelho, que lhe dava  cabea certa expresso pitoresca e
graciosa Dela toda respirava um tom melanclico e dolorido: o longo
roupo, desabotoado sobre o estmago, arrastando-se negligentemente pelo
cho, os braos moles, as mos frouxas, o pescoo bambo, os lbios
entreabertos, estalando de febre, o olhar morto, infeliz, mas embebido
de ternura. tudo nela transpirava um tcito queixume de fundas mgoas
escondidas. Seus pezinhos traziam de rastros umas chinelas de criana e,
por entre a abertura do vestidos, via-se-lhe a camisa de rendas
amarrotada e um cordo de ouro escorrendo pela brancura do seio, com um
pequeno crucifixo que se lhe balanava entre os peitos.
E, com a resignao dos doentes que no podem sair do quarto, passeava
pela saia o seu isolamento, procurando entreter-se a examinar os objetos
de cima dos consolos, minuciosamente, como se nunca os tivera visto.
Tomou entre os dedos um galgozinho de jaspe e ficou a observ-lo um
tempo infinito. P que seu pensamento no estava ali; andava l fora, em
busca de Raimundo em busca do seu cmplice estremecido, o autor daquele
delito que ela sentia dentro de si, enchendo-a de alegria e de medo.
Amava-o muito mais agora, tal como se o seu amor crescesse tambm como o
feto que se lhe agitava nas entranhas. Apesar da estreiteza da situao,
achava-se cada vez mais feliz; sonhara a ventura de ser me e sentia-a
realizar-se no seu corpo, no seu ventre, de instante a instante, com um
impulso misterioso, fatal incompreensvel. Era me!... Ainda lhe
parecia um sonho!... 
Impacientava-se por preparar o enxoval do seu filhinho Um enxoval bom,
completo, a que nada, nada, faltasse Ah! ela sabia perfeitamente como
tudo isso era feito; qual a melhor flanela para os cueiros quais as
melhores toucas e os melhores sapatinhos de l. Via em sonhos um bero
junto a sua rede, com um entezinho dentro, todo rendas e fitas
cor-de-rosa, a vagir uns princpios de voz humana. E fazia-se muito
pressurosa, a queimar alfazema, para defumar os panos da criana; a
preparar gua com acar, para curar-lhe as clicas; a evitar em si
mesma o abuso do caf e de todo o alimento que pudesse alterar-lhe o
leite, porque ela queria ser a prpria a criar o seu filho, e por coisa
nenhuma desta vida, o confiaria  melhor ama. E, a pensar nestas coisas,
que, alis, nunca ningum procurara ensinar-lhe, esquecia-se
inteiramente dos vexames e das dificuldades que a sua falsa posio
teria de levantar; nem sequer, lhe passava pela idia a hiptese de no
casar com Raimundo. Oh, isso havia de ser, desse por onde desse e
sofresse quem sofresse!
Assim lhe correu o dia. S despertou dos seus devaneios s duas e meia
da tarde, quando o sino da S badalou o dobre dos finados Por quem
estaria dobrando?... perguntou de si para si, tomada de compassiva
estranheza. Parecia-lhe absurdo que algum cuidasse em morrer, quando
ela s pensava em dar  vida aquele outro algum que tanto a preocupava.
Todavia, o dobre continuou ao longe, rolando no espao, como um soluo
que se desdobra. E aquele som lgubre, ali, na saia toda fechada,
parecia fazer o dia mais triste e o cu mais sombrio e chuvoso. Ana Rosa
sentiu um ligeiro tremor de medo indefinido arrepiar-lhe as carnes;
lembrou-se de rezar, chegou mesmo a dar alguns passos na direo da
alcova, mas deteve-a um rumor de vozes que vinha da nua.
Foi at  janela. O zunzum do povo crescia Alguma briga!... pensou
ela, encostando a cara na vidraa, para espiar o que se passava l fora
O motim recrescia  proporo que um grupo imenso de homens e mulheres
se aproximava cheio de curiosidade Ana Rosa pde ento compreender a
causa do ajuntamento: dois pretos traziam um corpo dentro de uma rede,
cuja taboca carregavam no ombro.
- Credo! Que agouro!... disse impressionada.
E quis afastar-se da janela, mas deixou-se ficar, por curiosidade.
Algum pobre homem que ia doente para o hospital... ou talvez fosse
algum defunto, coitado!... E procurou pensar no filho, para desfazer a
impresso desagradvel que acabava de receber.
O corpo estava inteiramente coberto por um lenol de linho e parecia ser
de um homem de boa estatura. Algumas manchas vermelhas destacavam-se
aqui e ali na brancura do pano.
Ana Rosa sentia j certo interesse aterrorizado; quis de novo deixar a
janela; agora, porm, o que se passava l na rua atraa-lhe
irresistivelmente o olhar. A fnebre procisso aproximava-se entretanto
chegando-se para a parede do lado em que ela estava Ia deixar de ver,
mas no lhe convinha abrir a janela, por causa do vento; alm disso
ameaava chuva; era at muito natural que estivesse chuviscando.
Continuou a olhar atentamente, com o rosto achatado de encontro aos vidros.
A rede adiantava-se a pouco e pouco, jogando com a irregularidade da rua
e do caminhar desencontrado dos carregadores; o que obrigava o lenol a
fazer e desfazer fartas nugas instantneas. Ana Rosa sentiu-se inquieta
e sobressaltada, como se aquilo lhe dissera respeito; a rede ia
desaparecer de todo a seus olhos, porque cada vez mais se aproximava da
parede, j mal podia alcana-la com a vista.
Cus! Dir-se ia que se encaminhava para a porta de Manuel!
Uma rajada de nordeste esfuziou nos vidros. Os chapus dos transeuntes
saltaram como folhas secas; as janelas de diversas casas bateram contra
os caixilhos num repelo de clera; o vento zuniu com mais fora e, numa
segunda refrega, arrancou de uma s vez o lenol que cobria a rede.
Ana Rosa estremeceu toda, deu um grito, ficou lvida, levou as mos aos
olhos. Parecia-lhe ter reconhecido Raimundo naquele corpo ensangentado.
Duvidou e, sem animo de formular um pensamento, abriu de sbito as
vidraas. Era com efeito, ele.
O povo olhou todo para cima e viu uma coisa horrvel. Ana Rosa, convulsa
doida, firmando no patamar das janelas as mos, como duas garras,
entranhava as unhas na madeira do balco, com os olhos a rolarem
sinistramente e com um riso medonho a escancarar-lhe a boca, as ventas
dilatadas, os membros hirtos.
De repente, soltou um novo rugido e caiu de costas.
A me-preta acudira logo e arrastou-a para o quarto.
A moa deixou atrs de si, pelo cho, um grosso rastro de sangue, que
lhe escorria debaixo das saias, tingindo-lhe os ps. E, no lugar da
queda, ficou no assoalho uma enorme poa vermelha seguinte.
No dia seguinte por todas as ruas da cidade de So Lus do Maranho, e
nas reparties pblicas, na Praa do Comrcio, nos aougues nas
quitandas, nas saias e nas alcovas, boquejava-se largamente sobre a
misteriosa morte do Doutor Raimundo. Era a ordem do dia.
Contava-se o fato de mil modos; inventavam-se lendas; improvisavam-se
romances. O cadver fora recolhido pela Santa Casa de Misericrdia;
procedeu-se a um corpo de delito; verificou-se que o paciente morrera a
tiro de bala, mas a policia no descobriu o assassino.
Nessa mesma tarde os caixeiros de Manuel, vestidos de luto, entregavam
de porta em porta a seguinte circular
Ilmo. Senhor
Manual Pedro da Silva e o cnego Diogo de Melo Freitas Santiago
participam a V.S que acabam de receber o profundo golpe do falecimento
de seu prezado e nunca assaz chorado sobrinho e amigo Raimundo Jos da
Silva; e, como o seu cadver tenha de baixar ao tmulo, hoje s 4 e 1/2
horas da tarde, no cemitrio da Santa Casa de Misericrdia, esperam
receber de V.S o piedoso obsquio de acompanhar o fretro da casa de
seu inconsolvel tio  Rua da Estrela n. 80, pelo que desde j se
confessam eternamente agradecidos.
Maranho, etc, etc 
A Misericrdia uma sepultura. mediante a quantia de 60$000 ris. O
enterro foi a p e bastante concorrido. Muitos negociantes
acompanharam-no por considerao ao colega; grande nmero de pessoas por
mera curiosidade.
O cnego ungiu o cadver com gua benta e encomendou-o a Deus.
Maria Brbara. para completo descargo de conscincia e porque soubessem
que ela no tinha mau corao, prometeu uma missa por alma do mulato.
Dias s apareceu em casa a tarde,  hora do saimento Notaram que o bom
rapaz muito se sentira daquela morte e que, no ato de baixar o caixo 
sepultura, afastara-se de todos, naturalmente para chorar mais 
vontade. No constou que mais ningum, alm dele e o cnego, tivesse
chorado.
De volta do cemitrio, Freitas, em conversa com os caixeiros de Manuel,
mais o Sebastio Campos e o Casusa, lamentou com palavras finas o
lastimvel falecimento do infeliz moo, e disse que sentia bastante no
ter a policia descoberto o autor do crime; mas que, segundo a sua
modesta opinio aquilo fora, nada mais, nada menos, do que um suicdio,
e que Raimundo viera at  ponta da nua nas agonias da morte.
- Uma fatalidade! rematou ele, filosoficamente, a espanar com o leno os
seus sapatos envernizados. - No me posso conformar com o diabo deste p
vermelho de So Pantaleo!. . mas creiam que me comoveu bastar te a
morte do pobre Mundico! Era um moo hbil.. Tinha muita habilidade para
fazer versos...
- E muita presuno, vamos l!
- No, coitado! tinha seus estudos, tinha! no se lhe pode negar! .
- Mas tambm no era l essas coisas que queria ser!...
- Ah, sim, no digo o contrrio... Concordou delicadamente o pai de
Lindoca porque no tinha por costume contrariar ningum. - Uma
fatalidade!... repetiu, meneando a cabea
- E talvez no fique nesta!.. observou Sebastio A pequena est bem
perigosa!...
- E! Ouvi dizer que sim.
- O Jauffret mandou que a carregassem pra fora.
- Segue, num dia destes para a Ponta-dAreia.
- No. Para o Caminho Grande.
- Ah! Ela era perdida pelo Raimundo!...
- Tolice.
E deram de mo o assunto para ouvir Casusa, que contava alegremente o
caso de um bbado que uma vez fora parar no cemitrio e l ficara
fechado; e que. depois, acordando pelas altas horas da noite,
levantara-se para ir at ao porto pedir fogo ao ronda. que fumava muito
distrados encostado de costas nas grades, e que o soldado, sentindo,
passar-lhe no pescoo a mo fria do borracho, deitara a correr e a pedir
socorro em altos berros.
Todos acharam graas, e o Freitas contou logo um fato equivalente que
lhe sucedera no tempo de rapaz. Esta anedota puxou por outras, e cada
qual exibiu as que sabia: de sorte que. ao entrarem na Rua Grande ainda
empoerados da terra vermelha de So Pantaleo, riam-se a bom rir apesar
da profunda tristeza do crepsculo, que nesse dia no vestira as galas
do costume.
O Pescada, mal o tempo levantou, mudou-se, junto com a filha e a sogra,
para um stio ao Caminho Grande, onde Ana Rosa esteve  morte Chegaram a
fazer Junta de mdicos.
Desde ento o pobre Manuel vivia muito apoquentado. Falou-se que os seus
cabelos tinham embranquecido totalmente e que ele agora se dedicava ao
trabalho como nunca, com uma espcie de furor, um desespero de quem bebe
para esquecer a sua desventura.
A nova firma comercial, Silva e Dias, nasceu entretanto, no meio da mais
completa prosperidade.
Seis anos depois, em meado de fevereiro, havia uma partida no Clube
Familiar Era uma galanteria que os liberais dedicavam a um seu
correligionrio poltico, chegado da Corte por aqueles dias, com destino
 presidncia do Maranho.
Estava-se no rigor do inverno e chovera durante toda a tarde. As
caladas refletiam em ziguezague a luz vermelha dos lampies. Alguns
telhados ainda gotejavam melancolicamente, e o cu, todo negro, pesava
sobre a cidade que nem uma tampa de chumbo. No obstante, chegava
bastante gente para a festa; velhas carruagens enfileiravam-se na Rua
Formosa, despejando golfadas de seda e cambraia. As damas, finamente
envolvidas nas ondas dos seus pufes, subiam, arrepanhando a cauda, aos
sales do baile, pelo brao de homens srios de casaca. Havia luxo. Os
lances da escadaria mostravam-se juncados de flores desfolhadas e folhas
de mangueira, e os degraus, de quatro a quatro, estavam guarnecidos por
grandes vasos de p de pedra, vazios de planta. Espelhos de bom tamanho
refletiam de alto a baixo, no corredor, os pares que subiam. Em todas as
portas havia alvas cortinas de labirinto.
O presidente acabava de chegar, e a banda do 5. de Infantaria tocava
embaixo o Hino Nacional. Todos se agitavam para v-lo; comentavam-lhe
j, em voz soturna, a figura, os movimentos, o andar, a cor, e os botes
da camisa.
Na sala de honra, as senhoras, parafusadas nas suas cadeiras, numa
resignao cerimoniosa, espichavam discretamente o pescoo, para ver o
Presidente novo. Os rapazes, com o cabelo dividido em duas pastas
sobre a testa, fumavam nos corredores ou bebiam nos bufetes Na varanda
jogavam em silncio os inalterveis pares do voltarete A casa toda
recendia a perfumaria francesa.
Reinava um constrangimento pesado e estpido; poucos se animavam a
conversar, e ningum ria. Mas de improviso, a orquestra deu o sinal da
primeira quadrilha e uma onda de homens invadiu brutalmente as salas,
por todas as portas. Era uma aluvio mesclada; havia o crois de luva
branca, a casaca sem luva, o fraque de trs botes com o leno de seda
azul debruado na algibeira; sobressaam as enormes gravatas de cambraia
engomada, com as pontas em bico sistematicamente espichadas sobre a
negrura da lapela. Alguns tinham um tique pretensioso; outros um ar
encalistrado e cheio de rubores. Principiava-se a suar.
Destacavam-se os filhos dos negociantes ricos, que haviam ido  Europa
estudar comrcio e os acadmicos de Pernambuco, Bahia e Rio, que
estavam de frias na provncia. A dana abalava-os a todos as senhoras
iam-se j levantando; arrastavam-se cadeiras; a luz do gs mordia os
ombros nus e fazia faiscar os diamantes; as rabecas comeavam a gemer.
As quadrilhas e as valsas sucederam-se quase sem intervalo. O entusiasmo
apoderou-se dos nimos.
Tremia no ambiente o vozear frouxo dos cochichos, das coisas amorosas,
dos pequeninos risos delicados, do tilintar dos braceletes, do farfalhar
das saias, do rumorejar dos leques e do surdo arrastar dos ps no tapete.
As mulheres presas pela cintura, num abandono voluptuoso, com a cabea
esquecida sobre a espdua do cavalheiro. De envolta com os extratos de
Lubin, saturava a atmosfera um cheiro tpidos e penetrante de carnes e
cabelos. Pares fatigados prostravam-se nos canaps, amolecidos por um
entorpecimento sensual; dilatavam-se as narinas, ofegavam os colos e as
plpebras bambeavam num quebranto de febre.
Em breve, porm, um frenesi galvnico eletrizou todos os pares Galop!
gritaram E um turbilho doido, desenfreado, precipitou-se pelas saias,
percorrendo-as aos saltos, numa confuso de casacas e caudas de seda;
enovelando-se, abalroando-se e rebentando afinal numa vozeria medonha,
atroadora, num bramido de onda que poca em plena tempestade.
Rasgaram-se vestidos, espicaaram-se folhos de renda, desfloraram-se
penteados e soltaram-se exclamaes de prazer.
Um rapaz, ao terminar a quadrilha, refugiava-se, coxeando, na varanda
Tinham-lhe pisado o melhor calo.
- Maus raios te partam, diabo!
E foi assentar-se a um canto, segurando carinhosamente o p.
-  seu Rosinha, fale com os amigos velhos!.. disse o Freitas,
aproximando-se dele e estendendo-lhe a mo. No sabia que o tnhamos
aqui em nossa terra, doutor!
Estava o mesmo homem, sempre engomado e teso, com o seu eterno colarinho
 Pinaud e a sua unha de estimao. Ento!. que lhe contava o caro
Senhor Rosinha, depois que se viram a ltima vez? J l se iam trs
anos!...
Rosinha achava-se em frias; era terceiranista de Direito em Pernambuco.
O Freitas notou que ele estava rapago; estava muito melhor; mais
desenvolvido!
O Fasca sorriu. Com efeito engrossara de ombros e deitara melhor corpo.
Agora tinha um par de suas e parecia menos tolo, porm muito mais
mope. Falaram superiormente contra aquele modo brbaro de danar. O
estudante descreveu as dores que sentiu quando lhe pisaram o cato e
jurou nunca mais danar com semelhantes estouvados. Depois, conversaram
a respeito do novo presidente; Freitas queixou-se do partido liberal.
Uma scia de crianolas!... dizia ele, indignado Era fechar os olhos e
apanhar o primeiro!... O tal Gabinete de 5 de janeiro podia limpar as
mos  parede!... Incrias! s incrias! Em seguida ocuparam-se do
passado; lembraram-se do defunto Manuel Pescada e da falecida Maria
Brbara.
- A velha Babu! .. murmurou o Freitas, cheio de recordaes
Outro pediu noticias de Lindoca.
Sempre gorda! Agora estava l pela Paraba, com o marido, o Dudu Costa,
que fora removido para a alfndega dessa provncia. Sabe? A Eufrasinha
fugiu com um cmico!...
- Ah, sei! sei!
Estonteada! O pobre Casusa, coitado,  que estava perdido! -
Extravagncias!... Rosinha, se o visse, no o conheceria. - Muito
desfigurado, cheio de cs! Faisca declarou que ainda no o tinha
encontrado em parte alguma.
- Qual encontrado o qu! Estava de cama!. entrevado! Uma perna, que era
isto!
E o Freitas mostrou a cintura.
- E o Sebastio? perguntou o rapaz.
Metido na fazenda. J no havia quem o visse. E acrescentou sem transio.
- Homem, quer saber quem est... O nosso cnego Diogo!
- Sim. J ouvi dizer
- Coitado! reteno de urina. Ele sempre sofreu de estreitamento!
- Um santo!
- Se o !...
E ambos sacudiram a cabea, no recolhimento da mesma convico.
Faisca calculava escrever o necrolgio do cnego. caso este morresse
antes da sua volta para Pernambuco. Falaram tambm do Cordeiro, que se
tinha estabelecido com Manuelzinho. O Freitas afirmava que iam muito
bem, porque o Bento Cordeiro deixara o diabo do vicio. F interrompeu-se,
para segredar ao outro:
- Voc conhece este rapaz, que vai passando de brao dado a uma moa?
- No
-  o Gustavo!
- Que Gustavo?
- De Vila Rica! Aquele que foi caixeiro do Pescada!...
Ah, sim! j sei! Mas, como ficou mudado! ele que era um rapaz to
bonito!...
De fato, Gustavo perdera inteiramente as suas belas cores europias e
tinha agora a cara sarapintada de funchos venreos.
Estava para casar com a moa, que levava pelo brao. Uma filha do velho
Furtado da Serra.
- Hum! Bravo! Est bom!
Dava meia-noite e algumas famlias embrulhavam-se nas capas para sair O
Freitas despediu-se logo do Rosinha, apressado.
- Depois da meia-noite - nada! nada absolutamente!... observava ele,
sempre metdico
Mas, no patamar da escada, teve de esperar um instante que descesse um
casal que se despedia. Adivinhava-se que era gente de considerao pelo
riso afetuoso com que todos o cumprimentavam; muitos se arredavam
pressurosos, para lhe dar passagem. O prprio presidente acompanhara-o
at ali e agradecia lhe o obsquio do comparecimento ao baile, com um
enrgico aperto de mo,  inglesa.
O par festejado eram o Dias e Ana Rosa, casados havia quatro anos. Ele
deixara crescer o bigode e aprumara-se todo; tinha at certo emproamento
ricao e um ar satisfeito e alinhado de quem espera por qualquer vapor o
hbito da Rosa; a mulher engordara Um pouco em demasia, mas ainda estava
boa, bem torneada, com a pele limpa e a carne esperta.
Ia toda se saracoteando muito preocupada em apanhar a cauda do seu
vestido, e pensando, naturalmente, nos seus trs filhinhos, que ficaram
em casa a dormir.
- Grandchaine, double, serr! berravam nas salas
O Dias tomara o seu chapu no corredor e, ao embarcar no carro, que
esperava pelos dois l embaixo, Ana Rosa levaram-lhe carinhosamente a
gola da casaca.
Agasalha bem o pescoo, Lulu! Ainda ontem tossiste tanto  noite,
queridinho!...
FIM
